Até a última quinta feira à noite, ou
melhor, sexta pela manhã, eu, definitivamente, era uma pessoa mais feliz. Não
sabia disso, refutava tal felicidade até aquela manhã de sexta, quando, através da
carta aberta à Letícia Spiller, tive o desprazer de conhecer o tal “Qualquer Coisa”, cujos nome e sobrenome não me lembro e nem faço questão de
lembrar. A carta direcionada à atriz global é uma das piores coisas que li em
toda minha vida, de tornar poetas caras como Mainardi e o Reinaldo Azevedo. Não
que a carta seja mal escrita, pelo contrário, o texto é fluente, coerente e
expressa de maneira clara o que autor quer dizer. Entretanto, a ode à estupidez
no conteúdo me fez crer um pouco menos na humanidade.
Primeiramente, e que isso fique claro,
não sou socialista. Em verdade, creio que o socialismo e o comunismo marxista,
que nunca, repito, nunca foi posto em prática por nenhuma nação, são utópicos.
Socialismo, comunismo e anarquismo, todos eles desconsideram algo inerente ao
ser humano que é sua individualidade. E nenhum regime sobrevive a isso.
Entretanto, dizer que o socialismo significa “tirar de pessoas como Letícia
Spiller para dar aos mais pobres” é, no mínimo um sinal de ignorância com
relação à teoria socialista. O mundo utópico sonhado por Marx têm oportunidades
iguais, portanto não existiriam nem “Bill Gates”, nem os miseráveis. Seríamos, pois, todos
“Letícias Spillers”, o que, o insisto, não invalida o fato de o socialismo ser
impraticável.
Seguindo a carta, que, infelizmente repercute muito mais do que deveria, alguns regimes pseudo-socialistas são
citados. E são realmente pseudo. Estranho não ter lido em nenhum momento, e se foi
por desatenção, me perdoem, sobre o regime chinês, enfim. O regime venezuelano foi
citado e comentar sobre as mazelas daquele povo é uma falácia sem tamanho, é um
ouvir apenas um dos lados da moeda. Nem eu nem ele temos propriedade para falar
a respeito disso. Um exemplo do outro lado foi mostrado por um documentário da
BBC londrina que mostra a frustrada tentativa de um golpe de Estado em Chávez.
O que se vê é completamente diferente do que vemos nos noticiários brasileiros.
Não seja a favor do radicalismo, de nenhum dos lados, aliás, não acredito, de
forma alguma, no maniqueísmo entre as tradicionais “direita” e ”esquerda”,
embora, por razões óbvias, se fosse obrigatório a opção, ficaria ao lado das viúvas de Lênin. O que queria dizer, ou melhor, ecoar, é uma fala de um
cientista político americano, que disse quem sabe o que é melhor para a Venezuela é o
povo venezuelano.
Isso, porém, pouco interessa. O que mais
impressiona e, creio, ninguém com Q.I pouco maior ao de uma ameba acredita, é
dizer que os ativistas de esquerda consideram vítimas os bandidos. Talvez
aqueles que, do lado oposto da balança, sejam tão radicais e cegos quanto o
autor da carta possam. Mesmo assim duvido. A pobreza, que, sim, está muito relacionada ao capitalismo,
não é sinônimo de de criminalidade. Tampouco são os criminosos meras vítimas da sociedade. No socialismo, ou em
qualquer outro regime social humano a criminalidade existirá, porque somos
indivíduos únicos e egoístas (como devemos ser – favor não confundir com
egocêntricos). Somos animais dotados de
instintos e, por vezes os seguimos. Não existe nenhuma organização social que
contemple todos, isto é, sempre existirá os que estão à margem da sociedade.
Mas, como diz o ditado, só os piores cegos não vêem que os índices
absurdos de criminalidade e a maneira como ela se apresenta hoje não são
praticados por vítimas ou pobres coitados. Mas, igualmente cegos, são os que não
entendem que isso é produto do sistema, inerente e necessário a ele.
Os piores instintos do homem são aguçados
pelo sistema e se afloram das mais variadas formas. Das criativas, como a arte,
às tradicionais como a religião. Das positivas, como o esporte, às negativas
como a violência. Portanto, por mais que nenhum radicalismo seja bom, por mais
que o socialismo dependa da bondade alheia e, por isso, seja uma mera utopia,
sofrer um assalto deste tipo, por gente que está completamente à margem da
sociedade, aumentam muito mais as chances de uma pessoa esquerdista
desacreditar ainda mais no capitalismo. Ao menos que ela seja burra o
suficiente para acreditar em argumentos vazios e tautológicos que, VEJA só,
alguns publicam.