Não sou religioso. Vivo em uma eterna
agnose, tendendo a crer, talvez pelo simples conforto que a crença em Deus e em
vida pós mortem trazem. Ainda assim, nesta perspectiva de crer em algo, não
seguiria nenhuma religião. Não concordo com nenhuma delas, seus passados, suas
índoles ou suas interpretações do que dizem ser Escrituras Sagradas. Preferiria ter uma espécie de religião própria, pautada muito mais em atos do que em fé.
No entanto, devo admitir, provavelmente por tradição e cultura familiar,
quando faço uma promessa, ou busco uma liturgia qualquer, por um motivo
qualquer, acabo no catolicismo, no qual fui batizado e catequizado. Mas,
reforço, não sou católico. Muitas das coisas que a Igreja Católica fez, faz ou
prega me desagradam profundamente. Não obstante, creio ter sido inadmissível o
financiamento público da presença do Papa no Brasil.
Isso é uma coisa. É inegável, porém, e
qualquer ser humano independentemente de religião pode perceber, a importância
do Papa como figura pública para o mundo. Suas opiniões importam e fazem
diferença no planeta, de modo que ser Papa, quer você queira ou não, exige muita
responsabilidade e consciência. Não tenho nenhum problema em criticar ou
elogiar papas. O João Paulo II, por exemplo, foi, apesar de seus erros, um bom
pontífice, que, inclusive, com muita felicidade, pediu desculpa por vários atos
da Igreja durante sua história, como o apoio à escravidão ou ao nazismo. Não
meço, no entanto, palavras para criticar o sucessor do papa polonês, o alemão
Bento XVI. O papa alemão, que havia feito parte da SS de Hitler, é um homem
extremamente conservador e atrasado no tempo, afinal havia cresceu em na
Alemanha nazista e, querendo ou não, a cultura autoritária faz parte de sua
história. Na PUC, me lembro, alguns alunos costumavam referi-lo como “Papa Nazi”. O alemão, com seu conservadorismo arcaico, estava
ganhando antipatia das pessoas e, consequentemente, a Igreja Católica perdendo
fiéis.
Parecia óbvio que o Papa Bento XVI não
duraria muito em sua posição. A história mostra que as religiões e igrejas só
se perpetuam no tempo, mediante às mudanças nas sociedades, de duas formas: através do medo e
força, ou se adaptando às mudanças sociais de cada época. A Igreja Católica,
historicamente, desde os movimentos reformistas que a contestou, optou pela
adaptação. Bento XVI era atemporal, um tiro no pé. Não que sua capacidade
intelectual e cultural seja menor que às de seus sucessores e antecessores, óbvio
que não. Diga-se, um seminário é um bombardeio de conhecimento, filosofia e
leitura, em que a fé dos seminaristas é testada à toda prova, o que é
facilmente perceptível em qualquer conversa ou mesmo declaração dos sacerdotes
com relação à economia, política, filosofia. Não é surpreendente, pois, quando
um pontífice como Francisco concede uma entrevista esclarecida, demonstrando
conhecimento sobre economia e política.
Não esperem, porém, por mais progressista
que um homem religioso possa ser, uma postura totalmente aberta. Afinal, ele se
baseia em uma instituição milenar e conservadora que é a Igreja. Por outro
lado, um Papa, um pontífice ou religioso qualquer, não precisa, nem deve, ser
reacionário. E a história recente mostra isso. Em tempos de ditaduras
sulamericanas, embora grande parte da Igreja fosse reacionária e de direita,
uma parte da Igreja, progressista, era contra o regime, ajudando, e muito, a
militância de esquerda – dita ateia - , com a bendita teologia da Libertação. A Igreja é feita por homens e estes, não
importa o grau da fé e de instrução têm suas predileções e ideologias, ainda
que, muitas vezes, sua ética pessoal e institucional possam entrar em conflito.
Com efeito, a Igreja Católica é uma prova evidente disso ao longo da história
que as instituições efetivamente se perpetuam na história pelo medo ou a
adaptação ao mundo, não sendo, necessariamente, pontos excludentes. Ser temente
à Deus e à morte sempre foi um argumento extraordinário à favor das Igrejas, e
continua sendo, não importando qual a religião.
Por outro lado, existe uma outra forma de
se manter uma religião e uma Igreja, forma esta que a Igreja Católica tem, ao
longo dos anos, mostrado, mesmo que timidamente, às vezes casado com o medo,
outras apenas se adaptando, que é, na medida do possível, acompanhar a sociedade em que se insere. Da Contra Reforma aos
dias de hoje esse é o expediente predileto da Igreja Católica. Não é um
expediente fácil, sobretudo quando se trata de uma Instituição milenar que, por
mais atual que seja, tem que manter algumas liturgias arcaicas para não perder
a razão de ser, não adianta querer que seja diferente, aliás nem tem que ser
assim, você segue se quiser. O contrário que é o problema. Certa vez, em uma
aula de Direito, um professor fez a feliz comparação: “se a sociedade fosse um
trem, a publicidade seria a locomotiva e o Direito seria o último vagão”. Isso
porque a, publicidade tem que estar
atenta às expectativas da sociedade e fazer de tudo para acompanhá-las,
enquanto o Direito, por conta da segurança jurídica, tem que esperar que tais
mudanças sejam consolidadas. Entretanto, creio eu, há um vagão atrás do Direito
e este é o da Religião. Em suma, devagar a Igreja Católica tenta adaptar-se à
sociedade em que vive sem, por outro lado, perder os conservadores fiéis de
outrora. Habilmente a Igreja faz isso, sobretudo, nas figuras papais.
João Paulo II, por exemplo, enfim,
desculpou-se, em nome da Igreja, pelas atrocidades cometidas aos judeus, aos
ameríndios e aos negros. Foi um bom Papa. E não importa qual a religião, a
figura papal é importante e suas opiniões e atitudes têm relevância em âmbito
global, entre católicos ou não. A igreja sabe disso. Mas, após o falecimento de
João Paulo, a cúpula do Vaticano pareceu retroceder alguns séculos na história.
Elegendo para o papado o alemão
extremamente conservador Bento XVI. Bento, que havia sido parte da
famigerada SS nazista – o que, no tempo dele, faça-se justiça, era obrigatório
aos jovens germânicos. De toda sorte, o
papa não se mostrava e certamente não era antisemita. O que não exclui o fato
de ter sido criado em uma cultura extremamente conservadora, de ter seus
conceitos formados em uma Alemanha dominada pela intolerância. Ele é um homem
ultra conservador. A crise era questão de tempo.
Questões financeiras, problemas de
pedofilia, escandâlos e mais escândalos começaram a aparecer na Igreja Católica
todos os dias. Como conservador que era, dificlmente se abririam os conceitos
da Igreja, bem como a própria Instituição. Portanto, não era de se esperar algo
diferente de um homem inteligente como o ex-papa alemão que não a renúncia.
Ali, querendo ou não, salvou a igreja de perder alguns milhões de fiéis.
Afinal, O conservadorismo extremo e a vanguarda são as únicas maneiras de uma
Igreja ou religião se perpetuar durante a história, muito mais do que a própria
fé. As igrejas conservadoras obrigam seus fiéis
professarem a fé, através do medo e do autoritarismo, sentimento que, de
tão intrínseco, chega a gerar um ódio venal aos que não a professam. A
alternativa é, sem negar suas raízes, se adaptar à atualidade. Essa a adaptação
não é negar sua tradição, mas sim saber interpretar e analisar o mundo tal qual
sua realidade. Assim como foi com João
Paulo II, o Vaticano deu um passo à frente neste sentido, com o papa Argentino,
Francisco, que, em pouco tempo, se mostrou muito inteligente e perspicaz.
Francisco, o argentino, se mostrou um
papa do povo. Apaixonado por futebol, simples, pregou a simplicidade e uma
reformulação da Igreja. De maneira brilhante, pregou a simplicidade dos
sacerdortes, ressaltando que eles têm de estar perto das pessoas. E falar
somente foi pouco. Ele demonstrou com ações e escolhas. No Brasil, por exemplo, não quis luxos, ou isolamento.
Além disso, diferentemente da maioria dos sacerdotes, não fugiu aos temas
polêmicos, nem mesmo os que envolve a Igreja. Papa Francisco admitiu as falhas
da Igreja, não se esquivou ou escondeu os problemas de corrupção e escandâlos
do Vaticano. Afinal, como ele mesmo enfatizou, a Igreja é uma Instituição
composta por seres humanos, que, como tal, são corrompíveis. Embora isso pareça
óbvio, era essencial para a sustentação da popularidade da Igreja. O que me
chamou a atenção mesmo é como o argentino se mostrou desinibido com assuntos
espinhosos e, sobretudo, como ele, o líder da Igreja, não é tão fanático como
seus fiéis. Este Papa foi o primeiro que, sem menor restrição e com muito bom
humor, “brincou” com Deus. Ora, até pouco tempo era inimaginável um Papa dizer
que entrou em acordo com o Brasil, que “se o Papa é argentino, Deus é
Brasileiro”.
Papa Francisco, em sua visita ao Brasil,
bem como em suas entrevistas, sobretudo as concedidas dentro do avião, provou
que a religião não precisa ser intolerante ou retrógrada. Os religiosos não
precisam ser preconceituosos, até porque a religião não é preconceituosa, as
pessoas são. A interpretação dos livros sagrados, sejam eles cristãos,
judaicos, islãs, ou mesmo das religiões africanas, indígenas, bruxarias,
satânicos, não são livres. A interpretação, infelizmente, está subordinada aos
sacerdotes e Igrejas, que as faz da maneira que os convém. Diferentemente do
comum, mesmo dentro do próprio Vaticano, o Papa não pregou a fé pelo medo, mas
pelas ações. De fato é algo respeitável, independentemente do que você queira
acreditar. Capsciosamente, um repórter perguntou ao Papa sobre a
homosexualidade e a fé cristã entre eles. O Papa, sabiamente, respondeu que ter
fé e frequentar a igreja é um direito deles, e que ele, Papa, não tem o direito
de julgar a orientação sexual das pessoas. Não é papel da religião salvar ou
abraçar o mundo, julgar as pessoas ou curá-las. Até porque, ao pé da letra do
que se prega nas Igrejas, sexo que não seja com intuito reprodutivo é pecado,
independentemente da orientação sexual. Parabéns ao Papa que entendeu, para o
bem de sua Igreja, que seu papel é se aproximar das pessoas e confortá-las
quando elas buscam. A Igreja não é tribunal para julgar as pessoas, nem
hospital para curá-las. O problema delas é querer assumir a condição de
representantes legítimas de Deus com poder de julgar o certo e o errado, o bem
e o mal. Que o Papa seja exemplo, para o Vaticano e para as outras Igrejas. As
pessoas escolhem seguir ou não uma religião. As religiões jamais podem escolher
ser ou não a fé das pessoas.