Certa vez, em uma aula de
história do colégio de segundo grau federal em que estudava, a professora, que era dessas que
ensinam muito mais do que as matérias de um mero vestibular, dessas que podemos
realmente chamar de mestres, contou uma história do início de sua carreira, já
consagrada com um pós doutorado e sendo professora titular de uma famosa Universidade Federal à época que ela contara. Contou que dando aula
em uma escola pública da periferia em
época de eleição, querendo ensinar um pouco de cidadania aos alunos, falou
sobre o voto. Um deles, criança esperta, com aquela perspicácia desconcertante
que só a infância é capaz, sem entender o que ela ensinava, disse à professora que seus pais haviam vendido seus
votos. Prontamente, ela os chamou para uma reunião. A professora questionou a
decisão dos pais, com aqueles argumentos óbvios. Recebeu uma lição deles, que
responderam, seca e conscientemente: “sabemos disso tudo, mas se não votarmos
nele, o que vamos comer no próximo mês?”. Atônita, a professora respondeu
simplesmente: “tem razão, vote nele”.
O que ela quis dizer, e com toda
razão, é que o povo não “pova”, como muitos defendem. Essa arrogância da classe
média elitizada, intelectual, é linda para quem vê o mundo do confortável sofá
de um apartamento quatro quartos em um bairro nobre da cidade com 3 carros na
garagem e a garantia de pelo menos 10 mil reais na conta no final de cada mês.
Eu mesmo, admito, fazia isso, até que uns bons 10 anos depois dessa aula, refletindo sobre a
vida, finalmente entendi o que a professora me disse quando ainda cursava o 3° ano do
ensino médio. Nós que tão pouco conhecemos da vida da maioria das pessoas, não
temos espírito democrático e adoramos dizer que o Brasil está como está porque
o povo não sabe votar. Os militares em 1964 diziam o mesmo para justificar
àquela aberração que foi o golpe contra Jango. Eles, como nós, classe média,
dizemos isso por um mesmo motivo: achamos que nós sabemos o que é melhor para o
povo, sem viver o seu dia-a-dia. Não sabemos. Do mesmo jeito que votamos no que
cremos ser melhor para gente, aquele pai de família votou no que era melhor
para ele. Legítimo. Ilegal, imoral, paliativo, mas, no fim das contas, legítimo
(não por parte do político, evidentemente).
O problema do Brasil é muito
maior do que “o povo não sabe votar”, como defenderam idiotamente os militares
em 64 e como defende imbecilmente qualquer um que replique essa frase
arrogante. O contexto do Brasil está mais próximo de um conceito sociológico –
que aprendi no primeiro período da faculdade de direito que nunca concluí, em
prol de me formar em comunicação - que diz que os governantes de um país nada
mais são que um reflexo de seu povo. Na prática, e por mais que me critiquem por dizer
isso, a grande maioria dos brasileiros é corrupta ou corrompível, tanto quanto as
esferas do poder. Não à toa, em uma pesquisa realizada no Brasil há alguns anos,
a maioria dos entrevistados respondeu que, apesar de reprovar o que os
políticos fazem, certamente fariam o mesmo no lugar deles. E não precisamos ir
tão longe para perceber a hipocrisia brasileira. O tão famoso e celebrado
“jeitinho” nada mais é que uma maneira de corrupção.
Por essas bandas todos temos a
mania e a necessidade de querer ser mais esperto que os outros. Vemos isso no trânsito,
nas filas, nas ruas, no mercado de trabalho. As regras, a ética e as leis são lindas,
mas só valem para os outros, a não ser que nos favoreça. Prazer, este é o brasileiro. É aquele que adora
descumprir as leis quando lhe convém, furando filas, estacionando em lugar
proibido, dirigindo bêbado, achando lindo quando consegue arrancar alguma
vantagem financeira sobre alguém. Mas que fica indignado quando é vítima das mesmas práticas ou quando os políticos fazem replicam seu comportamento diário:
descumprem as leis. Ninguém para pensar que no menor ato de corrupção, no menor jeitinho, sempre alguém é, ou tem grande chance de ser, lesado. O espantoso é que esse mesmo brasileiro, quando vai ao
exterior, em países de 1° mundo, volta encantado porque as coisas funcionam
perfeitamente lá. Parafraseando Gandhi,
temos que ser a mudança que queremos ver. Em suma, ele não consegue admitir sua
culpa pelo fato de em sua terra natal a mesma organização não ser possível.
E ainda temos a coragem de falar que o povo não sabe votar, sendo arrogante e, apesar de tudo o que fazemos, fingindo, de dois em dois anos, ser cidadão. Fingimento péssimo,
diga-se de passagem. Primeiramente porque quase todo mundo reclama de ter que votar,
e, embora seja um assunto para outro post, o Brasil e o brasileiro estão longe
de estarem preparados para viver sob voto facultativo. Além disso, naqueles
segundos que estamos dentro da cabine, nós também pensamos em tudo, menos no
bem comum. Pensamos no que é melhor para nós, individualmente, a promessa que
mais nos convém, no amigo candidato (a quem sempre pedimos um lugar no gabinete), na pesquisa que vimos na TV. Fato é que nunca pensamos no melhor
para todos. Ora, então porque os outros teriam de pensar no que é melhor para gente?
O pior de tudo é que, com espírito nada democrático, se nosso candidato é
derrotado, criticamos os outros, chamando-os de incapazes e burros pela
escolha. Ainda temos a audácia de culpar o eleitor pelo erro do político, em
uma atitude de eterna resignação. E, por outro lado, os que votaram nos eleitos
vivem em uma visceral defesa do candidato, que é tão ridículo quanto à atitude
anterior. Afinal, se você votou você tem o dever, ainda maior, de cobrar seu candidato e não
defendê-lo como um filho. Se você não votou, também deve cobrar do político e
não julgar quem votou. Até porque, essa mania maniqueísta do brasileiro já está até fora de moda. Até quando o político acerta, se não gostamos dele, criamos formas de criticar sua atitude. Por outro lado, se ele erra, e temos alguma afeição por ele, inventamos maneira de defendê-lo. Isso é resignar
E não precisamos ir longe para perceber o
quanto somos resignados. Aqui do lado, na maioria dos países da América do Sul, o povo protesta quanto se sentem lesados.
Aqui, reclamamos, rimos, mas, no fim, achamos normal. É a banalização da, com
perdão da palavra, putaria. Não bastasse essa banalização, somos viciados em
encontrar culpados e transferir
responsabilidades. A culpa nunca é nossa, é sempre do governo. Não digo que a instâncias que regem a
sociedade sejam isentas de responsabilidade. Entretanto, o que não pode
acontecer é nós nos isentarmos completamente, como fazemos frequentemente. Nesta
época do ano, por exemplo, em que as enchentes são constantes, reclamamos, com
razão, da falta de planejamento para algo que se repete todos os anos. Entretanto,
quando uma boca de lobo transborda, ninguém se lembra que fomos nós nós, com
nossa falta de civilidade, que a entupimos.
Sim falta civilidade. Porque muitos
tem educação, muitos sabem que é errado, mas, já que todos fazem, imitam. Em
síntese, o que acontece nas mais altas esferas do poder no Brasil é reflexo do
brasileiro, afinal os políticos são brasileiros. Claro que, assim como nem toda
a sociedade se comporta dessa forma hipócrita, não são todos os políticos que
são corruptos. A cidadania tupiniquim, o
sentimento de bem comum só aparece em dois momentos: no futebol (que aos poucos
vem diminuindo) e em desgraças de comoção nacional, o que é algo louvável. O
porém é que outras desgraças acontecem todos os dias diante dos nossos olhos, mas
essas, bem essas a gente releva. Caso contrário não seríamos o povo mais feliz do mundo.