segunda-feira, 1 de dezembro de 2014

O arrogante vira latas

Desde sempre aprendemos na aula de história que o Brasileiro não tem uma identidade, inclusive fisicamente, fato pelo qual, nosso passaporte é um dos mais visados por bandidos e terroristas. Uma característica, contudo, nos faz brasileiros. Invariavelmente, não sei se por genética, tendência, ou pura passionalidade, nós brasileiros somos bipolares. Sempre é assim, ou está tudo muito bem, ou nada presta. Ou somos muito melhores, ou muito piores. Somos, efetivamente, emoção.

Nosso complexo de vira-lata é um dos nossos mais arrogantes transtornos bipolares. É uma espécie de complexo paradoxal e incondicional, que não avalia as minúcias, nem sequer faz uma análise minimamente crítica antes de se colocar inferior ou superior aos outros. Somos extremamente complexados quando nos comparamos aos europeus e aos americanos. Ao passo que, comparados aos latino-americanos, somos extremamente prepotentes. É como se, perante aos países de primeiro mundo nos sentíssemos vira-latas e, perante ao resto, um premiado cão de raça e com pedigree.

Nosso complexo de inferioridade não é compreendido nem pelos próprios europeus, americanos e asiáticos. Vemos eles como verdadeiros heróis, habitantes de um paraíso ideal onde tudo funciona. Isso tudo é questionável, sob várias perspectivas. A primeira é o fato de todos os problemas serem questões, sobretudo, de referência. Em um país como a Austrália, por exemplo, a população local reclama veementemente do transporte e saúde públicos. A saúde, confesso, não precisei usar, mas o transporte público australiano, principalmente o de Sidney, chamado de “vergonha” pelos moradores, são invejáveis se comparados, por exemplo, aos transportes sul-americanos. Mas a referência é outra. Se comparado à Barcelona, ou Lisboa, por exemplo, as queixas começam a fazer sentido.

O nosso complexo é, estranhamente, seletivo e sistêmico. Nos julgamos piores à Europa e aos EUA, como se esses lugares fossem os verdadeiros paraísos na Terra. Simples assim, ou melhor, simplista assim. Entretanto esse mundo cor de rosa só existe na nossa imaginação. Vocês acham, por exemplo, que as sátiras feitas pelos americanos ao seu sistema de saúde, educação e à corrupção, são meros frutos da imaginação dos criadores dos Simpsons, do Family Guy ou dos produtores de Hollywood? Óbvio que não. Também é óbvio que a quantidade é muito menor e, sobretudo, muitas das coisas funcionam melhor lá, mas isso não quer dizer que estão livres de problemas sociais.

Os americanos, cujo sistema de saúde público é um dos mais criticados do primeiro mundo, são críticos ao próprio país, tomando como referência, por exemplo, o Canadá. As grandes cidades dos EUA também tem problemas de violência embora, de fato, de maneira muito mais controlada. Casos de violência policial nos EUA têm sido constantes no último mês. Eles também não são perfeitos. Não quero dizer que somos melhores, mas também não somos tão piores, a ponto de se criar um complexo de vira-lata.

Os europeus, sobretudo a Europa ocidental, em geral muito mais desenvolvidos socialmente aos americanos, também têm suas mazelas e problemas. O problema econômico, o desemprego, a xenofobia, a diminuição dos serviços públicos – em qualidade e quantidade. Não faz muito tempo, uma matéria disse que os professores da França que atuam em áreas violentas terão acréscimo na bonificação de fim de ano. Os professores franceses já ganham bem, não é essa a questão posta. O interessante aqui é notar que na França também existem áreas violentas. Algumas mazelas são comuns a qualquer país com populações demasiadamente grandes, embora não seja difícil reconhecer que o Brasil lida com elas de maneira muito pior em relação a muitos países.

Ainda assim, grande maioria da Europa nos considera o país do futuro, com grande potencial, não fosse a burocracia e a bipolaridade local. Um empreendedor francês, por exemplo, estudou abrir no litoral uma pousada de luxo. Contudo, e isso explica o tanto que o Brasil é caro, seu estudo constatou que o baixo fluxo da “baixa temporada” é tanto que, na alta, o preço para compensar o prejuízo teria de ser absurdo. Somos inconstantes em todos os aspectos, o ser humano é. Entretanto, o desnível de nossa inconstância é muito maior às outras.

E é justamente nessa bipolaridade que reside a arrogância de nosso complexo de vira-lata. O mesmo brasileiro que se derrete pelos países de primeiro mundo se considera superior a todos os outros países em desenvolvimento do mundo. Não nos consideramos, sequer, latino-americanos, pois isso, para nós, é um privilégio de quem fala espanhol Aliás, por conta da força econômica, ou pelo pentacampeonato mundial de futebol, quando a comparação é feita com outros países da América Latina, somos o ápice da arrogância. Todos eles, invariavelmente, sofrem com diversos problemas, extremamente parecidos aos nossos. Por outro lado eles também têm muito a nos ensinar.

A nossa relação com esses países é exatamente a mesma que nós imaginamos que nossos países de idolatria têm conosco. Pura imaginação. De mais a mais, por maiores que possam ser nossas vantagens econômicas, muitos países se viram bem melhor ao nosso. Evidentemente uma população menor é essencial para isso, mas o Uruguai por exemplo é um lugar espetacular para se morar. Em muitos pontos os chilenos e os argentinos têm ideias de vida melhores às nossas.  Porque somos tão melhores? Exatamente o inverso, quando a comparação é com europeus e americanos, porque somos tão piores? Não somos nenhum nem outro.

Aliás, quando se é turista, ou mesmo um estudante no estrangeiro a perspectiva sobre a vida de um país é bem diminuída, afinal, excluídas as favelas do Rio de Janeiro, os turistas não vão às periferias e lugares mais perigosos. Ficam dentro de uma redoma turística, protegido de tudo. Quantos turistas e estudantes brasileiros visitaram alguma “non go area” de Miami ou NY?

Somos, em verdade, reflexo de nós mesmos. Afinal, já diria Ghandi, temos de ser a mudanças que queremos ver no mundo. O brasileiro não é. Somos uma imagem, subalterna em alguns pontos e soberba em outros e nossas atitudes demonstram isso. Aliás, é surpreendente a reação das pessoas quando voltam do exterior, se dizendo surpresas sobre a educação e cortesia das pessoas em outros lugares. "Ninguém fura fila, todos respeitam sua vez, o Brasil deveria ser assim..."


Entretanto, somos tão bipolares que nosso comportamento no exterior muda completamente. Somos a turma “faça o que eu digo, não faça o que eu faço”. Ora, me pergunto, pois, se os brasileiros tão surpresos com a educação e civilidade, e que se comportam tão bem lá fora, têm a mesma correção aqui, dentro de casa. Em geral, não. O nosso complexo de vira-lata não passa de um arrogante subterfúgio às nossas falhas como cidadãos, como país e como nação. Uma mera representação de nossa bipolaridade.