terça-feira, 28 de janeiro de 2014

De cipó e tanga

Há muito tempo, ainda nos tempos de Orkut e  ICQ conheci uma moça da Bósnia através da internet. Não me lembro exatamente como a conheci, mas fato é que conheci e começamos a conversar. A moça era fanática com o Brasil, segundo ela própria. Seu sonho era conhecer o nosso país e começou a me fazer uma série de perguntas sobre o Brasil. Pode parecer bobagem, mas ela cria que nas ruas do Rio de Janeiro, se viam cipós e macacos e que a Amazônia era pertinho da capital fluminense. Vez por outra, quando vemos essas impressões errôneas do nosso país, ficamos irritados, mas o esterótipo é esse: O Brasil é uma grande selva em que se fala espanhol, em que o principal meio de transporte é o cipó e que poderia ser representado somente pelo futebol, carnaval e muitas bundas.

Mas não ficamos atrás. Fui ao Marrocos no último Dezembro e as expectativas eram as mais temerosas de um país pobre, muçulmano e radical. Não use calças se você for mulher. Se for homem não olhe  para nenhuma mulher. Cuidado com a alimentação e com a água. Se você bebe, pode se começar a habituar a não beber, pois não é permitido. Ouvi tudo isso, os maiores clichês que podemos criar sobre muçulmanos. Impressões desfeitas logo que pousei no aeroporto de Casablanca. Mulheres usando calças, sem véus, transitavam em perfeita sintonia com outras que usavam burcas, lenços e os mais diversos tipo de vestimentas. Os homens, não necessariamente barbudos e de turbante. Na rua, carros luxuosos contrastavam com outros nem tanto. O trânsito caótico, tudo muito urbanizado.

Nas ruas, mesquitas em grandes quantidades o que fazia que em todos os momentos de reza ouvíssemos as preces em árabe emitidas aos quatro cantos. Momentos breves em que alguns paravam, outros não. Mesquitas, inclusive, são vistas em todo estabelecimento, inclusive no aeroporto. Embora em número muito menor, sinagogas e igrejas católicas também faziam parte da paisagem. O shopping da cidade era simplesmente o mais impressionante que já vi. Lojas de todas as grifes possíveis e imagináveis, compradas com gosto por donos de Porshes e Mercedes. Nos bairros mais ricos, se via, nas construções das mansões, quais eram de árabes e quais eram de descendentes de franceses, que, por muito tempo mandaram por ali. É fato que na rua não se pode beber – na Austrália também não pode – mas no supermercado você encontra todos os tipos de cerveja e vinhos, inclusive, alguns locais. Não era como estava pensando, mas, já ouvira dizer, que Casablanca era mais ocidental.

Minha próxima parada foi Marrakesh. Uma cidade milenar e misteriosa, lotada de hotéis, turistas, cassinos, boates e, pasmem, prostíbulos. O suco de laranja é espetacular e a comida, se você gosta de experimentar coisas novas, é muito boa. Não fazem mal como insistiram por aqui. A receptividade foi impressionante. Em um passeio que fiz conheci uma guia marroquina, uma moça jovem que havia feito todo seu segundo grau nos Estados Unidos. A moça usava calça justa, bota, jaquetas jeans. Se andasse pelas ruas de Belo Horizonte dificilmente chamaria a atenção de alguém. Politizada e crítica, questiona os fundamentalistas de todas as regiões que, segundo ela, são responsáveis por essa distorção que fazemos com relação ao oriente. Depois de muita conversa, fui saber que a moça era islâmica, não era radical, tampouco “praticante”, era como a maioria dos cristãos. Foi um bate papo extremamente interessante em que eu tirei todas as minhas dúvidas e ainda me despi de um monte de preconceitos idiotas sobre a cultura árabe. E não fiquei somente nessas cidades. Visitei algumas pequenas cidades marroquinas entre Marrakesh e Zagorá, uma cidade criada no Oasis no meio do Saara, e descobri que, na história marroquina, os árabes não são os mais antigos e que um outro povo muçulmano, os bere-beres ainda marcam muita presença no deserto. Povo, muçulmano, que, inclusive, protegeu os judeus em diversas situações e respeitam sua crença. Enfim, depois de ver de perto, cheguei a conclusão que não somos tão diferentes das pessoas que acreditam que a gente vai trabalhar de cipó e tanga.