Meu recado é aos democratas politizados
de última hora, para os quais eleições e política são tratadas com a
passionalidade devotada a um time de futebol. Aqueles a procura de um
eleitor da Dilma, que, com deboche, alegam terem sumido. Pois então, me apresento
aqui como um dos eleitores dela e, em momento nenhum, me arrependi deste voto.
Sou, conforme alguns recém apaixonados por política e pesquisa, um dos 80% que
manteria e repetiria o voto se as eleições fossem hoje.
Não me escondo, não omito, e, à
despeito dos apaixonados irracionais de plantão, não tenho nenhum motivo para
isso. Me desculpem. Pela enésima vez, insisto, insatisfação não é sinônimo de
arrependimento. Os que teimam em não entender isso deviam, em vez de
eleitores da Dilma, procurar um dicionário. Eleição e política não são como futebol,
ao menos não deveriam ser. Não se deve entregar-se à passionalidade, defesas e
ataques sem razão. Ora, seu time de futebol pode ser o melhor ou o pior,
continuará sendo o seu. Você não mudará e uma discussão de bar ou piadas em
redes sociais, além da diversão e gozação não vai levar a lugar nenhum.
Política é diferente. A discussão acerca dela, por sua vez, deveria
chegar em algum lugar, analisar argumentos, ainda que as conclusões e opiniões seja diferentes no fim.
Farei, contudo, o movimento
inverso. Esqueçam por um minuto a insatisfação e o arrependimento. Não há
razões para sermos situação ou oposição se nem os partidos o são. Afinal,
sempre há uma inexplicável conciliação partidária quando o tema favorece aos
parlamentares. Ou algum partido faz algum discurso veemente com relação a algum
aumento de salarial e verbas indenizatórias dos parlamentares? Não. E gente de todos os partidos votam pela mesma coisa. Incrível. Outro exemplo
é a recente discussão sobre as dívidas dos clubes de futebol. A situação, de
onde surgiu a proposta, foi boicotada por um de seus congressistas, que propôs
uma readequação do projeto em benefício aos clubes. Ele aderiu à oposição? Não.
Mas ele é da bancada da bola. E essa bancada não tem partido. Como também não
tem a bancada evangélica, católica, ruralista...
Até aqui, são apenas
constatações. Sem o menor juízo de valor. Voltemos ao arrependimento e
insatisfação. Como a grande maioria das pessoas, estou, sim, insatisfeito
com o governo e com seus representantes. Muito insatisfeito. E não é de hoje.
Aliás, nunca estive satisfeito com nenhum dos governos desde que me entendo por
gente. Nunca fui petista, não sou nem pretendo. O último turno da última eleição foi a
primeira vez em que votei 13. Nos outros segundos turnos, votei nulo em e nos primeiros votei em um candidato diferente em cada uma delas.
Estou sim insatisfeito com
governo e com o PT, mas não me culpo nem me arrependo. Os recém apaixonados
pela democracia têm que aprender que os eleitores da Dilma, ou de qualquer
outro candidato vencedor, têm o mesmo direito de se indignar e o mesmo dever de
criticar e protestar. Aliás, sob nenhuma hipótese estar insatisfeito com a
Dilma me fará arrepender de não ter votado no Aécio. E esse foi meu verdadeiro
voto. Não votaria nele sob nenhuma circunstância. Na sinuca de bico em que
estávamos, entre dois governantes cujos governos foram péssimos, horríveis, fui
obrigado a colocar tudo na balança. E o resultado foi: por pior que tenha sido
o governo da Dilma para o Brasil, certamente não foi pior do que o governo do
Aécio para Minas.
Além do mais, se o resultado das
eleições fosse outro, o que aconteceria de tão diferente? Não acredito que as empreiteiras
e seus favorecimentos desapareceriam. Afinal, eles têm muito dinheiro e muito
interesse político e econômico em obras públicas. E a política econômica idem.
Afinal, para os leigos, o ministro da economia estava na equipe do candidato da
oposição, ajudou a formular seu plano e estaria no governo.
Não justifica os erros do
governo, tampouco reduz a minha indignação. Mas é fato. E realmente não dá para esperar
coesão e lisura de ninguém nesse meio. A própria campanha se mostrou assim. Ora a
Marina foi tachada por muito tempo como “a Dilma com outra roupa”, pois tanto
ela quanto seu partido já haviam feito parte do governo. Entretanto, no
primeiro dia do segundo turno, os mesmos acusadores foram à televisão agradecerem
e dizerem-se honrados com o apoio da candidata.
Sinceramente, diante disso tudo,
concordei, pela primeira ou segunda vez com o Boechat e a Band, cujas linhas
de pensamento e editoriais diferem muito das minhas, quando, acerca a discussão
no senado entre Aécio e Renan Calheiros, disse: “quando vejo isso tenho duas
sensações. A primeira é de que eu gostaria que os dois morressem. A segunda é
de que os dois estão certos.”
Isto posto, à parte minha opinião de que o problema
é apartidário e impessoal, é, antes, um problema institucional, muito maior do que
imaginamos; chega a ser ridículo o movimento por impeachment de um mandato de um
mês após uma eleição que, quer queiram quer não, foi legítima. E olha que, no geral, além da
insatisfação, tenho sido muito contra as medidas do atual governo, inclusive
àquelas que sempre fizeram parte da agenda de oposição.
Mas é assim mesmo. Gente que trata política
como futebol, independentemente do lado em que esteja, não sabe perder, não
sabe diferenciar insatisfação de arrependimento, defende seu candidato às últimas
consequências, ataca ao outro com a mesma voracidade, chega a torcer para tudo
errado só para atacar os outros, afinal os outros são menos esclarecidos, portanto culpados e inferiores.
A vocês meus parabéns. E saibam
que continuo aqui, insatisfeito com o governo, sem o menor pingo de
arrependimento do meu voto, de peito aberto e achando cada vez mais graça da
busca incessante por eleitores da Dilma, que só mostra o quão valioso é o conceito
de democracia para vocês.
Qualquer coisa, reclamem com o Papa.