Alguns já diziam: “O Brasil vai ter que pagar a conta da Copa e da Olimpíada, e vai sair caro”. Poucos davam ouvidos, mas era muito óbvio. Aconteceu com a Grécia, aconteceu com a África do Sul e acontecerá com qualquer país subdesenvolvido ou em desenvolvimento. E é uma conta simples, nos anos anteriores aos eventos a economia se aquece de sobremaneira, muito além da normalidade, aumentando enormemente a expectativa da população. Quando a normalidade volta, o povo não sabe mais lidar com ela. Mais ou menos como o Milagre econômico de 1970 ou a reconstrução da Alemanha Oriental, embora, por razões mais do que óbvias, os germânicos souberam lidar com isso bem melhor.
No caso da Alemanha ainda existe o atenuante de serem mudanças e investimentos para posteridade, era uma reconstrução literal, feita sob medida às necessidades de todos. No nosso caso, como no dos gregos e dos sul-africanos, dispendemos dinheiro, esforço e investimentos estruturais milionários para serem usados em sua plenitude por um mês. Investimentos completamente fora de nossa realidade e que, evidentemente, não são sustentáveis apenas pelo mercado ordinário. Ou seja, construímos para uma demanda absurda, que nunca será tão grande, mas que durou uns dois meses - visto que, ao menos o mês imediatamente anterior à Copa, a vida das cidades já mudava consideravelmente.
Por conta desses 30 dias, vivemos alguns anos com se estivéssemos na Disney, sem crise e em um grande canteiros de obras. O mercado da construção, o imobiliário, o de infraestrutura, turismo cresceu de maneira incrível. Absurda, até. A demanda por mão de obra era gigantesca, e não eram incomuns as vezes em que ouvíamos por aí: "difícil achar um pedreiro bom". E a diária de um operário da construção civil, ou mesmo o serviço de pintor cresceram muito o preço. Por isso, não podemos simplesmente tomar 2013 e 2014 como parâmetro econômico e trabalhista para comparar com 2015, o que dirá com 2017. É crueldade, por exemplo, querer fazer isso com relação à quantidade empregos na construção civil ou mesmo em seus orçamentos e lucros. Foram anos atípicos, portanto, para se traçar parâmetros honestos é necessário voltar no mínimo à 2012.
E, repito, a coisa é meio óbvia e fica ainda mais evidente se transpormos à realidade próxima. Conversava com um amigo e ele deu um exemplo muito claro. O aluguel de uma kitnet próxima ao porto do Rio de Janeiro, região em que se concentrará os eventos olímpicos, girava, até este ano, em R$ 1.500,00 mensais. A dona do imóvel, contudo, já avisou previamente à atual inquilina que não vai renovar o contrato, pois já tem, de antemão, uma proposta de R$ 6.000,00 mensais pelo mesmo imóvel. Nós, como a dona da kitnet, não entendemos esse movimento é temporário. Isto é, passada às Olimpíadas 2016, ninguém no mundo com o mínimo de juízo vai alugar uma kitnet perto do porto do Rio e Janeiro por R$ 6.000,00 mensais. Agora, como convencer ao proprietário, que passou a ter uma renda 4 vezes maior, e manteve essa renda por um tempo, a voltar aos R$1.500,00? Simples. Não convence. Resultado: uma placa de aluga-se se perpetuando no tempo, ou até o proprietário se dar conta que o valor de um aluguel de uma kitnet no Rio de Janeiro, próxima ao porto, não vale R$6.000,00.
No macro, vimos um país sendo completamente remodelado e estruturado para sediar um grande evento. Isso gera obras, emprego, acelera a economia. Mas a realidade voltou. As coisas não têm, evidentemente o mesmo valor nem, sequer a mesma importância. O Aeroporto de Confins, por exemplo, privatizado antes da Copa, estava em obras até o mundial. As obras não foram concluídas em tempo hábil e, findado o evento, elas continuam exatamente na mesma etapa em que estavam antes. Ou seja, pós-copa o interesse naquilo acabou, o investimento reduziu muito, o ritmo da obra, a quantidade de empregos gerados por ela.
Até o dia 12 de Junho do ano passado, Belo Horizonte era um verdadeiro canteiro de obras. Hotéis, prédios, apartamentos. O valor do aluguel um absurdo. Mas acabou a Copa, e com ela, a ilusão de que estávamos fora da crise mundial. Pior. Muita gente, muita gente mesmo, sem menor preocupação em estudar os dados dos países anteriores, investiram muito na Copa do Mundo. Muito e errado. Os alemães já avisavam: turista de copa não fica em hotel – se muito em albergue -, não come em restaurante, não fazem compras. Pelo contrário, muitos acabam entrando para o mercado informal para se custear aqui, dormem nas praias, em carros, comem no McDonalds...
Ganhou dinheiro quem apostou nisso. Quem apostou em bebidas, bares, lanches baratos, prostituição, enfim o mercado informal em geral. E os que gastaram rios de dinheiro pensando em hotéis suntuosos, restaurantes de três estrelas Michelin, perderam muita grana.
A ilusão acabou, voltamos à normalidade. O canteiro de obras se fechou, os empregos reduziram, o mercado imobiliário se estagnou, os imóveis reduziram o preço e isso começou lá atrás, no dia em que o primeiro real foi investido na Copa do Mundo. A ideia de estar fora da crise, com Dólar estável, gastando fortunas no exterior - o brasileiro bateu recordes atrás de recordes de gastos -, não era normal. Éramos nós à margem da crise, mas voltamos ao mundo real e à crise. Nossos anos na Disney se acabaram.