terça-feira, 30 de dezembro de 2014

A bala que não matou Hitler

Um desastrado terrorista anarquista sérvio de seis dedos, integrante da mão negra, tentando impedir o suicídio de Getúlio Vargas, acidentalmente, com o dedo extra, acabou disparando o tiro cujas consequências foram matar o então presidente do Brasil e adiar a ditadura militar brasileira em 10 anos. A história deste terrorista fictício, Dimitri Borja Korosec, é o enredo do excelente livro de Jô Soares “O homem que matou Getúlio Vargas”.

Em outro ponto da história, uma arma dada de presente por um japonês, dispara um tiro acidental na África. O tiro disparado por um jovem pastor de ovelhas africano, atinge um ônibus de turistas e tem consequências diretas e variadas no Japão, México, Estados Unidos. Essa é a história de um excelente filme estrelado por Brad Pitt, chamado Babel. Algo bastante complexo e até difícil de acreditar em um mundo tão grande, embora tão conectado. Mas muito real.

A sensacional trama escrita por Jô, embora fictícia, bem como o, igualmente sensacional, filme hollywodiano, têm a mesma base, extremamente sólida, embora mal percebamos: a história, nada mais é do que uma sequência de acasos, coincidências, tomadas de decisão. No final, tudo está ligado e um grão de areia movimentado na Austrália pode ter efeito no Brasil, como diz a teoria do “Efeito Borboleta”, cujo conteúdo é fundamento para o filme homônimo.

No esporte a gente acredita mais nisso, talvez por ser mais evidente e presente às nossas vidas. É a história de “o se não joga”. Se aquela bola não bate na trave, se o atacante não escorrega... Mas não conseguimos transportar isso à nossa realidade ou nosso cotidiano. Não sei se a sorte e o acaso existem, ou se são meras tramas de uma complexa teia criada por algo superior, fato é que dois centímetros a mais ou a menos em qualquer movimento podem mudar o mundo.

Aliás, a humanidade só existe por causa de dois “insignificantes” centímetros. Há bilhões de anos, quando o sistema solar se constituía e a terra era apenas um aglomerado de massa recém formado por destroços de explosões aleatórias, um pedaço de um corpo celeste qualquer, em meio às colisões, foi desviado 2 centímetros do curso, impedindo um choque imediato e mudando completamente sua rota. Alguns bilhões de anos depois, a Terra já formada e habitada, justamente por causa desses dois centímetros, esse asteroide colidiu com o nosso planeta. Estavam extintos, então, os dinossauros.

A teoria do acaso e da desordem é bem factível na física e na formação do universo. Afinal, o universo foi/é criado através do acaso. As condições que permitem a vida na Terra, idem. Um pequeno movimento no Universo e pronto. Ele conspira, embora em escalas de espaço e tempo inimagináveis por nós.  Por que então nós, parte do universo, não faríamos parte dessa lei? Por que grandes fatos não podem surgir de pequenas ações ou coincidências? Por que o curso da história não pode ser alterado por pessoas comuns? Podem.

Aliás, o curso da história é alterado todos os dias por cidadãos comuns. Hoje é difícil acreditar, mas a maioria dos grandes homens da história, não nasceram grandes. Mas, por diversas razões se tornaram gigantes, maiores a sua própria vida, vilões e heróis imortais, gente que mudou o curso da história da humanidade.

Um jovem artista austríaco, vivendo na periferia de Viena, mal conseguia subsistir da venda de seus desenhos. Sem um plano B, aquele homem pobre, solitário, perdido, sem rumo, sem perspectiva e revoltado por estar em um país multicultural; provavelmente estava com seus dias contados, terminando seus dias na pobreza e anonimato. Em Sarajevo, um arquiduque cuja posse só foi possível por questões amorosas que levaram seu primo ao suicídio, foi assassinado desencadeando a Primeira Guerra Mundial. 

O jovem artista austríaco, então, se alista ao exército austríaco, que, prontamente o recusou por inaptidão física. As tropas alemãs o aceitaram, embora seus colegas considerassem alguém muito estranho. O artista foi colocado como mensageiro, a mais perigosa função na guerra de trincheiras. E não foi bravura ou habilidade militar que o mantiveram vivo. Em uma missão, ele caiu ferido em frente a um soldado inglês cuja arma apontava para o austro-alemão. Ele estava na mira do rifle, mas o soldado inglês, sabe-se lá porque, teve compaixão e não conseguiu disparar.

O jovem artista austríaco e soldado alemão, Adolf Hitler, sobreviveu. E o homem que não puxou o gatilho que mudaria a história da humanidade, um condecorado herói de guerra inglês, cuja imagem foi homenageada por Hitler através de um quadro, repetiu várias vezes ainda em vida: “Peço perdão para Deus todos os dias por não tê-lo matado”.

Mahatma Ghandi, um rico, jovem e promissor advogado indiano; aristocrático e formado na Inglaterra, foi enviado à África do Sul pela companhia em que trabalhava. Já na África do Sul, Ghandi, com passaporte e passagem de primeira classe em mãos, foi colocado em um vagão econômico, repleto de negros e árabes. Revoltado, o advogado argumentou com o funcionário da companhia férrea sul-africana, mostrou suas credenciais. De nada adiantou. Tratado como lixo, foi mantido no vagão rumo ao seu destino final. Lá conheceu um mercador árabe, certamente muito mais rico do que o próprio Ghandi, que lhe informou: “aqui não adianta. Se você não é branco, não é ninguém”. Revoltado, o advogado mudou seu modo de ver a vida e se tornou o personagem que conhecemos.

Histórias como essas foram escritas e reescritas durante a história da humanidade. E quantos ditadores piores do que Hitler, ou mesmo excepcionais estadistas, não apareceram para a humanidade simplesmente pelo fato de outros soldados ingleses não tiveram a mesma piedade? E se o soldado inglês disparasse aquela arma? E se Ghandi fosse mantido na primeira classe? E se o asteroide não fosse desviado dois centímetros? E se o tiro em Kennedy não o acertasse? E se o telegrama alemão não fosse interceptado? Se a Alemanha não financiasse Stalin? Se o arquiduque Francisco Ferdinando desistisse de sua viagem à Sérvia?


Bem provavelmente, quando disse que “devemos ser a mudança que queremos ver no mundo”, Ghandi pensava em sua própria história, inimaginavelmente mudada por um evento fortuito. Quem escreve a nossa história somos nós, quem escreve a história do mundo somos nós. Qualquer um de nossos movimentos, por mais ocasionais que sejam, mudam o mundo. Quaisquer que sejam nossos desejos, promessas, sonhos e aspirações, tudo depende de um mínimo movimento, um mínimo para fazer o universo conspirar. E que venha 2015.