Acredite se quiser, mas, bem provavelmente, em alguns escritórios pelo mundo os atentados de Paris estão sendo comemorados até hoje. Afinal, não fosse o foco desviado à tragédia de Paris, a catástrofe de Mariana teria uma repercussão muito maior no mundo inteiro, inclusive no Brasil. Sorte da Samarco e seus executivos mundo afora, pois, com o rebuliço mundial em torno do Estado Islâmico, demorou quase um mês e a lama chegar ao oceano para a ONU se pronunciar e classificar a tragédia mineira como um dos 5 maiores desastres ambientais da história.
O mundo não via, nós também não. Aliás ainda não vemos. O poder econômico das mineradoras sobre os políticos através do financiamento de campanhas (de todos os partidos) e sobre a mídia através dos gastos astronômicos com a publicidade impedem que tenhamos uma informação verdadeiramente acurada sobre o tamanho da desgraça. Quem assiste televisão não tem noção da realidade, sobretudo em Governador Valadares.
Quem mora em Valadares e teve a possibilidade de se refugiar em BH o fez prontamente. E a palavra é essa mesmo: refugiar. Conversando com alguns dos "refugiados", além de alguns depoimentos que alguns davam às rádios, ao vivo, é que a a realidade fica minimamente perceptível. Uma cidade de 260 mil habitantes, sede de um campus de Universidade Federal, simplesmente parou. E não foi simplesmente parar, foi parar em estado de guerra, literalmente.
As cenas reais são muito similares às cenas de pós-guerra na África. Algumas situações relatadas e que ninguém mostrou são surpreendentes. Houve, por exemplo, tiroteio por conta de água. Aliás, toda a água que chegava à cidade precisou ser escoltada pelo exército. Uma moradora relatou que, em um bairro de classe média, em um estacionamento de supermercado, ela foi assaltada a mão armada. Não levaram dinheiro, nem celular, nem joias. Simplesmente roubaram as garrafas de água que ela havia comprado para estocar. Não bastasse esses absurdos, empresários locais estão vendendo 500 ml de água à pelo menos R$7,00.
E aqui estamos falando tão somente de uma cidade e somente da questão do abastecimento de água. Não sei se as pessoas têm a dimensão do que é matar – a palavra é essa mesmo – um rio inteiro. Não são apenas peixes, plantas e solo. Imagina quantas pessoas vivem, ou viviam desse rio? Quantas pessoas bebiam água desse rio? Sem comentar nas comunidades inteiras destruídas e nos danos ao oceano. Óbvio que o rio já sofria com homem, mas, dessa vez o golpe foi fatal. Não pensem também que é chegar no mar e a natureza simplesmente se recupera. Não é tão simples assim. Essa recuperação não tem nem previsão, neste caso é começar do zero o que demorou anos e mais anos para ser construído. O Rio Doce morreu e seu renascimento é algo para as próximas gerações, talvez meus bisnetos.
Nem a capacidade de regeneração do mar é grande o suficiente para reparar esses estragos assim de cara. O pior de tudo é que essa lama foi para uma área de mangue, o berçário do mar. Ao menos a população e os ambientalistas tiveram um certo tempo para retirar o maior número possível de espécies do local. Para se ter uma ideia, pelo menos 300 km do litoral do Espírito Santo foi comprometido, impróprio para o turismo e para a vida marinha.
Cálculos apontaram que se o vazamento fosse para o lado oposto, o mar de lama teria destruído Mariana, Ouro Preto e grande parte de Belo Horizonte. Não se esqueçam que não é apenas lama. É uma lama extremamente tóxica, contaminada com metal pesado. Por onde ela passa, deixa um rastro de morte e desoxigenação.
Ambiental, social e economicamente os prejuízos são inestimáveis e não chega perto dos 1 bilhão 250 milhões ventilados na imprensa. Isso, aliás, para uma mineradora, não é troco de supermercado. Deve ser, mais ou menos, o gasto deles com apoio às eleições e publicidade. Hoje, passado o frisson maior dos atentados à Paris, a tragédia de Mariana repercute mais no exterior do que aqui. A 5ª maior catástrofe ambiental não é pouca coisa e não deixam que tenhamos a noção disso.