terça-feira, 22 de outubro de 2013

O Chico Argentino


Não sou religioso. Vivo em uma eterna agnose, tendendo a crer, talvez pelo simples conforto que a crença em Deus e em vida pós mortem trazem. Ainda assim, nesta perspectiva de crer em algo, não seguiria nenhuma religião. Não concordo com nenhuma delas, seus passados, suas índoles ou suas interpretações do que dizem ser Escrituras Sagradas. Preferiria ter uma espécie de religião própria, pautada muito mais em atos do que em fé. No entanto, devo admitir, provavelmente por tradição e cultura familiar, quando faço uma promessa, ou busco uma liturgia qualquer, por um motivo qualquer, acabo no catolicismo, no qual fui batizado e catequizado. Mas, reforço, não sou católico. Muitas das coisas que a Igreja Católica fez, faz ou prega me desagradam profundamente. Não obstante, creio ter sido inadmissível o financiamento público da presença do Papa no Brasil.

Isso é uma coisa. É inegável, porém, e qualquer ser humano independentemente de religião pode perceber, a importância do Papa como figura pública para o mundo. Suas opiniões importam e fazem diferença no planeta, de modo que ser Papa, quer você queira ou não, exige muita responsabilidade e consciência. Não tenho nenhum problema em criticar ou elogiar papas. O João Paulo II, por exemplo, foi, apesar de seus erros, um bom pontífice, que, inclusive, com muita felicidade, pediu desculpa por vários atos da Igreja durante sua história, como o apoio à escravidão ou ao nazismo. Não meço, no entanto, palavras para criticar o sucessor do papa polonês, o alemão Bento XVI. O papa alemão, que havia feito parte da SS de Hitler, é um homem extremamente conservador e atrasado no tempo, afinal havia cresceu em na Alemanha nazista e, querendo ou não, a cultura autoritária faz parte de sua história. Na PUC, me lembro, alguns alunos costumavam referi-lo como “Papa Nazi”. O alemão, com seu conservadorismo arcaico, estava ganhando antipatia das pessoas e, consequentemente, a Igreja Católica perdendo fiéis.

Parecia óbvio que o Papa Bento XVI não duraria muito em sua posição. A história mostra que as religiões e igrejas só se perpetuam no tempo, mediante às mudanças nas  sociedades, de duas formas: através do medo e força, ou se adaptando às mudanças sociais de cada época. A Igreja Católica, historicamente, desde os movimentos reformistas que a contestou, optou pela adaptação. Bento XVI era atemporal, um tiro no pé. Não que sua capacidade intelectual e cultural seja menor que às de seus sucessores e antecessores, óbvio que não. Diga-se, um seminário é um bombardeio de conhecimento, filosofia e leitura, em que a fé dos seminaristas é testada à toda prova, o que é facilmente perceptível em qualquer conversa ou mesmo declaração dos sacerdotes com relação à economia, política, filosofia. Não é surpreendente, pois, quando um pontífice como Francisco concede uma entrevista esclarecida, demonstrando conhecimento sobre economia e política.

Não esperem, porém, por mais progressista que um homem religioso possa ser, uma postura totalmente aberta. Afinal, ele se baseia em uma instituição milenar e conservadora que é a Igreja. Por outro lado, um Papa, um pontífice ou religioso qualquer, não precisa, nem deve, ser reacionário. E a história recente mostra isso. Em tempos de ditaduras sulamericanas, embora grande parte da Igreja fosse reacionária e de direita, uma parte da Igreja, progressista, era contra o regime, ajudando, e muito, a militância de esquerda – dita ateia - , com a bendita teologia da Libertação.  A Igreja é feita por homens e estes, não importa o grau da fé e de instrução têm suas predileções e ideologias, ainda que, muitas vezes, sua ética pessoal e institucional possam entrar em conflito. Com efeito, a Igreja Católica é uma prova evidente disso ao longo da história que as instituições efetivamente se perpetuam na história pelo medo ou a adaptação ao mundo, não sendo, necessariamente, pontos excludentes. Ser temente à Deus e à morte sempre foi um argumento extraordinário à favor das Igrejas, e continua sendo, não importando qual a religião.

Por outro lado, existe uma outra forma de se manter uma religião e uma Igreja, forma esta que a Igreja Católica tem, ao longo dos anos, mostrado, mesmo que timidamente, às vezes casado com o medo, outras apenas se adaptando, que é, na medida do possível, acompanhar a sociedade em que se insere. Da Contra Reforma aos dias de hoje esse é o expediente predileto da Igreja Católica. Não é um expediente fácil, sobretudo quando se trata de uma Instituição milenar que, por mais atual que seja, tem que manter algumas liturgias arcaicas para não perder a razão de ser, não adianta querer que seja diferente, aliás nem tem que ser assim, você segue se quiser. O contrário que é o problema. Certa vez, em uma aula de Direito, um professor fez a feliz comparação: “se a sociedade fosse um trem, a publicidade seria a locomotiva e o Direito seria o último vagão”. Isso porque a,  publicidade tem que estar atenta às expectativas da sociedade e fazer de tudo para acompanhá-las, enquanto o Direito, por conta da segurança jurídica, tem que esperar que tais mudanças sejam consolidadas. Entretanto, creio eu, há um vagão atrás do Direito e este é o da Religião. Em suma, devagar a Igreja Católica tenta adaptar-se à sociedade em que vive sem, por outro lado, perder os conservadores fiéis de outrora. Habilmente a Igreja faz isso, sobretudo, nas figuras papais.

João Paulo II, por exemplo, enfim, desculpou-se, em nome da Igreja, pelas atrocidades cometidas aos judeus, aos ameríndios e aos negros. Foi um bom Papa. E não importa qual a religião, a figura papal é importante e suas opiniões e atitudes têm relevância em âmbito global, entre católicos ou não. A igreja sabe disso. Mas, após o falecimento de João Paulo, a cúpula do Vaticano pareceu retroceder alguns séculos na história. Elegendo para o papado o alemão  extremamente conservador Bento XVI. Bento, que havia sido parte da famigerada SS nazista – o que, no tempo dele, faça-se justiça, era obrigatório aos jovens germânicos.  De toda sorte, o papa não se mostrava e certamente não era antisemita. O que não exclui o fato de ter sido criado em uma cultura extremamente conservadora, de ter seus conceitos formados em uma Alemanha dominada pela intolerância. Ele é um homem ultra conservador. A crise era questão de tempo. 

Questões financeiras, problemas de pedofilia, escandâlos e mais escândalos começaram a aparecer na Igreja Católica todos os dias. Como conservador que era, dificlmente se abririam os conceitos da Igreja, bem como a própria Instituição. Portanto, não era de se esperar algo diferente de um homem inteligente como o ex-papa alemão que não a renúncia. Ali, querendo ou não, salvou a igreja de perder alguns milhões de fiéis. Afinal, O conservadorismo extremo e a vanguarda são as únicas maneiras de uma Igreja ou religião se perpetuar durante a história, muito mais do que a própria fé. As igrejas conservadoras obrigam seus fiéis  professarem a fé, através do medo e do autoritarismo, sentimento que, de tão intrínseco, chega a gerar um ódio venal aos que não a professam. A alternativa é, sem negar suas raízes, se adaptar à atualidade. Essa a adaptação não é negar sua tradição, mas sim saber interpretar e analisar o mundo tal qual sua realidade.  Assim como foi com João Paulo II, o Vaticano deu um passo à frente neste sentido, com o papa Argentino, Francisco, que, em pouco tempo, se mostrou muito inteligente e perspicaz.

Francisco, o argentino, se mostrou um papa do povo. Apaixonado por futebol, simples, pregou a simplicidade e uma reformulação da Igreja. De maneira brilhante, pregou a simplicidade dos sacerdortes, ressaltando que eles têm de estar perto das pessoas. E falar somente foi pouco. Ele demonstrou com ações e escolhas. No Brasil,  por exemplo, não quis luxos, ou isolamento. Além disso, diferentemente da maioria dos sacerdotes, não fugiu aos temas polêmicos, nem mesmo os que envolve a Igreja. Papa Francisco admitiu as falhas da Igreja, não se esquivou ou escondeu os problemas de corrupção e escandâlos do Vaticano. Afinal, como ele mesmo enfatizou, a Igreja é uma Instituição composta por seres humanos, que, como tal, são corrompíveis. Embora isso pareça óbvio, era essencial para a sustentação da popularidade da Igreja. O que me chamou a atenção mesmo é como o argentino se mostrou desinibido com assuntos espinhosos e, sobretudo, como ele, o líder da Igreja, não é tão fanático como seus fiéis. Este Papa foi o primeiro que, sem menor restrição e com muito bom humor, “brincou” com Deus. Ora, até pouco tempo era inimaginável um Papa dizer que entrou em acordo com o Brasil, que “se o Papa é argentino, Deus é Brasileiro”.

Papa Francisco, em sua visita ao Brasil, bem como em suas entrevistas, sobretudo as concedidas dentro do avião, provou que a religião não precisa ser intolerante ou retrógrada. Os religiosos não precisam ser preconceituosos, até porque a religião não é preconceituosa, as pessoas são. A interpretação dos livros sagrados, sejam eles cristãos, judaicos, islãs, ou mesmo das religiões africanas, indígenas, bruxarias, satânicos, não são livres. A interpretação, infelizmente, está subordinada aos sacerdotes e Igrejas, que as faz da maneira que os convém. Diferentemente do comum, mesmo dentro do próprio Vaticano, o Papa não pregou a fé pelo medo, mas pelas ações. De fato é algo respeitável, independentemente do que você queira acreditar. Capsciosamente, um repórter perguntou ao Papa sobre a homosexualidade e a fé cristã entre eles. O Papa, sabiamente, respondeu que ter fé e frequentar a igreja é um direito deles, e que ele, Papa, não tem o direito de julgar a orientação sexual das pessoas. Não é papel da religião salvar ou abraçar o mundo, julgar as pessoas ou curá-las. Até porque, ao pé da letra do que se prega nas Igrejas, sexo que não seja com intuito reprodutivo é pecado, independentemente da orientação sexual. Parabéns ao Papa que entendeu, para o bem de sua Igreja, que seu papel é se aproximar das pessoas e confortá-las quando elas buscam. A Igreja não é tribunal para julgar as pessoas, nem hospital para curá-las. O problema delas é querer assumir a condição de representantes legítimas de Deus com poder de julgar o certo e o errado, o bem e o mal. Que o Papa seja exemplo, para o Vaticano e para as outras Igrejas. As pessoas escolhem seguir ou não uma religião. As religiões jamais podem escolher ser ou não a fé das pessoas.