Um dia eu acordei pela manhã e
fui à sala tomar café. A televisão, como habitual, havia sido ligada pelo meu
pai ou pela Néria, que trabalha aqui em casa há mais de 15 anos. Eis então que assisto
uma famosa apresentadora de um programa matinal, vestida com roupa camuflada,
tal qual uma farda do exército, à beira de uma cidade em Santa Catarina
inundada pelas enchentes, que, não faz muito tempo, arrasaram aquele estado,
consternando todo país. A apresentadora, naquela edição especial do programa
matinal, falava horas sobre a enchente, entrevistando vítimas e especialistas. À época, ainda na faculdade, fui para a UFMG
pensando: “Aquela dona nem jornalista é, o programa dela, menos. O que diabos
ela está fazendo cobrindo enchente em Santa Catarina? Pior com uma roupa camuflada igual a dos soldados do exército que estão lá ajudando”.
E é sempre assim. Todas as vezes
que uma tragédia causa comoção nacional a linha entra a notícia e o show é
rompida inescrupulosamente. Tão inescrupulosamente que condenam pessoas,
influenciam julgamentos e criam pseudocelebridades, inclusive as mais malévolas possíveis. Afinal, todos se
lembram de Suzane Von Richthofen,
do casal Nardoni – julgado muito antes de ir ao tribunal -, Elize Matsunaga, ou da jovem Eloá,
que se tornou heroína simplesmente por ter morrido. Agora, o que presenciamos,
é o espetáculo que se tornou a fatalidade no Rio Grande do Sul que, com razão,
causou comoção nacional e mundial. É triste perder 232 jovens (quem sabe até
mais) de maneira tão trágica. Não tão triste quanto, mas, ainda assim, bastante triste é ganhar
dinheiro em cima disso. Deprimente.
É normal , aceitável, ou melhor,
até desejável que mesmo meios não jornalísticos, ou com jornalismo
especializado em outra coisa, deem um espaço pequeno para noticiar o fato e,
evidentemente, lamentar o ocorrido. Transformar disso um entretenimento é um disparate
até mesmo para os meios jornalísticos. E não é difícil ver quando a notícia se
transforma em show. No Domingo após o a tragédia, via televisão, um programa
famoso e respeitável que noticiava o fato de maneira correta e completa. Até
que, como sempre, a informação acabou, mas a como a comoção não acaba na mesma
velocidade da notícia, o show começou.
As notícias, informações
técnicas, depoimentos de testemunhas deram lugar a repórteres de plantão no
local do acidente e nos hospitais, entrevistando parentes, perguntando qual o
sentimento de perder entes queridos (me desculpem, mas puta que o pariu).
Oportunistas aparecem de todos os lados querendo fazer um comentário técnico
sobre absolutamente nada, ou dizer que é filho da sobrinha de uma pessoa que ia à boate, mas desistiu na última hora. No dia seguinte, os programas matinais de variedades,
que não são jornalísticos, em vez de cumprir seu papel falando rapidamente do
ocorrido, lamentando-o, já estavam de prontidão para fazer show com a tristeza alheia. Um velório coletivo foi
organizado na cidade de Santa Maria e, pasmem, houve cobertura televisiva
do velório. Entrevistas com pessoas chorando, perguntando qual a dor dos
parentes (puta que o pariu de novo).
No mesmo programa matinal em que,
poucos anos antes, a apresentadora estava trajando uma farda, abriu um link
direto com o velório coletivo, entrevistou uma parente de duas vítimas que
foi convidada ao vivo à ir ao estúdio uma entrevista. Pior: a apresentadora ainda fazia
comentários como se fosse uma especialista, sobre o que ela achava do caso. E
a palhaçada não termina. A cobertura dos desdobramentos do fato, punições cabíveis, novas
medidas, é absolutamente normal e, outra vez, desejável. Infelizmente, sabemos
que essa cobertura só dura até a comoção passar. Enquanto isso, na página de um
dos principais portais de internet do país algumas das manchetes são:
“Amparada, mãe chega ao velório do segundo filho”, “Internada no RS escreve
bilhete: ‘Eu quero sair’ ”, “Médico chora ao relatar tratamento das vítimas”;
entre outras que não tem a serventia que não prorrogar a dor dessas pessoas.
Infelizmente, no Brasil, em casos como este, as pessoas não têm nem o direito de
sofrer em paz.