sexta-feira, 19 de setembro de 2014

A hipocrisia não é tão hipócrita assim

Desde os tempos do ocorrido com o Daniel Alves tenho tentado falar do assunto, mas a gravidade e delicadeza do tema me impediram. O motivo principal era o receio de ser mal interpretado. Até que, após o caso Aranha, ouvi um jornalista tirar as palavras da minha boca e conseguir, em termos compreensíveis e claros explicar exatamente o meu ponto de vista.

O primeiro ponto é diferenciar racismo de injúria racial, que é um agravante. O caso ali é o segundo, apesar das pessoas confundirem muito. Racismo é quando por questões de cor você limita os direitos de outrem ou o diferencia dos demais. É como, por exemplo, não permitir o acesso de alguém a um elevador, festa, ou qualquer outro espaço que ela tenha direito por ser negro, ou se você deixa de contratar um serviço porque o prestador é negro, enfim, uma restrição clara. A injúria é o que vimos. Não faço juízo de valor se mais ou menos grave, mas são diferentes.

Nem acredito, diga-se, que a maior parte dos gremistas que cometeram tais ofensas nem o torcedor do Villareal da banana tenham condutas racistas diariamente. Ainda assim, eu estando enganado ou não, uma coisa não justifica a outra, pois a atitude é simplesmente injustificável. Como também não há justificativa para que não houvesse relato disso na súmula ou para que o próprio Grêmio não acionasse o tribunal especial, presente em todos os estádios, naquele exato momento. A crucificação e a personificação do ocorrido de Porto Alegre em apenas uma pessoa, também é igualmente cruel e sem justificativa, embora, é verdade, as sanções penais não só são justificáveis, como essenciais. E têm, inclusive, de serem aplicadas também aos outros envolvidos. A punição social, no caso dela, já veio. E está sendo cara.

Voltemos à Espanha. Diferentemente do Aranha, Daniel Alves usou do deboche. O lateral, ao ser alvejado com uma banana por um torcedor espanhol, no El Madrigal, estádio do Villareal, comeu a fruta, em um ato que, embora não tenha sido inédito, embora tenha sido uma atitude planejada para uma ação de marketing, gerando aquele insuportável “#SomosMacacos”. Aquilo nasceu para ser moda, em uma jogada de marketing que virou até estampa de camisa.

A primeira vez, contudo, que uma opinião sobre o tema me chamou a atenção, foi quando um negro teve uma carta lida em uma rádio, dizendo que “não, não somos todos macacos”.  O cunho da carta era bem diferente do que o senso comum podia imaginar. Ele estava indignado, e com razão, com a apologia ao #SomosTodosMacacos. Lembrou ele, com palavras muito diferentes, que, no Brasil, existe um preconceito ainda muito maior do que o da cor da pele. É o preconceito econômico. E como dizia a carta, comer a banana tendo uma Ferrari na garagem é fácil. É mesmo. Poucos dias depois do incidente, o camaronês Eto’o, que há muito sofre com isso, postou exatamente isso. Ele em frente ao seu carro milionário com a legenda: “Eu é que sou macaco?”. Voltando à carta, o ouvinte disse que, naquele momento, o jogador, que, geralmente tem origem humilde, tem a noção que o dinheiro não muda a cor de pele de ninguém. 

Essa frase leva à tona um tipo de preconceito que é extremamente voraz: o preconceito social.  Esse tema quase não foi abordado após o ocorrido, embora, sobretudo depois da foto do Eto’o, alguns comentários do tipo “olha lá, o macaco com um carrão que custa cem vezes o salário do trouxa racista”. Isso passa desapercebido, mas estamos na verdade corroborando com o preconceito social. O que me pergunto é e se ele fosse pobre? Realmente é muito fácil comer a banana com milhões na conta e uma Ferrari na garagem.

Voltando ao Aranha, o goleiro do Santos, mesmo sem uma Ferrari, tem uma condição econômica bem superior à média da população. Contudo, neste caso, o goleiro se sentiu realmente incomodado e indignado. Lembrou ainda, em entrevista posterior, que em muitos lugares, por conta justamente de sua condição econômica, ele é tolerado, e não aceito. Por isso, embora a visibilidade tenha sido infinitamente menor devido aos personagens, a repercussão foi mais intensa e a discussão mais produtiva, até porque a credibilidade do #SomosMacacos caiu por terra na primeira camisa vendida.

Entretanto, através das redes sociais, em ambos os casos algumas pessoas começaram um outro debate sobre outros tipos de preconceito, sobretudo a homofobia no futebol, polemizando a disparidade no tamanho do debate em um caso e outro. Alguns, é verdade, chegam à estupidez de justificar esta diferença dizendo que a diferença é que “não se escolhe ser negro”. Isso é uma estupidez sem fim. Primeiro pelo fato de a sexualidade não ser opção ou escolha, e isso, aos imbecis de plantão, é inclusive comprovado pela ciência. O segundo porque considerar a diferença por esse prisma É dizer que o negro é inferior, apesar de não ter escolhido e o homossexual escolheu ser inferior, ou seja é racista e homofóbica por natureza, um verdadeiro absurdo.

Há uma razão de ser nesta diferença que é vai muito além do preconceito. Quando alguém xinga no estádio, e não estou fazendo juízo se é certo ou errado, ele nem se atenta se o xingado é ou não aquilo. O cara não sabe, nem quer saber, a orientação sexual, ou a profissão da mãe do cara. O intuito, neste caso, é muito menos ofensivo. É xingar por xingar, como na pelada, como na partida de truco, e por aí vai. É desabafar sobre alguma coisa feita pelo ofendido cujo ofensor não pode fazer nada. Xingado e xingador sabem disso, tanto que o ofendido, dificilmente se preocupa com isso.

Quando se chama alguém de macaco da maneira que foi feita, o objetivo é muito além de xingar uma pessoa. O objetivo é, deliberadamente, a julgar inferior por causa, neste caso, da pele. É se considerar um ser superior à ponto do outro passar de gente à animal. Algo muito pior que um xingamento.

Transportando essa questão à sexualidade, na maioria dos casos é, sim diferente. Certa vez, quando o Richarlysson reclamou de homofobia, um colunista, do qual divirjo em quase 100% das coisas, disse algo interessante. “Como um cara que se diz heterossexual pode sofrer de homofobia?” Quem vai ao estádio, independentemente da orientação sexual, xinga alguém de “viado”, sem maiores problemas, tanto na intenção quanto na recepção.

Mas maioria não quer dizer todos. Certa vez, em um jogo de vôlei, um atleta assumidamente homossexual, sofreu algo muito parecido ao que passou o Aranha em Porto Alegre. Quando ele ia sacar, o coro da arquibancada era muito diferente do quando um outro atleta era xingado. Era avassalador. Naquele caso, e talvez possa ter ocorrido com o Richarlysson em alguns casos, sobretudo com torcidas adversárias, as pessoas julgavam àquele atleta como um ser inferior pela sexualidade. Ele, como o Aranha, foi discriminado. Não eram xingamentos aleatórios. Eram direcionados, discriminatórios e ultrapassavam à esfera esportiva.

Neste sentido, portanto, não comparar o caso Aranha aos outros xingamentos nos estádios, do tipo “viado”, não tem nada de hipócrita. A comparação, na verdade, nem cabe. O caso do atleta do vôlei, porém, foi exatamente o mesmo sofrido pelo Aranha. A hipocrisia, neste caso, é o fato de ninguém ter falado em responsabilidade penal a nenhum dos envolvidos na questão do voleibol, e mesmo de não se dar a mesma repercussão.

Voltando ao Aranha, ontem ele esteve de volta ao mesmo estádio. Lá, desta feita, provou cabalmente a hipocrisia, não com relação aos outros xingamentos, mas com relação aos valores e ao próprio racismo. Primeiramente, a menina crucificada, que não tem nada de coitada, mas também está longe de ser a mentora intelectual ou a única culpada, já havia demonstrado o arrependimento. Não pelo que ela fez, mas pela consequência de sua ação.

A partir disso, o treinador do Grêmio, algumas pessoas da imprensa o próprio presidente do clube, foram à imprensa falar bobagens, culpando o Aranha pelo ocorrido, como se ele fosse culpado pelo racismo sofrido e pela eliminação do Grêmio. Ele foi a vítima. Mas a vítima no Brasil é quase tão culpada quanto o infrator. Por isso, em uma demonstração ridícula de aprovação ao ato racista de alguns torcedores, a torcida ontem vaiava o goleiro do Santos com veemência. Muito mais do que o normal e quem acompanha futebol sabe disso.

Depois do jogo, o goleiro ainda teve de se sujeitar a uma repórter que, além de demonstrar o não entendimento da gravidade da questão, confessou ao jogador ser neutra com relação à atitude da torcida. Isso sim é hipocrisia. Mas o jogo é muito mais importante à integridade humana. Estou certo que não é a maioria dos gremistas, cujo belo hino foi escrito por um negro, mas uma parcela bastante imbecil não só dos tricolores gaúchos, mas como da sociedade em geral.

De toda forma, por essas é que me pergunto se a retaliação e punição da sociedade à grande pivô de toda esta confusão também não é hipócrita. Será que ela está mesmo sendo retaliada – de maneira absurda, diga-se - por sua atitude racista?

Cada vez mais tendo a crer que não; e, apesar de ninguém se atentar, a real motivação das agressões à moça é a mesma de seu arrependimento: a eliminação do Grêmio da Copa do Brasil.