quinta-feira, 18 de julho de 2013

Quero copa

Protestei. Fui à rua. Quero a melhora do país, dos serviços públicos e de tudo mais. Quero melhores salários aos professores, saúde e educação públicas de qualidade. Segurança. Quero ter retorno do dinheiro que pago ao governo em impostos. Quero tudo isso. Mas também quero a Copa do Mundo. Não da maneira que ela está sendo feita, é verdade, mas sim quero a Copa do Mundo de 2014 no Brasil. A questão a se refletir é o “como”. Os países “em desenvolvimento”, como Brasil, África do Sul, Rússia, ou qualquer outro que queira, pode e deve sediar eventos importantes, mas a sua maneira, dentro de suas condições, tradições e possibilidade. Não precisamos realizar a “melhor copa de todos os tempo” e ceder aos caprichos da FIFA. Precisaríamos, sim, realizar a “melhor copa possível na realidade brasileira”, como fez a Alemanha, país rico, mas que, diferentemente da África do Sul e do Brasil, não cedeu aos caprichos da FIFA e fez a Copa do Mundo da Alemanha, muito mais do que a Copa do Mundo na Alemanha.  Para isso, os germânicos simplesmente disseram NÃO aos desmandos da FIFA, Franz Backenbauer negou alterações na essência do Estádio Olímpico de Berlim, por exemplo. Por lá, os estádios que foram reformados não foram, como aqui, estuprados. Backenbauer, presidente do comitê local da Copa de 2006, assumiu a responsabilidade de fazer algumas melhorias, mas sem loucuras ou caprichos. Bateu no peito e disse: "ou é assim, ou vá procurar outro lugar". Simples assim. 

A Copa de 2014 não precisava ser uma ode à corrupção, com estádios superfaturados e fora do padrão que o torcedor brasileiro gosta. Era, sim, possível fazer uma excelente copa do mundo sem que essas sandices fossem feitas. Mas isso não quer dizer que sou contra o evento. Aliás, acho um evento muito interessante, em que se cria, caso seja feito da maneira correta, além de várias oportunidades de negócio e chances de investimento em infraestrutura, algo impagável e muito, mas muito, interessante: a chance de, por um mês, vivermos em um lugar cosmopolita, convivendo com pessoas do mundo inteiro pré-dispostas a serem receptivas, a conversar e trocar experiências. Já vivi isso em outras situações, em outros lugares e digo sem a menor sombra de dúvidas que é sensacional. Apesar disso, confesso, não fui entusiasta da candidatura do Brasil, tampouco vibrei com sua vitória, até mesmo porque tinha ideia de como seria, afinal, não caí de para quedas neste país. De toda sorte, cri, e ainda creio, que a Copa não é efetivamente um mal ou o mal, como muitos pintam.

No entanto, não é porque sou favorável à realização da Copa do Mundo, que eu sou favorável a fazê-la a qualquer custo, de qualquer forma,  ameaçando, inclusive, nossa soberania.  Primeiramente, ao contrário de muita gente que respeito, não sou, em absoluto, contra o investimento público em estádios. Em estádios públicos. Nem contra a existência de estádios públicos. Primeiramente porque, não há como negar, o futebol desempenha um papel social quase que essencial no Brasil. Até anteontem, antes da Copa, além do cemitério, o estádio era o único lugar em que existe verdadeiramente a isonomia. Lá, todos são iguais, não há hierarquia, classe social, nada. Além disso, as empresas públicas que administram estádios, se não têm lucro – o que eu, pessoalmente, duvido – pelo menos não têm prejuízo. Mas no Brasil nada funciona do jeito certo. Reconstruímos estádios públicos, com dinheiro público. Mas os entregamos de presente à iniciativa privada. Isso sim é uma afronta.

Afronta ainda maior é o fato de o governo investir em reformas de estádios privados. Não há justificativa plausível e convincente, por mais que tentem.  Não bastasse isso, talvez o maior absurdo, se bem que entre tantas sandices é difícil eleger a maior, foi literalmente construir um estádio para o Corinthians. Literalmente dar ao clube, cujo ex presidente é torcedor, um estádio de presente. Estádio que eu paguei. Estádio construído do zero, em detrimento ao Morumbi, alvo de retaliação da CBF pelo mal relacionamento com seu proprietário. O absurdo Estádio construído no meio do nada, sob a hipócrita desculpa de levar desenvolvimento à região de Itaquera, em São Paulo. Desenvolvimento que, segundo os moradores, não veio e não há sinais que virão. Isso é um disparate, uma ode à corrupção, algo inaceitável.

Ademais, sob a até justa égide de serem democráticos e espalhar a Copa por todo o Brasil os inescrupulosos políticos e as inescrupulosas CBF e FIFA criaram elefantes brancos absurdos, absolutamente desnecessários e, pior, com dinheiro público.Ora, levar à Copa ao norte do país, aproveitar o potencial turístico da Amazônia, perfeito, justo. Que se leve, então, a Copa para Belém do Pará, que tem dois times que lotam estádio e certamente manteriam a praça esportiva. Diga-se de passagem, existe um estádio no Pará que poderia muito bem ser reformado. De certo reformar o Mangueirão – moderno estádio olímpico -, seria muito mais barato do que um erguer um  megalomaníaco e inútil estádio Manaus. Estádio, lembremos, que comporta mais gente do que o público de todos os jogos do único campeonato disputado no Amazonas somados. O mesmo vale para Cuiabá e Brasília. Levar a Copa para o Centro Oeste, para próximo do Pantanal, novamente perfeito e justo. Entretanto, ao lado dessas cidades existe Goiânia, que tem três times médios, nas três primeiras divisões do campeonato, que levam um público razoável para o Serra Dourada, que, poderia muito bem ser reformado. Agora, outra coisa que só pode ser explicada como disparate, distúrbio mental de quem teve a ideia, estão forçando os times grandes a jogarem nessas praças esportivas inúteis, para ver se justifica o investimento. Não há nem como argumentar.

E não é só construir cada estádio a preço de cinco. É construir e reformar estádios de maneira que nem os mais tradicionais se pareçam com o público e o futebol brasileiro. Aliás, pagamos mas não poderemos usar, primeiro pelo preço, segundo pelos hábitos que nos querem forçar. Enquanto na Europa todos seguem o exemplo da Alemanha, fazendo o público do futebol voltar a ser público de futebol, aqui, na contramão da história, estamos transformando estádios em grandes teatros. Torcer sem camisa, pular nas arquibancadas, ficar de pé, bateria, isso é tradição do futebol brasileiro, e se querem a Copa aqui, assim deveria ser. Não queremos grandes óperas, não queremos pagar fortunas para assistir um jogo e, ainda por cima, não poder assistir à nossa maneira. Tirar pessoas de suas casas para cumprir exigências paranoicas da FIFA, torná-la presidente do Brasil, tornar-se escravo desta instituição são absurdos para os quais não existem adjetivos para descrever a repugnância. Isso tudo é verdade, isso tudo tem que ser revisto, mas, ainda assim, não sou contra à Copa do Mundo. 


Sou favorável a Copa do Mundo do Brasil e contra a Copa do Mundo meramente no Brasil. Se me perguntarem, ainda que alguns estragos já estejam feitos e sejam irreparáveis, creio que podemos transformar a Copa de 2014 na Copa do Brasil, basta querer. Primeiro, tem-se que tratar do geral. Retirar a FIFA da presidência da República, auditar todas as contas e obras relativas à Copa, parar todas as obras que tiverem que ser paradas (temos estádios suficientes) e regularizá-las, prender quem tem que ser preso, punir quem tem que ser punido, fechar os ralos de dinheiro, parar o investimento injustificado e sem retorno em obras privadas. Colocar ordem na casa. Isto posto, teremos tempos e recursos suficientes para fazer a Copa a nossa maneira, conforme nossa realidade, nossa cultura e com um preço justo.  Brigar contra a Copa do Mundo é, com todo respeito, eleger o inimigo errado. Ela acontecerá, e vai ser no Brasil, custe o que custar. Muitos dos estádios estão prontos, estuprados, é verdade, mas prontos. Suponhamos ainda que a FIFA go home como muitos querem. E aí? Será que alguém acredita que isso mudará a situação do país? Será que os olhos do mundo para os protestos brasileiros continuarão? Será que a revolta continuará? Será que alguém acredita que a maior vilã  pela situação do Brasil é mesmo a Copa do Mundo? A guerra é contra a corrupção, não contra a Copa. 

terça-feira, 9 de julho de 2013

Na Cara do Gol

Junho de 2013 é um marco. O marco do início de uma primavera de manifestações - ainda que no inverno - cujo ápice, muito sabidamente, foi a Copa das Confederações da FIFA. Uma primavera que esperamos resulte em mudanças significativas na história deste país. À despeito do comentário infeliz do igualmente infeliz presidente da FIFA, dizendo que futebol não era lugar para protesto, apesar de tentarem – e às vezes conseguirem- impedir que a platéia protestasse e até participantes da cerimônia de encerramento o fizessem, de nada adiantou. Os manifestantes do lado de fora, bem como os abusos da FIFA do lado de dentro, foram vistos pelo mundo. Além disso, não havia FIFA para conter as vaias à presidenta da República na abertura, e nem protocolo que a fizesse comparecer posteriormente em alguma outra partida.

As manifestações realmente foram sérias. A proporção chegou ao ponto da Rede Globo de televisão, um dos alvos de parte dos manifestantes, ter que mudar sua cobertura esportiva e até a linha editorial, já que, após o primeiro dia de protestos, nos chamando de trouxa, a “Vênus Platinada” da televisão brasileira tentou propagar todos os manifestantes como baderneiros e os policiais como heróis nos primeiros confrontos. Outros babacas de plantão tentaram entrar nessa onda, como o presidente da CBF, antigo apoiador da ditadura, e seu braço direito Marco Polo Del Nero, mandatário da FPF, que disse que éramos uma minoria de 1 milhão em uma população de 290 milhões e que não íamos atrapalhar. Foram obrigados a recuar e se calarem pouco depois. A Globo, já no dia 18, passou a cobrir os protestos com mais seriedade, chamando os vândalos de uma minoria em meio a manifestantes pacíficos. Os dois idiotas, pior espécime de cartola do futebol brasileiro, sumiram do mapa. Não havia como ser diferente, afinal, desta vez não eram só os grandes centros a protestar. Pessoas em todos estados e em cidades de todos os tamanhos, os lugares em que se ganham eleições e se tenta adestrar as pessoas, foram às ruas. Não era só a mídia (até porque as outras redes de comunicação, televisiva, radiofônica ou impressa não fizeram papel muito diferente da Globo) para nos informar. Tinha a Internet e as redes sociais, depoimentos de quem viu os ocorridos.

Em situações como esta, sobretudo nos primeiros manifestos, quase que inesperados, é meio inevitável que não se tenha algum confronto e que algumas pessoas se exaltem. Mas vimos, e falo porque vi pessoalmente quando fui à rua, vândalos em atuação. Mas vamos por partes. O primeiro ponto é simples, a polícia, em geral, realmente é despreparada e, por mais que muitas vezes eles não inciem o confronto, muitas vezes suas reações excedem e acaba sobrando para as pessoas de bem, que são sim facilmente identificáveis. É fácil ver que parte da reação policial é realmente uma “apelação”, e em vez de conter e se defender, os homens que deveriam manter a ordem, passam a atacar. Mas, como ressaltei, são homens. É possível, por outro lado, fazer a coisa bem feita, como parece que aconteceu em BH no jogo entre Brasil e Uruguai, em que os policiais foram muito mais comedidos do que no jogo anterior, Brasil e México. Isso em BH, porque em Fortaleza, um imbecil fardado chegou a disparar balas reais.  De qualquer forma, o planejamento só pode ser feito quando a manifestação é esperada, o que não era nos primeiros momentos. Além disso, os policiais são humanos e não são saco de pancadas. São mal pagos, em geral mal preparados e tão indignados quanto os manifestantes, o que, por outro lado, não justifica os abusos que aconteceram.

Mas existe uma outra parte da história. Um parte da manifestação que perde o controle e vira vandalismo, com lojas destruídas  patrimônio público destroçado, ataques à polícia, à manifestantes pacíficos e até furtos. Apesar de parecer algo simples e errado, esse fenômeno merece ser visto de maneira mais profunda, já que existem “vândalos”, “vândalos” e vândalos. É fato que tudo o que a imprensa, a classe política e os reacionários em geral querem – embora, vale ressaltar que o movimento brasileiro foi tão amplo que contemplou extrema esquerda e direita – são as cenas de vandalismo. Violência vende jornal, dá audiência e, sobretudo, faz com que o movimento perca apoio popular. Diante disso, e essa é uma tática antiquissíma, do tempo das ditaduras mais anciãs pessoas do poder, ou instituições, contratam, sim contratam, pessoas para se infiltrar nas manifestações e incitarem a confusão, a fim de fazer os movimentos perderem credibilidade. É óbvio que, com a adrenalina em alta, em grupo, diante de uma reação truculenta da polícia, vai ter gente que acaba se levando por essas pessoas e participando da bagunça.

Existem também os que tem algum respeito de minha parte, embora discorde de seus métodos e até de seus argumentos, mas que praticam atos de vandalismo por ideologia. Esses não atacam pessoas físicas, destroem empresas que acham estar contribuindo para estarmos na situação atual e acha que essa é a solução. Essas pessoas, porém, quebram tudo. Não saqueiam. Os que saqueiam, bom esses são vagabundos, ladrões, bandidos, que se aproveitam da situação, aproveitam de saber que ali poderão, desapercebidamente, roubar, saquear e praticar seus crimes. Ora, alguém que é contra uma empresa, certamente poderia se iriar a ponto destruí-la em um protesto. Jamais roubaria seus produtos, uma vez que defendem o boicote à eles. Duvido que os ladrões, que se aproveitaram da situação, saquearam bancos e lojas para distribuir aos pobres. São meros oportunistas. Quem foi às ruas sabe identificar os tipos, tanto os extremistas que vão para o combate, quanto os oportunistas fantasiados de extremistas. Em um sábado à tarde, calor de 30 graus, saímos em passeata do centro de BH ao Mineirão. No caminho, homens de jaquetas pesadas, provavelmente par diminuir o impacto das balas de borracha, moletons, capuzes e máscaras. Ao chegar ao ponto final da passeata, eles vão para cima da polícia, jogam pedras, coquetéis molotov e tudo o que puderem ver.  Quando a polícia reage, alguns desses bandidos, que estão preparados para as bombas de gás lacrimogênio, tentam no corre-corre, bater carteiras. Depois, em um cenário de guerra civil, começa o quebra-quebra e os saques. Não precisa ser gênio para notar que no meio deles são identificados radicais de extremistas, da direita e da esquerda, ultrapassados como poucos, pessoas pagas para estarem ali, seja por políticos seja por instituições e bandidos, que já têm extensa ficha criminal.

Esses são os marginais que tentam agredir à imprensa, de maneira ridícula, diga-se de passagem. Acho justo que se proteste contra os veículos de comunicação, aliás, devo dizer, acho injusto a concentração dos protestos somente contra a Globo, uma vez que a Record, sua principal rival, não é muito diferente. Bom, protestar e criticar Globo, Record, Band, Itatiaia, ou seja lá quem for é justo e legítimo. Ser idiota o suficiente de se recusar a dar entrevista a uma ou outra emissora é igualmente legítimo. Acho idiota porque não há melhor forma de aparecer criticando uma emissora do que no próprio veículo. Imagina você falando mal de A ou B na própria emissora ao vivo? Bom, mas isso é de cada um. Ilegítimo, ilegal e covarde é querer, à força, impedir o trabalho dos profissionais da mídia. Afinal, como os manifestantes eles são trabalhadores, têm famílias para sustentar e, posso garantir, não são responsáveis pelas linhas editoriais de suas emissoras. Vi profissionais sendo ameaçados de agressão e linchamento, coisa, ao meu ver de vândalo, porque se o lema é “Sem violência”  ele tem que valer para os dois lados, e os repórteres são pessoas físicas como qualquer um. Estão trabalhando, simplesmente. 

Quem clama por democracia não pode ser antidemocrático. Em nenhum sentido. Não só no vandalismo, condenável e absurdo, quanto em outra cenas tão esdrúxulas quanto. Uma militante de esquerda, com a camisa de um movimento ao qual não me referirei, para não dar ibope, questionou as pessoas que tiravam fotos com os policiais que, pacificamente acompanharam a passeata, inclusive tirando fotos e filmando, com o mesmo sentimento que todos nós, mas trabalhando, afinal eles têm famílias para sustentar. Ela agia, muito antes do conflito, como se a polícia fosse inimiga da sociedade. Se um dia ela for roubada, assaltada, ou coisa do tipo, gostaria de saber à quem ela vai recorrer. Outros idiotas, bem menos idiotas, mas tão paradoxais quanto, ficam defendendo boicote às marcas estrangeiras, como Coca-Cola e McDonalds. Aliás, quase nos obrigando a não consumir esses produtos. Duvido que nenhum deles foi ao McDonalds do centro, que estava lotado de manifestantes famintos. Duvido que algum deles deixe de tomar Coca, Brahma, Budweiser, patrocinadores da Copa. Pura hipocrisia. Até mesmo porque a maioria dos manifestantes não são radicais, nem de direita nem de esquerda, que se aproveitaram do movimento, embora seja legítimo que eles se manifestem. Até, por isso, acho absurdo alguém impedir a bandeira de algum partido participar. As bandeiras não querem dizer que o movimento é partidário e sim que aquele partido compactua das nossas reivindicações. Já diria Voltaire, “posso não concordar com as besteiras que você diz, mas defendo até a morte o seu direito de dizê-las”.


O movimento, legítimo e bonito, infelizmente abre a oportunidade para bandidos e vândalos. Parece e é óbvio. Até eu se fosse um ladrãozinho iria às manifestações. É fato que ao final das manifestações haveria confronto, até porque teria gente que tentaria transpor o bloqueio da polícia. Todos os manifestos tiveram confronto, era quase certo que uma confusão aconteceria. No meio da confusão é a oportunidade para os bandidos, a maioria já com passagem pela polícia, praticasse vandalismos e saques de maneira anônima, sem que fossem procurados posteriormente ou que, em atos isolados, ficassem em evidência. Até porque, não creio que algum dos estabelecimentos saqueados tenha aberto alguma ocorrência, exceto nos casos em que alguns sujeitos, que, além de bandidos, são burros, estavam com seus rostos à mostra e foram gravados por câmeras de segurança. A identificação de suspeitos no meio da manifestação é fácil, mas ninguém é criminoso por ser suspeito. Assim, as manifestações foram oportunidades para bandidos, políticos, vândalos e radicais. Reacionários e imprensa até tentaram usar isso ao seu favor, mas, ainda bem, o povo não é idiota. Quem esteve presente nas manifestações sabia perfeitamente que no meio dessa minoria tinham bandidos, radicais, bobos de plantão facilmente insufláveis e gente paga. Entretanto, finalmente, por conta da divulgação pelas redes sociais, contrariando a expectativa e o desejo dos políticos, isso não intimidou as pessoas de bem, as crianças, as famílias, os idosos de participarem e continuar participando. Os tempos, ainda bem, são outros.

quarta-feira, 3 de julho de 2013

Aos heróis, obrigado

Dia 17 de Junho de estive no Mineirão assistindo Taiti e Nigéria. Ganhei o ingresso. Jamais pagaria para assistir Taiti e Nigéria. Aliás, não pagaria para assistir nenhum jogo da Copa das Confederações ou da Copa do Mundo. O motivo não é financeiro, político ou ideológico. Não pago pelo simples motivo porque eu não gosto do futebol ópera da FIFA.  Não me canso de repetir que gosto do futebol e de estádios à la América do Sul, assistindo jogos em pé, pulando e gritando, com emoção e passionalidade, gosto do antigo Mineirão. Essa história de ver jogo sentadinho, só aplaudindo com lugar marcado, isso não é para mim. Inclusive sou contra as mudanças impostas ao Brasil pela FIFA, atual presidente da República, que chegou ao disparate de exigir o cancelamento das tradicionalíssimas festas juninas do nordeste. Não sou torcedor de Copa, desses que a Globo adora, que assiste futebol de quatro em quatro anos, cujos maiores ídolos são o Ronaldo e o Galvão Bueno. Eu sou daqueles que não suporta o nome Fuleco ao – até simpático e pertinente – Tatu-Bola mascote do mundial, ou os nomes Cafusa e Brazuka (com Z e K). Sou daqueles que se sentiram representados, como se aquelas mãos baianas também fossem minhas, quando as famigeradas Caixirolas foram arremessadas na grama da Fonte Nova, fazendo com que a FIFA acabassem com esta palhaçada. Se é para ter instrumento na Copa do Mundo do Brasil, que seja a bateria, ou não é a bateria que rege os jogos brasileiros?

Não sabia que não muito distante dali a história estava sendo feita. Uma história que eu cheguei à participar dias depois, mas que teve seu princípio no dia 17 de junho enquanto eu quase dormia dentro do Mineirão. Ninguém que foi às ruas teve a importância histórica sequer comparável aos heróis do dia 17. Aqueles precursores são os verdadeiros heróis. Por mais incertos que sejam os rumos dessa intifada popular, eles acordaram o Brasil, que precisava mesmo ser despertado. O jornalista esportivo Paulo Vinícius Coelho foi muito feliz ao dizer que vamos estudar o dia 17 de Junho de 2013. Eu tenho a mais absoluta certeza que nossos filhos e netos vão estudar esse momento histórico em nosso país. O movimento, que eclodiu após um aumento de vinte centavos na passagem de ônibus em São Paulo e tomou proporções nacionais após a reação exagerada da polícia paulista, é muito mais do que a cobrança por um transporte público barato ou de qualidade. Era simplesmente o protesto pelo descaso acumulado.

A última vez em que o brasileiro foi às ruas, em 1992, há 21 anos, com os Caras-Pintadas, foi para pedir o impeachment de Collor. Anos antes, o pedido era por Diretas,  depois de  uma sangrenta e longa luta contra o regime militar. Entretanto, apesar de serem movimentos legítimos, populares e apartidários, os Caras-Pintadas, As Diretas Já e as lutas contra a ditadura tiveram uma coisa que o movimento de 2013 (que deve ficar pra história como Revolta do Vinagre) não teve: um inimigo personificado. Desta vez o inimigo não tinha cara ou partido definidos. Não era um regime, uma pessoa ou uma proposta de revolução. Nada disso. O inimigo foram os 21 anos de descaso com a população brasileira por parte de todos os governos desde então. Não foram os 20 centavos. Aliás, ninguém reclamaria do aumento de 20 centavos, 1 real que fosse, se tivéssemos tido retorno do dinheiro que pagamos ao governo nas últimas duas décadas. Nesses últimos anos, tomando como marco o movimento dos "Cara-Pintada", nossa carga tributária aumentou absurdamente, entramos entre as 5 maiores economias do mundo, viramos credores internacionais, evoluímos para país emergente. Mas, pergunto, cadê o retorno? Esse dinheiro está indo para onde? Tivessem nos oferecido serviços púbicos de qualidade, não reclamaríamos dos aumentos. Vivemos, porém, em um país cada vez mais caro, mais rico e pior. Protestamos pelo fato de o poder legislativo, e finalmente percebemos que o principal buraco está lá, que eles são os verdadeiros comandantes do país, não ter feito nada desde a votação pelo impeachment do Collor. Ao menos nada em prol do Brasil. Aliás, nos últimos dias, acuado, fez mais do que nos últimos 21 anos. Não protestamos contra Lula, Dilma, FHC, Alckmin, Serra, Cabral, Anastasia, Paes, Aécio. Protestamos contra todos eles juntos, contra os partidos políticos brasileiros, sobretudo os dois maiores, que, além de serem exatamente iguais, em vez de proposta de país, lutam por proposta de poder.  Não há um vilão. Existem vários, os mesmos que, em tese, deveriam defender nossa Constituição, mas agem, há tempos, como se ela não existisse. É pedir demais que os governantes respeitem a nossa Constituição? Protestamos porque política no Brasil virou negócio, virou carreira (das boas) e, enquanto isso, nosso dinheiro vai sabe-se lá para onde. A questão é simples, estamos internamente muito aquém do que produzimos e da imagem que vendemos ao exterior. Não se trata de um país pobre que não tem condição de oferecer o mínimo de dignidade ao seu povo. Se trata de um país rico, mas cheio de ralos de dinheiro.

Assistíamos a isso passivamente até que os heróis do dia 17 de Junho saltaram do “deitado eternamente em berço esplêndido” ao “verás que um filho teu não foge a luta”.  Pobre dos políticos que acharam - como uma jornalista da Record - que a redução da passagem reduziria nossa indignação. Pobre daqueles que acham que vão se aproveitar eleitoreiramente deste momento histórico, personificando a culpa, jogando para seus adversários políticos e se eximindo de responsabilidade. Pobre daqueles que acham que esse é um momento transitório. Pobre dos que acham que o povo não aprendeu a reivindicar quando necessário. Pobre daqueles que acham que o futebol diminuirá nossa indignação. O povo cansou de ser feito de bobo e, após 21 anos sendo testados até o limite, acordamos, melhor fomos acordados. Surpreendentemente, em vários lugares do país, heróis foram às ruas reivindicar nossos direitos, iniciando um movimento popular que há tempos não se via por aqui. Nos testaram até o limite, o limite chegou. A bomba estourou, muito antes do que esperavam os políticos, muito depois do que deveria ter estourado.

Àqueles que estiveram nas ruas naquele 17 de Junho, precursores de um movimento histórico em nosso país, quiçá, uma  guinada histórica no destino Brasil, meu muito obrigado. O vandalismo, os rumos deste movimento, os desdobramentos, são assuntos para outra hora. Por ora, queria, tardiamente, agradecer aos heróis do dia 17 de Junho, que serão lembrados pelo nossos filhos, nossos netos e nossa história.