Protestei. Fui à rua. Quero a melhora do
país, dos serviços públicos e de tudo mais. Quero melhores salários aos
professores, saúde e educação públicas de qualidade. Segurança. Quero ter retorno do dinheiro que pago ao governo em impostos. Quero tudo
isso. Mas também quero a Copa do Mundo. Não da maneira que ela está sendo
feita, é verdade, mas sim quero a Copa do Mundo de 2014 no Brasil. A questão a se refletir
é o “como”. Os países “em desenvolvimento”, como Brasil, África do Sul, Rússia,
ou qualquer outro que queira, pode e deve sediar eventos importantes, mas a sua
maneira, dentro de suas condições, tradições e possibilidade. Não precisamos realizar a “melhor copa de
todos os tempo” e ceder aos caprichos da FIFA. Precisaríamos, sim, realizar a
“melhor copa possível na realidade brasileira”, como fez a Alemanha, país rico,
mas que, diferentemente da África do Sul e do Brasil, não cedeu aos caprichos
da FIFA e fez a Copa do Mundo da Alemanha,
muito mais do que a Copa do Mundo na
Alemanha. Para isso, os germânicos
simplesmente disseram NÃO aos
desmandos da FIFA, Franz Backenbauer negou alterações na essência do Estádio
Olímpico de Berlim, por exemplo. Por lá, os estádios que foram reformados não
foram, como aqui, estuprados. Backenbauer, presidente do comitê local da Copa de 2006, assumiu a responsabilidade de fazer algumas melhorias, mas sem loucuras ou caprichos. Bateu no peito e disse: "ou é assim, ou vá procurar outro lugar". Simples assim.
A Copa de 2014 não precisava ser uma ode
à corrupção, com estádios superfaturados e fora do padrão que o torcedor
brasileiro gosta. Era, sim, possível fazer uma excelente copa do mundo sem que
essas sandices fossem feitas. Mas isso não quer dizer que sou contra o evento.
Aliás, acho um evento muito interessante, em que se cria, caso seja feito da
maneira correta, além de várias oportunidades de negócio e chances de
investimento em infraestrutura, algo impagável e muito, mas muito, interessante:
a chance de, por um mês, vivermos em um lugar cosmopolita, convivendo com
pessoas do mundo inteiro pré-dispostas a serem receptivas, a conversar e trocar
experiências. Já vivi isso em outras situações, em outros lugares e digo sem a
menor sombra de dúvidas que é sensacional. Apesar disso, confesso, não fui
entusiasta da candidatura do Brasil, tampouco vibrei com sua vitória, até mesmo
porque tinha ideia de como seria, afinal, não caí de para quedas neste país. De
toda sorte, cri, e ainda creio, que a Copa não é efetivamente um mal ou o mal, como muitos pintam.
No entanto, não é porque sou favorável à
realização da Copa do Mundo, que eu sou favorável a fazê-la a qualquer custo,
de qualquer forma, ameaçando, inclusive,
nossa soberania. Primeiramente, ao
contrário de muita gente que respeito, não sou, em absoluto, contra o
investimento público em estádios. Em estádios públicos. Nem contra a existência de estádios públicos. Primeiramente porque, não há
como negar, o futebol desempenha um papel social quase que essencial no Brasil.
Até anteontem, antes da Copa, além do cemitério, o estádio era o único lugar em
que existe verdadeiramente a isonomia. Lá, todos são iguais, não há hierarquia,
classe social, nada. Além disso, as empresas públicas que administram estádios,
se não têm lucro – o que eu, pessoalmente, duvido – pelo menos não têm prejuízo. Mas no Brasil nada funciona do jeito certo. Reconstruímos estádios públicos, com dinheiro
público. Mas os entregamos de presente à iniciativa privada. Isso sim é uma afronta.
Afronta ainda maior é o fato de o governo
investir em reformas de estádios privados. Não há justificativa plausível e convincente, por mais que tentem. Não bastasse isso, talvez o maior absurdo, se
bem que entre tantas sandices é difícil eleger a maior, foi literalmente construir um estádio para
o Corinthians. Literalmente dar ao clube, cujo ex presidente é torcedor, um
estádio de presente. Estádio que eu paguei. Estádio construído do zero, em
detrimento ao Morumbi, alvo de retaliação da CBF pelo mal relacionamento com seu proprietário. O absurdo Estádio
construído no meio do nada, sob a hipócrita desculpa de levar desenvolvimento à
região de Itaquera, em São Paulo. Desenvolvimento que, segundo os moradores,
não veio e não há sinais que virão. Isso é um disparate, uma ode à corrupção,
algo inaceitável.
Ademais, sob a até justa égide de serem
democráticos e espalhar a Copa por todo o Brasil os inescrupulosos políticos e
as inescrupulosas CBF e FIFA criaram elefantes brancos absurdos, absolutamente
desnecessários e, pior, com dinheiro público.Ora, levar à Copa ao norte do país,
aproveitar o potencial turístico da Amazônia, perfeito, justo. Que se leve,
então, a Copa para Belém do Pará, que tem dois times que lotam estádio e
certamente manteriam a praça esportiva. Diga-se de passagem, existe um estádio
no Pará que poderia muito bem ser reformado. De certo reformar o Mangueirão –
moderno estádio olímpico -, seria muito mais barato do que um erguer um megalomaníaco e inútil estádio Manaus.
Estádio, lembremos, que comporta mais gente do que o público de todos os jogos
do único campeonato disputado no Amazonas somados. O mesmo vale para Cuiabá e
Brasília. Levar a Copa para o Centro Oeste, para próximo do Pantanal, novamente
perfeito e justo. Entretanto, ao lado dessas cidades existe Goiânia, que tem três times
médios, nas três primeiras divisões do campeonato, que levam um público
razoável para o Serra Dourada, que, poderia muito bem ser reformado. Agora, outra coisa que só pode ser explicada como disparate, distúrbio mental de quem teve a ideia, estão forçando os times
grandes a jogarem nessas praças esportivas inúteis, para ver se justifica o
investimento. Não há nem como argumentar.
E não é só construir cada estádio a
preço de cinco. É construir e reformar estádios de maneira que nem os mais tradicionais se pareçam com o público e o futebol brasileiro. Aliás, pagamos mas não poderemos usar, primeiro pelo preço, segundo
pelos hábitos que nos querem forçar. Enquanto na Europa todos seguem o exemplo
da Alemanha, fazendo o público do futebol voltar a ser público de futebol,
aqui, na contramão da história, estamos transformando estádios em grandes
teatros. Torcer sem camisa, pular nas arquibancadas, ficar de pé, bateria, isso
é tradição do futebol brasileiro, e se querem a Copa aqui, assim deveria ser.
Não queremos grandes óperas, não queremos pagar fortunas para assistir um jogo
e, ainda por cima, não poder assistir à nossa maneira. Tirar pessoas de suas casas para cumprir exigências paranoicas da FIFA, torná-la presidente do Brasil, tornar-se escravo desta
instituição são absurdos para os quais não existem adjetivos para descrever a repugnância. Isso tudo é verdade, isso tudo tem que ser revisto, mas,
ainda assim, não sou contra à Copa do Mundo.
Sou favorável a Copa do Mundo do Brasil e
contra a Copa do Mundo meramente no Brasil. Se me perguntarem, ainda que alguns estragos já estejam feitos e sejam irreparáveis, creio que podemos transformar a Copa de 2014 na Copa do
Brasil, basta querer. Primeiro, tem-se que tratar do geral. Retirar a FIFA da
presidência da República, auditar todas as contas e obras relativas à Copa, parar todas as obras que tiverem
que ser paradas (temos estádios suficientes) e regularizá-las, prender quem tem que ser preso, punir quem tem que ser punido, fechar os ralos de dinheiro, parar o investimento injustificado e sem retorno em obras privadas. Colocar ordem na casa. Isto posto, teremos tempos e recursos suficientes para fazer a Copa a nossa maneira, conforme nossa
realidade, nossa cultura e com um preço justo. Brigar
contra a Copa do Mundo é, com todo respeito, eleger o inimigo errado. Ela
acontecerá, e vai ser no Brasil, custe o que custar. Muitos dos estádios estão
prontos, estuprados, é verdade, mas prontos. Suponhamos ainda que a FIFA go home como muitos querem. E aí? Será
que alguém acredita que isso mudará a situação do país? Será que os olhos do mundo para os protestos brasileiros continuarão? Será que a revolta continuará? Será que alguém
acredita que a maior vilã pela situação
do Brasil é mesmo a Copa do Mundo? A guerra é contra a corrupção, não contra a Copa.