Há muito tempo, ainda nos tempos de Orkut
e ICQ conheci uma moça da Bósnia através da
internet. Não me lembro exatamente como a conheci, mas fato é que conheci e
começamos a conversar. A moça era fanática com o Brasil, segundo ela própria.
Seu sonho era conhecer o nosso país e começou a me fazer uma série de perguntas
sobre o Brasil. Pode parecer bobagem, mas ela cria que nas ruas do Rio de
Janeiro, se viam cipós e macacos e que a Amazônia era pertinho
da capital fluminense. Vez por outra, quando vemos essas impressões errôneas do
nosso país, ficamos irritados, mas o esterótipo é esse: O Brasil é uma grande
selva em que se fala espanhol, em que o principal meio de transporte é o cipó
e que poderia ser representado somente pelo futebol, carnaval e muitas bundas.
Mas não ficamos atrás. Fui ao Marrocos no
último Dezembro e as expectativas eram as mais temerosas de um país pobre,
muçulmano e radical. Não use calças se você for mulher. Se for homem não olhe para nenhuma mulher. Cuidado com a alimentação
e com a água. Se você bebe, pode se começar a habituar a não beber, pois não é
permitido. Ouvi tudo isso, os maiores clichês que podemos criar sobre
muçulmanos. Impressões desfeitas logo que pousei no aeroporto de Casablanca.
Mulheres usando calças, sem véus, transitavam em perfeita sintonia com outras
que usavam burcas, lenços e os mais diversos tipo de vestimentas. Os homens, não
necessariamente barbudos e de turbante. Na rua, carros luxuosos contrastavam
com outros nem tanto. O trânsito caótico, tudo muito urbanizado.
Nas ruas, mesquitas em grandes
quantidades o que fazia que em todos os momentos de reza ouvíssemos as preces
em árabe emitidas aos quatro cantos. Momentos breves em que alguns paravam,
outros não. Mesquitas, inclusive, são vistas em todo estabelecimento, inclusive
no aeroporto. Embora em número muito menor, sinagogas e igrejas
católicas também faziam parte da paisagem. O shopping da cidade era
simplesmente o mais impressionante que já vi. Lojas de todas as grifes
possíveis e imagináveis, compradas com gosto por donos de Porshes e Mercedes.
Nos bairros mais ricos, se via, nas construções das mansões, quais eram de
árabes e quais eram de descendentes de franceses, que, por muito tempo mandaram
por ali. É fato que na rua não se pode beber – na Austrália também não pode –
mas no supermercado você encontra todos os tipos de cerveja e vinhos,
inclusive, alguns locais. Não era como estava pensando, mas, já ouvira dizer, que Casablanca era mais ocidental.
Minha próxima parada foi Marrakesh. Uma
cidade milenar e misteriosa, lotada de hotéis, turistas, cassinos, boates e,
pasmem, prostíbulos. O suco de laranja é espetacular e a comida, se você gosta
de experimentar coisas novas, é muito boa. Não fazem mal como insistiram por
aqui. A receptividade foi impressionante. Em um passeio que fiz conheci uma
guia marroquina, uma moça jovem que havia feito todo seu segundo grau nos
Estados Unidos. A moça usava calça justa, bota, jaquetas jeans. Se andasse
pelas ruas de Belo Horizonte dificilmente chamaria a atenção de alguém.
Politizada e crítica, questiona os fundamentalistas de todas as regiões que,
segundo ela, são responsáveis por essa distorção que fazemos com relação ao
oriente. Depois de muita conversa, fui saber que a moça era islâmica, não era
radical, tampouco “praticante”, era como a maioria dos cristãos. Foi um bate
papo extremamente interessante em que eu tirei todas as minhas dúvidas e ainda
me despi de um monte de preconceitos idiotas sobre a cultura árabe. E não fiquei somente nessas cidades. Visitei algumas pequenas cidades marroquinas entre Marrakesh e Zagorá, uma cidade criada no Oasis no meio do Saara, e descobri que, na história marroquina, os árabes não são os mais antigos e que um outro povo muçulmano, os bere-beres ainda marcam muita presença no deserto. Povo, muçulmano, que, inclusive, protegeu os judeus em diversas situações e respeitam sua crença. Enfim,
depois de ver de perto, cheguei a conclusão que não somos tão diferentes das
pessoas que acreditam que a gente vai trabalhar de cipó e tanga.