sexta-feira, 30 de janeiro de 2015

Porquoi je suis Charlie?

Parce que “Je ne suis pas d’accord avec ce que vous dites, mais je me battrai jusqu’à la mort pour que vous puissiez le dire”.

Passado o grande estardalhaço dos acontecimentos, esta famosa frase atribuída à Voltaire (“Posso não concordar com o que dizes, mas defenderei até a morte seu direito de dizê-las”) resume bem o meu sentimento com relação aos atentados ocorridos na França. Essa frase e o princípio básico de “não faça com os outros o que você não gostaria de fazer com você”.

Ora, não há nada no mundo que escape às sátiras dos humoristas, chargistas e produtores ao redor do mundo. Não nem como argumentar que o Cristianismo está isento disso. Basta assistir à televisão. Várias e várias sátiras ao cristianismo já foram feitas pelos Simpsons, Family Guy ou, para não sair do Brasil, o Portal dos Fundos. Nem mesmo os judeus escapam das afiadas sátiras do mundo ocidental. Em um episódio de “The Cleveland Show”, por exemplo, um garoto ao conhecer um judeu diz: “isso é uma religião? Pensei que fosse só o jeito de xingar alguém.”

O tratamento dado ao islã, concorde ou não com ele, é o mesmo às religiões infiéis à Alá.... Não conhecia o Charlie Hebdo até o dia do atentado, desconheço suas caricaturas e nem tenho interesse em conhecê-las, em concordar ou em discordar delas. Mas, com todo o respeito, se alguém faz caricatura do islã são esses terroristas. Tanto que se preocupam em atentar contra um lápis...

Conheci um país de maioria islâmica, como já relatei aqui. Óbvio tive o choque que o diferente proporciona, mas fiquei muito bem surpreendido. Conheci as mesquitas, com o respeito e as regras que elas pressupõem (não se pode entrar calçado, por exemplo). Ouvi os chamados para as rezas diárias, que não eram obrigatórias, embora mesmo as pessoas de outras religiões, obviamente sem parar o que estavam fazendo, faziam menos barulho. Vi mulheres muçulmanas vestidas como ocidentais. Outras completamente cobertas. Questão de opção. Aliás, apesar da maioria brutal islâmica, convivem sinagogas, igrejas católicas e mesquitas em harmonia.

Um povo feliz e com uma cultura vasta. Muito além da cultura do Islã. Cultura de cada uma de suas etnias, afinal, não são só os árabes os povos muçulmanos, não são só árabes os povos do Oriente Médio, tampouco os árabes são exclusivamente muçulmanos. Existem, por exemplo, muitos judeus árabes nascidos em Israel.

O que está em jogo no terrorismo não é a religião. É simplesmente uma questão de poder. No fim sempre é. Deus, Alá, Jesus, Moisés são apenas desculpas. Diga-se de passagem, desculpas que não são aceitas pela grande maioria dos muçulmanos.

Aliás, quem me disse que os terroristas são os verdadeiros caricaturistas do islã, foi uma jovem muçulmana, com curso superior, que se vestia como uma ocidental, mas que frequenta a mesquita e ora por Alá. Durante uma conversa sobre ocidente e oriente, da qual nunca esquecerei, ela disse, em inglês, as seguintes palavras

"You know we are who most suffer from those terrorists. A little group of people makes you create a horrible stereotype of us. It is incredible how you let this little group be our image to the world...”

“Sabe, nós somos quem mais sofre com esses terroristas. Um pequeno grupo de pessoas fazem vocês criarem um estereótipo da gente. É incrível como vocês deixam esse pequeno grupo ser nossa imagem para o mundo”.

Daquele dia em diante nunca mais deixei.


Lembrei dessa conversa quando vi uma notícia de uma muçulmana apedrejada em São Paulo e pensei: realmente não é o Charlie Hebdo ou qualquer outro jornal o caricaturista de Alá.



PS: Se um simples texto tem espaço para tanta coisa diferente, não é no mundo que o espaço vai faltar.

segunda-feira, 26 de janeiro de 2015

As Chibatas

Aqui, agoniado, estou preso.
Um lugar fechado, cuja luz do sol quase não entra e meu único consolo é o ar condicionado.
Com o mundo me comunico pelo computador.
Aqui está cheio de gente, mas é como se não houvesse ninguém.
Olho para todos e todos continuam olhando para a tela, tão agoniados quanto eu.

Não existem aqui objetivos ou metas. Só as horas.
Antes de 9, nada posso fazer. Depois de que ele marca às 19, tenho de interromper.
Não posso fazer nada fora desse tempo, fora desse lugar. Mesmo que, durante todo esse tempo, só consiga, efetivamente, aproveitar um quarto.
Mas não vendo trabalho, não vendo concentração. Vendo o tempo. Vendo porque me obrigam a vender.

Enquanto isso, nessa senzala moderna, ele me vigia.
Fico olhando para eles
Eles olhando para mim.
São vários deles. Carrego-o comigo em meu pulso, enquanto olho para outro na parede e um em minha tela.
Estão todos sincronizados, mas sigo conferindo-os todo o tempo.
O tempo custa a passar, o tempo que vendi, quase de graça, o tempo que não recupero, o tempo que eu desperdicei.

Continuo aqui, olhando para o nada. Sou um escravo.
Mas o senhores agora não são senhores de terra. São senhores do tempo.
E o controle não é mais a chibata.
É o relógio.
Não posso fazer fora de sua determinação.  
Não posso sair do lugar fora de suas ordens e limites.

Maldito relógio.
Malditas horas desperdiçadas.
Em pensar que, em metade deste tempo, poderia fazer tudo muito melhor.
Mas o senhor não senhor do meu trabalho, é senhor do meu tempo.

Os ponteiros do relógio giram, em um tic-tac assombroso e perturbador.
Um som misturando aos de vários e vários dedos digitando, centrados em suas telas, concentrados em seus fones.
Quão barato é o tempo... O bem mais precioso, o bem mais barato...

Não é mais a força, produtividade ou capacidade que determina o valor do escravo.
Seu valor é determinado por quanto tempo ele tem disponível.
Enquanto isso, a vida passa lá fora.

E seu tempo passa com ela. 

segunda-feira, 12 de janeiro de 2015

O Sol e a Peneira

O mês de Janeiro é especial para todos nós. Todos os “Is” cobrados pelo governo aparecem de uma vez, logo no primeiro mês do ano, para acabar com o nosso orçamento. Sinto, ainda, como todo microempresário, ter um sócio a mais, chamado Governo Federal. Todos nós temos este sócio em nossas vidas, por conta da carga tributária brasileira. Dizem, e não duvido, trabalhamos três meses apenas para pagar imposto. Algo inimaginável em um país como o Brasil. Por conta disso, e há anos escutamos a mesma proposta de todos os políticos, todos clamam pela reforma tributária. Entra ano e sai ano e é a mesma história, que, obviamente, nunca sai do lugar.

Na maioria dos países do mundo a lógica é simples. Países com muito tributos em geral proporciona qualidade de vida alta aos seus habitantes através de serviços públicos. Países com carga tributária mais baixa, por sua vez, exige das pessoas que elas gastem seu próprio dinheiro para isso. Óbvio. Se o governo arrecada muito, por conseguinte, tem condições de oferecer serviços públicos de qualidade e gratuitos à população. Os que arrecadam pouco, por sua vez, aliviam o bolso das pessoas, tirando-as o imposto e deixa o povo com mais dinheiro na mão, assim, embora não possa prover serviços tão bons, proporciona à população condição de sobra para pagar por seus serviços e ainda ter dinheiro.

O grande vilão, então, analisando friamente, não são, necessariamente, os impostos. Em países como o Canadá e os escandinavos, a carga tributária é alta, mas todos vivem bem. Afinal, embora paguem muito ao governo, não precisam pagar plano de saúde, escola, pedágio, nem gastar fortunas com segurança domiciliar. O dinheiro pago ao governo é retornado em benefícios. Assim, todo o dinheiro que sobra é gasto ao bel prazer do contribuinte.

Não menos razoável é a política de países com carga tributária bem menor, mas com serviços públicos muito menos eficientes. Assim, o dinheiro não gasto com imposto se transforma em gasto com alguns dos serviços que poderiam ser providos pelo Estado, entretanto, com uma quantidade de dinheiro bem maior, ainda sobra para os gastos pessoais. Há uma equivalência simples entre os sistemas

Mas no Brasil, para variar, o caso é um tanto quanto diferenciado. Pagamos fortunas para não ter o retorno. Não ligaria de pagar os impostos se não precisasse gastar com plano de saúde, seguro de carro, pedágio e todos os outros serviços idealizados por nossa Constituição. Mas não é isso o que acontece. O dinheiro que “investimos” compulsoriamente no Estado se transforma em aumento e reajustes salariais dos parlamentares, em propinas e corrupção.

Acabar com os tributos e transformá-los nos grandes vilões é tapar o sol com a peneira. Com menos tributos, e menos serviços, pouca coisa mudaria. Afinal, aqui temos os "poréns" dos dois sistemas supracitados, sem os benefícios. Pagamos imposto e os serviços particulares. O verdadeiro ponto é transformar os tributos em prestação de serviços de qualidade ao povo ou acabar de vez com tudo. J

Justamente, por isso não teremos reforma tributária. Os politícios, vão, óbvio, sempre justificar os impostos com os custos do Estado e mais um monte de questões da economia mundial,   entretanto, o que é verdadeiramente custeado pelos nossos impostos é a boa vida dos políticos, partidos e aspones, não importa o partido.


Óbvio, e não como discutir, a Reforma Tributária é fundamental e necessária; entretanto, a principal reivindicação não é clamar pelo fim dos impostos. Esta é só a peneira para o nosso sol. Sol chamado corrupção. Por isso, antes de clamar fervorosamente pela reforma, é essencial  exigir que esse dinheiro que investimos através de impostos nos seja retornado em serviços.