Desde sempre aprendemos na aula de
história que o Brasileiro não tem uma identidade, inclusive fisicamente, fato
pelo qual, nosso passaporte é um dos mais visados por bandidos e terroristas. Uma
característica, contudo, nos faz brasileiros. Invariavelmente, não sei se por
genética, tendência, ou pura passionalidade, nós brasileiros somos bipolares. Sempre
é assim, ou está tudo muito bem, ou nada presta. Ou somos muito melhores, ou
muito piores. Somos, efetivamente, emoção.
Nosso complexo de vira-lata é um dos
nossos mais arrogantes transtornos bipolares. É uma espécie de complexo
paradoxal e incondicional, que não avalia as minúcias, nem sequer faz uma
análise minimamente crítica antes de se colocar inferior ou superior aos
outros. Somos extremamente complexados quando nos comparamos aos europeus e aos
americanos. Ao passo que, comparados aos latino-americanos, somos extremamente
prepotentes. É como se, perante aos países de primeiro mundo nos sentíssemos
vira-latas e, perante ao resto, um premiado cão de raça e com pedigree.
Nosso complexo de inferioridade não é
compreendido nem pelos próprios europeus, americanos e asiáticos. Vemos eles
como verdadeiros heróis, habitantes de um paraíso ideal onde tudo funciona.
Isso tudo é questionável, sob várias perspectivas. A primeira é o fato de todos
os problemas serem questões, sobretudo, de referência. Em um país como a
Austrália, por exemplo, a população local reclama veementemente do transporte e
saúde públicos. A saúde, confesso, não precisei usar, mas o transporte público
australiano, principalmente o de Sidney, chamado de “vergonha” pelos moradores,
são invejáveis se comparados, por exemplo, aos transportes sul-americanos. Mas
a referência é outra. Se comparado à Barcelona, ou Lisboa, por exemplo, as
queixas começam a fazer sentido.
O nosso complexo é, estranhamente,
seletivo e sistêmico. Nos julgamos piores à Europa e aos EUA, como se esses
lugares fossem os verdadeiros paraísos na Terra. Simples assim, ou melhor, simplista assim. Entretanto esse mundo cor de rosa só existe na nossa
imaginação. Vocês acham, por exemplo, que as sátiras feitas pelos americanos ao
seu sistema de saúde, educação e à corrupção, são meros frutos da imaginação
dos criadores dos Simpsons, do Family Guy ou dos produtores de Hollywood? Óbvio
que não. Também é óbvio que a quantidade é muito menor e, sobretudo, muitas das
coisas funcionam melhor lá, mas isso não quer dizer que estão livres de
problemas sociais.
Os americanos, cujo sistema de saúde
público é um dos mais criticados do primeiro mundo, são críticos ao próprio
país, tomando como referência, por exemplo, o Canadá. As grandes cidades dos
EUA também tem problemas de violência embora, de fato, de maneira muito mais controlada.
Casos de violência policial nos EUA têm sido constantes no último mês. Eles
também não são perfeitos. Não quero dizer que somos melhores, mas também não
somos tão piores, a ponto de se criar um complexo de vira-lata.
Os europeus, sobretudo a Europa
ocidental, em geral muito mais desenvolvidos socialmente aos americanos, também
têm suas mazelas e problemas. O problema econômico, o desemprego, a xenofobia,
a diminuição dos serviços públicos – em qualidade e quantidade. Não faz muito
tempo, uma matéria disse que os professores da França que atuam em áreas
violentas terão acréscimo na bonificação de fim de ano. Os professores
franceses já ganham bem, não é essa a questão posta. O interessante aqui é
notar que na França também existem áreas violentas. Algumas mazelas são comuns
a qualquer país com populações demasiadamente grandes, embora não seja difícil
reconhecer que o Brasil lida com elas de maneira muito pior em relação a muitos
países.
Ainda assim, grande maioria da Europa nos
considera o país do futuro, com grande potencial, não fosse a burocracia e a
bipolaridade local. Um empreendedor francês, por exemplo, estudou abrir no
litoral uma pousada de luxo. Contudo, e isso explica o tanto que o Brasil é
caro, seu estudo constatou que o baixo fluxo da “baixa temporada” é tanto que,
na alta, o preço para compensar o prejuízo teria de ser absurdo. Somos
inconstantes em todos os aspectos, o ser humano é. Entretanto, o desnível de
nossa inconstância é muito maior às outras.
E é justamente nessa bipolaridade que
reside a arrogância de nosso complexo de vira-lata. O mesmo brasileiro que se
derrete pelos países de primeiro mundo se considera superior a todos os outros
países em desenvolvimento do mundo. Não nos consideramos, sequer,
latino-americanos, pois isso, para nós, é um privilégio de quem fala espanhol
Aliás, por conta da força econômica, ou pelo pentacampeonato mundial de
futebol, quando a comparação é feita com outros países da América Latina, somos
o ápice da arrogância. Todos eles, invariavelmente, sofrem com diversos
problemas, extremamente parecidos aos nossos. Por outro lado eles também têm
muito a nos ensinar.
A nossa relação com esses países é
exatamente a mesma que nós imaginamos que nossos países de idolatria têm
conosco. Pura imaginação. De mais a mais, por maiores que possam ser nossas
vantagens econômicas, muitos países se viram bem melhor ao nosso. Evidentemente
uma população menor é essencial para isso, mas o Uruguai por exemplo é um lugar
espetacular para se morar. Em muitos pontos os chilenos e os argentinos têm
ideias de vida melhores às nossas. Porque
somos tão melhores? Exatamente o inverso, quando a comparação é com europeus e
americanos, porque somos tão piores? Não somos nenhum nem outro.
Aliás, quando se é turista, ou mesmo um
estudante no estrangeiro a perspectiva sobre a vida de um país é bem diminuída,
afinal, excluídas as favelas do Rio de Janeiro, os turistas não vão às
periferias e lugares mais perigosos. Ficam dentro de uma redoma turística,
protegido de tudo. Quantos turistas e estudantes brasileiros visitaram alguma “non
go area” de Miami ou NY?
Somos, em verdade, reflexo de nós mesmos.
Afinal, já diria Ghandi, temos de ser a mudanças que queremos ver no mundo. O
brasileiro não é. Somos uma imagem, subalterna em alguns pontos e soberba em
outros e nossas atitudes demonstram isso. Aliás, é surpreendente a reação das
pessoas quando voltam do exterior, se dizendo surpresas sobre a educação e cortesia
das pessoas em outros lugares. "Ninguém fura fila, todos respeitam sua vez, o
Brasil deveria ser assim..."
Entretanto, somos tão bipolares que nosso
comportamento no exterior muda completamente. Somos a turma “faça o que eu
digo, não faça o que eu faço”. Ora, me pergunto, pois, se os brasileiros tão
surpresos com a educação e civilidade, e que se comportam tão bem lá fora, têm
a mesma correção aqui, dentro de casa. Em geral, não. O nosso complexo de
vira-lata não passa de um arrogante subterfúgio às nossas falhas como cidadãos,
como país e como nação. Uma mera representação de nossa bipolaridade.