quarta-feira, 3 de julho de 2013

Aos heróis, obrigado

Dia 17 de Junho de estive no Mineirão assistindo Taiti e Nigéria. Ganhei o ingresso. Jamais pagaria para assistir Taiti e Nigéria. Aliás, não pagaria para assistir nenhum jogo da Copa das Confederações ou da Copa do Mundo. O motivo não é financeiro, político ou ideológico. Não pago pelo simples motivo porque eu não gosto do futebol ópera da FIFA.  Não me canso de repetir que gosto do futebol e de estádios à la América do Sul, assistindo jogos em pé, pulando e gritando, com emoção e passionalidade, gosto do antigo Mineirão. Essa história de ver jogo sentadinho, só aplaudindo com lugar marcado, isso não é para mim. Inclusive sou contra as mudanças impostas ao Brasil pela FIFA, atual presidente da República, que chegou ao disparate de exigir o cancelamento das tradicionalíssimas festas juninas do nordeste. Não sou torcedor de Copa, desses que a Globo adora, que assiste futebol de quatro em quatro anos, cujos maiores ídolos são o Ronaldo e o Galvão Bueno. Eu sou daqueles que não suporta o nome Fuleco ao – até simpático e pertinente – Tatu-Bola mascote do mundial, ou os nomes Cafusa e Brazuka (com Z e K). Sou daqueles que se sentiram representados, como se aquelas mãos baianas também fossem minhas, quando as famigeradas Caixirolas foram arremessadas na grama da Fonte Nova, fazendo com que a FIFA acabassem com esta palhaçada. Se é para ter instrumento na Copa do Mundo do Brasil, que seja a bateria, ou não é a bateria que rege os jogos brasileiros?

Não sabia que não muito distante dali a história estava sendo feita. Uma história que eu cheguei à participar dias depois, mas que teve seu princípio no dia 17 de junho enquanto eu quase dormia dentro do Mineirão. Ninguém que foi às ruas teve a importância histórica sequer comparável aos heróis do dia 17. Aqueles precursores são os verdadeiros heróis. Por mais incertos que sejam os rumos dessa intifada popular, eles acordaram o Brasil, que precisava mesmo ser despertado. O jornalista esportivo Paulo Vinícius Coelho foi muito feliz ao dizer que vamos estudar o dia 17 de Junho de 2013. Eu tenho a mais absoluta certeza que nossos filhos e netos vão estudar esse momento histórico em nosso país. O movimento, que eclodiu após um aumento de vinte centavos na passagem de ônibus em São Paulo e tomou proporções nacionais após a reação exagerada da polícia paulista, é muito mais do que a cobrança por um transporte público barato ou de qualidade. Era simplesmente o protesto pelo descaso acumulado.

A última vez em que o brasileiro foi às ruas, em 1992, há 21 anos, com os Caras-Pintadas, foi para pedir o impeachment de Collor. Anos antes, o pedido era por Diretas,  depois de  uma sangrenta e longa luta contra o regime militar. Entretanto, apesar de serem movimentos legítimos, populares e apartidários, os Caras-Pintadas, As Diretas Já e as lutas contra a ditadura tiveram uma coisa que o movimento de 2013 (que deve ficar pra história como Revolta do Vinagre) não teve: um inimigo personificado. Desta vez o inimigo não tinha cara ou partido definidos. Não era um regime, uma pessoa ou uma proposta de revolução. Nada disso. O inimigo foram os 21 anos de descaso com a população brasileira por parte de todos os governos desde então. Não foram os 20 centavos. Aliás, ninguém reclamaria do aumento de 20 centavos, 1 real que fosse, se tivéssemos tido retorno do dinheiro que pagamos ao governo nas últimas duas décadas. Nesses últimos anos, tomando como marco o movimento dos "Cara-Pintada", nossa carga tributária aumentou absurdamente, entramos entre as 5 maiores economias do mundo, viramos credores internacionais, evoluímos para país emergente. Mas, pergunto, cadê o retorno? Esse dinheiro está indo para onde? Tivessem nos oferecido serviços púbicos de qualidade, não reclamaríamos dos aumentos. Vivemos, porém, em um país cada vez mais caro, mais rico e pior. Protestamos pelo fato de o poder legislativo, e finalmente percebemos que o principal buraco está lá, que eles são os verdadeiros comandantes do país, não ter feito nada desde a votação pelo impeachment do Collor. Ao menos nada em prol do Brasil. Aliás, nos últimos dias, acuado, fez mais do que nos últimos 21 anos. Não protestamos contra Lula, Dilma, FHC, Alckmin, Serra, Cabral, Anastasia, Paes, Aécio. Protestamos contra todos eles juntos, contra os partidos políticos brasileiros, sobretudo os dois maiores, que, além de serem exatamente iguais, em vez de proposta de país, lutam por proposta de poder.  Não há um vilão. Existem vários, os mesmos que, em tese, deveriam defender nossa Constituição, mas agem, há tempos, como se ela não existisse. É pedir demais que os governantes respeitem a nossa Constituição? Protestamos porque política no Brasil virou negócio, virou carreira (das boas) e, enquanto isso, nosso dinheiro vai sabe-se lá para onde. A questão é simples, estamos internamente muito aquém do que produzimos e da imagem que vendemos ao exterior. Não se trata de um país pobre que não tem condição de oferecer o mínimo de dignidade ao seu povo. Se trata de um país rico, mas cheio de ralos de dinheiro.

Assistíamos a isso passivamente até que os heróis do dia 17 de Junho saltaram do “deitado eternamente em berço esplêndido” ao “verás que um filho teu não foge a luta”.  Pobre dos políticos que acharam - como uma jornalista da Record - que a redução da passagem reduziria nossa indignação. Pobre daqueles que acham que vão se aproveitar eleitoreiramente deste momento histórico, personificando a culpa, jogando para seus adversários políticos e se eximindo de responsabilidade. Pobre daqueles que acham que esse é um momento transitório. Pobre dos que acham que o povo não aprendeu a reivindicar quando necessário. Pobre daqueles que acham que o futebol diminuirá nossa indignação. O povo cansou de ser feito de bobo e, após 21 anos sendo testados até o limite, acordamos, melhor fomos acordados. Surpreendentemente, em vários lugares do país, heróis foram às ruas reivindicar nossos direitos, iniciando um movimento popular que há tempos não se via por aqui. Nos testaram até o limite, o limite chegou. A bomba estourou, muito antes do que esperavam os políticos, muito depois do que deveria ter estourado.

Àqueles que estiveram nas ruas naquele 17 de Junho, precursores de um movimento histórico em nosso país, quiçá, uma  guinada histórica no destino Brasil, meu muito obrigado. O vandalismo, os rumos deste movimento, os desdobramentos, são assuntos para outra hora. Por ora, queria, tardiamente, agradecer aos heróis do dia 17 de Junho, que serão lembrados pelo nossos filhos, nossos netos e nossa história.