Era uma noite qualquer, em uma maternidade aparentemente comum. Os passos da enfermeira só não ecoavam pelos corredores porque a criança em seu colo não parava de chorar e se debater por entre o pano que separava o seu corpo do da mulher que o levava. O recém-nascido saudável, de olhos grandes e inocentes, chorava, provavelmente por ter acabado de ser retirado dos aconchegantes braços de sua mãe. Joãozinho não parava, acho que era Joãozinho, afinal nem nome tinha ainda e sua identificação não passava de uma letra e um número qualquer, com uns 4 dígitos.
A enfermeira passou por um primeiro vidro. Lá dentro, uma infinidade de crianças atônitas, quietas, assistiam àquela cena meio aterrorizadas, sem entender aquilo. A maioria, diga-se, mal acabara de ser retirada dos braços da mãe e, por motivos diversos, esperavam com urgência voltar aos braços da progenitora. Mas a enfermeira não entrou com Joãozinho naquela sala, cujas janelas davam para o próprio corredor, ermo e meio sombrio. Lá dentro, o escuro era quebrado por duas ou três lâmpadas que jogavam feixes de luzes dentro da sala, onde outras enfermeiras rondavam incessantemente. Na porta, trancada a sete chaves, uma outra enfermeira estava de prontidão.
Mas eles passaram direto por aquela porta. Joãozinho, que é como eu gosto de chamar o bebê DT-1983, não parava de chorar e se debater, querendo se desgarrar dos braços daquela maldita enfermeira. Mas era em vão. A mulher era bem mais forte que ele, e, ali, não importava o quanto chorasse, sua mãe, seu pai, ninguém lhe ouviria. A não ser as enfermeiras e, claro, as outras crianças, tão impotentes quanto ele.
A enfermeira continuou seu caminhar pesado, cujos sons das pegadas ecoavam no silêncio da madrugada. Seus passos eram mais tenebrosos, quanto mais adentravam a madrugada. O corredor ermo, apesar de ter paredes, piso e luzes brancas, era muito sombrio; parecia infinito. Para Joãozinho cada centímetro parecia quilômetros, e, cada segundo, uma eternidade.
Conforme seus próprios cálculos, já havia passado mais tempo no colo da enfermeira do que no da própria mãe. Aliás, esses mesmos cálculos lhe diziam que a maior parte de sua vida até então, pouco mais de 30 minutos, ele havia passado no colo da enfermeira. Mal conhecia a vida, e o pouco que conhecia era sob os olhos grandes e julgadores daquela mulher de branco. Pior, nem sabia o porquê estava ali em vez de estar no seio da mãe, tão quentinho... Mas, fato era, que durante seu período na Terra havia estado mais com aquela mulher horrível do que com sua própria mãe...
O final do corredor já estava próximo. Lá uma porta pesada, ao lado, uma enfermeira carrancuda sentada em uma mesa diante do computador. Assim que chegaram àquela mesa, a outra enfermeira, que parecia esperá-los, levantou-se para recebê-los. Ela fitava Joãozinho com olhos ameaçadores, até mais do que a enfermeira que o carregava. Após o diálogo entre as duas aconteceu:
- Boa noite.
- Boa noite.
- Identificação?
- DT1983
- Posso ver a identificação?
A outra enfermeira checou a etiqueta, envolta no tornozelo de Joãozinho. Voltou ao computador, conferiu e deu baixa no sistema:
- Tudo certo. Estávamos esperando.
Ela pegou o rádio e comunicou com alguém que estava dentro do cômodo que ela meio que vigiava:
- Câmbio. O DT1983 está aqui. Câmbio desligo.
A porta então se abriu. Uma terceira enfermeira sai de dentro do recinto.
Ela então se levantou, destrancou a porta, e orientou:
- Leito 933
- Eu é quem vou ter que levar?
- Claro.
A enfermeira, resignada, suspirou. Dentro daquele berçário imenso, outras quatro ou cinco enfermeiras rondavam de um lado para outro incessantemente. Até então Joãozinho já estava quieto, contudo, naquele momento, voltou a chorar. Não sabia o porquê. Aliás, àquela altura, só tinha dúvidas. Não sabia o porquê estava ali, o que tinha feito, se merecia estar ali.... Só queria voltar ao colo quentinho da mãe...
Uma das enfermeiras lá dentro, indagou:
- Esse menino não cala? Vai acordar os outros?
- Começou de novo essa peste.
- Peste mesmo...
- Para estar aqui... Coloca o DT1983 ali. É aquele o “leito”.
Mais um ao lado de tantas outras crianças, mas aquilo não era um leito comum. Colocaram (um eufemismo para jogaram), o Joãozinho na incubadora. Fecharam-no. As enfermeiras se sentiam aliviadas. Dali de dentro era impossível ouvir seus choros. Aliás, de maneira sádica até, as enfermeiras ficaram olhando Joãozinho se debater enquanto ninguém o ouvia.
Do lado de dentro daquela incubadora, ou seja lá como que se chamava aquilo, Joãozinho se esgoelava, se debatia. Não sabia falar, se soubesse, decerto, chamaria por sua mãe. Embora não conhecesse a palavra mãe, aliás, não conhecia nenhuma palavra. E ali, naquela escuridão, naquela estufa, na qual o ar só chegava por tubos e a luz apenas por uma espécie de janela de vidro, sua única maneira de comunicação não serviria. Nada poderia lhe salvar.
As sádicas senhoras de branco ainda observavam, conversavam sobre a situação de Joãozinho:
- Alta periculosidade?
- Altíssima. Um risco para sociedade.
- Marginais!
- E a mãe?
- Uma senhora simples...
- E como ela se sente?
- Amor de mãe, é amor de mãe... mesmo quando o filho são esses pestes.
- Mas aqui eles aprendem...
Voltemos horas antes, poucos minutos antes do nascimento de Joãozinho, em um hospital público. A mãe dele, em trabalho de parto, entrou no hospital em uma mistura de desespero e alegria. Levada na maca, sentia seu abdome contrair de maneira insuportavelmente dolorida, a ponto de ela chorar, embora, em meio às lágrimas, risos incontidos, afinal, estava para vir seu primeiro filho.
As dores estavam cada vez menos toleráveis. Ela implorava aos médicos veementemente para que lhe tirassem o menino do ventre; já, há muito, castigado pelos chutes do moleque. Por outro lado, apesar da dor que parecia não ter fim, como toda mãe, sonhava em ter o filho em seus braços. Amor de mãe é amor de mãe.
O parto era difícil e doído. Joãozinho era retirado do ventre da mãe de forma dolorosa para ambos. A mãe só queria vê-lo fora de si. Joãozinho, por sua vez, tinha um sentimento ambíguo entre a vontade de não se separar da mãe e a curiosidade em ver o mundo que o aguardava. Então, no exato momento que a cabeça de Joãozinho conhecia o mundo, seu pai, ao ver o primeiro rebento, desmaiou na sala de parto, desfalecido e inerte. Joãozinho ainda sem entender nada do que estava ocorrendo, assustado com tudo aquilo, urinou e regurgitou na cara do médico.
Estava formado o rebuliço. O pai caído, o médico, desesperado com a urina, como quem encosta em ácido, trombou em vários equipamentos, até cair no chão, ao lado da mesa de cirurgia. A criança, no colo de uma enfermeira, batia suas perninhas, agitadas, assustadas e desesperadas. Em uma dessas pernadas, acidentalmente o garoto chutou um bisturi, repousado por sobre a mesa. O bisturi, para azar do Joãozinho e do médico, caiu no abdome do obstetra, ainda caído ao chão depois de se atrapalhar com o xixi do bebê.
Um corte profundo, quase letal, foi feito na barriga do homem, salvo por um colega. Joãozinho não sabia o que estava acontecendo, não entendia nada, nem tinha noção de que era um bisturi, muito menos tinha ideia de que tinha batido uma perna no bisturi, mal sabia o que era viver, muito menos o que era morrer. Ninguém havia lhe ensinado nada a respeito. Ele estava perdido e, por isso, se comunicava da única maneira que sabia: chorando. Cada vez mais alto, irritando as enfermeiras que, desesperadas, não sabiam mais o que fazer. Uma delas gritava:
- Urgência! Chamem os chefes da enfermaria.
Logo uma equipe de enfermeiras, liderada por aquela mesma que carregou Joãozinho até o berçário, chegou à sala de parto. A calma estava restabelecida, exceto por Joãozinho, que não parava de chorar, apesar dos gritos incessantes da enfermeira para que ele se calasse.
A criança foi colocada nos braços da mãe por alguns segundos, para ser acalmada. Foram os primeiros segundos confortáveis da estadia de Joãozinho na Terra. Aquele colo gostoso, quentinho e cheiroso, lhe inspirava segurança, confiança, carinho e cuidado. Mas ele só ficou o tempo suficiente para se acalmar, dormir e para terminarem de cortar seu cordão umbilical, parcialmente rompido naquela confusão.
As enfermeiras, olhando aquilo, diziam:
- Como pode, em tão poucos segundos de vida alguém causar tanto estrago?
- Maldito seja.
- Mas ele vai ter o que merece.
A sala de cirurgia estava uma zona. A mãe nem havia se recobrado da dor do parto e lhe retiraram o filho:
- O que vão fazer com meu filho?
- Dar-lhe o que ele merece.
Tão logo saiu dos braços da mãe, ele voltou a chorar desesperadamente. Em seu tornozelo, a enfermeira prendeu uma fita com seu número, aquele fatídico DT1983. Joãozinho era um criminoso. Sem saber o que estava fazendo, sem ter tido suporte ou instrução, Joãozinho era acusado por dupla tentativa de homicídio (do médico e do pai), danos materiais, desacato, lesão corporal grave, dentre outras coisas que, como essas, ele não sabia nem o que significavam. Afinal, ele não sabia o que era ato, como saberia o que é consequência?
Voltando, ao berçário, Joãozinho, não entendia direito aquilo, estava com cara de assustado. A enfermeira que levou Joãozinho àquela unidade, por curiosidade, perguntou à outra:
- E esta? – perguntou apontando a menina ao lado de Joãozinho, chorando igualmente desesperada e, devido à incubadora, também sem incomodar a ninguém – O que ela fez?
- Se recusava a sair pelas vias normais e o médico foi coagido a abrir a pobre coitada.
Eles estavam em uma maternidade de segurança máxima, em um berçário-solitária. Foram condenadas a ficarem ali, sem direito nem a ver os pais, pelos menos até acabar o período do resguardo das mães. Ali Joãozinho ficou trinta e seis dias, quase que no escuro. Não sabia o porquê estava ali, ninguém havia sequer lhe explicado. Nunca tiveram nenhum cuidado com ele, nunca haviam lhe ensinado nada, não haviam lhe instruído a nada. Ninguém se deu a este trabalho. Mas não hesitaram em puni-lo como se ele tivesse tido todos esses privilégios.
Um mês e pouco depois, findado o resguardo da mãe de Joãozinho, que, aliás, foi batizado Marquinhos, sua pena acabou. Durante este tempo isolado, pouca coisa mudou. Continuava sem entender nada, mais ou menos na mesma situação em que entrou. A mãe de Marquinhos foi buscá-lo. À porta do berçário, se identificou e a enfermeira que guardava a entrada chamou alguém lá de dentro:
- DT1983, por favor.
A enfermeira chegou e abriu a incubadora:
- Está livre.
Tão logo a enfermeira colocou o garoto no colo, Marquinhos regurgitou e urinou na enfermeira, exatamente como havia feito com o médico. A enfermeira também caiu e, embora não tivesse bisturi, ele, sem querer, batendo as perninhas com medo, derrubou uma fralda suja (as fraldas sempre eram trocadas para a liberação das crianças) na cara da mulher, que gritava:
- Reincidente! Reincidente! Reincidente!
Continuou sem saber o que havia feito de errado. Só sabe que sem nem saber nada do mundo, sem nem saber o que acontecia ao seu redor, voltou à incubadora. E DT1983 perdeu mais 30 dias dentro daquela maternidade de segurança máxima. Àquela altura, inclusive, nem se lembrava do momento de segurança que teve nos braços da mãe. Estava conhecendo cada vez mais intimamente o lado ruim das pessoas, cada vez com mais medo e cada vez mais ameaçador.
Para bom entendedor...