Eu perdi o episódio em que a democracia virou guerra civil. Mas em algum momento o processo eleitoral se
tornou uma verdadeira disputa, sobretudo nas redes sociais. O ódio e a
passionalidade chegaram ao nível de parecer estar instaurada uma Guerra Civil
Tupiniquim. Fato é que a democracia não foi feita para agradar à todos, e esta,
em essência é sua beleza.
Jean Fraçois Marie Arouet, vulgo
Voltaire, em inspiração ímpar, disse que “posso não concordar com as bobagens
que diz, mas defendo até a morte seu direito de dizê-las”. Mas isso é racional
demais para uma eleição, racional demais para o Brasil. Outro dia ouvi um pertinente
comentário em uma rádio no qual me senti inteiramente representando. Compreendo
os motivos de todos para ser contra um dos candidatos. Muito mais até do que
para ser a favor de qualquer um dos dois. Entretanto, nenhum deles merece essas
defesas e ataques passionais como se fossem salvadores do Brasil, ou como se
fossem dois times de futebol.
As paixões chegaram ao ponto de
suprimir a razão. Parecia que as pessoas não estavam pensando no bem do país,
mas no prazer de suprimir à opinião alheia, o puro prazer da vitória. Nessas
horas, assim como no futebol, o melhor é desligar do mundo e ocupar a mente.
Afinal chega ser ridículo os derrotados nas urnas dizerem temer pela
democracia. Ora, temerem à democracia por perderem o processo democrático? Qual o
sentido?
Pior é ver alguns dos expoentes
dessas pessoas, gente, por mais incrível que possa parecer, formadora de opinião, dizerem “agora é lutar pelo
impeachment”. A democracia só vale para essas pessoas quando elas vencem.
Assim, meus caros, tudo fica mais fácil. Os que vibram alucinados pela vitória
e os que remoem excessivamente a derrota, não pensam ser o fim o bem comum,
levam tudo para o pessoal.
Pior, se eximem de
responsabilidade cívica quando derrotados, e protegem a qualquer custo seu candidato se vencedores. Quem
vota não precisa ser cabo eleitoral. Quem vota em um ou em outro tem seus
motivos para tal, o que não quer dizer, sob nenhuma hipótese, concordar na
totalidade com as atitudes do candidato, tampouco reprovar tudo feito pelo
preterido.
Não é futebol. Não é guerra
civil. É eleição. Além de não ser sinônimo de aprovação incondicional e
absoluta, votar em alguém não é dizer que você não irá o fiscalizar, tampouco é
assumir a culpa pelo ato dele, ou abster de protestar. Quanto aos eleitores
derrotados, isso não quer dizer que ele tem, por obrigação, discordar de tudo,
protestar por protestar, ou se abster de fiscalizar e transferir a culpa para
os outros eleitores.
Se as pessoas não carregam a
culpa pelos atos do candidato que não votou, tampouco deve recair sobre os ombros do eleitor o peso das atitudes de seu escolhido. E os motivos são vários. O primeiro, aos que se eximem de culpa, antes de fazê-lo, deviam se perguntar em que votou para os cargos legislativos
e saber seus projetos e ações durante o mandato. Focar somente nos escândalos
da grande mídia é fácil. Aos outros, estes devem ter a consciência que,
independentemente da escolha na urna, ela traria boas e más consequências,
afinal, nenhum candidato tem só propostas boas e ruins. No cenário político, ou
mesmo no histórico dos candidatos da última eleição, tampouco temos pessoas cem
por cento honestas, e administrações marcadas pela lisura, para ser eufêmico.
Além disso, os motivos para escolher um candidato são muitos, até mesmo, o que
pensa ser menos pior.
A Guerra Civil online vivida não
faz um mês, mediante isso tudo, fica cada vez mais patética e sem sentido. É
muito fácil culpar os outros e se abster de sua parte. Tudo dá errado é culpa
do governo, mas o que as pessoas, cidadãos comuns fazem? Gritar por gritar é
fácil. Não digo, necessariamente, protestos. Mas a parte como cidadão, no
simples ato de fazer o que é certo.
Mas não. Nós nos achamos espertos
demais para isso. Somos acomodados demais para isso. Seremos sempre, não
importa quem esteja o poder, reféns de nossas próprias acomodações, e, por isso mesmo, não há a
menor perspectiva de algo diferente surgir. Estamos falando de
pessoas cujos votos são definidos via pesquisa, e o melhor, não necessariamente
é votado pelo simples fato de ele parecer "não ter chance de ganhar".
E a “Guerrinha” gerou fatos
ridículos, de quem, antes de falar, além de não pensar, não procura nem saber o
que diz. Fique claro, os nordestinos, e pessoas de quase todas as partes do
país, migram para o Sudeste, sobretudo São Paulo, desde que o centro da
economia brasileira está lá, há muito tempo. Não é votar em X e migrar. Aliás, São Paulo foi
construída pelos nordestinos a quem, em verdade, os paulistas devem gratidão.
Não é e nem foi uma batalha dos
ricos contra os pobres. Não é e nem foi uma batalha. Efetivamente, os únicos
adversários eram os dois candidatos e seus projetos de poder. Para nós foi uma
escolha, sem derrotados e vencedores. Não se tratava de um jogo. Não é para separar o Brasil, ou maldizer o
nordeste, sabendo, inclusive, que, para muitos dos que o fizeram, lá será o destino das próximas férias.
Vamos ser coerentes e
inteligentes. A democracia pode ter seus ônus. Mas é o nosso
maior bem político. Não estamos em guerra, não somos fiéis seguidores de nada. O voto
não é uma mordaça, apenas uma opinião. Não carregue culpa pelo que deu errado,
e nem a certeza de que teria sido melhor. Não concorde com tudo que é dito só
para discordar de outra pessoa. Não assuma um lado como um time de futebol, ou como uma religião, pois esteja certo, ambos os lados cometeriam e cometem erros. Ambos os lados vão estar amordaçados pelo sistema político brasileiro. Não existem
salvadores da pátria.
O Brasil é feito, acima de tudo, por nós
brasileiros. Por isso, antes de qualquer coisa, antes de pensar em culpas,
ofensas, partidos, dogmas e imbecilidades sem propósito; independentemente de
qualquer coisa, pense em fazer sua parte. Este sim é o primeiro passo para a
mudança.