terça-feira, 24 de fevereiro de 2015

15 minutos eternos

Todos os dias aumento a crença de que, no Brasil, o ostracismo é opcional. As sub-celebridades se proliferam e, a não ser que queiram, mantém sua fama por muito mais do que os 15 minutos. Bem da verdade, se quiserem mantém-se nos holofotes o quanto quiserem. Basta, vez por outra, através de um assessor de imprensa, ou mesmo das redes sociais, fazer uma ou outra bobagem, entrar em alguma polêmica. Até porque, mais do que uma imprensa específica, existe aqui uma emissora de televisão que vive disso.

Além disso, a falta de pauta, ou a falta de interesse nas verdadeiras pautas, fazem essas pessoas eternas na mídia. Basta abrir qualquer página de qualquer grande portal de comunicação brasileiro. Sempre terão notícias da vida particular de gente que, alguma vez na vida, apareceu por 15 minutos na televisão. O pior é que, por conta dessa exposição excessiva, a opinião dessas pessoas passam a ganhar uma relevância absurda, ainda que tais opiniões, sejam, como a minha e a sua, discutidas no boteco, baseadas apenas nas próprias impressões.

Não é difícil ser famoso no Brasil. O complicado é perder a fama. Se estiver prestes à isso, basta um email release com uma opinião forte ou ridículo sobre um assunto importante, ou se oferecendo para participar de algum programa de televisão de certos canais, ou mesmo entrevistas para um ou outro e blog e pronto. Você está de volta à mídia.

Uma das maiores provas de que a fama no Brasil não exige esforço é o caso da Geisy Arruda. Alguém se lembra como ela se tornou famosa? Bom, para as os esquecidos, ela brotou na mídia por ter sido hostilizada por outros alunos na faculdade onde estudava, a UNIBAN, por estar com um vestido extremamente curto. Estava criada mais uma celebridade, que hoje é notícia e que vive dessa fama.

Todos os Janeiros tem o BBB, produtor de celebridades instantâneas. E ganhar o programa não é nem fundamental para isso. Basta lembrar que Sabrina Sato e Grazi Massafera, as duas mas bem sucedidas ex-Big Brothers, não ganharam. Ainda assim, os ex-participantes, quando querem, surgem na mídia, sobretudo em canais menos expressivos, para falar de um assunto qualquer.

Cair no Ostracismo após seus 15 minutos de fama é incompetência ou opção. Aliás, os 15 minutos de fama estão cada vez mais fáceis de se conseguir. Em tempos de reality show, que de realidade só tem o nome, de carência de verdadeiros talentos,já que corpos e rostos bonitos facilmente o sobrepujam, as pessoas, mesmo que inconscientemente querem ver gente comum e alimentar suas próprias esperanças de ascender a fama.

No entanto, uma vez famoso a pessoa transcende o nível dos reles mortais, com seus ônus e bônus. Qualquer um tem o poder de aparecer. O difícil é sumir. Depois de galgar o mínimo sucesso – mesmo pela repulsa – é preciso trabalhar para voltar ao ostracismo. Aí, meus caros, qualquer merda que você fala é relevante à humanidade.

E é isso o que incomoda. Pouco importa a criação de celebridades ou programas que fomentam esse processo. Isso é televisão, show business, e, como tal, se rentável, tem de ser feito. Aos que não gostam, opções de outras coisas para se fazer ou assistir não faltam. O verdadeiro problema da falta de ostracismo é perceber como a opinião dessas pessoas, sobre o assunto que for, passa a ser relevante à humanidade, como se fossem verdadeiros especialistas. Verdadeiros formadores de opinião sobre tudo, sem saber nada, sem a menor qualificação para isso.


sexta-feira, 13 de fevereiro de 2015

Estou aqui e não me arrependo



Meu recado é aos democratas politizados de última hora, para os quais eleições e política são tratadas com a passionalidade devotada a um time de futebol. Aqueles a procura de um eleitor da Dilma, que, com deboche, alegam terem sumido. Pois então, me apresento aqui como um dos eleitores dela e, em momento nenhum, me arrependi deste voto. Sou, conforme alguns recém apaixonados por política e pesquisa, um dos 80% que manteria e repetiria o voto se as eleições fossem hoje.

Não me escondo, não omito, e, à despeito dos apaixonados irracionais de plantão, não tenho nenhum motivo para isso. Me desculpem. Pela enésima vez, insisto, insatisfação não é sinônimo de arrependimento. Os que teimam em não entender isso deviam, em vez de  eleitores da Dilma, procurar um dicionário. Eleição e política não são como futebol, ao menos não deveriam ser. Não se deve entregar-se à passionalidade, defesas e ataques sem razão. Ora, seu time de futebol pode ser o melhor ou o pior, continuará sendo o seu. Você não mudará e uma discussão de bar ou piadas em redes sociais, além da diversão e gozação não vai levar a lugar nenhum. Política é diferente. A discussão acerca dela, por sua vez, deveria chegar em algum lugar, analisar argumentos, ainda que as conclusões e opiniões seja diferentes no fim.

Farei, contudo, o movimento inverso. Esqueçam por um minuto a insatisfação e o arrependimento. Não há razões para sermos situação ou oposição se nem os partidos o são. Afinal, sempre há uma inexplicável conciliação partidária quando o tema favorece aos parlamentares. Ou algum partido faz algum discurso veemente com relação a algum aumento de salarial e verbas indenizatórias dos parlamentares? Não. E gente de todos os partidos votam pela mesma coisa. Incrível. Outro exemplo é a recente discussão sobre as dívidas dos clubes de futebol. A situação, de onde surgiu a proposta, foi boicotada por um de seus congressistas, que propôs uma readequação do projeto em benefício aos clubes. Ele aderiu à oposição? Não. Mas ele é da bancada da bola. E essa bancada não tem partido. Como também não tem a bancada evangélica, católica, ruralista...

Até aqui, são apenas constatações. Sem o menor juízo de valor. Voltemos ao arrependimento e insatisfação. Como a grande maioria das pessoas, estou, sim, insatisfeito com o governo e com seus representantes. Muito insatisfeito. E não é de hoje. Aliás, nunca estive satisfeito com nenhum dos governos desde que me entendo por gente. Nunca fui petista, não sou nem pretendo. O último turno da última eleição foi a primeira vez em que votei 13. Nos outros segundos turnos, votei nulo em e nos primeiros votei em um candidato diferente em cada uma delas.  

Estou sim insatisfeito com governo e com o PT, mas não me culpo nem me arrependo. Os recém apaixonados pela democracia têm que aprender que os eleitores da Dilma, ou de qualquer outro candidato vencedor, têm o mesmo direito de se indignar e o mesmo dever de criticar e protestar. Aliás, sob nenhuma hipótese estar insatisfeito com a Dilma me fará arrepender de não ter votado no Aécio. E esse foi meu verdadeiro voto. Não votaria nele sob nenhuma circunstância. Na sinuca de bico em que estávamos, entre dois governantes cujos governos foram péssimos, horríveis, fui obrigado a colocar tudo na balança. E o resultado foi: por pior que tenha sido o governo da Dilma para o Brasil, certamente não foi pior do que o governo do Aécio para Minas.

Além do mais, se o resultado das eleições fosse outro, o que aconteceria de tão diferente? Não acredito que as empreiteiras e seus favorecimentos desapareceriam. Afinal, eles têm muito dinheiro e muito interesse político e econômico em obras públicas. E a política econômica idem. Afinal, para os leigos, o ministro da economia estava na equipe do candidato da oposição, ajudou a formular seu plano e estaria no governo.

Não justifica os erros do governo, tampouco reduz a minha indignação. Mas é fato. E realmente não dá para esperar coesão e lisura de ninguém nesse meio. A própria campanha se mostrou assim. Ora a Marina foi tachada por muito tempo como “a Dilma com outra roupa”, pois tanto ela quanto seu partido já haviam feito parte do governo. Entretanto, no primeiro dia do segundo turno, os mesmos acusadores foram à televisão agradecerem e dizerem-se honrados com o apoio da candidata.

Sinceramente, diante disso tudo, concordei, pela primeira ou segunda vez com o Boechat e a Band, cujas linhas de pensamento e editoriais diferem muito das minhas, quando, acerca a discussão no senado entre Aécio e Renan Calheiros, disse: “quando vejo isso tenho duas sensações. A primeira é de que eu gostaria que os dois morressem. A segunda é de que os dois estão certos.”

 Isto posto, à parte minha opinião de que o problema é apartidário e impessoal, é, antes, um problema institucional, muito maior do que imaginamos; chega a ser ridículo o movimento por impeachment de um mandato de um mês após uma eleição que, quer queiram quer não, foi legítima. E olha que, no geral, além da insatisfação, tenho sido muito contra as medidas do atual governo, inclusive àquelas que sempre fizeram parte da agenda de oposição.

Mas é assim mesmo. Gente que trata política como futebol, independentemente do lado em que esteja, não sabe perder, não sabe diferenciar insatisfação de arrependimento, defende seu candidato às últimas consequências, ataca ao outro com a mesma voracidade, chega a torcer para tudo errado só para atacar os outros, afinal os outros são menos esclarecidos, portanto culpados e inferiores.

A vocês meus parabéns. E saibam que continuo aqui, insatisfeito com o governo, sem o menor pingo de arrependimento do meu voto, de peito aberto e achando cada vez mais graça da busca incessante por eleitores da Dilma, que só mostra o quão valioso é o conceito de democracia para vocês. 

Qualquer coisa, reclamem com o Papa.