segunda-feira, 7 de julho de 2014

A ponte que partiu

Quando recém inaugurada, um acidente na Linha Verde impressionou: um caminhoneiro bateu em um pilar e derrubou uma das novas estruturas da rodovia. Visivelmente o caminhão não estava em uma velocidade que justificasse aquela queda. À época, na boca das pessoas, os questionamentos sobre a qualidade da obra e do projeto surgiam, uma vez que a rodovia estava recém construída.

Em âmbito particular, mas com igual repercussão, há pouco tempo, um conjunto de prédios residenciais no Buritis, relativamente novo, foi condenado por falhas estruturais graves, do projeto à execução que ameaçavam os moradores.

Ainda neste âmbito, da janela da minha aula de francês, no Anchieta, enxergo a obra vizinha e meu professor, um engenheiro parisiense que, casado com uma brasileira, radicou-se no Brasil ensinando sua língua natal, semanalmente me mostra as falhas da obra: “aquilo não pode ser feito daquele jeito, pois pode explodir”, “se fizessem isso na Europa, certamente seriam demitidos na mesma hora”, "vão ter que quebrar e fazer aquilo de novo".

Este mesmo francês me relata casos de prédios inteiros que tiveram que sua estrutura arruinada por uma reforma orientada por um engenheiro e que o procuraram para chegar soluções distintas para regularizar a obra. Insiste, o francês, que em vários ramos, como a agronomia e mineração, os profissionais brasileiros são extremamente valorizados na Europa, mas não era o caso dos engenheiros.

Inúmeros outros erros podem ser reparados mesmo por pessoas que, como eu, não entendem nada do assunto. Alguns erros menos graves cujos resultados são algumas infiltrações ou má diagramação de um apartamento.

E após a tragédia do tamanho de um viaduto na Pedro I, a discussão que apareceu nas redes sociais foi, infelizmente, ao meu ver, política. Óbvio, que outros fatores permeiam uma obra pública, sobretudo de grande porte. Os projetos, quando em caráter de urgência, vão direto para execução. Sabemos ainda dos superfaturamentos que, infelizmente, são comuns. Entretanto, nem o mais estúpido dos corruptos faria uma obra dessa magnitude se soubesse de uma possibilidade de que queda.

Digo o mesmo sobre os responsáveis técnicos. Nenhum ser humano, por maior que fosse o suborno, colocaria sua reputação à risco deste tanto. Mas o viaduto caiu. E em ano de eleição tudo é válido pelo voto. Entretanto ninguém pensa na discussão que deveria ser feita: a competência dos profissionais que formamos.

Em todas as áreas proliferam faculdades de qualidade duvidosa e com poucos critérios de avaliação, muitas no padrão pagou passou. A inclusão às universidades, mesmo que necessária, não pode ser feita à qualquer custo. 

O fato é que a discussão sobre a queda do viaduto tem que deixar de ser eleitoreira e política e tem que ser técnica. A educação superior no Brasil, aliás, a educação no Brasil, é crítica. Estamos, agora, colhendo os frutos da nossa educação ridícula e mercadológica em todos os níveis, que somadas à baixa valorização do profissional, cargas horárias malucas e salários ridículos. Qual esse fruto? A incompetência. Então, antes de pensarmos politicamente, vamos pensar na questão técnica, porque foi isso que derrubou o viaduto.