quarta-feira, 27 de maio de 2015

Voltamos da Disney

Alguns já diziam: “O Brasil vai ter que pagar a conta da Copa e da Olimpíada, e vai sair caro”. Poucos davam ouvidos, mas era muito óbvio. Aconteceu com a Grécia, aconteceu com a África do Sul e acontecerá com qualquer país subdesenvolvido ou em desenvolvimento. E é uma conta simples, nos anos anteriores aos eventos a economia se aquece de sobremaneira, muito além da normalidade, aumentando enormemente a expectativa da população. Quando a normalidade volta, o povo não sabe mais lidar com ela. Mais ou menos como o Milagre econômico de 1970 ou a reconstrução da Alemanha Oriental, embora, por razões mais do que óbvias, os germânicos souberam lidar com isso bem melhor.

No caso da Alemanha ainda existe o atenuante de serem mudanças e investimentos para posteridade, era uma reconstrução literal, feita sob medida às necessidades de todos. No nosso caso, como no dos gregos e dos sul-africanos, dispendemos dinheiro, esforço e investimentos estruturais milionários para serem usados em sua plenitude por um mês. Investimentos completamente fora de nossa realidade e que, evidentemente, não são sustentáveis apenas pelo mercado ordinário. Ou seja, construímos para uma demanda absurda, que nunca será tão grande, mas que durou uns dois meses - visto que, ao menos o mês imediatamente anterior à Copa, a vida das cidades já mudava consideravelmente. 

Por conta desses 30 dias, vivemos alguns anos com se estivéssemos na Disney, sem crise e em um grande canteiros de obras. O mercado da construção, o imobiliário, o de infraestrutura, turismo cresceu de maneira incrível. Absurda, até. A demanda por mão de obra era gigantesca, e não eram incomuns as vezes em que ouvíamos por aí: "difícil achar um pedreiro bom". E a diária de um operário da construção civil, ou mesmo o serviço de pintor cresceram muito o preço. Por isso, não podemos simplesmente tomar 2013 e 2014 como parâmetro econômico e trabalhista para comparar com 2015, o que dirá com 2017. É crueldade, por exemplo, querer fazer isso com relação à quantidade empregos na construção civil ou mesmo em seus orçamentos e lucros. Foram anos atípicos, portanto, para se traçar parâmetros honestos é necessário voltar no mínimo à 2012. 

E, repito, a coisa é meio óbvia e fica ainda mais evidente se transpormos à realidade próxima. Conversava com um amigo e ele deu um exemplo muito claro. O aluguel de uma kitnet próxima ao porto do Rio de Janeiro, região em que se concentrará os eventos olímpicos, girava, até este ano, em R$ 1.500,00 mensais. A dona do imóvel, contudo, já avisou previamente à atual inquilina que não vai renovar o contrato, pois já tem, de antemão, uma proposta de R$ 6.000,00 mensais pelo mesmo imóvel. Nós, como a dona da kitnet, não entendemos esse movimento é temporário. Isto é, passada às Olimpíadas 2016, ninguém no mundo com o mínimo de juízo vai alugar uma kitnet perto do porto do Rio e Janeiro por R$ 6.000,00 mensais. Agora, como convencer ao proprietário, que passou a ter uma renda 4 vezes maior, e manteve essa renda por um tempo, a voltar aos R$1.500,00? Simples. Não convence. Resultado: uma placa de aluga-se se perpetuando no tempo, ou até o proprietário se dar conta que o valor de um aluguel de uma kitnet no Rio de Janeiro, próxima ao porto, não vale R$6.000,00. 

No macro, vimos um país sendo completamente remodelado e estruturado para sediar um grande evento. Isso gera obras, emprego, acelera a economia. Mas a realidade voltou. As coisas não têm, evidentemente o mesmo valor nem, sequer a mesma importância. O Aeroporto de Confins, por exemplo, privatizado antes da Copa, estava em obras até o mundial. As obras não foram concluídas em tempo hábil e, findado o evento, elas continuam exatamente na mesma etapa em que estavam antes. Ou seja, pós-copa o interesse naquilo acabou, o investimento reduziu muito, o ritmo da obra, a quantidade de empregos gerados por ela. 

Até o dia 12 de Junho do ano passado, Belo Horizonte era um verdadeiro canteiro de obras. Hotéis, prédios, apartamentos. O valor do aluguel um absurdo. Mas acabou a Copa, e com ela, a ilusão de que estávamos fora da crise mundial. Pior. Muita gente, muita gente mesmo, sem menor preocupação em estudar os dados dos países anteriores, investiram muito na Copa do Mundo. Muito e errado. Os alemães já avisavam: turista de copa não fica em hotel – se muito em albergue -, não come em restaurante, não fazem compras. Pelo contrário, muitos acabam entrando para o mercado informal para se custear aqui, dormem nas praias, em carros, comem no McDonalds...

Ganhou dinheiro quem apostou nisso. Quem apostou em bebidas, bares, lanches baratos, prostituição, enfim o mercado informal em geral. E os que gastaram rios de dinheiro pensando em hotéis suntuosos, restaurantes de três estrelas Michelin, perderam muita grana. 

A ilusão acabou, voltamos à normalidade. O canteiro de obras se fechou, os empregos reduziram, o mercado imobiliário se estagnou, os imóveis reduziram o preço e isso começou lá atrás, no dia em que o primeiro real foi investido na Copa do Mundo. A ideia de estar fora da crise, com Dólar estável, gastando fortunas no exterior - o brasileiro bateu recordes atrás de recordes de gastos -, não era normal. Éramos nós à margem da crise, mas voltamos ao mundo real e à crise. Nossos anos na Disney se acabaram.

quarta-feira, 6 de maio de 2015

Golpe velado

Me acusam de petista, coisa que nunca fui; também nunca fui tucano. Tenho um milhão de motivos para não votar no PT e um milhão e um para não votar no PSDB. Aliás, saibam, que, para mim, os dois são farinha do mesmo saco e escravos dos mesmos senhores. Em suma e direto, sem rodeios: são duas merdas. Além de criticar ambos sem restrições, sempre achei um absurdo, que se expande diariamente, esse maniqueísmo entre os dois. Não acredito que as pessoas não consigam ver além dos rótulos. Não ser PT não quer dizer ser PSDB. Não ser PSDB não significa ser PT. Propostas de ambos não são necessariamente boas ou ruins por sua origem.

Vemos todos os dias nas operação lava-jato, e na história do Brasil que a corrupção e os problemas do país são sistêmicos, aliás apenas quatro partidos não foram citados nesta operação. O PSDB não foi um deles. Isso quer dizer que a corrupção e os problemas brasileiros não têm personalidade, é estrutural e institucional, por mais que as pessoas queiram personificá-lo. Ora, é extremamente interessante para quem manda criar essa polarização entre partidos e tal personificação maniqueísta. É bom para quem manda porque esta visão, bem como toda a visão maniqueísta sob qualquer coisa limita nossos horizontes, nos impede de relativizar e pensar as coisas como elas são.

E isso é histórico. A igreja não existiria sem o Diabo, nem o bem sem o mal. Capitalismo e comunismo são sistemas absolutamente falidos cujos ápices foram justamente quando conviveram sob a ameaça um do outro. Pergunte aos europeus do bloco capitalista, o quanto a vida deles,os benefícios e serviços sociais, eram melhores quando a URSS estava lá... O fracasso e a inoperância de um, não quer dizer o sucesso do outro. Existem vários outros sistemas alternativos, o mundo não pode ser visto por apenas dois ângulos. Mas isso não favorece a ninguém. Bom, ninguém com poder. 

Voltemos ao Brasil. A partir do momento em que acreditamos na oposição cega maniqueísta e mentirosa entre PT e PSDB, quando nos envolvemos na guerra entre eles, estamos na verdade, seguindo suas regras e perdendo, como pessoas e nação. Quando tomamos partido de maneira emocional, passional, como futebol, atitude bem própria do brasileiro, não analisamos os fatos, nem a história. Nos atemos às pessoas ou em determinado grupo delas. Isto é, se eu não gosto do PT, vou apoiar qualquer coisa vinda do PSDB e refutar tudo vindo do PT, independentemente do conteúdo. E isso é cíclico, já que em 2002 a relação era exatamente a inversa.

Eu não gosto do Collor, óbvio. Mas não é por isso que vou arrotar que as medidas dele com relação à indústria automobilística e às informações nutricionais, sobretudo a respeito do glúten, não foram boas medidas. E podemos concordar apenas em parte com uma medida, apoiar outra com ressalvas e por aí vai.

Entretanto, se não pensarmos assim, se pensarmos em alternativas, novas opções, novos prismas, ficamos fortes demais. Parem para refletir: por que será que o PMDB, partido mais numeroso e poderoso do Brasil, não tem o costume de lançar candidatos próprios à Presidência da República? Simples, porque fora da briga e dos holofotes, ele transita entre todos, ou seja, sempre vão estar no poder. Não se esqueçam que esteve ao lado do governo FHC, ao lado de Lula e de Dilma. Foi um dos partidos mais atolados, se não tiver sido o mais, na operação lava-jato. Agora voltam aos poucos para o lado tucano... E agora? as críticas e ressalvas somem? Sim. Afinal, personificamos o problema. Da mesma forma como na campanha presidencial o marketing do Aécio, no primeiro turno, chamou a Marina de Dilma com outra roupa. No segundo, se sentiu orgulhoso de seu apoio... O que mudou? A relação é essa. 

As empreiteiras, grandes empresas, grandes financiadores de campanha, esses caras fortes, tenham certeza, patrocinam ambas as campanhas. Um dos próprios fundadores do PSDB, grande empresário, afirmou em sua coluna na Folha de São Paulo que rompeu o relacionamento de sua empresa com a Petrobrás nos anos 70 por causa da corrupção. Disse ainda que esse está longe de ser o maior, primeiro ou último escândalo. O que isso quer dizer? Quer dizer que enquanto a disputa for polarizada está perfeito. O sistema se mantem e eles ganham qualquer que seja o resultado.

De toda sorte, personificar é mais fácil do que criticar sistematicamente, do que entender o todo e as consequências disso, estamos vendo agora. E não são as melhores. Até porque, quem acompanha e quer ver o todo, já percebeu que não há inocentes, em nenhum dos dois lados, lados esses artificialmente criados e visceralmente aceitos por nós, quase como times de futebol. A terceirização, por exemplo, que já é praxe no meu meio há anos, e, acreditem não é nada bom para o trabalhador, é defendida pelo partido que mais apoia as investigações na Petrobrás. Eles também são os que estão tirando as informações sobre os transgênicos dos alimentos, querendo a redução da maioridade penal e que, no sul, espanca professores.

O outro, contra essas atrocidades supracitadas, está atolado até o talo em escândalos de corrupção, os quais não preciso nem começar a citar, de mensalão à Petrobrás, ainda é que quer aumentar a verba de campanha e o financiamento privado delas. E olha que estão aumentando impostos, cortando gastos, reduzindo até o FIES. Estão até dando medalha para líder do MST! Enquanto isso, o PMDB, está no pior lado de todas as medidas. Atrás das cortinas.

E nos jornais de São Paulo – e ser de São Paulo é muito significativo – publicam que a alternativa à presidenta na eleição, após deixar seu cargo em Minas, viajou diversas vezes ás custas e usando o avião oficial do estado. Vale lembrar ainda que este mesmo cidadão, que construiu e usou o aeroporto de Cláudio indevidamente, declarou em sua campanha um patrimônio de menos de um milhão. Também é aliado do senador cujo helicóptero caiu com quilos e mais quilos de cocaína... E por aí vai, podemos transitar de lado a lado que vamos ver merda.

E governadores dos dois partidos, para me ater nos polos que nos impuseram, caem em contradição e escândalos o tempo todo, estão todos insatisfeitos. 

Basta olhar o seu Facebook. Se você tem como amigo gente que acredita nessa polarização e a toma como futebol, verá memes, notícias e o cacete mostrando cagadas de lado a lado. E todas elas provavelmente estão certas, são verdadeiras e fazem sentido. Não adianta tapar o sol com a peneira. Não há inocentes nessa briga de foice, que vai continuar pautando o país enquanto a gente não aprender a não personificar as coisas entender o problema como sistêmico e institucional.

As consequências dessa maneira estúpida de ver o mundo estão ficando evidentes. De gente pedindo a volta do militarismo à político influente propondo ao Brasil o mesmo sistema aplicado ao Afeganistão. E isso é nossa culpa, e não é de quem votou em A ou B. Aliás, nada mais desonesto intelectualmente do que dizer: “eu não tenho culpa, votei no Aécio.” 

A nossa culpa reside no fato de que, nos auges das investigações da corrupção na Petrobrás, em vez de nos preocuparmos com a real situação da empresa, da economia do país, com os verdadeiros fatos e com o problema sistêmico e repetitivo – já que é tão antigo quanto à própria Petrobrás -, as pessoas batiam panela, iam às ruas e pediam impeachment, sem nem saber direito o que é isso, nem quem assumiria o país. Além do mais, faziam tudo isso sem saber muito bem o que reivindicar e quais as consequências das suas reivindicações.

Do outro lado, a culpa está no fato das pessoas simplesmente retrucarem, refutarem, brigarem e defenderem com unhas e dentes o indefensável, tentando criar movimentos contrários, mobilizando sindicatos e tudo o que tinha direito. 

A consequência imediata desse movimento foi simples. Acabou a moral do governo. E agora, independente do lado que escolheu, quem é trabalhador, quem conhece a terceirização a fundo, por exemplo, está de mãos atadas. Ora, a presidente se disse contra, mas com que moral ela veta um projeto do congresso? Parabéns, só fortalecemos o sistema. O PMDB, que invariavelmente, sendo PT ou PSDB sempre esteve ao lado do poder, já começou um golpe velado, ou seja, não importa o que aconteça, eles vão continuar governando e com a imagem quase que intacta. Aliás, depois de um golpe velado, já estamos sendo presididos pelo PMDB. Genial. 

O sistema não mudou. Nem vai. Afinal, não nos preocupamos com isso, mas sim com a personificação, com a criação de heróis e vilões os quais saídas e entradas seriam como soluções milagrosas. Não conseguimos ver o todo, estamos sempre rotulando, criando opostos extremos, uma polaridade maniqueísta na qual se crê cegamente na impossibilidade de novas vias, um terreno propício a golpes e até à guerra civil. Não acredito na segunda pelo próprio desinteresse do brasileiro. A primeira já está acontecendo. Um golpe velado com consequências que por enquanto só podem ser especuladas, mas não são nada boas.

Fato é que os políticos que arrotaram a exigência de moralidade no país, na verdade fazem de tudo para essa merda continuar, sendo o expoente e exemplo maior disso os professores paranaenses. Graças a esse maniqueísmo o Brasil e todos nós morremos um pouco, junto com a esperança e a vontade de mudar. Os gritos por mudança por parte da classe política não passam de oportunismo em meio a justa insatisfação popular.

Reflitam agora por que e por quem e você vai à rua; que mudança você realmente quer e quem você pensa que é capaz de fazê-la. Pensem, sobretudo, se vale mesmo a pena defender com tanto afinco e paixão algum dos dois lados dessa briga de foice oportunista que se instaurou, se existe mesmo tanta diferença entre um lado e outro; ou se no fim é uma mera disputa pelo poder capaz de dar sentido a célebre frase da presidenta: "Não acho que quem ganhar ou quem perder, nem quem ganhar nem perder vai ganhar ou perder. Vai todo mundo perder".

Mudar os personagens, trocar as marionetes? Ou mudar o sistema e as instituições? Pois é.