quarta-feira, 11 de junho de 2014

A marcha dos indiferentes

Em nenhum momento pensei diferente. Qualquer país, independentemente de sua condição econômica, pode sediar uma Copa do Mundo, dentro de suas limitações, óbvio. O Brasil não pode, evidentemente, querer fazer a Copa da Alemanha. Por isso, nunca fui contra a Copa do Mundo. Contudo, sempre fui contra a maneira que essa copa foi feita. Por isso, até creio não ser contraditório que quem vibrou em 2007 (não foi meu caso) reclamar em 2014, embora, conhecendo o país, fosse previsível que o evento virasse um terreno fértil à corrupção. Insisto, a maneira que essa Copa foi concebida é inadmissível. Os desmandos da FIFA, as exigências absurdas, os milhões e milhões desperdiçados, e a destruição do nosso futebol são inaceitáveis.

Ainda assim eu protestei e fui para as ruas, uma vez. Sabendo que isso não tiraria a Copa do Brasil e nem com desejo que isso acontecesse. A própria Copa foi quem deu a visibilidade às manifestações. Escrevi e continuo afirmando, que aqueles que foram às ruas espontaneamente no dia 17 de Junho de 2013 são meus heróis. Eles, sim, fizeram um movimento espontâneo, legítimo e bonito. Desde o dia que fui à rua, uma semana depois, contudo, vi que o dia 17 de Junho abriu as portas para oportunistas de todas as espécies. Oportunistas que hoje são a maioria do movimento. Não sei se com cunho partidário, mas certamente político, um grupo de pessoas que diz representar o povo, de maneira bem perspicaz aproveitou a oportunidade aberta pela insatisfação popular e levou o movimento, outrora popular, para algo, que ao meu ver, beira o fascismo. Um movimento de extrema direita.

Essas pessoas, que criaram um movimento dizendo que não haveria copa, mesmo sabendo que ela vai acontecer e sem nenhum respaldo popular, tiraram da rua muita gente que gostaria de protestar de maneira mais efusiva. Não por medo da violência, pois realmente creio que não se tem vitória política sem causar problemas, e que, às vezes, fatalmente, episódios violentos vão acontecer. Eles nos tiraram da rua porque não se identificam com o povo. Como disse um coronel da Polícia Militar, esse movimento é esquizofrênico. É brigar por brigar, sem nenhuma causa definida. A causa  é impedir a Copa do Mundo de acontecer. Tudo bem, mas a troco de quê? É um movimento de extrema direita, ilegítimo e sem nenhuma causa ou reivindicação aparente.

Por outro lado, fazer greves  durante a Copa, como a dos metroviários em São Paulo, é uma forma legítima de protesto, que tem fim e que, em última instância,  afeta a Copa do Mundo. Sou favorável a qualquer categoria que decidir parar, nem que isso pare literalmente o Brasil. Além disso, e só os cegos não vêem, apesar de todos assistirem aos jogos, por gostar de futebol, ou mesmo por torcer pela seleção, é visível que o maior protesto que o Brasileiro, ao menos em Belo Horizonte, está fazendo é a indiferença. Apesar da tentativa de alguns de mudar isso, o clima de Copa que se tem quando elas se realizam em outros países, não acontecerá. Muito menos na intensidade que, em condições normais, aconteceria em uma Copa realizada no Brasil.

O principal motivo é a nítida convicção de estamos sendo roubados, passados para trás. A cara de pau nunca foi tão grande, nem mesmo a indiscrição na corrupção.  O pior é que não podemos fazer absolutamente nada. Joana Havelange disse uma grande verdade quando publicou “o que tinha que ser roubado já foi”. Todos sabíamos disso. Todos nos sentimos passados para trás, e nossa impotência é o que dói. A cagada ou não da Copa, está feita. Não podemos impedir. Tampouco podemos nos deixar levar pelo radicalismo desses oportunistas.

Não sou hipócrita, contudo, de dizer que nosso protesto tem que ser no dia 5 de Outubro. Não. Nosso protesto tem que ser diário, até porque, infelizmente, não temos opções nas urnas. Sobretudo no poder legislativo. Votaremos no que a gente considerar menos pior, porque, infelizmente, vivemos em um bipartidarismo ridículo. Até proporia que todos nós anulássemos nossos votos, mas não vai acontecer. Fato é que teremos Copa. Fato é que estamos impotentes diante de tudo que aconteceu. Fato é que oportunistas tomaram o movimento legítimo da população. Fato é que temos que protestar de alguma forma e, atualmente, o protesto mais evidente aos meus olhos, além das greves, claro, é a indiferença.