sexta-feira, 27 de novembro de 2015

Marilama

Acredite se quiser, mas, bem provavelmente, em alguns escritórios pelo mundo os atentados de Paris estão sendo comemorados até hoje. Afinal, não fosse o foco desviado à tragédia de Paris, a catástrofe de Mariana teria uma repercussão muito maior no mundo inteiro, inclusive no Brasil. Sorte da Samarco e seus executivos mundo afora, pois, com o rebuliço mundial em torno do Estado Islâmico, demorou quase um mês e a lama chegar ao oceano para a ONU se pronunciar e classificar a tragédia mineira como um dos 5 maiores desastres ambientais da história.

O mundo não via, nós também não. Aliás ainda não vemos. O poder econômico das mineradoras sobre os políticos através do financiamento de campanhas (de todos os partidos) e sobre a mídia através dos gastos astronômicos com a publicidade impedem que tenhamos uma informação verdadeiramente acurada sobre o tamanho da desgraça. Quem assiste televisão não tem noção da realidade, sobretudo em Governador Valadares. 

Quem mora em Valadares e teve a possibilidade de se refugiar em BH o fez prontamente. E a palavra é essa mesmo: refugiar. Conversando com alguns dos "refugiados", além de alguns depoimentos que alguns davam às rádios, ao vivo, é que a a realidade fica minimamente perceptível. Uma cidade de 260 mil habitantes, sede de um campus de Universidade Federal, simplesmente parou. E não foi simplesmente parar, foi parar em estado de guerra, literalmente.

As cenas reais são muito similares às cenas de pós-guerra na África. Algumas situações relatadas e que ninguém mostrou são surpreendentes. Houve, por exemplo, tiroteio por conta de água. Aliás, toda a água que chegava à cidade precisou ser escoltada pelo exército. Uma moradora relatou que, em um bairro de classe média, em um estacionamento de supermercado, ela foi assaltada a mão armada. Não levaram dinheiro, nem celular, nem joias. Simplesmente roubaram as garrafas de água que ela havia comprado para estocar. Não bastasse esses absurdos, empresários locais estão vendendo 500 ml de água à pelo menos R$7,00.

E aqui estamos falando tão somente de uma cidade e somente da questão do abastecimento de água. Não sei se as pessoas têm a dimensão do que é matar – a palavra é essa mesmo – um rio inteiro. Não são apenas peixes, plantas e solo. Imagina quantas pessoas vivem, ou viviam desse rio? Quantas pessoas bebiam água desse rio? Sem comentar nas comunidades inteiras destruídas e nos danos ao oceano. Óbvio que o rio já sofria com homem, mas, dessa vez o golpe foi fatal. Não pensem também que é chegar no mar e a natureza simplesmente se recupera. Não é tão simples assim. Essa recuperação não tem nem previsão, neste caso é começar do zero o que demorou anos e mais anos para ser construído. O Rio Doce morreu e seu renascimento é algo para as próximas gerações, talvez meus bisnetos. 

Nem a capacidade de regeneração do mar é grande o suficiente para reparar esses estragos assim de cara. O pior de tudo é que essa lama foi para uma área de mangue, o berçário do mar. Ao menos a população e os ambientalistas tiveram um certo tempo para retirar o maior número possível de espécies do local. Para se ter uma ideia, pelo menos 300 km do litoral do Espírito Santo foi comprometido, impróprio para o turismo e para a vida marinha. 

Cálculos apontaram que se o vazamento fosse para o lado oposto, o mar de lama teria destruído Mariana, Ouro Preto e grande parte de Belo Horizonte. Não se esqueçam que não é apenas lama. É uma lama extremamente tóxica, contaminada com metal pesado. Por onde ela passa, deixa um rastro de morte e desoxigenação.

Ambiental, social e economicamente os prejuízos são inestimáveis e não chega perto dos 1 bilhão 250 milhões ventilados na imprensa. Isso, aliás, para uma mineradora, não é troco de supermercado. Deve ser, mais ou menos, o gasto deles com apoio às eleições e publicidade. Hoje, passado o frisson maior dos atentados à Paris, a tragédia de Mariana repercute mais no exterior do que aqui. A 5ª maior catástrofe ambiental não é pouca coisa e não deixam que tenhamos a noção disso.

quarta-feira, 18 de novembro de 2015

Agora é Guerra?

Alá é a palavra árabe para Deus. Assim como em inglês se diz God. Assim um cristão árabe, eles existem e são numerosos, também louvam a Alá. Aliás, a maioria dos muçulmanos nem árabes são. De toda forma, há tempos estamos assistindo de camarote às atrocidades do Estado Islâmico em nome de Deus. Verdadeiros absurdos, sem fundamentação, sem lógica. Uma lavagem cerebral insana, que distorce os valores muçulmanos e atuam muito na disseminação do preconceito contra o islã e contra os árabes, e vi isso de perto, de dentro de um país árabe de maioria de muçulmana.

O mundo assistiu o Estado Islâmico crescer e, querendo ou não, pouco se fez efetivamente contra ele. Esse grupo terrorista atua contra todo o mundo, não só contra as religiões, não só contra inocentes. Ele atenta contra o islã, contra o cristianismo, contra o judaísmo, contra o ateísmo, contra a história do mundo, contra a cultura. Todos vimos, embasbacados, quando os imbecis destruíram sem a menor razão artefatos e monumentos históricos milenares no Iraque. 

Mas uma coisa é fato: contra o dinheiro e o capitalismo eles não têm nada. Aliás, não há como falar no Estado Islâmico e pensar só em religião quando falamos neste assunto. Os fatores religiosos, somados aos problemas socioeconômicos europeus, atingindo sobretudo os jovens de origem não caucasiana servem somente de estímulo para recrutamento.

O Estado Islâmico se instalou em uma região estratégica econômica e geograficamente. No norte da Síria, próximo à fronteira com a Turquia, porta de entrada para a Europa. Além do mais, uma região riquíssima em petróleo. Esse petróleo é vendido e financia toda a milionária estrutura do grupo. Neste aspecto, já temos dois pontos interessantes. Existe alguém que compra esse petróleo e alguém que vende armas e suprimentos.

Aliás, o aspecto econômico sempre sobrepuja “os verdadeiros ideais” do grupo. Voltando aos monumentos destruídos no Iraque, vale ressaltar que uma parte das estátuas foram conservadas e vendidas ao museu de Londres, que admitiu a compra, afinal, as obras foram tratadas como reféns de um sequestro. 

Vamos ao ocidente. Nada no planeta é tão eficaz para livrar o mundo de uma crise econômica do que uma guerra. A guerra faz a economia girar em todos os sentidos. A indústria bélica gera empregos diretos e indiretos, além da criação de infraestrutura, construção civil... 

Teorias da conspiração à parte, as últimas guerras e atuações dos Estados Unidos sempre foram em períodos de crises econômicas globais. Agora, vamos à alguns fatos. Qual a real efetividade ao combate do Estado Islâmico até então? Ora, uma repórter chegou ao coração do Estado Islâmico. Mostrou ao mundo como funciona. Não bastasse, todas as vezes em que se mostram os perfis públicos, repito, públicos, em redes sociais dos terroristas, suas fotos de capa e perfil são verdadeiras confissões. Não é possível que não há como monitorar essas pessoas. Aliás, a França admitiu que o Iraque havia avisado sobre o atentado. Não acho que tenham deixado de propósito, mas porque não dar o mínimo de crédito? 

Enfim, voltando aos combates pouco efetivos, ano passado esses retardados decapitaram 20 cidadãos egípcios participantes de uma seita católica local. Em retaliação, o Egito, enfatizo, Egito, que não tem nada de superpotência, em um ataque noturno surpresa, que durou cerca de 4 horas, destruiu cerca de 20% de todo o poderio bélico do Estado Islâmico. Se o Egito foi capaz de destruir 20% do poderio do Estado Islâmico em um único ataque de 4 horas, o que seriam capazes de fazer as superpotências?

No primeiro ataque francês, a capital do Estado Islâmico foi arrasada a ponto de os principais líderes estarem em fuga para o Iraque. Isso tudo apenas com ataques aéreos. Imagina o resultado de um front conjunto tendo como base terrestre Israel, Egito e Turquia? Não precisa ser estrategista militar para chegar a essa conclusão.

Faltava um motivo. Um motivo suficientemente grande para comover ao mundo todo e começar a guerra e destruir o Estado Islâmico de uma vez por todas, ou o suficiente para que ele não se reestruture até a próxima crise econômica. O motivo está aí, a publicidade pronta. Agora é só começar a Guerra. Aliás, para que fique claro, sou totalmente a favor dela, a questão é: precisava esperar tanto? Precisávamos assistir o crescimento deles assim? Bom, mas assim foi em todo o século XX. O mundo assistia a ascensão de seus vilões para depois derrota-los... Ou seriam todos vilões? 

Enfim, o que aconteceu em Paris foi inadmissível. Sangue inocente derramado e a instauração geral e irrestrita do preconceito. A hora é agora, e que seja questão de tempo até o tal Estado Islâmico ser varrido do mapa. 

#JeSuisParis



sexta-feira, 13 de novembro de 2015

Uma cerveja com o Papa

Já cansei de elogiar o Papa Francisco. E, seja lá qual for sua religião, se você for minimamente racional, também terá uma certa admiração por ele. Ele me faz lembrar aqueles caras da Teologia da Libertação. Um cara tão moderno, tão atual, que incomoda a Igreja e seus valores conservadores milenares e hipócritas. Aliás, valores não só católicos como Cristãos. 

Imagino eu que a razão pela qual o papa resiste à frente da Igrjea mesmo com tanta gente dos bastidores do Vaticano querendo o seu pescoço é o fato dessa sua personalidade, atual e progressista, ter sido a redenção dos católicos. Afinal, enfim perceberam que a religião só se propaga pelo medo ou pela adaptação à contemporaneidade. O papa escolheu a segunda, até porque, graças à Deus (com o perdão da ironia) o catolicismo perdeu esse poder do medo e da escravidão mental usada por tantas outras igrejas cristãs.

E se eu já era fã do Chico Argentino, de uns tempos para cá, analisando seu histórico no papado cheguei à conclusão que gostaria muito de sentar com ele em um boteco para tomar uma e conversar. Assuntos variados, passando da política, pela religião ao futebol 

Só para recapitular, estamos falando do papa que teve a coragem de dizer que “o Papa é argentino, mas Deus é brasileiro”. Esse mesmo papa disse que não é ninguém para jugar a sexualidade alheia, tampouco para impedir que essas pessoas se aproximem de Deus. Ainda, com ousadia ímpar, interpelou o entrevistador que perguntou sobre a homossexualidade com uma colocação simples: “se seguirmos ao pé da letra, mesmo o ato sexual de um casal heterossexual que ainda não celebrou matrimônio é pecado e nem por isso se proíbem namorados de irem à igreja.

Não para por aí. Como não respeitar um cara que, mesmo representando a instituição que representa, disse que os jovens precisam contestar, e que uma juventude que não contesta não é contraproducente à sociedade. Sem contar nas inúmeras críticas à própria igreja e algumas de suas atitudes. Inclusive ele disse até que sonhava em termos em breve uma papisa a frente do Vaticano.

Mas foram as interpretações lúcidas e racionais sobre os dogmas cristãos que me fizeram ter muita vontade de sentar em um boteco na mesa dele para trocar uma ideia. Ele simplesmente disse o óbvio. Que a teoria da evolução não é contraditória com a bíblia, até porque a passagem de Adão e Eva é uma metáfora. Aliás os judeus já sabem disso desde antes de Cristo. Bem como o inferno, que, segundo o Papa, não existe. Para ele é uma mera representação metafórica com caráter moralizante. 

Em verdade ele disse o que todos os estudiosos da bíblia dizem: ela é um livro cheio de metáforas e interpretações, escritos há mais de mil anos em hebraico antigo, que sofreu mudanças ao longo do tempo, conforme interesses e mesmo traduções. Em suma, não é para ser levado ao pé da letra e tem, sim, que ser adequado à sociedade de hoje.

Ouvir isso de um Papa é realmente um fio de esperança no caos. Sério, Chico, a primeira garrafa é por minha conta.