quarta-feira, 23 de julho de 2014

As picas da Dilma

Antes de mais nada, já antecipo que não defenderei nenhum governo ou partido político. Tampouco revelarei o meu voto e sua lógica. Até porque atualmente o Brasil vive a “crise do mais do mesmo”, na qual temos somente dois partidos fortes para o executivo (PT e PSDB) que são rigorosamente iguais, sobretudo nos defeitos. Além deles, temos uma grande incógnita (que é o PMDB, cujo M deveria significar “Murista”. O pior é que com o número absurda de filiados e eleitos, os “Muristas”, maior partido do país, é quem acaba por nos governar, gerando, evidentemente, a equivalência entre os dois rivais pelo executivo, que tem de se sujeitar ao verdadeiro mandatário.

No fim, nem mais “o menos pior” será o fator decisivo na hora de votar, já que ambos os partidos se equivalem em ruindade. A decisão final, portanto, será influenciada por algum aspecto pontual que seja relevante pessoalmente a cada eleitor e que talvez tenha sido tratado de maneira melhor ou pior por um governo ou um por partido. A minha decisão, que não vou revelar, até porque não me orgulho dela, foi feita assim. Ademais, já estou convicto que o voto que muda o país não é aqueles para os cargos executivos, que é o que você lembra e está sempre em evidência. Se você quer realmente mudar o Brasil, pense e se recorde no seu voto para o poder legislativo, esse sim é relevante ao futuro da nação.

Por essas e outras, repito, não farei papel de advogado de ninguém. O que quero, antes, é tentar decupar a realidade. Isto posto, é incrível o poder que é dado à presidenta da República pelas pessoas e por muita gente que forma opinião. Para ela ser responsável por tudo que lhe atribuem – coisas boas e coisas ruins -, ela teria que ser uma ditadora onipotente e onipresente. Não é bem assim. Repito, não quero ser um advogado de defesa, tampouco defender o indefensável, mas no fim o cargo de presidente nada mais é – seja lá quem for seu ocupante – um mero escudo, principalmente no caso atual.

O fim da ditadura militar, nos bastidores, aconteceu por vontade da alta cúpula militar que ouviu Golbery. Era fato, como ele disse, que a bomba das merdas que eles tinham feito iria estourar, então melhor sair antes da explosão e deixar a culpa para os outros. Bombas e coisas boas perpetuam-se dessa forma na presidência da República desde então. O fato de os candidatos serem meros instrumentos de partido e, portanto, não terem projeto de país e sim um projeto de poder é determinante para isso. Não interessa ao congresso se é bom ou ruim. Interessa quem propôs.

Não obstante, todos os nossos presidentes pegaram e deixaram uma herança maldita. Talvez, diga-se, nenhuma tão pesada com a recebida pela atual presidenta, que é muito mais técnica do que política. Exatamente o oposto de seu antecessor, que se valia muito mais do carisma. De toda sorte, fato é que grande parte das culpas do atual governo são, de fato, responsabilidades assumidas pelo anterior. E vêm sendo assim desde 1986.

Além do mais, ainda não compreendemos o funcionamento entre os três poderes que nos rege. Cada um impõe limites ao outro, o que, se por um lado evita autoritarismo, por outro incentiva negociações. Como executivo está em evidência tendemos a percebê-lo como absoluto. Muito pelo contrário. A possibilidade de atuação do executivo é tão pequena sem o apoio do legislativo que, desde sempre, há negociações e trocas de favores entre os poderes. Se não pelos mensalões, que eram práticas comuns até o escândalo denunciado por Roberto Jefferson, por negociações de cargos, que, em vez de técnicos, passam a ser meramente políticos.


A solução para tais dilemas, sinceramente, desconheço. O que não podemos admitir é que as culpas sejam concentradas em apenas uma pessoa, automaticamente isentando outras tantas com culpas iguais ou maiores às que condenamos. Temos que atribuir às pessoas certas às responsabilidades cabíveis. Não há presidente onipotente tampouco independente. Assim como não há mandatos isolados na história, que comece ou recomece um país do zero. Estamos em uma infeliz sinuca de bico em que não há mocinhos e que os resultados, seja lá quem for o vencedor, serão tão ruins quanto foram os resultados dos governos de ambos os partidos quando o tiveram.