Eu me
pergunto se o grande Raul Seixas era realmente um cara à frente do seu tempo ou
se somos nós que insistimos em repetir a história. Já diria Raulzito na genial
música Metrô Linha 743, em clara referência à ditadura militar, que:
“O prato mais caro
do melhor banquete é
O que se come
cabeça de gente que pensa”
E a letra prossegue:
“(...)Não
interessa, pouco importa, fique aí
Eu quero é saber o
que você estava pensando
Eu avalio o preço
me baseando no nível mental
Que você anda por
aí usando
E aí eu lhe digo o
preço que sua cabeça agora está custando”
Por fim,
para encerrar com chave de ouro, Raul cantava:
“Já tá tudo armado, o jogo dos caçadores
canibais
Mas o negócio aqui
tá muito bandeira
Dá bandeira demais
meu Deus”
Repito. Não
sei se Raul era demasiadamente à frente de seu tempo ou se somos nós quem insistimos em repetir
a história. Fato é que neste último mês li em uma edição até um pouco mais
antiga da revista Veja, sobre leis absurdas. A reportagem considerava absurda a lei que incluía sociologia
e filosofia no currículo escolar obrigatório. Segundo o doente que escreveu a
matéria, o Brasil, com seus péssimos índices educacionais, deveria se preocupar com matérias
mais importantes, como matemática e ciências ao invés de incluir sociologia e
filosofia.
O gênio completa concluindo que sociologia nada mais é do que defesa
do sindicalismo e que a educação brasileira já está "infestada" pelo pensamento de
esquerda. Ler isso é um dos ossos penosos da democracia. E, se o cara for
jornalista, tenho a mais absoluta certeza de que ele não acredita no que ele escreveu.
Até porque a faculdade de jornalismo tem grande parte de seu currículo voltado
à sociologia e filosofia.
Também no
último mês, em Alagoas, uma lei reprovada pelo governador teve o veto do executivo derrubado
na Assembleia Legislativa daquele estado. Segundo a lei, os professores da rede
pública alagoana estão proibidos de emitir opinião sobre assuntos polêmicos
dentro de sala de aula sob a pena de demissão.
Tendo isso
em vista, só posso dizer que Raul estava certo: pensar é perigoso. Se hoje, ao
menos até segunda ordem, não corremos o risco de ver nossos “cérebros postos à
mesa”, o perigo aumenta para quem está no poder. Para os “desgraçados donos
dessa zorra toda” as pessoas que pensam são uma ameaça, a não ser,
evidentemente, que estejam ao seu favor.
Para eles
pensar é monopólio de quem manda. Afinal, mesmo eles, coordenadores dessa
engrenagem, são ou estão assessorados por muita gente que pensa. Muitos jornalistas,
advogados, sociólogos, administradores, todos eles bombardeados com sociologia
e filosofia durante a vida acadêmica. Mas o tipo de raciocínio humano, se for colocado
contrário aos interesses deles se torna uma lástima.
Isso porque
quem pensa consegue filtrar as notícias. Para quem pensa a mídia está muito
longe de ser a dona da verdade. Quem pensa consegue ver os interesses por trás
de cada fato político, de cada notícia. Quem pensa sabe que política não é futebol, que não
existe maniqueísmo, muito menos que só existem dois caminhos para o Brasil.
Quem pensa não é oposição, nem é situação. Quem pensa não é petista, nem
tucano, nem petralha, nem coxinha. Quem pensa já diagnosticou, há tempos, que
os conceitos políticos de direita e esquerda não se aplicam e nem vão se aplicar ao Brasil, que
nunca seremos de esquerda, nem de direita.
Quem pensa
já percebeu que todo esse processo de impeachment é um verdadeiro circo. Um
circo muito bem armado do qual nós somos os palhaços. Quem pensa sabe que ter
essa consciência é muito diferente de ser governista. Quem pensa sabe que esse alívio popular
é tratar câncer com aspirina, uma maneira paliativa de satisfazer à
opinião pública temporariamente para no fim ficar mais fácil manter as coisas como estão. Quem pensa sabe,
inclusive, que o verdadeiro motivo para o prosseguimento do processo de
impedimento da presidente seja, talvez, a única coisa que ela tenha feito de
certo neste governo: se indispor com o Cunha.
Quem pensa
não se ilude, sabe que nada está mudando ou se moralizando. Quem pensa vê,
agora citando outro gênio da música, “o futuro repetir o passado”. Quem pensa
sabe que estamos à mercê de uma mídia, no mínimo, duvidosa; de um sistema
corrompido; e de um congresso sem nenhuma dúvida: corrupto. Até os
estrangeiros já notaram isso. Aí nem precisava pensar, bastava ser curioso e
acompanhar as manchetes internacionais no dia pós votação “por
deus, pelos meus filhos, pela minha mãe e pelos poderes de Gray Skull”. Os jornais estrangeiros diziam que a presidente estava sendo julgada por um congresso
absolutamente corrupto, de caráter duvidoso e que toda sua linha sucessória
também estava sujeita ao impeachment, talvez até mais do que a própria
presidente. E quem pensa sabe que dizer isso não é defender a presidente, não é
defender o indefensável, nem justificar o erro de um pelo erro do outro. Mas é
ser contra “o pão e circo” e de uma mudança que, na prática, nada mais é do que
monopolizar a corrupção.
Quem pensa
sabe que enquanto estamos aqui, tratando câncer com aspirina, o país fica parado,
o foco se desvia, e a corrupção rola mais solta ainda, monopolizada agora. Quem pensa sabe que, no
futuro, os apoiadores desse processo serão comparados aos cegos da “marcha pela
família” de 1964 - muitos no exterior já veem assim. E olha que em menos de dois dias de governo o Temer já demonstrou claramente, até para quem não pensa, que essa é a tendência. Aliás, ele, sem nenhuma vergonha, divulgou isso ao
mundo através da sua marca, e quem fez comunicação ou design sabe quais os
valores ela transmite e o quanto eles são, com o perdão do trocadilho, temerários. Não bastasse isso, ele já excluiu as minorias e as mulheres dos ministérios, aliás formou um ministério com a pior ficha corrida da história (a cada vez em que penso no Blairo Maggi na agricultura três mil hectares da Amazônia caem). Além disso diminuiu os benefícios sociais, aumentou bisonhamente o "Minha Casa, Minha Vida" e, embora muitos realmente devessem desaparecer, cortou alguns ministérios absolutamente
fundamentais à uma nação como o Ministério da Cultura.
Mas faz
sentido, ao menos ninguém pode reclamar de incoerência. Afinal, porque eles vão querer um ministério cujo objetivo maior é
fazer as pessoas pensarem? Por isso eu digo: pensar é muito perigoso. Por
enquanto é para eles, mas pode voltar a ser para nós. E quanto mais Homer, melhor.