terça-feira, 9 de julho de 2013

Na Cara do Gol

Junho de 2013 é um marco. O marco do início de uma primavera de manifestações - ainda que no inverno - cujo ápice, muito sabidamente, foi a Copa das Confederações da FIFA. Uma primavera que esperamos resulte em mudanças significativas na história deste país. À despeito do comentário infeliz do igualmente infeliz presidente da FIFA, dizendo que futebol não era lugar para protesto, apesar de tentarem – e às vezes conseguirem- impedir que a platéia protestasse e até participantes da cerimônia de encerramento o fizessem, de nada adiantou. Os manifestantes do lado de fora, bem como os abusos da FIFA do lado de dentro, foram vistos pelo mundo. Além disso, não havia FIFA para conter as vaias à presidenta da República na abertura, e nem protocolo que a fizesse comparecer posteriormente em alguma outra partida.

As manifestações realmente foram sérias. A proporção chegou ao ponto da Rede Globo de televisão, um dos alvos de parte dos manifestantes, ter que mudar sua cobertura esportiva e até a linha editorial, já que, após o primeiro dia de protestos, nos chamando de trouxa, a “Vênus Platinada” da televisão brasileira tentou propagar todos os manifestantes como baderneiros e os policiais como heróis nos primeiros confrontos. Outros babacas de plantão tentaram entrar nessa onda, como o presidente da CBF, antigo apoiador da ditadura, e seu braço direito Marco Polo Del Nero, mandatário da FPF, que disse que éramos uma minoria de 1 milhão em uma população de 290 milhões e que não íamos atrapalhar. Foram obrigados a recuar e se calarem pouco depois. A Globo, já no dia 18, passou a cobrir os protestos com mais seriedade, chamando os vândalos de uma minoria em meio a manifestantes pacíficos. Os dois idiotas, pior espécime de cartola do futebol brasileiro, sumiram do mapa. Não havia como ser diferente, afinal, desta vez não eram só os grandes centros a protestar. Pessoas em todos estados e em cidades de todos os tamanhos, os lugares em que se ganham eleições e se tenta adestrar as pessoas, foram às ruas. Não era só a mídia (até porque as outras redes de comunicação, televisiva, radiofônica ou impressa não fizeram papel muito diferente da Globo) para nos informar. Tinha a Internet e as redes sociais, depoimentos de quem viu os ocorridos.

Em situações como esta, sobretudo nos primeiros manifestos, quase que inesperados, é meio inevitável que não se tenha algum confronto e que algumas pessoas se exaltem. Mas vimos, e falo porque vi pessoalmente quando fui à rua, vândalos em atuação. Mas vamos por partes. O primeiro ponto é simples, a polícia, em geral, realmente é despreparada e, por mais que muitas vezes eles não inciem o confronto, muitas vezes suas reações excedem e acaba sobrando para as pessoas de bem, que são sim facilmente identificáveis. É fácil ver que parte da reação policial é realmente uma “apelação”, e em vez de conter e se defender, os homens que deveriam manter a ordem, passam a atacar. Mas, como ressaltei, são homens. É possível, por outro lado, fazer a coisa bem feita, como parece que aconteceu em BH no jogo entre Brasil e Uruguai, em que os policiais foram muito mais comedidos do que no jogo anterior, Brasil e México. Isso em BH, porque em Fortaleza, um imbecil fardado chegou a disparar balas reais.  De qualquer forma, o planejamento só pode ser feito quando a manifestação é esperada, o que não era nos primeiros momentos. Além disso, os policiais são humanos e não são saco de pancadas. São mal pagos, em geral mal preparados e tão indignados quanto os manifestantes, o que, por outro lado, não justifica os abusos que aconteceram.

Mas existe uma outra parte da história. Um parte da manifestação que perde o controle e vira vandalismo, com lojas destruídas  patrimônio público destroçado, ataques à polícia, à manifestantes pacíficos e até furtos. Apesar de parecer algo simples e errado, esse fenômeno merece ser visto de maneira mais profunda, já que existem “vândalos”, “vândalos” e vândalos. É fato que tudo o que a imprensa, a classe política e os reacionários em geral querem – embora, vale ressaltar que o movimento brasileiro foi tão amplo que contemplou extrema esquerda e direita – são as cenas de vandalismo. Violência vende jornal, dá audiência e, sobretudo, faz com que o movimento perca apoio popular. Diante disso, e essa é uma tática antiquissíma, do tempo das ditaduras mais anciãs pessoas do poder, ou instituições, contratam, sim contratam, pessoas para se infiltrar nas manifestações e incitarem a confusão, a fim de fazer os movimentos perderem credibilidade. É óbvio que, com a adrenalina em alta, em grupo, diante de uma reação truculenta da polícia, vai ter gente que acaba se levando por essas pessoas e participando da bagunça.

Existem também os que tem algum respeito de minha parte, embora discorde de seus métodos e até de seus argumentos, mas que praticam atos de vandalismo por ideologia. Esses não atacam pessoas físicas, destroem empresas que acham estar contribuindo para estarmos na situação atual e acha que essa é a solução. Essas pessoas, porém, quebram tudo. Não saqueiam. Os que saqueiam, bom esses são vagabundos, ladrões, bandidos, que se aproveitam da situação, aproveitam de saber que ali poderão, desapercebidamente, roubar, saquear e praticar seus crimes. Ora, alguém que é contra uma empresa, certamente poderia se iriar a ponto destruí-la em um protesto. Jamais roubaria seus produtos, uma vez que defendem o boicote à eles. Duvido que os ladrões, que se aproveitaram da situação, saquearam bancos e lojas para distribuir aos pobres. São meros oportunistas. Quem foi às ruas sabe identificar os tipos, tanto os extremistas que vão para o combate, quanto os oportunistas fantasiados de extremistas. Em um sábado à tarde, calor de 30 graus, saímos em passeata do centro de BH ao Mineirão. No caminho, homens de jaquetas pesadas, provavelmente par diminuir o impacto das balas de borracha, moletons, capuzes e máscaras. Ao chegar ao ponto final da passeata, eles vão para cima da polícia, jogam pedras, coquetéis molotov e tudo o que puderem ver.  Quando a polícia reage, alguns desses bandidos, que estão preparados para as bombas de gás lacrimogênio, tentam no corre-corre, bater carteiras. Depois, em um cenário de guerra civil, começa o quebra-quebra e os saques. Não precisa ser gênio para notar que no meio deles são identificados radicais de extremistas, da direita e da esquerda, ultrapassados como poucos, pessoas pagas para estarem ali, seja por políticos seja por instituições e bandidos, que já têm extensa ficha criminal.

Esses são os marginais que tentam agredir à imprensa, de maneira ridícula, diga-se de passagem. Acho justo que se proteste contra os veículos de comunicação, aliás, devo dizer, acho injusto a concentração dos protestos somente contra a Globo, uma vez que a Record, sua principal rival, não é muito diferente. Bom, protestar e criticar Globo, Record, Band, Itatiaia, ou seja lá quem for é justo e legítimo. Ser idiota o suficiente de se recusar a dar entrevista a uma ou outra emissora é igualmente legítimo. Acho idiota porque não há melhor forma de aparecer criticando uma emissora do que no próprio veículo. Imagina você falando mal de A ou B na própria emissora ao vivo? Bom, mas isso é de cada um. Ilegítimo, ilegal e covarde é querer, à força, impedir o trabalho dos profissionais da mídia. Afinal, como os manifestantes eles são trabalhadores, têm famílias para sustentar e, posso garantir, não são responsáveis pelas linhas editoriais de suas emissoras. Vi profissionais sendo ameaçados de agressão e linchamento, coisa, ao meu ver de vândalo, porque se o lema é “Sem violência”  ele tem que valer para os dois lados, e os repórteres são pessoas físicas como qualquer um. Estão trabalhando, simplesmente. 

Quem clama por democracia não pode ser antidemocrático. Em nenhum sentido. Não só no vandalismo, condenável e absurdo, quanto em outra cenas tão esdrúxulas quanto. Uma militante de esquerda, com a camisa de um movimento ao qual não me referirei, para não dar ibope, questionou as pessoas que tiravam fotos com os policiais que, pacificamente acompanharam a passeata, inclusive tirando fotos e filmando, com o mesmo sentimento que todos nós, mas trabalhando, afinal eles têm famílias para sustentar. Ela agia, muito antes do conflito, como se a polícia fosse inimiga da sociedade. Se um dia ela for roubada, assaltada, ou coisa do tipo, gostaria de saber à quem ela vai recorrer. Outros idiotas, bem menos idiotas, mas tão paradoxais quanto, ficam defendendo boicote às marcas estrangeiras, como Coca-Cola e McDonalds. Aliás, quase nos obrigando a não consumir esses produtos. Duvido que nenhum deles foi ao McDonalds do centro, que estava lotado de manifestantes famintos. Duvido que algum deles deixe de tomar Coca, Brahma, Budweiser, patrocinadores da Copa. Pura hipocrisia. Até mesmo porque a maioria dos manifestantes não são radicais, nem de direita nem de esquerda, que se aproveitaram do movimento, embora seja legítimo que eles se manifestem. Até, por isso, acho absurdo alguém impedir a bandeira de algum partido participar. As bandeiras não querem dizer que o movimento é partidário e sim que aquele partido compactua das nossas reivindicações. Já diria Voltaire, “posso não concordar com as besteiras que você diz, mas defendo até a morte o seu direito de dizê-las”.


O movimento, legítimo e bonito, infelizmente abre a oportunidade para bandidos e vândalos. Parece e é óbvio. Até eu se fosse um ladrãozinho iria às manifestações. É fato que ao final das manifestações haveria confronto, até porque teria gente que tentaria transpor o bloqueio da polícia. Todos os manifestos tiveram confronto, era quase certo que uma confusão aconteceria. No meio da confusão é a oportunidade para os bandidos, a maioria já com passagem pela polícia, praticasse vandalismos e saques de maneira anônima, sem que fossem procurados posteriormente ou que, em atos isolados, ficassem em evidência. Até porque, não creio que algum dos estabelecimentos saqueados tenha aberto alguma ocorrência, exceto nos casos em que alguns sujeitos, que, além de bandidos, são burros, estavam com seus rostos à mostra e foram gravados por câmeras de segurança. A identificação de suspeitos no meio da manifestação é fácil, mas ninguém é criminoso por ser suspeito. Assim, as manifestações foram oportunidades para bandidos, políticos, vândalos e radicais. Reacionários e imprensa até tentaram usar isso ao seu favor, mas, ainda bem, o povo não é idiota. Quem esteve presente nas manifestações sabia perfeitamente que no meio dessa minoria tinham bandidos, radicais, bobos de plantão facilmente insufláveis e gente paga. Entretanto, finalmente, por conta da divulgação pelas redes sociais, contrariando a expectativa e o desejo dos políticos, isso não intimidou as pessoas de bem, as crianças, as famílias, os idosos de participarem e continuar participando. Os tempos, ainda bem, são outros.