O Brasil sempre foi reconhecido internacionalmente como um país de ponta no futebol mundial. Acostumamos com os
melhores jogadores, o melhor jogo, os melhores times e, por isso, temos mais
títulos. Essa visão, historicamente consolidada, há muito é mera visão e, não
demora, deixaremos o posto de maior vencedor aos alemães. Certamente, isso
acarretará na redução do status do jogador e do futebol brasileiro no mercado
mundial. Há muito, não temos, como outrora, os melhores jogadores, as melhores
equipes, os melhores públicos ou a melhor seleção. Entretanto, mesmo que somente aos
nossos olhos, ainda somos e provavelmente sempre seremos o país do futebol.
Nas terras tupiniquins o esporte bretão
tem uma função social extremamente importante. E não é apenas aquela função
clichê de inclusão social pelo esporte. Até porque, no Brasil, essa inclusão
atinge uma minoria de pessoas que conseguem vencer como atletas profissionais.
Ainda menor, diga-se, são aqueles que, através dessa inclusão, conseguem ser
bem remunerados. Não sou contrário, ressalte-se, ao uso do futebol para isso. Pelo contrário, considero a ideia brilhante. Mas
não é essa função, ou melhor, inclusão social que o futebol já representa no Brasil. Pelo menos não
neste sentido.
Não é a primeira faz que faço essa
ressalva, mas o futebol brasileiro é um instrumento de justiça social na
medida em que é a única identidade comum entre ricos e pobres, onde todos somos
iguais. No estádio somos todos iguais. Em um gol, não interessa se ao seu lado
está o seu chefe o seu subordinado. A alegria e a tristeza são compartilhadas
indistintamente, e um mero desconhecido vira seu melhor amigo por um segundo.
Portanto, a construção de estádios, a
promoção e organização de campeonatos, a formação de atletas, são, sim,
responsabilidade do Estado. Óbvio que feito de maneira transparente e
minimamente razoável, bem distinto da maneira atual. Construir um estádio para
uma agremiação é um absurdo, sobretudo da maneira que foi feita para o
Corinthians. O patrocínio de empresas públicas à equipes que devem o fisco é
igualmente questionável.
Por razões óbvias, jamais exigiria um
tratamento igual ao governo alemão deu ao futebol no país, investindo mais de 1
bilhão de euros em futebol nos últimos 10 anos. Entretanto,
não há como concordar com aqueles que insistem “o Estado tem mais coisas para
se preocupar”, “futebol não é questão de estado”. Claro que é. Na medida em que
a promoção da cultura, esporte (por mais que sejam negócios) e a integração
social são obrigações do Estado.
Ainda que negócio, ainda que organizado
por instituições privadas, o futebol exerce uma função social que exige sim intervenção
e investimento estatal. Se o Estado já
regulou o futebol através da Lei Pelé, se o Estado tem de atuar em questões
judiciais e até de segurança pública referentes ao futebol, se existe até
uma “bancada da bola,” não faz o menor sentido se abster em outras questões
cruciais.
Atualmente, no estágio em que nosso
futebol se encontra, a intervenção estatal se faz cada vez mais necessária. Não
digo, como muitos pretendem, perdão de dívidas, isenção fiscal nem nada disso. Entretanto,
não podemos eximir os dirigentes de futebol das leis fiscais, das improbidades
administrativas, dos problemas trabalhistas que envolve jogadores e funcionários;
os contratos duvidosos...
Embora muitos possam achar
que não seja questão governamental, é necessário uma regulamentação para o
padrão de segurança e conforto nos estádios, os preços dos ingressos, e até
mesmo subsídios. Estamos falando e entretenimento, cultura e integração que
estão diretamente ligado ao povo. Uma questão que, querendo ou não, gostem ou não,
no Brasil é social. Já sabemos que mesmo os outros eventos culturais têm preços
impossíveis de serem desfrutados à maior parte da população. O futebol, outrora
do povo, uma alternativa, tem, no Brasil, os ingressos mais caros do mundo. E não é segredo
que a elevação desses preços está diretamente relacionado à uma limpeza étnica
e social nos estádios, ao meu ver, discriminatória e ineficaz, para reduzir a violência.
Ora, se isso não for questão de Estado,
não sei o que é.