sexta-feira, 6 de março de 2015

Sobre heróis e vilões

Então eu leio um adesivo em um carro “a culpa não é minha, votei no Aécio” e imediatamente concluo mental e internamente “realmente a imbecilidade é um problema muito sério neste país”. Lembrei-me da frase do professor Vladimir Safatle, que eu li em um texto do jornalista Paulo Moreira Leite: “o maior inimigo da moralidade não é imoralidade, mas a parcialidade”. E isso nunca fez tanto sentido em minha mente. Não importam os nomes ou partidos, enquanto formos maniqueístas políticos o fim da história será sempre o mesmo.

Enquanto isso, em Brasília, o senador que lidera o movimento pelo impeachment da presidenta Dilma Roussef é eleito o líder do PSDB no senado. Este mesmo senador, ficha suja – já cassado do cargo de governador-, no fim do ano passado estava na mídia por gastar R$7,5 mil do senado, isto é, do contribuinte, em um jantar em homenagem ao seu pai.

Ora, qual a moral tem esse cidadão e o partido que o determinou como seu líder no senado para encher a boca e falar de corrupção na Petrobrás? E, no movimento inverso, qual a moral do PT para falar de Aeroporto em Cláudio, ou da corrupção no governo FHC? A resposta é a mesma para os dois lados: nenhuma. O passado e presente de ambos são moralmente discutíveis, portanto, não há sentido em sermos parciais. Ora, esses mesmos rivais, em 2008, se aliaram em torno de um mesmo candidato em BH. 


Como disse o jornalista Paulo Moreira Leite, a discussão sobre corrupção no Brasil se tornou arma política. Tanto quanto a Bolsa Família e o Plano Real. É tudo conveniente em um sistema beneficia e interessa quem está ao seu lado. No fim, o importante é estar com o sistema, com a máquina em seu favor. Por isso tanta briga, tantas acusações, por isso tanta gente que torce mesmo para dar errado, por isso tantos partidos e pessoas sempre estão do lado vencedor, não importando qual seja. E, enquanto não percebermos isso, nada vai mudar. 

Não hei de entrar no questionamento sobre a política econômica e trabalhista que o governo importou da oposição. Tampouco aventar a possibilidade de o candidato derrotado estar realmente satisfeito de ter perdido, afinal, seria ele hoje no olho do furacão. O problema da corrupção no Brasil não foi panteado pelo PT. Nem pelo PSDB. Ela permeou os dois. Da mesma forma que vem permeando todos os governos e partidos desde os tempos de Império. O sistema corrupto é um câncer centenário cuja continuidade é possível e patrocinada por aqueles poucos e poderosos beneficiados por eles.

Não há como resolver um problema centenário em quatro anos, sobretudo quando não se quer fazê-lo. E ninguém quis, ninguém quer, nem vencedores nem vencidos; embora usem isso como arma. Usam primeiro porque o brasileiro é de laia parecida, os gatos e jeitinhos que o digam. Mas o principal motivo é porque sabem da parcialidade e passionalidade com que tratamos tudo. O maniqueísmo burro e cego, como todo há de ser, com o qual reagimos à política é a maior forma de perpetuar a corrupção. Temos a necessidade histórica de criar heróis e vilões e personifica-los. E ainda não aprendemos que essa estratégia é ineficaz e ridícula. Não existe um vilão que corrompeu um país em tão pouco tempo, nem um herói que vai salvá-lo.

Hoje o vilão é a Dilma e o Príncipe Encantado o Aécio. Mas o vilão já foi o Collor e elegemos FHC como o herói, uma potência intelectual. Oito anos depois, quando “a esperança venceu o medo”, esse maniqueísmo nunca foi tão evidente. Naquela feita, então, o governo FHC era o mal e o Lula foi o exemplo da personificação de um herói vindo do povo e que salvaria a nação. Deu no que deu. Em todos os dois casos o herói se tornou vilão. 

Até porque não existem heróis ou vilões, nem vão existir. Depositamos todas nossas esperanças na oposição e toda a culpa na situação. É como ser reserva em time ruim: ninguém lembra que você está no banco porque ruim, e como quem está exposto em campo também é ruim, a torcida grita seu nome. Claro, assim, nós, com nosso comportamento exemplar, nos eximimos de responsabilidade.

E o filme se repete, por isso, como cansei de ouvir cientistas políticos no rádio em 2014, o povo mineiro estava "desgastado" com o PSDB em âmbito estadual e com o PT em âmbito nacional. Porque, no fim, os heróis viram vilões e vice versa. Porque realmente o verdadeiro inimigo da moralidade é parcialidade, porque ela cria o maniqueísmo extremo, em que todos são cem por cento bons ou cem por cento ruins, nos tira a isenção, nos faz esquecer que esses heróis e vilões já estiveram com os lugares trocados, e transforma o que deveria ser reflexão por um país em raiva e decepção por alguém.