De cara, para ser justo, vou
excluir os inegavelmente imbecis: os que levaram suásticas, os que pediram os
militares no poder, os que chamaram o PT de comunista e os que desfilavam com
camisas “Mais Privatizações”.
Ressalvas feitas,
acompanhando as atuais manifestações do neopolitizado povo brasileiro, desses
que vão lutar contra a corrupção com a camisa da CBF, concluo que pensar deve
doer. Doer muito.
Não tenho compromissos
partidários, não pretendo defender nada aqui além da democracia e da legalidade.
Já votei no PSDB e no PT consciente do que estava fazendo, esperando sempre o
menos pior. Em ambos os casos, continuo achando ter escolhido o menos pior, o
que não me isenta de criticar e ter criticado arduamente os governos que ajudei a eleger. Por
isso me sinto extremamente confortável para dizer que as manifestações de
ontem, tal como foram feitas, não tinham a menor razão de ser.
Sou contrário à maioria das
medidas do governo Dilma, acho suas medidas ineficazes, tanto quanto achava – e
ainda acho – péssimo o governo de Aécio aqui em Minas Gerais. Óbvio que, como
qualquer cidadão de bem, mesmo reconhecendo a natureza corrupta do nosso
dia-a-dia, do brasileiro que rouba wi-fi, tem gato, compra coisas piratas e
adora um jeitinho; sou contra a corrupção. E certamente me manifestaria caso
fosse uma ação propositiva.
O que vimos ontem, porém,
foram pessoas querendo curar câncer cerebral com aspirina. E dou o crédito
dessa conclusão a uma conversa que eu – crítico mas eleitor da Dilma no segundo
turno - e um amigo eleitor do Aécio tivemos no caminho entre o carro e o
Estádio Independência ontem. Não sejamos hipócritas, é provável que eleitores
dos dois lados tenham estado na rua ontem, mas é certo, e isso confirmei, que
eleitores dos dois lados também acham ridículo o modo com que isso vem sendo
conduzido. Portanto, de antemão, já aviso que, em momento nenhum, generalizo
como “eleitores do Aécio e da Dilma”, até porque isso vai contra o princípio
básico que estou defendendo.
Voltando ao que interessa,
uma das primeiras palavras que aprendi o significado foi corrupção. Assistindo
ao telejornal com minha mãe, ouvi isso e lhe perguntei do que se tratava.
Provavelmente, eu e todos os brasileiros, aprendemos o significado do vocábulo
corrupção antes mesmo do da palavra política. E, gente como eu, nascida na
metade dos anos 1980, ainda teve o privilégio de aprender cedo, bem no início
da alfabetização o significado e a grafia do termo impeachment.
Onde quero chegar? Simples.
Diferentemente do que querem nos passar, a corrupção no Brasil é um problema
crônico com muito mais de 12 anos, que não foi panteado nem aperfeiçoado pelo
PT. Foi, antes, mantido. E, por isso, como disse Juca Kfouri, o PT paga o preço
de quem, antes de estar no poder, sempre foi considerado a “esperança” anticorrupção.
Paga, pois, pela decepção de ser igual aos outros.
Igual. Nem melhor, nem pior.
É de uma ignorância ímpar acreditar que a corrupção é uma invenção petista que
assola o Brasil nos últimos 12 anos. E não sou eu quem digo. Ricardo Semler,
membro fundador do PSDB, eleitoe do Aécio Neves, escreveu na Folha de São Paulo um
artigo intitulado “Nunca se roubou tão pouco”. Ele, CEO de uma empresa que não
fecha contratos com a Petrobrás desde 1970 por não ceder às propinas, tem muita
propriedade para falar. E diz, com razão, que hoje tudo fica mais evidente
devido ao fácil acesso à comunicação e às redes sociais.
Portanto, querer criar
heróis e vilões é patético. Achar que o Aécio Neves seria o salvador da pátria
idem. Ora, os governos Aécio e Anastasia deixaram um rombo de R$6 bilhões nos
cofres de Minas. São também responsáveis por um escândalo de corrupção na
hidroelétrica de Furnas que, sob investigação, não pode nem realizar concursos
públicos para contratação de novos funcionários. Sem falar no famigerado
aeroporto de Cláudio. Ora, o PSB, hoje oposição, atacante veemente da
corrupção, era aliada ao governo quando dos fatos investigados pela operação “Lava-Jato”.
O senador tucano Cássio Cunha Lima foi condenado por crime eleitoral, cassado
do cargo de governador da Paraíba e, ano passado, pagou um jantar de R$7.500,00
para seu pai com o dinheiro do Senado, ou seja, nosso dinheiro.
Isso, evidentemente não
justifica a corrupção petista. Mas serve para mostrar aos “cavaleiros da
moralidade”, que ontem foram às ruas clamando pelo herói nacional, que todos
falam de corrupção com propriedade, afinal, são todos corruptos. Corrupção não
tem partido. É corrupto falando de corrupto, deslavadamente, diga-se.
Ainda por cima clamam pelo
impeachment da Dilma, mal sabendo que, caso ela saia, quem assume é o “acima de
qualquer suspeita” Michel Temer. Mas faz parte da nossa natureza simplista
eleger vilões, escolher caminhos fáceis. A troca de pura e simples de quem está
no poder não muda NADA. Como não mudou do Collor pro FHC, do FHC pro Lula, nem
do Lula pra Dilma. Aliás, apesar de toda a sua incompetência, estourada nas
mãos de sua sucessora, de todos esses o único que não saiu com popularidade baixa,
quase nula, foi o próprio Lula.
Mudar partidos e nomes não
vão mudar o país. Acreditar nisso é um ledo engano. Pode, no máximo, garantir
um sossego momentâneo que dá carta branca para novos esquemas, para a
recuperação do sistema. No fim, sempre vamos querer a saída de quem está no
poder. Prova disso é que ninguém manifestou pela volta do PSDB e a saída do PT
em Minas. E, a faixa mais coerente – apesar de absurda – que vi em São Paulo
dizia: Fora Dilma, Alckmin e Valdivia”. Não precisa ser genial, portanto, para
entender que o problema não é QUEM está no poder, mas sim a ESTRTURA do próprio
poder.
O sistema político está
falido e é corrupto. Não é mudar nomes, partidos. É, antes, reformar o sistema,
fazer uma verdadeira reforma política.
Imagina você com uma dor de
cabeça inexplicável. Você vai ao SUS e o médico, sem nenhum exame, te dá uma
aspirina. A causa da dor, no entanto, é um tumor cerebral. A aspirina alivia
por alguns minutos, mas volta, cada vez pior.
Ontem quem foi às ruas pediu
uma aspirina para um câncer no cérebro. O PT não é o câncer, é só o sintoma. E
a oposição é só uma aspirina. E os papeis invertem-se todas as vezes quantas
houverem inversão no poder.
Todos os partidos permeiam a
corrupção, porque nosso sistema político quase que obriga a isso. Ele induz e
favorece que todos sejam corruptos. E, depois, é só trocarem farpas e
acusações de lado-a-lado.
Que o povo, sim, vá às ruas,
mas que vá pelos motivos certos, sabendo o que está falando e tendo proposições
reais e factíveis. Não para pedir aspirina para tratar de câncer.