sexta-feira, 30 de janeiro de 2015

Porquoi je suis Charlie?

Parce que “Je ne suis pas d’accord avec ce que vous dites, mais je me battrai jusqu’à la mort pour que vous puissiez le dire”.

Passado o grande estardalhaço dos acontecimentos, esta famosa frase atribuída à Voltaire (“Posso não concordar com o que dizes, mas defenderei até a morte seu direito de dizê-las”) resume bem o meu sentimento com relação aos atentados ocorridos na França. Essa frase e o princípio básico de “não faça com os outros o que você não gostaria de fazer com você”.

Ora, não há nada no mundo que escape às sátiras dos humoristas, chargistas e produtores ao redor do mundo. Não nem como argumentar que o Cristianismo está isento disso. Basta assistir à televisão. Várias e várias sátiras ao cristianismo já foram feitas pelos Simpsons, Family Guy ou, para não sair do Brasil, o Portal dos Fundos. Nem mesmo os judeus escapam das afiadas sátiras do mundo ocidental. Em um episódio de “The Cleveland Show”, por exemplo, um garoto ao conhecer um judeu diz: “isso é uma religião? Pensei que fosse só o jeito de xingar alguém.”

O tratamento dado ao islã, concorde ou não com ele, é o mesmo às religiões infiéis à Alá.... Não conhecia o Charlie Hebdo até o dia do atentado, desconheço suas caricaturas e nem tenho interesse em conhecê-las, em concordar ou em discordar delas. Mas, com todo o respeito, se alguém faz caricatura do islã são esses terroristas. Tanto que se preocupam em atentar contra um lápis...

Conheci um país de maioria islâmica, como já relatei aqui. Óbvio tive o choque que o diferente proporciona, mas fiquei muito bem surpreendido. Conheci as mesquitas, com o respeito e as regras que elas pressupõem (não se pode entrar calçado, por exemplo). Ouvi os chamados para as rezas diárias, que não eram obrigatórias, embora mesmo as pessoas de outras religiões, obviamente sem parar o que estavam fazendo, faziam menos barulho. Vi mulheres muçulmanas vestidas como ocidentais. Outras completamente cobertas. Questão de opção. Aliás, apesar da maioria brutal islâmica, convivem sinagogas, igrejas católicas e mesquitas em harmonia.

Um povo feliz e com uma cultura vasta. Muito além da cultura do Islã. Cultura de cada uma de suas etnias, afinal, não são só os árabes os povos muçulmanos, não são só árabes os povos do Oriente Médio, tampouco os árabes são exclusivamente muçulmanos. Existem, por exemplo, muitos judeus árabes nascidos em Israel.

O que está em jogo no terrorismo não é a religião. É simplesmente uma questão de poder. No fim sempre é. Deus, Alá, Jesus, Moisés são apenas desculpas. Diga-se de passagem, desculpas que não são aceitas pela grande maioria dos muçulmanos.

Aliás, quem me disse que os terroristas são os verdadeiros caricaturistas do islã, foi uma jovem muçulmana, com curso superior, que se vestia como uma ocidental, mas que frequenta a mesquita e ora por Alá. Durante uma conversa sobre ocidente e oriente, da qual nunca esquecerei, ela disse, em inglês, as seguintes palavras

"You know we are who most suffer from those terrorists. A little group of people makes you create a horrible stereotype of us. It is incredible how you let this little group be our image to the world...”

“Sabe, nós somos quem mais sofre com esses terroristas. Um pequeno grupo de pessoas fazem vocês criarem um estereótipo da gente. É incrível como vocês deixam esse pequeno grupo ser nossa imagem para o mundo”.

Daquele dia em diante nunca mais deixei.


Lembrei dessa conversa quando vi uma notícia de uma muçulmana apedrejada em São Paulo e pensei: realmente não é o Charlie Hebdo ou qualquer outro jornal o caricaturista de Alá.



PS: Se um simples texto tem espaço para tanta coisa diferente, não é no mundo que o espaço vai faltar.

segunda-feira, 26 de janeiro de 2015

As Chibatas

Aqui, agoniado, estou preso.
Um lugar fechado, cuja luz do sol quase não entra e meu único consolo é o ar condicionado.
Com o mundo me comunico pelo computador.
Aqui está cheio de gente, mas é como se não houvesse ninguém.
Olho para todos e todos continuam olhando para a tela, tão agoniados quanto eu.

Não existem aqui objetivos ou metas. Só as horas.
Antes de 9, nada posso fazer. Depois de que ele marca às 19, tenho de interromper.
Não posso fazer nada fora desse tempo, fora desse lugar. Mesmo que, durante todo esse tempo, só consiga, efetivamente, aproveitar um quarto.
Mas não vendo trabalho, não vendo concentração. Vendo o tempo. Vendo porque me obrigam a vender.

Enquanto isso, nessa senzala moderna, ele me vigia.
Fico olhando para eles
Eles olhando para mim.
São vários deles. Carrego-o comigo em meu pulso, enquanto olho para outro na parede e um em minha tela.
Estão todos sincronizados, mas sigo conferindo-os todo o tempo.
O tempo custa a passar, o tempo que vendi, quase de graça, o tempo que não recupero, o tempo que eu desperdicei.

Continuo aqui, olhando para o nada. Sou um escravo.
Mas o senhores agora não são senhores de terra. São senhores do tempo.
E o controle não é mais a chibata.
É o relógio.
Não posso fazer fora de sua determinação.  
Não posso sair do lugar fora de suas ordens e limites.

Maldito relógio.
Malditas horas desperdiçadas.
Em pensar que, em metade deste tempo, poderia fazer tudo muito melhor.
Mas o senhor não senhor do meu trabalho, é senhor do meu tempo.

Os ponteiros do relógio giram, em um tic-tac assombroso e perturbador.
Um som misturando aos de vários e vários dedos digitando, centrados em suas telas, concentrados em seus fones.
Quão barato é o tempo... O bem mais precioso, o bem mais barato...

Não é mais a força, produtividade ou capacidade que determina o valor do escravo.
Seu valor é determinado por quanto tempo ele tem disponível.
Enquanto isso, a vida passa lá fora.

E seu tempo passa com ela. 

segunda-feira, 12 de janeiro de 2015

O Sol e a Peneira

O mês de Janeiro é especial para todos nós. Todos os “Is” cobrados pelo governo aparecem de uma vez, logo no primeiro mês do ano, para acabar com o nosso orçamento. Sinto, ainda, como todo microempresário, ter um sócio a mais, chamado Governo Federal. Todos nós temos este sócio em nossas vidas, por conta da carga tributária brasileira. Dizem, e não duvido, trabalhamos três meses apenas para pagar imposto. Algo inimaginável em um país como o Brasil. Por conta disso, e há anos escutamos a mesma proposta de todos os políticos, todos clamam pela reforma tributária. Entra ano e sai ano e é a mesma história, que, obviamente, nunca sai do lugar.

Na maioria dos países do mundo a lógica é simples. Países com muito tributos em geral proporciona qualidade de vida alta aos seus habitantes através de serviços públicos. Países com carga tributária mais baixa, por sua vez, exige das pessoas que elas gastem seu próprio dinheiro para isso. Óbvio. Se o governo arrecada muito, por conseguinte, tem condições de oferecer serviços públicos de qualidade e gratuitos à população. Os que arrecadam pouco, por sua vez, aliviam o bolso das pessoas, tirando-as o imposto e deixa o povo com mais dinheiro na mão, assim, embora não possa prover serviços tão bons, proporciona à população condição de sobra para pagar por seus serviços e ainda ter dinheiro.

O grande vilão, então, analisando friamente, não são, necessariamente, os impostos. Em países como o Canadá e os escandinavos, a carga tributária é alta, mas todos vivem bem. Afinal, embora paguem muito ao governo, não precisam pagar plano de saúde, escola, pedágio, nem gastar fortunas com segurança domiciliar. O dinheiro pago ao governo é retornado em benefícios. Assim, todo o dinheiro que sobra é gasto ao bel prazer do contribuinte.

Não menos razoável é a política de países com carga tributária bem menor, mas com serviços públicos muito menos eficientes. Assim, o dinheiro não gasto com imposto se transforma em gasto com alguns dos serviços que poderiam ser providos pelo Estado, entretanto, com uma quantidade de dinheiro bem maior, ainda sobra para os gastos pessoais. Há uma equivalência simples entre os sistemas

Mas no Brasil, para variar, o caso é um tanto quanto diferenciado. Pagamos fortunas para não ter o retorno. Não ligaria de pagar os impostos se não precisasse gastar com plano de saúde, seguro de carro, pedágio e todos os outros serviços idealizados por nossa Constituição. Mas não é isso o que acontece. O dinheiro que “investimos” compulsoriamente no Estado se transforma em aumento e reajustes salariais dos parlamentares, em propinas e corrupção.

Acabar com os tributos e transformá-los nos grandes vilões é tapar o sol com a peneira. Com menos tributos, e menos serviços, pouca coisa mudaria. Afinal, aqui temos os "poréns" dos dois sistemas supracitados, sem os benefícios. Pagamos imposto e os serviços particulares. O verdadeiro ponto é transformar os tributos em prestação de serviços de qualidade ao povo ou acabar de vez com tudo. J

Justamente, por isso não teremos reforma tributária. Os politícios, vão, óbvio, sempre justificar os impostos com os custos do Estado e mais um monte de questões da economia mundial,   entretanto, o que é verdadeiramente custeado pelos nossos impostos é a boa vida dos políticos, partidos e aspones, não importa o partido.


Óbvio, e não como discutir, a Reforma Tributária é fundamental e necessária; entretanto, a principal reivindicação não é clamar pelo fim dos impostos. Esta é só a peneira para o nosso sol. Sol chamado corrupção. Por isso, antes de clamar fervorosamente pela reforma, é essencial  exigir que esse dinheiro que investimos através de impostos nos seja retornado em serviços. 

terça-feira, 30 de dezembro de 2014

A bala que não matou Hitler

Um desastrado terrorista anarquista sérvio de seis dedos, integrante da mão negra, tentando impedir o suicídio de Getúlio Vargas, acidentalmente, com o dedo extra, acabou disparando o tiro cujas consequências foram matar o então presidente do Brasil e adiar a ditadura militar brasileira em 10 anos. A história deste terrorista fictício, Dimitri Borja Korosec, é o enredo do excelente livro de Jô Soares “O homem que matou Getúlio Vargas”.

Em outro ponto da história, uma arma dada de presente por um japonês, dispara um tiro acidental na África. O tiro disparado por um jovem pastor de ovelhas africano, atinge um ônibus de turistas e tem consequências diretas e variadas no Japão, México, Estados Unidos. Essa é a história de um excelente filme estrelado por Brad Pitt, chamado Babel. Algo bastante complexo e até difícil de acreditar em um mundo tão grande, embora tão conectado. Mas muito real.

A sensacional trama escrita por Jô, embora fictícia, bem como o, igualmente sensacional, filme hollywodiano, têm a mesma base, extremamente sólida, embora mal percebamos: a história, nada mais é do que uma sequência de acasos, coincidências, tomadas de decisão. No final, tudo está ligado e um grão de areia movimentado na Austrália pode ter efeito no Brasil, como diz a teoria do “Efeito Borboleta”, cujo conteúdo é fundamento para o filme homônimo.

No esporte a gente acredita mais nisso, talvez por ser mais evidente e presente às nossas vidas. É a história de “o se não joga”. Se aquela bola não bate na trave, se o atacante não escorrega... Mas não conseguimos transportar isso à nossa realidade ou nosso cotidiano. Não sei se a sorte e o acaso existem, ou se são meras tramas de uma complexa teia criada por algo superior, fato é que dois centímetros a mais ou a menos em qualquer movimento podem mudar o mundo.

Aliás, a humanidade só existe por causa de dois “insignificantes” centímetros. Há bilhões de anos, quando o sistema solar se constituía e a terra era apenas um aglomerado de massa recém formado por destroços de explosões aleatórias, um pedaço de um corpo celeste qualquer, em meio às colisões, foi desviado 2 centímetros do curso, impedindo um choque imediato e mudando completamente sua rota. Alguns bilhões de anos depois, a Terra já formada e habitada, justamente por causa desses dois centímetros, esse asteroide colidiu com o nosso planeta. Estavam extintos, então, os dinossauros.

A teoria do acaso e da desordem é bem factível na física e na formação do universo. Afinal, o universo foi/é criado através do acaso. As condições que permitem a vida na Terra, idem. Um pequeno movimento no Universo e pronto. Ele conspira, embora em escalas de espaço e tempo inimagináveis por nós.  Por que então nós, parte do universo, não faríamos parte dessa lei? Por que grandes fatos não podem surgir de pequenas ações ou coincidências? Por que o curso da história não pode ser alterado por pessoas comuns? Podem.

Aliás, o curso da história é alterado todos os dias por cidadãos comuns. Hoje é difícil acreditar, mas a maioria dos grandes homens da história, não nasceram grandes. Mas, por diversas razões se tornaram gigantes, maiores a sua própria vida, vilões e heróis imortais, gente que mudou o curso da história da humanidade.

Um jovem artista austríaco, vivendo na periferia de Viena, mal conseguia subsistir da venda de seus desenhos. Sem um plano B, aquele homem pobre, solitário, perdido, sem rumo, sem perspectiva e revoltado por estar em um país multicultural; provavelmente estava com seus dias contados, terminando seus dias na pobreza e anonimato. Em Sarajevo, um arquiduque cuja posse só foi possível por questões amorosas que levaram seu primo ao suicídio, foi assassinado desencadeando a Primeira Guerra Mundial. 

O jovem artista austríaco, então, se alista ao exército austríaco, que, prontamente o recusou por inaptidão física. As tropas alemãs o aceitaram, embora seus colegas considerassem alguém muito estranho. O artista foi colocado como mensageiro, a mais perigosa função na guerra de trincheiras. E não foi bravura ou habilidade militar que o mantiveram vivo. Em uma missão, ele caiu ferido em frente a um soldado inglês cuja arma apontava para o austro-alemão. Ele estava na mira do rifle, mas o soldado inglês, sabe-se lá porque, teve compaixão e não conseguiu disparar.

O jovem artista austríaco e soldado alemão, Adolf Hitler, sobreviveu. E o homem que não puxou o gatilho que mudaria a história da humanidade, um condecorado herói de guerra inglês, cuja imagem foi homenageada por Hitler através de um quadro, repetiu várias vezes ainda em vida: “Peço perdão para Deus todos os dias por não tê-lo matado”.

Mahatma Ghandi, um rico, jovem e promissor advogado indiano; aristocrático e formado na Inglaterra, foi enviado à África do Sul pela companhia em que trabalhava. Já na África do Sul, Ghandi, com passaporte e passagem de primeira classe em mãos, foi colocado em um vagão econômico, repleto de negros e árabes. Revoltado, o advogado argumentou com o funcionário da companhia férrea sul-africana, mostrou suas credenciais. De nada adiantou. Tratado como lixo, foi mantido no vagão rumo ao seu destino final. Lá conheceu um mercador árabe, certamente muito mais rico do que o próprio Ghandi, que lhe informou: “aqui não adianta. Se você não é branco, não é ninguém”. Revoltado, o advogado mudou seu modo de ver a vida e se tornou o personagem que conhecemos.

Histórias como essas foram escritas e reescritas durante a história da humanidade. E quantos ditadores piores do que Hitler, ou mesmo excepcionais estadistas, não apareceram para a humanidade simplesmente pelo fato de outros soldados ingleses não tiveram a mesma piedade? E se o soldado inglês disparasse aquela arma? E se Ghandi fosse mantido na primeira classe? E se o asteroide não fosse desviado dois centímetros? E se o tiro em Kennedy não o acertasse? E se o telegrama alemão não fosse interceptado? Se a Alemanha não financiasse Stalin? Se o arquiduque Francisco Ferdinando desistisse de sua viagem à Sérvia?


Bem provavelmente, quando disse que “devemos ser a mudança que queremos ver no mundo”, Ghandi pensava em sua própria história, inimaginavelmente mudada por um evento fortuito. Quem escreve a nossa história somos nós, quem escreve a história do mundo somos nós. Qualquer um de nossos movimentos, por mais ocasionais que sejam, mudam o mundo. Quaisquer que sejam nossos desejos, promessas, sonhos e aspirações, tudo depende de um mínimo movimento, um mínimo para fazer o universo conspirar. E que venha 2015. 

terça-feira, 23 de dezembro de 2014

Um dia apenas

Para o cristianismo, o Natal é a celebração do nascimento de Jesus Cristo, por mais que a especificidade deste dia, ou mesmo o ano aos quais referenciamos, sejam historicamente contestáveis. Ainda assim, a celebração é, mesmo aos Cristãos, simbólica. Comemora-se o nascimento do homem que, independentemente da religião, foi indiscutivelmente o mais importante da história.  Nem o maior dos ateus pode questionar esse fato. Afinal, em nome Dele e através Dele a história do mundo ocidental foi construído. Poucos são os eventos na história do mundo após Seu nascimento em que, de certa forma, Ele, ou a crença Nele não estiveram envolvidos. Não estou falando em divindade, nem quero entrar nesse mérito, mas em história pura e simplesmente. Mesmo as ideologias políticas às quais o ateísmo era premissa, o fazia em resposta ao cristianismo, contestando-o.

De toda sorte, aos Cristãos e à maioria esmagadora do Mundo Ocidental, essa data simbólica remeteria ao amor, generosidade, caridade. Valores que, em verdade, deveriam ser celebrados e praticados todos os dias. Contudo, e não é novidade para ninguém, as pessoas mudam no natal. É como se toda negação desses valores durante todo o ano se redimisse em pouco mais de um mês, uma vez que, inegavelmente, e isso faz tempo, o natal dura muito mais tempo. Final de ano é transformador, confere um espírito e uma humanidade incomuns às pessoas, a maioria tão ferrenhamente antagônicas a isso durante a maior parte do tempo.

Mas do verdadeiro espírito natalino isso é o que sobrou. Foi interessante manter e se manteve. Na prática, atualmente o natal é como um comercial varejista o qual poderia ser resumido: “o aniversário é de Jesus, mas quem ganha o presente é você”. Assim, como a data virou, indubitavelmente, a mais lucrativa para o comércio, nada como estendê-la, antecipando-a, obviamente. Esse caráter varejista é tamanho que, há muito, embora passe desapercebido, o maior ícone natalino deixou de ser o “verdadeiro aniversariante”. Esse posto passou a ser do “Bom Velhinho”, Papai Noel.

Papai Noel, ou São Nicolau, para os íntimos, prova que, como quase tudo na esfera comercial, o hemisfério norte ditou a cultura natalina. Não só pelo fato de o São Nicolau ser nórdico e usar trenós e renas, inexistentes na nossa metade do planeta. Isso é só um detalhe. Mas, já repararam como o natal no Brasil é moldado por alguns preceitos absolutamente inimagináveis aqui? Pinheiros, no calor desgraçado da maior parte do país, são as árvores de natal. Alguns, inclusive, os decoram com algodão para fingir neve, outro símbolo natalino completamente descabido à nossa realidade.

Assisti na televisão um comercial de um peru de natal. Um comercial feito e produzido no Brasil para um produto brasileiro. Na cena, em plena ceia, todos estão vestindo pesadas roupas de lã. Se em pleno Dezembro algum lugar no Brasil estiver frio, alguma coisa está errada. As crianças, que tanto escrevem ao Papai Noel, são ensinadas à deixarem meias de lá, biscoitos e leite quente ao bom velhinho, como um mimo. No inverno, estação símbolo do natal, isso faria todo sentido. Aliás, quantas casas no Brasil tem chaminés?

Essas são apenas constatações mal humoradas. Há de se considerar, por outro lado, ainda dentro do mercantilismo o tanto que a economia é movimentada neta época e quantos empregos temporários são criados. Além disso, quem é que não gosta de ganhar presente de natal? Quem nunca ficou na expectativa pelo dia 25 de Dezembro para abrir seu presente?

Confesso, logo aos 3 anos perdi a ilusão do Papai Noel. Entretanto, no natal algumas aprendi algumas das lições mais importantes que tive, das poucas que ainda fazem acreditar nas pessoas. A primeira, em uma história longa e desimportante, é que devemos ter esperança, apesar de tudo. A outra é sobre gente. Adolescente revoltado que era, questionei o por quê desejávamos “Feliz Natal”, se o Natal, em si, nada mais era do que um segundo. O segundo entre 23:59:59 e 00:00:00. Então desejamos um segundo de felicidade? Nunca esqueci a resposta: “se alguém te deseja felicidade sinceramente, mesmo que apenas um segundo, você já é um privilegiado”.


À parte os exageros, a neve, o mercantilismo, ao segundo de felicidade, os agasalhos e mesmo a sensação de solidariedade temporária redimindo todo um ano, é um alento ver resquício de humanidade nas pessoas. Mesmo que por um dia. 

segunda-feira, 1 de dezembro de 2014

O arrogante vira latas

Desde sempre aprendemos na aula de história que o Brasileiro não tem uma identidade, inclusive fisicamente, fato pelo qual, nosso passaporte é um dos mais visados por bandidos e terroristas. Uma característica, contudo, nos faz brasileiros. Invariavelmente, não sei se por genética, tendência, ou pura passionalidade, nós brasileiros somos bipolares. Sempre é assim, ou está tudo muito bem, ou nada presta. Ou somos muito melhores, ou muito piores. Somos, efetivamente, emoção.

Nosso complexo de vira-lata é um dos nossos mais arrogantes transtornos bipolares. É uma espécie de complexo paradoxal e incondicional, que não avalia as minúcias, nem sequer faz uma análise minimamente crítica antes de se colocar inferior ou superior aos outros. Somos extremamente complexados quando nos comparamos aos europeus e aos americanos. Ao passo que, comparados aos latino-americanos, somos extremamente prepotentes. É como se, perante aos países de primeiro mundo nos sentíssemos vira-latas e, perante ao resto, um premiado cão de raça e com pedigree.

Nosso complexo de inferioridade não é compreendido nem pelos próprios europeus, americanos e asiáticos. Vemos eles como verdadeiros heróis, habitantes de um paraíso ideal onde tudo funciona. Isso tudo é questionável, sob várias perspectivas. A primeira é o fato de todos os problemas serem questões, sobretudo, de referência. Em um país como a Austrália, por exemplo, a população local reclama veementemente do transporte e saúde públicos. A saúde, confesso, não precisei usar, mas o transporte público australiano, principalmente o de Sidney, chamado de “vergonha” pelos moradores, são invejáveis se comparados, por exemplo, aos transportes sul-americanos. Mas a referência é outra. Se comparado à Barcelona, ou Lisboa, por exemplo, as queixas começam a fazer sentido.

O nosso complexo é, estranhamente, seletivo e sistêmico. Nos julgamos piores à Europa e aos EUA, como se esses lugares fossem os verdadeiros paraísos na Terra. Simples assim, ou melhor, simplista assim. Entretanto esse mundo cor de rosa só existe na nossa imaginação. Vocês acham, por exemplo, que as sátiras feitas pelos americanos ao seu sistema de saúde, educação e à corrupção, são meros frutos da imaginação dos criadores dos Simpsons, do Family Guy ou dos produtores de Hollywood? Óbvio que não. Também é óbvio que a quantidade é muito menor e, sobretudo, muitas das coisas funcionam melhor lá, mas isso não quer dizer que estão livres de problemas sociais.

Os americanos, cujo sistema de saúde público é um dos mais criticados do primeiro mundo, são críticos ao próprio país, tomando como referência, por exemplo, o Canadá. As grandes cidades dos EUA também tem problemas de violência embora, de fato, de maneira muito mais controlada. Casos de violência policial nos EUA têm sido constantes no último mês. Eles também não são perfeitos. Não quero dizer que somos melhores, mas também não somos tão piores, a ponto de se criar um complexo de vira-lata.

Os europeus, sobretudo a Europa ocidental, em geral muito mais desenvolvidos socialmente aos americanos, também têm suas mazelas e problemas. O problema econômico, o desemprego, a xenofobia, a diminuição dos serviços públicos – em qualidade e quantidade. Não faz muito tempo, uma matéria disse que os professores da França que atuam em áreas violentas terão acréscimo na bonificação de fim de ano. Os professores franceses já ganham bem, não é essa a questão posta. O interessante aqui é notar que na França também existem áreas violentas. Algumas mazelas são comuns a qualquer país com populações demasiadamente grandes, embora não seja difícil reconhecer que o Brasil lida com elas de maneira muito pior em relação a muitos países.

Ainda assim, grande maioria da Europa nos considera o país do futuro, com grande potencial, não fosse a burocracia e a bipolaridade local. Um empreendedor francês, por exemplo, estudou abrir no litoral uma pousada de luxo. Contudo, e isso explica o tanto que o Brasil é caro, seu estudo constatou que o baixo fluxo da “baixa temporada” é tanto que, na alta, o preço para compensar o prejuízo teria de ser absurdo. Somos inconstantes em todos os aspectos, o ser humano é. Entretanto, o desnível de nossa inconstância é muito maior às outras.

E é justamente nessa bipolaridade que reside a arrogância de nosso complexo de vira-lata. O mesmo brasileiro que se derrete pelos países de primeiro mundo se considera superior a todos os outros países em desenvolvimento do mundo. Não nos consideramos, sequer, latino-americanos, pois isso, para nós, é um privilégio de quem fala espanhol Aliás, por conta da força econômica, ou pelo pentacampeonato mundial de futebol, quando a comparação é feita com outros países da América Latina, somos o ápice da arrogância. Todos eles, invariavelmente, sofrem com diversos problemas, extremamente parecidos aos nossos. Por outro lado eles também têm muito a nos ensinar.

A nossa relação com esses países é exatamente a mesma que nós imaginamos que nossos países de idolatria têm conosco. Pura imaginação. De mais a mais, por maiores que possam ser nossas vantagens econômicas, muitos países se viram bem melhor ao nosso. Evidentemente uma população menor é essencial para isso, mas o Uruguai por exemplo é um lugar espetacular para se morar. Em muitos pontos os chilenos e os argentinos têm ideias de vida melhores às nossas.  Porque somos tão melhores? Exatamente o inverso, quando a comparação é com europeus e americanos, porque somos tão piores? Não somos nenhum nem outro.

Aliás, quando se é turista, ou mesmo um estudante no estrangeiro a perspectiva sobre a vida de um país é bem diminuída, afinal, excluídas as favelas do Rio de Janeiro, os turistas não vão às periferias e lugares mais perigosos. Ficam dentro de uma redoma turística, protegido de tudo. Quantos turistas e estudantes brasileiros visitaram alguma “non go area” de Miami ou NY?

Somos, em verdade, reflexo de nós mesmos. Afinal, já diria Ghandi, temos de ser a mudanças que queremos ver no mundo. O brasileiro não é. Somos uma imagem, subalterna em alguns pontos e soberba em outros e nossas atitudes demonstram isso. Aliás, é surpreendente a reação das pessoas quando voltam do exterior, se dizendo surpresas sobre a educação e cortesia das pessoas em outros lugares. "Ninguém fura fila, todos respeitam sua vez, o Brasil deveria ser assim..."


Entretanto, somos tão bipolares que nosso comportamento no exterior muda completamente. Somos a turma “faça o que eu digo, não faça o que eu faço”. Ora, me pergunto, pois, se os brasileiros tão surpresos com a educação e civilidade, e que se comportam tão bem lá fora, têm a mesma correção aqui, dentro de casa. Em geral, não. O nosso complexo de vira-lata não passa de um arrogante subterfúgio às nossas falhas como cidadãos, como país e como nação. Uma mera representação de nossa bipolaridade. 

terça-feira, 11 de novembro de 2014

A Guerra Civil

Eu perdi o episódio em que a democracia virou guerra civil. Mas em algum momento o processo eleitoral se tornou uma verdadeira disputa, sobretudo nas redes sociais. O ódio e a passionalidade chegaram ao nível de parecer estar instaurada uma Guerra Civil Tupiniquim. Fato é que a democracia não foi feita para agradar à todos, e esta, em essência é sua beleza.

Jean Fraçois Marie Arouet, vulgo Voltaire, em inspiração ímpar, disse que “posso não concordar com as bobagens que diz, mas defendo até a morte seu direito de dizê-las”. Mas isso é racional demais para uma eleição, racional demais para o Brasil. Outro dia ouvi um pertinente comentário em uma rádio no qual me senti inteiramente representando. Compreendo os motivos de todos para ser contra um dos candidatos. Muito mais até do que para ser a favor de qualquer um dos dois. Entretanto, nenhum deles merece essas defesas e ataques passionais como se fossem salvadores do Brasil, ou como se fossem dois times de futebol.

As paixões chegaram ao ponto de suprimir a razão. Parecia que as pessoas não estavam pensando no bem do país, mas no prazer de suprimir à opinião alheia, o puro prazer da vitória. Nessas horas, assim como no futebol, o melhor é desligar do mundo e ocupar a mente. Afinal chega ser ridículo os derrotados nas urnas dizerem temer pela democracia. Ora, temerem à democracia por perderem o processo democrático? Qual o sentido?

Pior é ver alguns dos expoentes dessas pessoas, gente, por mais incrível que possa parecer, formadora de opinião, dizerem “agora é lutar pelo impeachment”. A democracia só vale para essas pessoas quando elas vencem. Assim, meus caros, tudo fica mais fácil. Os que vibram alucinados pela vitória e os que remoem excessivamente a derrota, não pensam ser o fim o bem comum, levam tudo para o pessoal.

Pior, se eximem de responsabilidade cívica quando derrotados, e protegem a qualquer custo seu candidato se vencedores. Quem vota não precisa ser cabo eleitoral. Quem vota em um ou em outro tem seus motivos para tal, o que não quer dizer, sob nenhuma hipótese, concordar na totalidade com as atitudes do candidato, tampouco reprovar tudo feito pelo preterido.

Não é futebol. Não é guerra civil. É eleição. Além de não ser sinônimo de aprovação incondicional e absoluta, votar em alguém não é dizer que você não irá o fiscalizar, tampouco é assumir a culpa pelo ato dele, ou abster de protestar. Quanto aos eleitores derrotados, isso não quer dizer que ele tem, por obrigação, discordar de tudo, protestar por protestar, ou se abster de fiscalizar e transferir a culpa para os outros eleitores.

Se as pessoas não carregam a culpa pelos atos do candidato que não votou, tampouco deve recair sobre os ombros do eleitor o peso das atitudes de seu escolhido. E os motivos são vários. O primeiro, aos que se eximem de culpa, antes de fazê-lo, deviam se perguntar em que votou para os cargos legislativos e saber seus projetos e ações durante o mandato. Focar somente nos escândalos da grande mídia é fácil. Aos outros, estes devem ter a consciência que, independentemente da escolha na urna, ela traria boas e más consequências, afinal, nenhum candidato tem só propostas boas e ruins. No cenário político, ou mesmo no histórico dos candidatos da última eleição, tampouco temos pessoas cem por cento honestas, e administrações marcadas pela lisura, para ser eufêmico. Além disso, os motivos para escolher um candidato são muitos, até mesmo, o que pensa ser menos pior.

A Guerra Civil online vivida não faz um mês, mediante isso tudo, fica cada vez mais patética e sem sentido. É muito fácil culpar os outros e se abster de sua parte. Tudo dá errado é culpa do governo, mas o que as pessoas, cidadãos comuns fazem? Gritar por gritar é fácil. Não digo, necessariamente, protestos. Mas a parte como cidadão, no simples ato de fazer o que é certo.

Mas não. Nós nos achamos espertos demais para isso. Somos acomodados demais para isso. Seremos sempre, não importa quem esteja o poder, reféns de nossas próprias acomodações, e, por isso mesmo, não há a menor perspectiva de algo diferente surgir. Estamos falando de pessoas cujos votos são definidos via pesquisa, e o melhor, não necessariamente é votado pelo simples fato de ele parecer "não ter chance de ganhar".

E a “Guerrinha” gerou fatos ridículos, de quem, antes de falar, além de não pensar, não procura nem saber o que diz. Fique claro, os nordestinos, e pessoas de quase todas as partes do país, migram para o Sudeste, sobretudo São Paulo, desde que o centro da economia brasileira está lá, há muito tempo. Não é votar em X e migrar. Aliás, São Paulo foi construída pelos nordestinos a quem, em verdade, os paulistas devem gratidão.

Não é e nem foi uma batalha dos ricos contra os pobres. Não é e nem foi uma batalha. Efetivamente, os únicos adversários eram os dois candidatos e seus projetos de poder. Para nós foi uma escolha, sem derrotados e vencedores. Não se tratava de um jogo.  Não é para separar o Brasil, ou maldizer o nordeste, sabendo, inclusive, que, para muitos dos que o fizeram, lá será o destino das próximas férias. 

Vamos ser coerentes e inteligentes. A democracia pode ter seus ônus. Mas é o nosso maior bem político. Não estamos em guerra, não somos fiéis seguidores de nada. O voto não é uma mordaça, apenas uma opinião. Não carregue culpa pelo que deu errado, e nem a certeza de que teria sido melhor. Não concorde com tudo que é dito só para discordar de outra pessoa. Não assuma um lado como um time de futebol, ou como uma religião, pois esteja certo, ambos os lados cometeriam e cometem erros. Ambos os lados vão estar amordaçados pelo sistema político brasileiro. Não existem salvadores da pátria.

O Brasil é feito, acima de tudo, por nós brasileiros. Por isso, antes de qualquer coisa, antes de pensar em culpas, ofensas, partidos, dogmas e imbecilidades sem propósito; independentemente de qualquer coisa, pense em fazer sua parte. Este sim é o primeiro passo para a mudança.