Aqui, agoniado, estou preso.
Um lugar fechado, cuja luz do sol quase
não entra e meu único consolo é o ar condicionado.
Com o mundo me comunico pelo computador.
Aqui está cheio de gente, mas é como se
não houvesse ninguém.
Olho para todos e todos continuam olhando para a tela, tão agoniados quanto eu.
Não existem aqui objetivos ou metas. Só as
horas.
Antes de 9, nada posso fazer. Depois de
que ele marca às 19, tenho de interromper.
Não posso fazer nada fora desse tempo,
fora desse lugar. Mesmo que, durante todo esse tempo, só consiga, efetivamente,
aproveitar um quarto.
Mas não vendo trabalho, não vendo
concentração. Vendo o tempo. Vendo porque me obrigam a vender.
Enquanto isso, nessa senzala moderna, ele
me vigia.
Fico olhando para eles
Eles olhando para
mim.
São vários deles. Carrego-o comigo em meu pulso, enquanto olho para outro na parede e um em minha tela.
Estão todos sincronizados, mas sigo
conferindo-os todo o tempo.
O tempo custa a passar, o tempo que
vendi, quase de graça, o tempo que não recupero, o tempo que eu desperdicei.
Continuo aqui, olhando para o nada. Sou
um escravo.
Mas o senhores agora não são senhores de
terra. São senhores do tempo.
E o controle não é mais a chibata.
É o relógio.
Não posso fazer fora de sua determinação.
Não posso sair do lugar fora de suas ordens
e limites.
Maldito relógio.
Malditas horas desperdiçadas.
Em pensar que, em metade deste tempo,
poderia fazer tudo muito melhor.
Mas o senhor não senhor do meu trabalho,
é senhor do meu tempo.
Os ponteiros do relógio giram, em um
tic-tac assombroso e perturbador.
Um som misturando aos de vários e vários
dedos digitando, centrados em suas telas, concentrados em seus fones.
Quão barato é o tempo... O bem mais
precioso, o bem mais barato...
Não é mais a força, produtividade ou
capacidade que determina o valor do escravo.
Seu valor é determinado por quanto tempo
ele tem disponível.
Enquanto isso, a vida passa lá fora.
E seu tempo passa com ela.