Dia 17 de Junho de estive no Mineirão
assistindo Taiti e Nigéria. Ganhei o ingresso. Jamais pagaria para assistir
Taiti e Nigéria. Aliás, não pagaria para assistir nenhum jogo da Copa das
Confederações ou da Copa do Mundo. O motivo não é financeiro, político ou
ideológico. Não pago pelo simples motivo porque eu não gosto do futebol ópera
da FIFA. Não me canso de repetir que
gosto do futebol e de estádios à la América do Sul, assistindo jogos em pé,
pulando e gritando, com emoção e passionalidade, gosto do antigo Mineirão. Essa
história de ver jogo sentadinho, só aplaudindo com lugar marcado, isso não é
para mim. Inclusive sou contra as mudanças impostas ao Brasil pela FIFA, atual
presidente da República, que chegou ao disparate de exigir o cancelamento das tradicionalíssimas festas juninas do nordeste. Não sou torcedor de Copa, desses que a Globo adora, que
assiste futebol de quatro em quatro anos, cujos maiores ídolos são o Ronaldo e
o Galvão Bueno. Eu sou daqueles que não suporta o nome Fuleco ao – até
simpático e pertinente – Tatu-Bola mascote do mundial, ou os nomes Cafusa e
Brazuka (com Z e K). Sou daqueles que se sentiram representados, como se aquelas mãos
baianas também fossem minhas, quando as famigeradas Caixirolas foram
arremessadas na grama da Fonte Nova, fazendo com que a FIFA acabassem com esta
palhaçada. Se é para ter instrumento na Copa do Mundo do Brasil, que seja a
bateria, ou não é a bateria que rege os jogos brasileiros?
Não sabia que não muito distante dali a
história estava sendo feita. Uma história que eu cheguei à participar dias
depois, mas que teve seu princípio no dia 17 de junho enquanto eu quase dormia
dentro do Mineirão. Ninguém que foi às ruas teve a importância histórica sequer comparável aos heróis do dia 17. Aqueles precursores são os verdadeiros heróis. Por mais incertos que sejam os rumos
dessa intifada popular, eles acordaram o Brasil, que precisava mesmo ser
despertado. O jornalista esportivo Paulo Vinícius Coelho foi muito feliz ao
dizer que vamos estudar o dia 17 de Junho de 2013. Eu tenho a mais absoluta
certeza que nossos filhos e netos vão estudar esse momento histórico em nosso
país. O movimento, que eclodiu após um aumento de vinte centavos na passagem de
ônibus em São Paulo e tomou proporções nacionais após a reação exagerada da
polícia paulista, é muito mais do que a cobrança por um transporte público barato
ou de qualidade. Era simplesmente o protesto pelo descaso acumulado.
A última vez em que o brasileiro foi às ruas, em 1992, há 21 anos, com os Caras-Pintadas, foi para pedir o impeachment de Collor. Anos antes, o pedido era por Diretas, depois de uma sangrenta e longa luta contra o regime militar. Entretanto, apesar de serem movimentos legítimos, populares e apartidários, os Caras-Pintadas, As Diretas Já e as lutas contra a ditadura tiveram uma coisa que o movimento de 2013 (que deve ficar pra história como Revolta do Vinagre) não teve: um inimigo personificado. Desta vez o inimigo não tinha
cara ou partido definidos. Não era um regime, uma pessoa ou uma proposta de revolução. Nada disso. O
inimigo foram os 21 anos de descaso com a população brasileira por parte de
todos os governos desde então. Não foram os 20 centavos. Aliás, ninguém
reclamaria do aumento de 20 centavos, 1 real que fosse, se tivéssemos tido
retorno do dinheiro que pagamos ao governo nas últimas duas décadas. Nesses últimos anos, tomando como marco o movimento dos "Cara-Pintada", nossa carga
tributária aumentou absurdamente, entramos entre as 5 maiores economias do
mundo, viramos credores internacionais, evoluímos para país emergente. Mas, pergunto, cadê o retorno? Esse
dinheiro está indo para onde? Tivessem nos oferecido serviços púbicos de
qualidade, não reclamaríamos dos aumentos. Vivemos, porém, em um país cada vez
mais caro, mais rico e pior. Protestamos pelo fato de o poder legislativo, e
finalmente percebemos que o principal buraco está lá, que eles são os
verdadeiros comandantes do país, não ter feito nada desde a votação pelo impeachment do Collor. Ao menos nada
em prol do Brasil. Aliás, nos últimos dias, acuado, fez mais do que nos últimos
21 anos. Não protestamos contra Lula, Dilma, FHC, Alckmin, Serra, Cabral,
Anastasia, Paes, Aécio. Protestamos contra todos eles juntos, contra os
partidos políticos brasileiros, sobretudo os dois maiores, que, além de serem
exatamente iguais, em vez de proposta de país, lutam por proposta de
poder. Não há um vilão. Existem vários,
os mesmos que, em tese, deveriam defender nossa Constituição, mas agem, há tempos,
como se ela não existisse. É pedir demais que os governantes respeitem a nossa
Constituição? Protestamos porque política no Brasil virou negócio, virou
carreira (das boas) e, enquanto isso, nosso dinheiro vai sabe-se lá para onde.
A questão é simples, estamos internamente muito aquém do que produzimos e da
imagem que vendemos ao exterior. Não se trata de um país pobre que não tem condição de oferecer o mínimo de dignidade ao seu povo. Se trata de um país rico, mas cheio de ralos de dinheiro.
Assistíamos a isso passivamente até que os heróis do dia 17 de
Junho saltaram do “deitado eternamente em berço esplêndido” ao “verás que um
filho teu não foge a luta”. Pobre dos
políticos que acharam - como uma jornalista da Record - que a redução da passagem reduziria nossa indignação. Pobre
daqueles que acham que vão se aproveitar eleitoreiramente deste momento
histórico, personificando a culpa, jogando para seus adversários políticos e se
eximindo de responsabilidade. Pobre daqueles que acham que esse é um momento
transitório. Pobre dos que acham que o povo não aprendeu a reivindicar quando necessário. Pobre daqueles que acham que o futebol diminuirá nossa
indignação. O povo cansou de ser feito de bobo e, após 21 anos sendo testados
até o limite, acordamos, melhor fomos acordados. Surpreendentemente, em vários
lugares do país, heróis foram às ruas reivindicar nossos
direitos, iniciando um movimento popular que há tempos não se via por aqui.
Nos testaram até o limite, o limite chegou. A bomba estourou, muito antes do
que esperavam os políticos, muito depois do que deveria ter estourado.
Àqueles que estiveram nas ruas naquele 17
de Junho, precursores de um movimento histórico em nosso país, quiçá, uma guinada histórica no destino Brasil, meu muito obrigado. O vandalismo, os rumos deste
movimento, os desdobramentos, são assuntos para outra hora. Por ora, queria,
tardiamente, agradecer aos heróis do dia 17 de Junho, que serão lembrados pelo
nossos filhos, nossos netos e nossa história.