sexta-feira, 13 de maio de 2016

Metrô Linha 743



Eu me pergunto se o grande Raul Seixas era realmente um cara à frente do seu tempo ou se somos nós que insistimos em repetir a história. Já diria Raulzito na genial música Metrô Linha 743, em clara referência à ditadura militar, que:


“O prato mais caro do melhor banquete é

O que se come cabeça de gente que pensa”


E a letra prossegue:


 “(...)Não interessa, pouco importa, fique aí

Eu quero é saber o que você estava pensando

Eu avalio o preço me baseando no nível mental

Que você anda por aí usando

E aí eu lhe digo o preço que sua cabeça agora está custando


Por fim, para encerrar com chave de ouro, Raul cantava:


Já tá tudo armado, o jogo dos caçadores canibais

Mas o negócio aqui tá muito bandeira

Dá bandeira demais meu Deus


Repito. Não sei se Raul era demasiadamente à frente de seu tempo ou se somos nós quem insistimos em repetir a história. Fato é que neste último mês li em uma edição até um pouco mais antiga da revista Veja, sobre leis absurdas. A reportagem considerava absurda a lei que incluía sociologia e filosofia no currículo escolar obrigatório. Segundo o doente que escreveu a matéria, o Brasil, com seus péssimos índices educacionais, deveria se preocupar com matérias mais importantes, como matemática e ciências ao invés de incluir sociologia e filosofia. 

O gênio completa concluindo que sociologia nada mais é do que defesa do sindicalismo e que a educação brasileira já está "infestada" pelo pensamento de esquerda. Ler isso é um dos ossos penosos da democracia. E, se o cara for jornalista, tenho a mais absoluta certeza de que ele não acredita no que ele escreveu. Até porque a faculdade de jornalismo tem grande parte de seu currículo voltado à sociologia e filosofia.


Também no último mês, em Alagoas, uma lei reprovada pelo governador teve o veto do executivo derrubado na Assembleia Legislativa daquele estado. Segundo a lei, os professores da rede pública alagoana estão proibidos de emitir opinião sobre assuntos polêmicos dentro de sala de aula sob a pena de demissão. 


Tendo isso em vista, só posso dizer que Raul estava certo: pensar é perigoso. Se hoje, ao menos até segunda ordem, não corremos o risco de ver nossos “cérebros postos à mesa”, o perigo aumenta para quem está no poder. Para os “desgraçados donos dessa zorra toda” as pessoas que pensam são uma ameaça, a não ser, evidentemente, que estejam ao seu favor.


Para eles pensar é monopólio de quem manda. Afinal, mesmo eles, coordenadores dessa engrenagem, são ou estão assessorados por muita gente que pensa. Muitos jornalistas, advogados, sociólogos, administradores, todos eles bombardeados com sociologia e filosofia durante a vida acadêmica. Mas o tipo de raciocínio humano, se for colocado contrário aos interesses deles se torna uma lástima. 


Isso porque quem pensa consegue filtrar as notícias. Para quem pensa a mídia está muito longe de ser a dona da verdade. Quem pensa consegue ver os interesses por trás de cada fato político, de cada notícia. Quem pensa sabe que política não é futebol, que não existe maniqueísmo, muito menos que só existem dois caminhos para o Brasil. Quem pensa não é oposição, nem é situação. Quem pensa não é petista, nem tucano, nem petralha, nem coxinha. Quem pensa já diagnosticou, há tempos, que os conceitos políticos de direita e esquerda não se aplicam e nem vão se aplicar ao Brasil, que nunca seremos de esquerda, nem de direita.


Quem pensa já percebeu que todo esse processo de impeachment é um verdadeiro circo. Um circo muito bem armado do qual nós somos os palhaços. Quem pensa sabe que ter essa consciência é muito diferente de ser governista. Quem pensa sabe que esse alívio popular é tratar câncer com aspirina, uma maneira paliativa de satisfazer à opinião pública temporariamente para no fim ficar mais fácil manter as coisas como estão. Quem pensa sabe, inclusive, que o verdadeiro motivo para o prosseguimento do processo de impedimento da presidente seja, talvez, a única coisa que ela tenha feito de certo neste governo: se indispor com o Cunha. 


Quem pensa não se ilude, sabe que nada está mudando ou se moralizando. Quem pensa vê, agora citando outro gênio da música, “o futuro repetir o passado”. Quem pensa sabe que estamos à mercê de uma mídia, no mínimo, duvidosa; de um sistema corrompido; e de um congresso sem nenhuma dúvida: corrupto. Até os estrangeiros já notaram isso. Aí nem precisava pensar, bastava ser curioso e acompanhar as manchetes internacionais no dia pós votação “por deus, pelos meus filhos, pela minha mãe e pelos poderes de Gray Skull”. Os jornais estrangeiros diziam que a presidente estava sendo julgada por um congresso absolutamente corrupto, de caráter duvidoso e que toda sua linha sucessória também estava sujeita ao impeachment, talvez até mais do que a própria presidente. E quem pensa sabe que dizer isso não é defender a presidente, não é defender o indefensável, nem justificar o erro de um pelo erro do outro. Mas é ser contra “o pão e circo” e de uma mudança que, na prática, nada mais é do que monopolizar a corrupção.


Quem pensa sabe que enquanto estamos aqui, tratando câncer com aspirina, o país fica parado, o foco se desvia, e a corrupção rola mais solta ainda, monopolizada agora. Quem pensa sabe que, no futuro, os apoiadores desse processo serão comparados aos cegos da “marcha pela família” de 1964 - muitos no exterior já veem assim. E olha que em menos de dois dias de governo o Temer já demonstrou claramente, até para quem não pensa, que essa é a tendência. Aliás, ele, sem nenhuma vergonha, divulgou isso ao mundo através da sua marca, e quem fez comunicação ou design sabe quais os valores ela transmite e o quanto eles são, com o perdão do trocadilho, temerários. Não bastasse isso, ele já excluiu as minorias e as mulheres dos ministérios, aliás formou um ministério com a pior ficha corrida da história (a cada vez em que penso no Blairo Maggi na agricultura três mil hectares da Amazônia caem). Além disso diminuiu os benefícios sociais, aumentou bisonhamente o "Minha Casa, Minha Vida" e, embora muitos realmente devessem desaparecer, cortou alguns ministérios absolutamente fundamentais à uma nação   como o Ministério da Cultura.


Mas faz sentido, ao menos ninguém pode reclamar de incoerência. Afinal, porque eles vão querer um ministério cujo objetivo maior é fazer as pessoas pensarem? Por isso eu digo: pensar é muito perigoso. Por enquanto é para eles, mas pode voltar a ser para nós. E quanto mais Homer, melhor.