O processo já foi mais lento e mais gradual, mas, atualmente, está cada vez mais rápido, escancarado e insuportável: estamos virando um país politicamente chato. Primeiro foi o humor, agora o carnaval. Se antes havia uma linha tênue, difícil de se enxergar, entre o mau gosto e a diversão, hoje essa linha está cada vez mais apagada, uma vez que, a priori, tudo virou mau gosto, tudo sempre levado pelo lado ruim.
Em pleno carnaval, as redes sociais efervesciam e repercutiam comentários político-partidários - nojentos em via de regra -, fantasia dos outros e falso moralismo. Era carnaval! Carnaval! A linha tênue, antes entre mau gosto e diversão deslocou: a nova divisão está entre ser consciente e ser depressivo, eterno insatisfeito.
Um dos comentários mais replicados entre os depressivos politicamente chatos dizia respeito à quantidade de pessoas nas ruas para festa, em relação à quantidade de pessoas nas ruas em manifestações pedindo, por exemplo, saúde e educação.
Por partes: quer dizer, então, que, como não temos saúde e educação de qualidade, já que o país é uma merda, eu não posso me divertir? Seguindo essa lógica, do dia que eu nasci até hoje eu nunca teria me divertido e provavelmente já teria pulado do prédio, porque, desde que me entendo por gente o Brasil é considerado uma merda. Pelo que eu entendi, além de não termos serviços públicos de qualidade, temos também que nos privar de diversão? Da válvula de escape do dia-a-dia macabro? Se formos nos divertir só depois que o consertarmos o Brasil, morreremos sem dar um sorriso, até porque, o ser humano nunca está satisfeito nem estará, é de sua natureza.
Isso para mim já é o suficiente para refutar tamanha bobagem replicada nas redes sociais, mas, o pior de tudo, é que essa afirmativa se trata de uma falácia, provavelmente de quem, com consciência pesada por não fazer nada para mudar o país, acha que vai mobilizar o mundo pelo Facebook. Ora, nos últimos tempos, bem ou mal, o Brasileiro foi às ruas. E, por milhões de motivos óbvios, a mobilização será invariavelmente menor do que a do carnaval. A mais simples das razões é o fato de no carnaval os objetivos de todos serem os mesmos. Quem vai à rua no carnaval, vai tão somente para se divertir. Os protestos, em geral, acabam tomando cunho político, partidário e algo facilmente manipulável como informação. Ora, podemos ter ideais políticos distintos, então por que vamos à mesma manifestação? Se eu sou contra a corrupção, a favor da saúde e da educação, mas contra o impeachment, por que iria em uma dessas manifestações em que toda a mídia vai generalizar as reivindicações? Não faz sentido. Ainda assim, reitero, ter problemas não nos retira o direito à diversão.
Outra manifestação risível foi o coro de algumas pessoas dizendo-se envergonhadas por viver em um país que não se pode amamentar em público, mas pode se mostrar os seios em fantasia de carnaval. Mais do que um falso moralismo, essa ideia é uma inversão de valor. Ora, não é vergonha. Pelo contrário, devíamos usar o exemplo do carnaval para sustentar o direito à amamentação em público. Se a sociedade se porta com naturalidade com relação aos seios ou mesmo aos trajes das mulheres no carnaval, isso quer dizer que esse comportamento deve e pode ser replicado no resto do ano. Não parece muito difícil de entender.
Por fim, a mais ridícula das situações, o questionamento ao pai de uma criança com relação a fantasia do filho. Às vezes o preconceito está nos olhos de quem vê. A prova disso é simples: se o menino fosse loiro, haveria a mesma reação? Óbvio que não. Não há, em sã consciência, como imaginar naquela situação um pai querendo promover o preconceito contra o próprio filho. O que ficou claro é que as pessoas velam seus próprios preconceitos e os projetam nos outros.
Particularmente custei a entender a situação. Vou ser sincero, não me lembrava do macaquinho na história do Aladim. Quando vi a foto o meu primeiro pensamento foi de que o filho simplesmente replicou a fantasia do pai, um "Aladinzinho". Depois, quando entendi, vi o tanto que a maldade está na cabeça das pessoas. Quer dizer que uma fantasia, por exemplo, de gorila, macaco, ou qualquer coisa do tipo só pode ser usada se a pessoa não for negra? Bom tenho uma prima que adora subir em árvores, construções, tem uma habilidade ímpar para isso. O pai dele brinca que ela é uma “macaquinha”. Sério, a cor dela não interessa, mas pensando como essas pessoas, se ela for loira, nada demais. Se ela for negra, o pai tem que ser preso. Para mim fica claro que só viu preconceito naquela situação quem realmente associa negro ao macaco.
Não precisamos nos culpar por nos divertir. Não temos que viver a vida cheio de amarras. As pessoas hoje são capazes de julgar à inteligência das outras até pelo programa de televisão que assistem. Não é porque sou graduado que tenho que passar meus momentos de descontração assistindo documentários no Discovery. Não é porque tenho um milhão de problemas que tenho que passar o carnaval chorando no Facebook. Precisamos ser mais leves, menos hipócritas e preocupar mais com as coisas que realmente são preocupantes e em seu momento. Hoje, cada vez mais, estamos vivendo (ou perdendo a vida) sob patrulha do politicamente correto, que, traduzindo para a minha língua, significa politicamente hipócrita.