segunda-feira, 30 de maio de 2016

Onde estão panelas?

Onde estão as panelas?
Cadê o povo na rua?
Será que o povo se satisfez com tão pouco?
Se deu por vencido, ou se sentiu vencedor? Às vezes está envergonhado... 
De toda forma, não é porque você percebeu que foi usado que você não pode protestar. Pode. Deve. Afinal, você foi enganado. Ou era esse o Brasil que você queria? Era isso que você esperava com o tal impeachment?
Se você foi a favor do golpe, pode voltar atrás, tem direito de continuar reclamando. Mas eu não ouço as panelas.
Não vejo ninguém nas ruas pedindo o fim da corrupção e o impeachment do Temer por conta das suas pedaladas.
Não ouço as panelas tilintarem em um som insuportável quando o ministro da Transparência – o Brasil não tem um ministério da cultura, mas tem o ministério da transparência – criticava a operação Lava-Jato. Acho que nesse momento, as panelas fritavam coxinhas. Era óbvio. Ao cumprir a primeira parte, a Lava-Jato tirou do caminho quem importava. Agora que chegou neles, não presta. São dois pesos e duas medidas. Mas a gente sabia, não sabia? Falta de aviso não foi. E não falo dos defensores do governo Dilma que, tão cegos quanto os coxinhas, justificavam seus erros apontando os erros dos outros...
Não vi cartazes falando sobre o simbolismo de um ministério sem minorias, nem choradeira quando o advogado do PCC foi chamado para a equipe do governo! Ninguém bateu panela quando o estilo "bela, recatada e do lar" foi imposto como objeto de desejo goela a baixo. Os símbolos falam, estão aí para avisar, para te acostumar.
Pouco tempo depois o Alexandre Frota discutia os rumos da educação e cultura do país (aliás ele é a coisa mais próxima de um ministro da cultura que temos) e um estupro coletivo bombava nas redes sociais. Ninguém percebeu o simbolismo anterior? É o recado vindo de cima e os piores cegos são os que não querem ver.
Onde estão as panelas quando precisamos delas? Política não é futebol. Você não ganhou ou perdeu. Os pesos e medidas precisam ser iguais, mas não escuto mais panelas de aço inox e esmaltadas que só saíram do armário para fazer barulho. Agora fritam coxinhas.  
A economia continua fraquejando e nossos direitos estão sendo aterrorizados por um pacote de maldades, que só está começando. O dinheiro de fora não virá, pois, as grandes economias do mundo, não reconhecem o golpe. Não confiam no Brasil. Mas quem há de confiar? Conseguem confiar menos no governo atual do que no anterior. 
O lema do Tiririca é balela, porque “pior que tá, fica”. Ficou. Era óbvio que a medida era paliativa e que manteria o modus operandi e o status quo. A queda do governo não era o fim do sistema, mas uma forma de fortalecê-lo dando uma satisfação à sociedade, que não toca mais panelas. 
O governo anterior era ruim, o atual também. Mas a condução do processo foi toda direcionada para criar vilões e heróis. Agora pagamos o preço, com os vilões fora, as panelas não cantam. Com o desvendamento do comprometimento partidário dos movimentos que chamavam às pessoas para as ruas (de ambos os lados), as ruas não falam. Os intelectuais, artistas e quem viu o processo acontecer, são chamados de petistas. Mas a história não é assim, você não precisa ser necessariamente de um lado, sobretudo quando os dois lados estão errados e entrelaçados.  
Sim entrelaçados. Para ambos a manutenção do sistema é útil, e da corrupção idem. Ora, você já viu necessidade de coalizão partidária para aumentar salário de parlamentar, aumentar benefícios ou verba de gabinete?  Então não me fale que são opostos, e não me inclua em nenhum dos lados dessa briga de foice. Mas que a barra foi forçada, isso foi.
Sim, meu caro coxinha. Você foi enganado. E, diferentemente do MPL e de alguns dos manifestantes pró-governo, você não recebeu nenhum real, nenhum lanche nenhum vale-transporte  para isso. 
Os coxinhas foram feitos de trouxinhas. As panelas tocadas em vão. Mas você pode reclamar, deve reclamar. Não se cale porque você ganhou. Você não ganhou, você foi feito de bobo e estamos à beira do caos.
Então, será que agora dá para entender quais são os verdadeiros motivos para ir à rua e bater panela? Ou você, com sua camisa da CBF, seu "gato-net" e sua cara pintada à guache vai querer continuar sendo apenas mais um trouxa que a mídia vai colocar simplesmente como oposição ao governo?

sexta-feira, 27 de maio de 2016

O Brasil que vocês queriam


Que o governo PT, sobretudo o segundo mandato da Dilma, foi um fracasso, é fato consumado. Isso era claro para qualquer um com dois neurônios. Tão claro quanto isso somente a obviedade de que a saída de imediato do governo atual e o impeachment da presidente não seria solução para o problema.

Em menos de um mês no poder o governo Temer já conseguiu superar o fracasso do governo anterior. Não bastasse o saco de maldades e o terrorismo, que está só começando, agora fica claro o quanto eram inescrupulosas as intenções do impeachment.

De cara, a equipe ministerial é a mais ficha suja da história. O governo “anticorrupção” é o mais corrupto de todos! A situação atual é esclarecedora para sabermos a razão do Brasil ser a merda que é, e como o a maioria de nós simplesmente entende política como futebol e como a mídia tem um lado escancarado. As pedaladas que deram a origem legal ao impeachment (mera desculpa, óbvio) já apareceram na lista de bem feitorias do senhor presidente. Mas agora não vejo nada na mídia, não ouço panelaços, nem faixas, nada disso.

Sem bancar o chato, já bancando, era como eu disse: deram ao povo ignorante uma satisfação paliativa que temporariamente se satisfaz. Para aqueles que acreditam em tudo o que vê, ouve e lê está tudo ótimo: “ele chegou agora, dê um tempo a ele”, “ele está montando um ministério, não os Power Rangers”. Desprezam o simbolismo implícito nas coisas, que serve exatamente para acostumar às pessoas e preparar o terreno para que se possa chegar onde quer. Aí, vem o Lobão e Danilo Gentilli falando merda na internet sobre estupro; outros endeusando a “bela, recatada e do lar” como padrão de comportamento, e a tem gente sem entender o porquê.

A última, sinceramente, achei até que fosse brincadeira. Convocar o Alexandre Frota como porta voz da sociedade civil na cultura. Primeiro, em nenhum aspecto o Alexandre Frota me representa, ninguém tão imbecil pode ser meu representante. Segundo, qual o significado, qual o tamanho do Alexandre Frota na cultura do Brasil? Ex-ator fracassado, pseudo-humorista falido e ator pornô frustrado. A cultura brasileira está na direção certa, o Brasil está no rumo certo.

Daqui a pouco, com eminente fracasso deste governo doentio, vão gritar “volta Dilma”, e o ciclo continua. E os coxinhas viraram trouxinhas em menos de um mês.

sexta-feira, 13 de maio de 2016

Metrô Linha 743



Eu me pergunto se o grande Raul Seixas era realmente um cara à frente do seu tempo ou se somos nós que insistimos em repetir a história. Já diria Raulzito na genial música Metrô Linha 743, em clara referência à ditadura militar, que:


“O prato mais caro do melhor banquete é

O que se come cabeça de gente que pensa”


E a letra prossegue:


 “(...)Não interessa, pouco importa, fique aí

Eu quero é saber o que você estava pensando

Eu avalio o preço me baseando no nível mental

Que você anda por aí usando

E aí eu lhe digo o preço que sua cabeça agora está custando


Por fim, para encerrar com chave de ouro, Raul cantava:


Já tá tudo armado, o jogo dos caçadores canibais

Mas o negócio aqui tá muito bandeira

Dá bandeira demais meu Deus


Repito. Não sei se Raul era demasiadamente à frente de seu tempo ou se somos nós quem insistimos em repetir a história. Fato é que neste último mês li em uma edição até um pouco mais antiga da revista Veja, sobre leis absurdas. A reportagem considerava absurda a lei que incluía sociologia e filosofia no currículo escolar obrigatório. Segundo o doente que escreveu a matéria, o Brasil, com seus péssimos índices educacionais, deveria se preocupar com matérias mais importantes, como matemática e ciências ao invés de incluir sociologia e filosofia. 

O gênio completa concluindo que sociologia nada mais é do que defesa do sindicalismo e que a educação brasileira já está "infestada" pelo pensamento de esquerda. Ler isso é um dos ossos penosos da democracia. E, se o cara for jornalista, tenho a mais absoluta certeza de que ele não acredita no que ele escreveu. Até porque a faculdade de jornalismo tem grande parte de seu currículo voltado à sociologia e filosofia.


Também no último mês, em Alagoas, uma lei reprovada pelo governador teve o veto do executivo derrubado na Assembleia Legislativa daquele estado. Segundo a lei, os professores da rede pública alagoana estão proibidos de emitir opinião sobre assuntos polêmicos dentro de sala de aula sob a pena de demissão. 


Tendo isso em vista, só posso dizer que Raul estava certo: pensar é perigoso. Se hoje, ao menos até segunda ordem, não corremos o risco de ver nossos “cérebros postos à mesa”, o perigo aumenta para quem está no poder. Para os “desgraçados donos dessa zorra toda” as pessoas que pensam são uma ameaça, a não ser, evidentemente, que estejam ao seu favor.


Para eles pensar é monopólio de quem manda. Afinal, mesmo eles, coordenadores dessa engrenagem, são ou estão assessorados por muita gente que pensa. Muitos jornalistas, advogados, sociólogos, administradores, todos eles bombardeados com sociologia e filosofia durante a vida acadêmica. Mas o tipo de raciocínio humano, se for colocado contrário aos interesses deles se torna uma lástima. 


Isso porque quem pensa consegue filtrar as notícias. Para quem pensa a mídia está muito longe de ser a dona da verdade. Quem pensa consegue ver os interesses por trás de cada fato político, de cada notícia. Quem pensa sabe que política não é futebol, que não existe maniqueísmo, muito menos que só existem dois caminhos para o Brasil. Quem pensa não é oposição, nem é situação. Quem pensa não é petista, nem tucano, nem petralha, nem coxinha. Quem pensa já diagnosticou, há tempos, que os conceitos políticos de direita e esquerda não se aplicam e nem vão se aplicar ao Brasil, que nunca seremos de esquerda, nem de direita.


Quem pensa já percebeu que todo esse processo de impeachment é um verdadeiro circo. Um circo muito bem armado do qual nós somos os palhaços. Quem pensa sabe que ter essa consciência é muito diferente de ser governista. Quem pensa sabe que esse alívio popular é tratar câncer com aspirina, uma maneira paliativa de satisfazer à opinião pública temporariamente para no fim ficar mais fácil manter as coisas como estão. Quem pensa sabe, inclusive, que o verdadeiro motivo para o prosseguimento do processo de impedimento da presidente seja, talvez, a única coisa que ela tenha feito de certo neste governo: se indispor com o Cunha. 


Quem pensa não se ilude, sabe que nada está mudando ou se moralizando. Quem pensa vê, agora citando outro gênio da música, “o futuro repetir o passado”. Quem pensa sabe que estamos à mercê de uma mídia, no mínimo, duvidosa; de um sistema corrompido; e de um congresso sem nenhuma dúvida: corrupto. Até os estrangeiros já notaram isso. Aí nem precisava pensar, bastava ser curioso e acompanhar as manchetes internacionais no dia pós votação “por deus, pelos meus filhos, pela minha mãe e pelos poderes de Gray Skull”. Os jornais estrangeiros diziam que a presidente estava sendo julgada por um congresso absolutamente corrupto, de caráter duvidoso e que toda sua linha sucessória também estava sujeita ao impeachment, talvez até mais do que a própria presidente. E quem pensa sabe que dizer isso não é defender a presidente, não é defender o indefensável, nem justificar o erro de um pelo erro do outro. Mas é ser contra “o pão e circo” e de uma mudança que, na prática, nada mais é do que monopolizar a corrupção.


Quem pensa sabe que enquanto estamos aqui, tratando câncer com aspirina, o país fica parado, o foco se desvia, e a corrupção rola mais solta ainda, monopolizada agora. Quem pensa sabe que, no futuro, os apoiadores desse processo serão comparados aos cegos da “marcha pela família” de 1964 - muitos no exterior já veem assim. E olha que em menos de dois dias de governo o Temer já demonstrou claramente, até para quem não pensa, que essa é a tendência. Aliás, ele, sem nenhuma vergonha, divulgou isso ao mundo através da sua marca, e quem fez comunicação ou design sabe quais os valores ela transmite e o quanto eles são, com o perdão do trocadilho, temerários. Não bastasse isso, ele já excluiu as minorias e as mulheres dos ministérios, aliás formou um ministério com a pior ficha corrida da história (a cada vez em que penso no Blairo Maggi na agricultura três mil hectares da Amazônia caem). Além disso diminuiu os benefícios sociais, aumentou bisonhamente o "Minha Casa, Minha Vida" e, embora muitos realmente devessem desaparecer, cortou alguns ministérios absolutamente fundamentais à uma nação   como o Ministério da Cultura.


Mas faz sentido, ao menos ninguém pode reclamar de incoerência. Afinal, porque eles vão querer um ministério cujo objetivo maior é fazer as pessoas pensarem? Por isso eu digo: pensar é muito perigoso. Por enquanto é para eles, mas pode voltar a ser para nós. E quanto mais Homer, melhor.