quinta-feira, 31 de janeiro de 2013

Será que o show tem que continuar?



Um dia eu acordei pela manhã e fui à sala tomar café. A televisão, como habitual, havia sido ligada pelo meu pai ou pela Néria, que trabalha aqui em casa há mais de 15 anos. Eis então que assisto uma famosa apresentadora de um programa matinal, vestida com roupa camuflada, tal qual uma farda do exército, à beira de uma cidade em Santa Catarina inundada pelas enchentes, que, não faz muito tempo, arrasaram aquele estado, consternando todo país. A apresentadora, naquela edição especial do programa matinal, falava horas sobre a enchente, entrevistando vítimas e especialistas.  À época, ainda na faculdade, fui para a UFMG pensando: “Aquela dona nem jornalista é, o programa dela, menos. O que diabos ela está fazendo cobrindo enchente em Santa Catarina? Pior com uma roupa camuflada igual a dos soldados do exército que estão lá ajudando”.

E é sempre assim. Todas as vezes que uma tragédia causa comoção nacional a linha entra a notícia e o show é rompida inescrupulosamente. Tão inescrupulosamente que condenam pessoas, influenciam julgamentos e criam pseudocelebridades, inclusive  as mais malévolas possíveis. Afinal, todos se lembram de Suzane Von Richthofen, do casal Nardoni – julgado muito antes de ir ao tribunal -, Elize Matsunaga, ou da jovem Eloá, que se tornou heroína simplesmente por ter morrido. Agora, o que presenciamos, é o espetáculo que se tornou a fatalidade no Rio Grande do Sul que, com razão, causou comoção nacional e mundial. É triste perder 232 jovens (quem sabe até mais) de maneira tão trágica. Não tão triste quanto, mas, ainda assim, bastante triste é ganhar dinheiro em cima disso. Deprimente.

É normal , aceitável, ou melhor, até desejável que mesmo meios não jornalísticos, ou com jornalismo especializado em outra coisa, deem um espaço pequeno para noticiar o fato e, evidentemente, lamentar o ocorrido. Transformar disso um entretenimento é um disparate até mesmo para os meios jornalísticos. E não é difícil ver quando a notícia se transforma em show. No Domingo após o a tragédia, via televisão, um programa famoso e respeitável que noticiava o fato de maneira correta e completa. Até que, como sempre, a informação acabou, mas a como a comoção não acaba na mesma velocidade da notícia, o show começou.

As notícias, informações técnicas, depoimentos de testemunhas deram lugar a repórteres de plantão no local do acidente e nos hospitais, entrevistando parentes, perguntando qual o sentimento de perder entes queridos (me desculpem, mas puta que o pariu). Oportunistas aparecem de todos os lados querendo fazer um comentário técnico sobre absolutamente nada, ou dizer que é filho da sobrinha de uma pessoa que ia à boate, mas desistiu na última hora. No dia seguinte, os programas matinais de variedades, que não são jornalísticos, em vez de cumprir seu papel falando rapidamente do ocorrido, lamentando-o, já estavam de prontidão para fazer show com a tristeza alheia. Um velório coletivo foi organizado na cidade de Santa Maria e, pasmem, houve cobertura televisiva do velório. Entrevistas com pessoas chorando, perguntando qual a dor dos parentes (puta que o pariu de novo).

No mesmo programa matinal em que, poucos anos antes, a apresentadora estava trajando uma farda, abriu um link direto com o velório coletivo, entrevistou uma parente de duas vítimas que foi convidada ao vivo à ir ao estúdio uma entrevista. Pior: a apresentadora ainda fazia comentários como se fosse uma especialista, sobre o que ela achava do caso. E a palhaçada não termina. A cobertura dos desdobramentos do fato, punições cabíveis, novas medidas, é absolutamente normal e, outra vez, desejável. Infelizmente, sabemos que essa cobertura só dura até a comoção passar. Enquanto isso, na página de um dos principais portais de internet do país algumas das manchetes são: “Amparada, mãe chega ao velório do segundo filho”, “Internada no RS escreve bilhete: ‘Eu quero sair’ ”, “Médico chora ao relatar tratamento das vítimas”; entre outras que não tem a serventia que não prorrogar a dor dessas pessoas. Infelizmente, no Brasil, em casos como este, as pessoas não têm nem o direito de sofrer em paz.  




terça-feira, 29 de janeiro de 2013

Não ouviram Gandhi


Certa vez, em uma aula de história do colégio de segundo grau federal em que estudava, a professora, que era dessas que ensinam muito mais do que as matérias de um mero vestibular, dessas que podemos realmente chamar de mestres, contou uma história do início de sua carreira, já consagrada com um pós doutorado e sendo professora titular de uma famosa Universidade Federal à época que ela contara. Contou que dando aula em uma escola pública da periferia  em época de eleição, querendo ensinar um pouco de cidadania aos alunos, falou sobre o voto. Um deles, criança esperta, com aquela perspicácia desconcertante que só a infância é capaz, sem entender o que ela ensinava, disse à professora que seus pais haviam vendido seus votos. Prontamente, ela os chamou para uma reunião. A professora questionou a decisão dos pais, com aqueles argumentos óbvios. Recebeu uma lição deles, que responderam, seca e conscientemente: “sabemos disso tudo, mas se não votarmos nele, o que vamos comer no próximo mês?”. Atônita, a professora respondeu simplesmente: “tem razão, vote nele”.

O que ela quis dizer, e com toda razão, é que o povo não “pova”, como muitos defendem. Essa arrogância da classe média elitizada, intelectual, é linda para quem vê o mundo do confortável sofá de um apartamento quatro quartos em um bairro nobre da cidade com 3 carros na garagem e a garantia de pelo menos 10 mil reais na conta no final de cada mês. Eu mesmo, admito, fazia isso, até que uns bons 10 anos depois dessa aula, refletindo sobre a vida, finalmente entendi o que a professora me disse quando ainda cursava o 3° ano do ensino médio. Nós que tão pouco conhecemos da vida da maioria das pessoas, não temos espírito democrático e adoramos dizer que o Brasil está como está porque o povo não sabe votar. Os militares em 1964 diziam o mesmo para justificar àquela aberração que foi o golpe contra Jango. Eles, como nós, classe média, dizemos isso por um mesmo motivo: achamos que nós sabemos o que é melhor para o povo, sem viver o seu dia-a-dia. Não sabemos. Do mesmo jeito que votamos no que cremos ser melhor para gente, aquele pai de família votou no que era melhor para ele. Legítimo. Ilegal, imoral, paliativo, mas, no fim das contas, legítimo (não por parte do político, evidentemente).

O problema do Brasil é muito maior do que “o povo não sabe votar”, como defenderam idiotamente os militares em 64 e como defende imbecilmente qualquer um que replique essa frase arrogante. O contexto do Brasil está mais próximo de um conceito sociológico – que aprendi no primeiro período da faculdade de direito que nunca concluí, em prol de me formar em comunicação - que diz que os governantes de um país nada mais são que  um reflexo de seu povo. Na prática, e por mais que me critiquem por dizer isso, a grande maioria dos brasileiros é corrupta ou corrompível, tanto quanto as esferas do poder. Não à toa, em uma pesquisa realizada no Brasil há alguns anos, a maioria dos entrevistados respondeu que, apesar de reprovar o que os políticos fazem, certamente fariam o mesmo no lugar deles. E não precisamos ir tão longe para perceber a hipocrisia brasileira. O tão famoso e celebrado “jeitinho” nada mais é que uma maneira de corrupção.

Por essas bandas todos temos a mania e a necessidade de querer ser mais esperto que os outros. Vemos isso no trânsito, nas filas, nas ruas, no mercado de trabalho. As regras, a ética e as leis são lindas, mas só valem para os outros, a não ser que nos favoreça. Prazer, este é o brasileiro. É aquele que adora descumprir as leis quando lhe convém, furando filas, estacionando em lugar proibido, dirigindo bêbado, achando lindo quando consegue arrancar alguma vantagem financeira sobre alguém. Mas que fica indignado quando é vítima das mesmas práticas ou quando os políticos fazem replicam seu comportamento diário: descumprem as leis. Ninguém para pensar que no menor ato de corrupção, no menor jeitinho, sempre alguém é, ou tem grande chance de ser, lesado. O espantoso é que esse mesmo brasileiro, quando vai ao exterior, em países de 1° mundo, volta encantado porque as coisas funcionam perfeitamente lá.  Parafraseando Gandhi, temos que ser a mudança que queremos ver. Em suma, ele não consegue admitir sua culpa pelo fato de em sua terra natal a mesma organização não ser possível. 

E ainda temos a coragem de falar que o povo não sabe votar, sendo arrogante e, apesar de tudo o que fazemos, fingindo, de dois em dois anos, ser cidadão. Fingimento péssimo, diga-se de passagem. Primeiramente porque quase todo mundo reclama de ter que votar, e, embora seja um assunto para outro post, o Brasil e o brasileiro estão longe de estarem preparados para viver sob voto facultativo. Além disso,  naqueles segundos que estamos dentro da cabine, nós também pensamos em tudo, menos no bem comum. Pensamos no que é melhor para nós, individualmente, a promessa que mais nos convém, no amigo candidato (a quem sempre pedimos um lugar no gabinete), na pesquisa que vimos na TV. Fato é que nunca pensamos no melhor para todos. Ora, então porque os outros teriam de pensar no que é melhor para gente? O pior de tudo é que, com espírito nada democrático, se nosso candidato é derrotado, criticamos os outros, chamando-os de incapazes e burros pela escolha. Ainda temos a audácia de culpar o eleitor pelo erro do político, em uma atitude de eterna resignação. E, por outro lado, os que votaram nos eleitos vivem em uma visceral defesa do candidato, que é tão ridículo quanto à atitude anterior. Afinal, se você votou você tem o dever, ainda maior, de cobrar seu candidato e não defendê-lo como um filho. Se você não votou, também deve cobrar do político e não julgar quem votou. Até porque, essa mania maniqueísta do brasileiro já está até fora de moda. Até quando o político acerta, se não gostamos dele, criamos formas de criticar sua atitude. Por outro lado, se ele erra, e temos alguma afeição por ele, inventamos maneira de defendê-lo. Isso é resignar

E não precisamos ir longe para perceber o quanto somos resignados. Aqui do lado, na maioria dos países da América do Sul, o povo protesta quanto se sentem lesados. Aqui, reclamamos, rimos, mas, no fim, achamos normal. É a banalização da, com perdão da palavra, putaria. Não bastasse essa banalização, somos viciados em encontrar culpados e transferir responsabilidades. A culpa nunca é nossa, é sempre do governo.  Não digo que a instâncias que regem a sociedade sejam isentas de responsabilidade. Entretanto, o que não pode acontecer é nós nos isentarmos completamente, como fazemos frequentemente. Nesta época do ano, por exemplo, em que as enchentes são constantes, reclamamos, com razão, da falta de planejamento para algo que se repete todos os anos. Entretanto, quando uma boca de lobo transborda, ninguém se lembra que fomos nós nós, com nossa falta de civilidade, que a entupimos. 

Sim falta civilidade. Porque muitos tem educação, muitos sabem que é errado, mas, já que todos fazem, imitam. Em síntese, o que acontece nas mais altas esferas do poder no Brasil é reflexo do brasileiro, afinal os políticos são brasileiros. Claro que, assim como nem toda a sociedade se comporta dessa forma hipócrita, não são todos os políticos que são corruptos.  A cidadania tupiniquim, o sentimento de bem comum só aparece em dois momentos: no futebol (que aos poucos vem diminuindo)  e em desgraças de comoção nacional, o que é algo louvável. O porém é que outras desgraças acontecem todos os dias diante dos nossos olhos, mas essas, bem essas a gente releva. Caso contrário não seríamos o povo mais feliz do mundo.