sexta-feira, 13 de novembro de 2015

Uma cerveja com o Papa

Já cansei de elogiar o Papa Francisco. E, seja lá qual for sua religião, se você for minimamente racional, também terá uma certa admiração por ele. Ele me faz lembrar aqueles caras da Teologia da Libertação. Um cara tão moderno, tão atual, que incomoda a Igreja e seus valores conservadores milenares e hipócritas. Aliás, valores não só católicos como Cristãos. 

Imagino eu que a razão pela qual o papa resiste à frente da Igrjea mesmo com tanta gente dos bastidores do Vaticano querendo o seu pescoço é o fato dessa sua personalidade, atual e progressista, ter sido a redenção dos católicos. Afinal, enfim perceberam que a religião só se propaga pelo medo ou pela adaptação à contemporaneidade. O papa escolheu a segunda, até porque, graças à Deus (com o perdão da ironia) o catolicismo perdeu esse poder do medo e da escravidão mental usada por tantas outras igrejas cristãs.

E se eu já era fã do Chico Argentino, de uns tempos para cá, analisando seu histórico no papado cheguei à conclusão que gostaria muito de sentar com ele em um boteco para tomar uma e conversar. Assuntos variados, passando da política, pela religião ao futebol 

Só para recapitular, estamos falando do papa que teve a coragem de dizer que “o Papa é argentino, mas Deus é brasileiro”. Esse mesmo papa disse que não é ninguém para jugar a sexualidade alheia, tampouco para impedir que essas pessoas se aproximem de Deus. Ainda, com ousadia ímpar, interpelou o entrevistador que perguntou sobre a homossexualidade com uma colocação simples: “se seguirmos ao pé da letra, mesmo o ato sexual de um casal heterossexual que ainda não celebrou matrimônio é pecado e nem por isso se proíbem namorados de irem à igreja.

Não para por aí. Como não respeitar um cara que, mesmo representando a instituição que representa, disse que os jovens precisam contestar, e que uma juventude que não contesta não é contraproducente à sociedade. Sem contar nas inúmeras críticas à própria igreja e algumas de suas atitudes. Inclusive ele disse até que sonhava em termos em breve uma papisa a frente do Vaticano.

Mas foram as interpretações lúcidas e racionais sobre os dogmas cristãos que me fizeram ter muita vontade de sentar em um boteco na mesa dele para trocar uma ideia. Ele simplesmente disse o óbvio. Que a teoria da evolução não é contraditória com a bíblia, até porque a passagem de Adão e Eva é uma metáfora. Aliás os judeus já sabem disso desde antes de Cristo. Bem como o inferno, que, segundo o Papa, não existe. Para ele é uma mera representação metafórica com caráter moralizante. 

Em verdade ele disse o que todos os estudiosos da bíblia dizem: ela é um livro cheio de metáforas e interpretações, escritos há mais de mil anos em hebraico antigo, que sofreu mudanças ao longo do tempo, conforme interesses e mesmo traduções. Em suma, não é para ser levado ao pé da letra e tem, sim, que ser adequado à sociedade de hoje.

Ouvir isso de um Papa é realmente um fio de esperança no caos. Sério, Chico, a primeira garrafa é por minha conta.