terça-feira, 18 de março de 2014

Um certo qualquer coisa

Até a última quinta feira à noite, ou melhor, sexta pela manhã, eu, definitivamente, era uma pessoa mais feliz. Não sabia disso, refutava tal felicidade até aquela manhã de sexta, quando, através da carta aberta à Letícia Spiller, tive o desprazer de conhecer o tal “Qualquer Coisa”, cujos nome e sobrenome não me lembro e nem faço questão de lembrar. A carta direcionada à atriz global é uma das piores coisas que li em toda minha vida, de tornar poetas caras como Mainardi e o Reinaldo Azevedo. Não que a carta seja mal escrita, pelo contrário, o texto é fluente, coerente e expressa de maneira clara o que autor quer dizer. Entretanto, a ode à estupidez no conteúdo me fez crer um pouco menos na humanidade.

Primeiramente, e que isso fique claro, não sou socialista. Em verdade, creio que o socialismo e o comunismo marxista, que nunca, repito, nunca foi posto em prática por nenhuma nação, são utópicos. Socialismo, comunismo e anarquismo, todos eles desconsideram algo inerente ao ser humano que é sua individualidade. E nenhum regime sobrevive a isso. Entretanto, dizer que o socialismo significa “tirar de pessoas como Letícia Spiller para dar aos mais pobres” é, no mínimo um sinal de ignorância com relação à teoria socialista. O mundo utópico sonhado por Marx têm oportunidades iguais, portanto não existiriam nem “Bill Gates”,  nem os miseráveis. Seríamos, pois, todos “Letícias Spillers”, o que, o insisto, não invalida o fato de o socialismo ser impraticável.

Seguindo a carta, que, infelizmente repercute muito mais do que deveria, alguns regimes pseudo-socialistas são citados. E são realmente pseudo. Estranho não ter lido em nenhum momento, e se foi por desatenção, me perdoem, sobre o regime chinês, enfim. O regime venezuelano foi citado e comentar sobre as mazelas daquele povo é uma falácia sem tamanho, é um ouvir apenas um dos lados da moeda. Nem eu nem ele temos propriedade para falar a respeito disso. Um exemplo do outro lado foi mostrado por um documentário da BBC londrina que mostra a frustrada tentativa de um golpe de Estado em Chávez. O que se vê é completamente diferente do que vemos nos noticiários brasileiros. Não seja a favor do radicalismo, de nenhum dos lados, aliás, não acredito, de forma alguma, no maniqueísmo entre as tradicionais “direita” e ”esquerda”, embora, por razões óbvias, se fosse obrigatório a opção, ficaria ao lado das viúvas de Lênin. O que queria dizer, ou melhor, ecoar, é uma fala de um cientista político americano, que disse quem sabe o que é melhor para a Venezuela é o povo venezuelano.

Isso, porém, pouco interessa. O que mais impressiona e, creio, ninguém com Q.I pouco maior ao de uma ameba acredita, é dizer que os ativistas de esquerda consideram vítimas os bandidos. Talvez aqueles que, do lado oposto da balança, sejam tão radicais e cegos quanto o autor da carta possam. Mesmo assim duvido. A pobreza, que, sim, está muito relacionada ao capitalismo, não  é sinônimo de de criminalidade. Tampouco são os criminosos meras vítimas da sociedade. No socialismo, ou em qualquer outro regime social humano a criminalidade existirá, porque somos indivíduos únicos e egoístas (como devemos ser – favor não confundir com egocêntricos). Somos animais  dotados de instintos e, por vezes os seguimos. Não existe nenhuma organização social que contemple todos, isto é, sempre existirá os que estão à margem da sociedade. Mas, como diz o ditado, só os piores cegos não vêem que os índices absurdos de criminalidade e a maneira como ela se apresenta hoje não são praticados por vítimas ou pobres coitados. Mas, igualmente cegos, são os que não entendem que isso é produto do sistema, inerente e necessário a ele.

Os piores instintos do homem são aguçados pelo sistema e se afloram das mais variadas formas. Das criativas, como a arte, às tradicionais como a religião. Das positivas, como o esporte, às negativas como a violência. Portanto, por mais que nenhum radicalismo seja bom, por mais que o socialismo dependa da bondade alheia e, por isso, seja uma mera utopia, sofrer um assalto deste tipo, por gente que está completamente à margem da sociedade, aumentam muito mais as chances de uma pessoa esquerdista desacreditar ainda mais no capitalismo. Ao menos que ela seja burra o suficiente para acreditar em argumentos vazios e tautológicos que, VEJA só, alguns publicam.