quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

Tudo tem limite


Quem me conhece sabe que musicalmente sou eclético. Música é momento e tem, cada uma, sua proposta. Existem músicas que me fazem pensar e canções que são só para dançar. A música que escuto quando estou querendo relaxar em casa, não é a mesma que colocarei se for DJ em um churrasco. Para se ter uma ideia, durante a minha vida, sem nenhum arrependimento, já fui em shows como o do Belo, uns quatro “Axé Brasil”, Neguinho da Beija Flor, Arlindo Cruz, Lulu Santos, Titãs, Engenheiros, Jota Quest, O Rappa, Capital Inicial, Ringo Starr, Paul McCartney, Chico Buarque. Falando apenas dos que, de pronto, vieram à minha cabeça.

Gosto de todo tipo de música, embora tenha músicas que eu não goste, não tenho nenhuma restrição a estilo musical, ou mesmo a artistas. Música boa é aquela que, em um determinado momento, você quer ouvir. Acho, ainda, de uma arrogância e preconceitos descabidos dizer que alguma música, ou estilo musical, são piores, são coisa de pobre ou mesmo falta de cultura. De novo, a conta é simples, existem músicas para relaxar, para pensar, para dançar e até para zuar.

Isto é um fato, mas, sinceramente, tudo tem limite. E o limite foi atingindo. Bom, ao menos se a notícia que circulou na internet na terça feira for verdade. Nada, absolutamente nada, contra, provavelmente até curtiria muito em qualquer festa, mas eleger a música “Passinho do Volante” do Mc Federado e os Leques como música oficial da copa, me perdoem, ultrapassa qualquer limite. Insisto que não julgo se a música do carnaval 2013 é boa ou ruim. Acho, até, que, ao que se propõe, é muito boa. Entretanto, a música oficial da copa tem coisas mais importantes para representar. A composição de Shakira para a Copa da África, belíssima, por exemplo, falava do continente Negro, uma vez que foi a primeira copa no continente africano.

A copa do Brasil, e não entro no mérito de ser a favor ou contra, da corrupção e dos problemas, em tese deveria representar o sentimento do povo brasileiro, sobretudo no que tange ao futebol. Fico imaginando como os mestres da música popular brasileira estão se  sentindo, sendo preteridos por uma letra tão significativa. Com todo respeito, a copa merecia algo, no mínimo, mais elaborado. Na minha modesta opinião, não seria necessário uma nova composição. Creio que poderia se votar em duas opções de músicas que, independentemente da idade, gosto musical, está na ponta da língua da maior parte da população e que representam muito bem o sentimento do brasileiro.

A primeira, samba enredo da União da Ilha, chamado “É hoje”. A outra, do eterno Gonzaguinha, que tinha o defeito crônico de torcer para o time errado, se chama “O que é, o que é?”. Com a primeira frase de cada uma delas, tenho certeza qualquer um identificará: “Minha alegria atravessou o mar” e “Eu fico com a pureza da resposta das crianças”. Ou qualquer outra que represente o Brasil.

Nada contra o funk e a musiquinha grude do Mc Federado, mas temos coisa melhor e mais representativa para oferecer ao mundo. Espero, do fundo do meu coração, que essa seja apenas uma pegadinha da Internet. Se bem que, considerando a logo da copa e tudo que foi feito para o evento até hoje, até que o funk grude do Mc Federado cai bem.

terça-feira, 26 de fevereiro de 2013

A Falha da Democracia


A corrupção é inerente à democracia. A frase, que ouvi de um respeitado professor  universitário, por mais chocante que possa parecer, é a mais pura verdade. Não que seja contra a democracia, mas, da mesma forma que ela é a melhor forma de governo encontrada até hoje, é fato que todas as formas de governo já instituídas na humanidade têm defeitos, e a democracia não é exceção.  Em verdade, a democracia, para chegar ao ponto em que vivemos hoje, precisou passar por várias crises. Afinal, como entendem a grande maioria dos doutrinadores da área, ela não pode ser a ditadura da maioria.

A voz do povo nem sempre é a voz de Deus. Isso é um fato e, infelizmente, comprovado das maneiras mais sangrentas em diversos pontos da história, o que não vem ao caso neste momento. O importante é ressaltar que é essencial que as minorias tenham voz e direito na sociedade, para que não se tenha um massacre, ainda que ideológico –e esse seria o menor dos prejuízos -, dessas pessoas. No Estado Democrático de Direito, que é o Estado em que vivemos, as minorias têm voz e não são massacradas pela maioria, tudo isso, graças ao poder legislativo e o voto por coeficiente eleitoral.

Embora muita gente não entenda, o poder legislativo é a única forma de a minoria ter voz atuante na política. Essa minoria, no parlamento, pode, até se retirando e impedindo o quórum de votação, defender o interesse das pessoas que representam. É algo chato e complexo de se explicar, mas, em síntese, como os votos são por coeficientes, as minorias colocam candidatos, que jamais conseguiriam nada no poder executivo, no legislativo, onde, apoiado por outros deputados com a mesma ideologia, pode ser ouvido e atendido. Dois exemplos disso, em extremos opostos ideologicamente, é o deputado Jair Bolsonaro, conservador ao extremo, e Jean Willys, um deputado vanguardista, que, por exemplo, assume com afinco a causa dos homossexuais - ele mesmo é declaradamente homossexual.

Essa possibilidade de manifestação das minorias é essencial à democracia, louvável e imprescindível à sociedade. Entretanto, tudo tem seu lado negativo, e, infelizmente, a possibilidade da minoria ter sua voz, proporciona algumas distorções funestas na política. A questão é simples, se por um lado é importante que a minoria possa garantir sua representação, por outro esta lógica é que permite que alguns corruptos, tidos como ruins pela maioria da população, se perpetuem no poder. Tomemos uma cidade como Belo Horizonte, de cerca de 2 milhões de habitantes, da qual já fiz, à trabalho, várias pesquisas sobre eleições legislativas. Um vereador, dependendo do partido, pode ser eleito com 4 mil votos. Com 9 mil é quase certa a eleição em qualquer partido e o mais votado em 2008 teve cerca de 15 mil. Comparado ao número de eleitores é uma quantidade mínima de votos. Votos que não representam a maioria.

Em uma escala maior, evidentemente, isso se reproduz em âmbito federal. Ou seja, para se eleger deputado, é necessário uma quantidade de votos que não representa a maioria absoluta das pessoas. E a reação natural ao ver algo na política que nos choca, é primeiro se indignar e depois culpar os eleitores do protagonista da situação com a famosa pergunta: “como é que tem gente com coragem de votar nele?”. Essa é a pergunta errada. O certo seria perguntar: “o que ele faz para agradar a parcela da população que vota nele?”. O raciocínio é simples. Voltando ao exemplo de BH, se um vereador precisa atender e representar sucessivamente cerca de 9 mil pessoas para ir à câmara por qualquer partido, se quando eleito, independentemente de sua conduta, ele representar cinco bairros, assisti-los e dar publicidade a isso, é bem provável que ele se reeleja. E, diga-se de passagem, é legítimo que as pessoas continuem votando nele, uma vez que ele cumpre seu papel mediante a esta parcela da população. Em outras palavras, o seu corrupto é o benfeitor dos outros.

E não é essa a única distorção da democracia, que, usada de maneira inescrupulosa, transforma mecanismos legais e necessários à sociedade em problemas à mesma. Tão importante e necessário quanto à representação e a voz das minorias no legislativo, é a existência de Três Poderes que se fiscalizam e que limitam o poder do outro. A importância é até óbvia, a supremacia de qualquer um dos poderes acabaria por configurar uma ditadura. É, deveras tenaz a necessidade de três poderes se controlando. Por outro lado, como tudo, isso tem um lado negativo. Pasmem, mas essa distribuição de poderes, da maneira que é feita no Brasil, têm consequências indesejáveis. A primeira, até menos grave, é o fato de que os salários dos magistrados – único poder que se entra por concurso – serão sempre conforme sua reivindicação  uma vez que a parada do judiciário ou um confronto com o mesmo implica na impossibilidade de funcionamento das outras esferas. Além disso, cargos eletivos – sobretudo no legislativo – também ficam com salários exorbitantes, afinal são eles que decidem sobre isso, e qualquer veto do executivo pode significar uma retaliação que implicaria na inviabilidade de um governo. Por fim,  mais grave e mais chocante, esse sistema, de certa maneira, quase que obriga expedientes como o mensalão.

Seja ele o tucano ou o petista, um governo sem o legislativo simplesmente não funciona. Todos sabemos, por exemplo, que a renúncia de Jânio Quadros nos anos 60 se deveu, basicamente, ao fato de seu governo se tornar inviável, uma vez que o legislativo não apoiava nenhuma medida vinda do executivo. A lógica é simples: uma vez que o legislativo serve para criar e aprovar leis, de maneira que a nação não se torne refém da vontade do executivo, tornando-se, assim, uma ditadura, não adianta que o governo tenha os melhores planos e medidas se o legislativo vetar todas. É impossível levar um governo através de medidas provisórias e decretos. Na teoria, em um congresso em que os interesses da nação fossem levados em conta acima de tudo, como deveria ser, os bons projetos do governo seriam aprovados e os maus reprovados. Mas não funciona bem assim. Os interesses acabam sendo partidários, em uma briga insossa e improdutiva de situação e oposição, que, sinceramente, em seus principais expoentes, são exatamente a mesma coisa.

Além disso, e os juristas que discordarem que se fodam, acontece uma aberração, uma anomalia no congresso brasileiro. Aliás duas em uma. A primeira é que os partidos exigem, de várias formas, que seu congressista vote e defenda conforme os interesses partidários. Em um país com partidos de ideologias bem definidas, em que as pessoas se filiam por crer em tais ideologias, pode até ter sentido. Por aqui, conforme um estudo sociológico francês, apenas um partido segue essa linha. Ou seja, de todas as milhares de legendas, apenas uma segue absolutamente sua ideologia ( com a qual, particularmente, discordo até a última gota, mas, seguindo a filosofia de Voltaire, defendo até ao morte o direito deles de defendê-la). Tal partido é o DEM. Os outros, em geral, são escolhidos pelos candidatos pela facilidade de se eleger. Políticos trocam de partidos como trocam de roupas, suas ideologias pouco se diferenciam e o interesse se resume em  eleições. E são esses partidos vazios que definem os votos de nossos representantes.

A consequência dessa aberração, ou melhor, um dos pilares que a sustenta, é, e mais uma vez que se fodam os questionamentos dos juristas, o fato do voto parlamentar ser secreto. É absolutamente ilógico. Ora, os parlamentares são nossos representantes, uma vez que nos tempos atuais, uma democracia participativa como a grega, em que todos os cidadãos participavam das decisões, é sociológica e logisticamente impossível - seria como se todas os projetos de lei tivessem de passar por referendo ou plebiscito popular, o que, nos dias de hoje, representaria um caos. Por isso elegemos parlamentares para nos representar. O voto dele mediante a determinado projeto, muito mais que dele, é seu e dos outros milhares ou milhões que ele representa. Logo, eu deveria ter a obrigação e o direito de saber seu voto, afinal, ele também é meu. Mas, raramente, isso é possível, afinal, a maioria das votações são secretas. É como se eu não soubesse em que eu votei. Muitos defenderão que, normalmente, não temos nem o interesse em acompanhar a votação. Concordo, mas como sempre, eximir uma das partes de responsabilidade, é sempre superficial. Se, por um lado, deveríamos ter mais interesse nos debates públicos, por outro as esferas públicas deveriam e poderiam trabalhar uma publicidade mais atrativa aos seus trabalhos, bem como trabalhar esse interesse na população através da educação.

Independentemente disso, alguns temas geram , sim, mobilização popular e interesse, ao menos de um determinado grupo de pessoas que serão diretamente envolvidas na questão discutida. O impeachment de Collor, por exemplo, segundo muitos, só se consolidou porque a votação foi aberta. E faz sentido. Não lembro agora qual o tema, mas, se não me falha a memória, no início dos anos 2000 uma questão que havia comovido a sociedade estava em pauta. Até a toda poderosa Rede Globo cobriu, através de plantões periódicos em sua programação a votação. Secreta. Por uma diferença considerável de votos, a questão reivindicada pela sociedade – infelizmente não lembro qual era – perdeu. Não sei como, uma vez que quase todos deputados (exceto por dois que eram abertamente contra), quando entrevistados, afirmaram categoricamente terem votado em prol do apelo popular. Todos sabem do caso de manipulação do painel eletrônico do senado, mas duvido muito que todas as eleições no congresso sejam assim. Acredito realmente que nossos representantes se esconderam atrás da votação secreta. Alguns, coitados, subestimando à inteligência ou interesse de seu eleitor, ou por mera cara de pau, vai saber, se contradizem mesmo com o voto aberto. Aqui em Minas, não faz um ano, um deputado, abertamente favorável a uma construção de uma linha de metrô que iria até o Barreiro (região extremamente populosa de BH, situada à sudoeste da cidade, bem distante do centro, na divisa com Contagem), mas seu voto na Assembléia vazou: ele votou contra.

Sou defensor da democracia, sempre. Até então não se encontrou uma maneira mais eficiente de se ordenar à sociedade. Entretanto, por, em certa medida, ela depender do ser humano, ela não é perfeita. 

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013

Um dia sem polêmica: A minha Terra do Nunca


Os seres humanos são saudosistas por natureza. Talvez porque, exceto em grandes traumas, nossa memória prefira guardar os bons momentos das épocas anteriores, enquanto vivemos um presente em que as felicidades, escassas, convivem com problemas mil. E todos os momentos da vida são assim, porém, os problemas cotidianos ficam esquecidos e temos sempre a impressão que o passado foi melhor. Fantasia retratada, por exemplo, na Terra do Nunca do Peter Pan em que as crianças se mantém eternamente nesta condição. Quem não gostaria de viver a infância para sempre.

Saudosismos à parte a época da minha vida que gostaria que fosse congelada na Terra Nunca, embora a infância tenha sido uma época muito legal, seria um pouquinho mais tarde. À época não tinha a menor consciência disso, mas, sinceramente, no ano em que cheguei à maioridade, e isso já tem bastante tempo, eu descobri: o tempo devia parar quando chegamos ao 17 anos. Sim aos 17 anos. Quando tinha essa idade ainda não sabia que a maioridade era tão chata. Muito pelo contrário, tinha grandes expectativas com relação à ela. Poderia ter carteira de motorista, entrar em motel, na zona, não dar satisfação à ninguém… Seria, enfim, adulto. O que resolveria tudo o que eu considerava problema aos 17 anos.

Pouco antes de chegar aos 18 anos, no início do ano em que entraria na simbólica maioridade, vendo-me na obrigação de me alistar às forças armadas, comecei a perceber que ser maior de idade não era tão legal assim. Comecei, então, a sentir saudades dos meus 17 anos. Bons tempos. Alguns podem dizer que aos 17 anos não se pode, por exemplo, dirigir. Justo. Por outro lado, naquela idade, não faltava disposição para esperar até o dia raiar para pegar o primeiro ônibus da manhã. Coisas que viram histórias para se contar depois, mas que nunca mais teremos disposição de fazer. Outros poderão dizer que aos 17 anos você ainda não pode beber ou entrar em todas as festas. Com relação à isso, não sejamos hipócritas. Qualquer um já comprou bebida quando menor de idade. Além do mais, se você não teve um xerox autenticado falso da sua identidade, que servia na entrada dos lugares, mas que sumia se o juizado aparecesse, você não sabe o que é aventura.

Ter 17 anos tem inúmeras vantagens que, facilmente, sobrepõem às possíveis desvantagens. Com 17 anos você faz quase tudo de bom que, em tese, só poderia ser feito com a maioridade. Pelo menos tenho certeza que a maioria faz, inclusive, devido ao ímpeto dos hormônios e da idade, a vontade de desafiar tudo e todos e as ilusões de um mundo perfeito, creio que aproveitamos até mais. Naquele tempo, a expectativa pela maioridade ofuscava seus grandes percalços. Percalços estes que aos 17 anos não precisávamos nos preocupar.  Tinha, é verdade, outras preocupações, que, infelizmente, somente hoje percebo que são banais. Da mesma maneira que quando você está sendo alfabetizado acha a maior de todas as penúrias a tarefa de escrever o abecedário. Pouco tempo depois, no 1° grau, percebe que aquela tarefa era tudo o que você queria.

A primeira das chatices dos 18 foi alistar ao exército e me tornar reservista, que, embora seja apenas uma vez, é insuportável. E o alistamento militar obrigatório, exclusividade dos homens, passa longe de ser a maior das chatices. Desde 2004, quando completei o décimo oitavo ano de vida, comecei a arrepender por esperar tanto os 18 anos. Aos 17 não tinha que ter CPF, título de eleitor era opcional. A maior responsabilidade era o dever de casa. Os dias consistiam em ir à aula, namorar e bater papo com os amigos depois do colégio e ficar por conta do à toa. Como era bom dormir à tarde e assistir Malhação. Fazer nada e depois descansar. 

Infelizmente, o tempo passa e, aos poucos, a ilusão da maioridade passa. Em um primeiro momento, percebemos que ao fazer 18 anos nada do que gostaríamos, absolutamente nada, mudou. Continuamos dependentes, devendo satisfações e tudo o que não gostávamos nos 17 permanece conosco. Entretanto, logo percebemos que as coisas pioram. São os mesmos problemas, mas agora com voto obrigatório, imposto de renda (mesmo que isento), emitir CPF, responsabilidade penal… Ou seja, as chatices da maioridade começam e suas vantagens, não. Afinal, o que você queria, tirando, talvez, dirigir, você conseguia facilmente.

E não fica melhor. A autonomia, certamente, aumenta. Bem como, as responsabilidades. Aos poucos você descobre que a vida é muito diferente do que você tinha projetado. Seus objetivos vão ficando cada vez mais difíceis. Pare para pensar: quando você era adolescente, onde você imaginava que estaria hoje? Quase certamente você está aquém do que você esperava, o que é normal. A adolescência é assim, repleta de expectativas e o mundo, paulatinamente, nos apresenta à realidade e nos derruba do nosso fantástico mundo. E como era fantástico. Sem responsabilidades, sem preocupações, expectativas mil, milhares de coisas novas. Arrependo-me profundamente de não ter percebido isso à época, mas o tempo passa rápido e não há espaço para lamentações. A única coisa que digo é que, se eu pudesse, teria eternamente 17 anos.



terça-feira, 19 de fevereiro de 2013

Será que o crime não compensa?


O novo salário mínimo foi divulgado: R$ 678. E tem gente que sustenta uma família com essa fortuna e mais meia dúzia de benefícios governamentais. O salário médio de um professor na rede pública não chega aos 4 dígitos, a não ser que ele trabalhe os 3 turnos. E, convenhamos, se nenhum ser humano trabalha plenamente 8 horas diárias (ou você não morcega algumas horas no dia que são essenciais para sua produtividade?), imagine por 12. Ainda assim, o salário não chega à R$ 5 mil. E isso para sustentar casa, filhos, contas.

O exemplo dos professores é simbólico por sua importância na sociedade. Mas não é o único. Profissionais dos mais variados níveis de escolaridade, dos mais variados tipos de labor sustentam famílias trabalhando por quase dia inteiro, gastando o resto no caminho entre trabalho e casa, ganhando para isso salários que mal são suficientes para colocar a comida na mesa. Será que isso compensa? Mesmo quem tem uma condição de vida melhor, os micro empresários, por exemplo, que, responsáveis por mais de 70% dos empregos no país, não conseguem prosperar devido às enormes cargas tributárias. Ganhar dinheiro honestamente no Brasil é extremamente difícil. 

Enquanto isso, em Brasília, na capital federal, Renan Calheiros cuja ficha criminal é mais suja que os papéis higiênicos usados jogados na lixeira de um banheiro de rodoviária, é nomeado, apoiado por pessoas extremamente idôneas, como Fernando Collor,  presidente do Senado. Uma casa que deveria nos representar, que devia ser exemplo de licitude e de conduta. E o lugar lhe foi passado por José Sarney, uma múmia que deve ter cometido sua primeira ilicitude na chegada de Dom João VI no Brasil. E não são só eles. Recomendo um livro chamado “Privataria Tucana”, que, apesar do nome, passa longe de ser um ataque direcionado aos tucanos. O livro mostra como é fácil ganhar muito dinheiro de forma ilícita no Brasil, mostrando operações que passam por traficantes, contrabandistas, políticos de todos os partidos, representantes de entidades como a CBF e tantos outros.

Até mesmo os crimes que, apesar de não ser do colarinho branco, são mais elaborados acabam sem punição. Pouco, por exemplo, daquele roubo do banco central em Fortaleza foi recuperado. Um risco calculado e com alguns laranjas presos. A lavanderia de dinheiro sujo está aberta, sobretudo para aqueles bandidos de fino trato, sofisticados e influentes. É extremamente fácil tornar o dinheiro limpo com alguns contatos, fruto da defasagem das instituições fazendárias brasileiras. Que, creio eu, continuarão sendo defasadas, uma vez que o poder de transformá-las estão nas mãos dos maiores beneficiários desse dinheiroduto. Não à toa o senhor Paulo Maluf, quase uma madre Tereza de tão puro, não pode sair do Brasil, já que é procurado pela Interpol em cerca de 180 países.

Grandes narcotraficantes, contrabandistas, políticos, banqueiros vivem vida de reis graças às mais diversas manobras ilícitas, imagináveis e inimagináveis. Ao mesmo tempo, a professora potiguar Amanda Gurgel, em um discurso contagiante na Assembleia Legislativa do Rio Grande do Norte (http://www.youtube.com/watch?v=yFkt0O7lceA), que lhe rendeu uma aparição no Faustão e o cargo de vereadora mais votada em Natal nas últimas eleições, enquanto era simplesmente professora, silenciou os deputados mostrando sua situação como discente com especialização.

Crescemos ouvindo dizer que o crime não compensa. E não foram só nossos pais, se você tem a sorte de ter pais íntegros. Os desenhos animados que fomos criados assistindo nos dava a certeza mais do que absoluta de que essa frase é verdadeira. No Brasil, isso só funciona até a segunda página. O baixo clero do crime, por assim dizer, pode realmente não compensar. Porém, e que me desculpe Scooby Doo, Capitão Caverna, Duck Tales e tantos outros, o  alto calão Brasileiro, as instituições políticas e financeiras brasileiras insistem em nos provar que por aqui o final feliz sempre será dos Dicks Vigaristas ou dos Irmãos Metralha.


quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013

A hipocrisia do Deus deles


Qualquer fanatismo é perigoso, mas nenhum deles é tão perigoso quanto o religioso. E nada mais nocivo à sociedade quanto à combinação fanatismo religioso e política. A religião levada ao pé da letra e os conflitos entre crenças diferentes já levaram a muito derramamento de sangue na história. Hoje usam da política e da mídia para conseguir seus interesses. Não sou contra a religião ou a religiosidade. Nem contra as pessoas pagarem uma fortuna para deixar líderes religiosos vivendo multimilionários, isso é problema de cada um. O problema é quando esses doutrinadores querem, através da política e do poder de convencimento sobre as pessoas, impor seus valores aos outros. Respeito todas às crenças, mas, por favor, não me encham por não ter uma.

Não que eu seja ateu, não sou tão pretensioso.  Mas, do alto da minha agnose, tenho certeza absoluta que se Deus existir e for justo, muitos ateus serão salvos e muitos crentes não. Em seu excelente The Believing Brain,  que, apesar não ter versão em português, devia ter seus primeiros capítulos como leitura obrigatória, Michael Shermer diz que não gostaria de ir para um céu em que as pessoas estão pelo que creem e não pelo que são. Sinceramente, nem eu.  Religiosos intolerantes que condenam às opções das outras pessoas, às discriminam, chegam, como vi, a dizer que vítimas de tragédias são, em verdade, pessoas que punidas por Deus, não são companhias que me apetecem . Eu jamais queria passar a eternidade ao lado dessas pessoas.

E quando a intolerância chega à política, e com poder de veto, é que percebemos o quanto à coisa é ridícula. Não há razão para privar os homossexuais de seus direitos fundamentais.  Não há razão racional para que não se eduque contra a homofobia desde do ensino fundamental. Não há razão para que o casamento entre pessoas do mesmo sexo ainda cause tanto frisson. E, se houver alguma razão para o impedimento de casais homossexuais adotarem crianças, esta será psicológica ou psiquiátrica  definidas por pessoas competentes, não pela religião. Não há razão para impedir o aborto em certas circunstâncias. Ora, o próprio cristianismo prega que os julgamentos cabem à Ele, logo, se Ele existe, deixem que ele julgue as pessoas. Deus não legisla, ou pelo menos não devia.

E nestes tempos de mudanças sociais, às quais religiões insistem em recusar, no Brasil os homossexuais são os que mais têm sofrido. Para se ter ideia, para reprovar o projeto de combate à homofobia nas escolas, havia um quorum muito superior à média, inclusive para debater projetos de extrema importância para a nação. Em síntese, para esses deputados é mais importante impedir a educação contra a homofobia, que é contra os preceitos religiosos desses parlamentares, do que combater a fome, a corrupção, ou melhorar a saúde. Vai entender.

Essas pessoas, por incrível que pareça, conseguem enxergar a homossexualidade como doença. Não entendo esse Deus que não respeita as diferenças. Diga-se de passagem, a orientação sexual não é opção, doença, ou nada do que esses radicais idiotas dizem. É simplesmente a orientação sexual, que não torna ninguém pior ou melhor. E, se Deus não entende assim, com todo o respeito, não quero conhecê-lo, muito menos irei adorá-lo. Os gregos antigos, dos quais herdamos grande parte da cultura, por exemplo, que existiram muito antes das religiões que cremos hoje, entendiam que o amor não tinha sexo, o próprio amor de Platão, que deu origem à expressão amor platônico, era por um homem. Sem querer falar da origem das religiões, tampouco em como ela foi usada durante toda história para satisfazer certos interesses, insisto que se elas pregam a paz e o respeito, devem respeitar às pessoas.

O aborto é outro tema que é politicamente travado por conta da hipocrisia religiosa. Não que eu defenda o aborto à torto e a direita, mas já ouvi dizer de algumas pessoas, cegas pelos padres, bispos, pastores; que Deus pode curar um feto anencéfalo  Além disso, que Deus é esse que quer colocar uma criança indesejada no mundo para ela ser abandonada, ou maltratada? Pior. Ainda que Ele queira, temos, tanto na religião quanto na democracia, o livre arbítrio de escolher se vamos ou não viver conforme os preceitos d’Ele. Como disse, não sou defensor do aborto em todas ocasiões e fases da gestação, evidente que não. Entretanto, a partir de definições consensuais entre direito e medicina, e não conforme preceitos religiosos, é que se deve definir até quando, os modos e quais as circunstâncias que se deve permitir o aborto.

E essa aberração política religiosa, é paradoxal. Tanto nos fiéis quanto nos políticos. Afinal, os mesmos que defendem a bíblia como constituição  já aceitaram a camisinha (ainda bem), e fecham os olhos para muitas outras coisas que, em tese, a interpretação da bíblia feita por tais religiões é contra. A corrupção que alguns desses parlamentares religiosos se envolve, ou até a riqueza que alguns dos líderes de Igreja vivem, bom isso é aceitável. Eu não sou obrigado a ter a mesma filosofia de vida ou a mesma religião de ninguém, mas sou obrigado a respeitar e isso significa não discriminar e não impor, sobretudo na lei, a minha crença aos outros. Cada um tem direito a sua individualidade. 

Isso, é claro, não vale para todas as pessoas que são religiosas. Conheço muita gente que, frequentadoras de igrejas diversas, que são extremamente tolerantes. Inclusive, essa intolerância e essa política religiosa que alguns legisladores pretendem impor, e que algumas Igrejas tentam pregar, são absolutamente contra a filosofia pregada pela própria igreja, em que todos são iguais perante um Deus de Amor.

E com esse tema, sobre o qual poderia falar por páginas e mais páginas, é que vou para o carnaval, por isso na próxima semana, não vou atualizar o blog.



terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

Acabem com a lei seca


Dirigir e beber, infelizmente, é um hábito do brasileiro que não mudou em nada após a tal lei seca. As pessoas continuam a se arriscarem e têm mais medo da blitz do que de um acidente. Se bem que ultimamente nem as blitzes colocam medo. Primeiro porque são facilmente dribláveis com rotas alternativas, aplicativos de celular e até com auxílios de terceiros. Ademais, se você for rico e seu carro importado for parado e, prudentemente, não soprar o bafômetro, vai pagar uma multa que não fará muita diferença na sua vida.

E, sabendo que está errado, o brasileiro, como faz invariavelmente, esquece de sua parcela da responsabilidade. Repito, parcela. Isso porque as pessoas têm razão de reclamar que falta transporte público à noite, especialmente na saída das baladas. Em Belo Horizonte, por exemplo, até aparecer (se aparecer) um táxi (mesmo daqueles que chamamos por telefone), você já teria chegado ao seu destino, tomado umas cinco cervejas ou sonhado 5 sonhos, se tivesse ido ônibus de madrugada (que só passa de hora em hora, e nem todas as linhas). Isso nos bairros nobres e boêmios da cidade. Nos mais afastados, então, desista. Alguns ainda reclamam do preço, mas isso, sinceramente, eu coloco em xeque. Não que os preços sejam suaves, mas também não são absurdamente caros. O problema é que as pessoas têm o vício, nesses casos, de calcular cada real em cervejas a mais. Sinceramente, tomar duas a menos para pegar o táxi não mudar sua noite ou, tampouco, alterar muito seu estado etílico. E seu fígado agradece. Enfim, com relação ao transporte público, de maneira geral, as pessoas estão com a razão em reclamar.

Mas um erro não justifica o outro, e dirigir após ter bebido é assumir um risco desnecessário, risco para sua vida e, principalmente, para a vida dos outros. É incrível como, geralmente, os que fazem as bobagens nunca morrem. Além disso, se o motorista morreu, ele assumiu esse risco. O outro, que não bebeu, não têm nada com isso. E é por isso que sou contra a lei seca.Porque sou radical com relação à punição de quem dirige alcoolizado, porque uma vez quase fui vítima de um bêbado que, às 4 da manhã descia velozmente uma avenida na contramão sem muito controle da faixa em que estava, porque é revoltante um idiota qualquer matar uma família inteira porque acha, depois de encher o rabo de cachaça, ser indestrutível. E, apesar das últimas mudanças, que ainda vão gerar muita polêmica, darem a impressão de aumentar o rigor e as punições, sou a favor do fim da lei seca justamente por ela ser um brinde à impunidade. É uma lei que não cumpre sua função, nem de maneira preventiva, nem punitiva. Aqui em BH mesmo tem um cidadão, que se não me falha a memória é empresário, que está quase virando uma celebridade do MGTV. Ele foi parado na blitz da lei seca, completamente embriagado, umas 3 vezes. Na primeira, perdeu a carteira e pagou a multa. Nas outras, ampliou o leque de infrações com dirigir sem carteira. Simples assim.

Seria muito mais eficiente se, em vez dessa lei seca, tão pouco efetiva, que faz com que os parentes das vítimas dos irresponsáveis clamem por justiça, punisse exemplarmente os motoristas que causaram algum acidente por estarem bêbados. Aprendi desde pequeno que devemos assumir as consequências dos nossos atos e é isso que falta nesse caso. Até porque, pior que mexer no bolso de alguém, é mexer com sua liberdade. A receita é: dirigiu bêbado, provocou acidente, matou, gerou danos irreparáveis à alguém, vai para cadeia. Todo mundo sabe que se beber não deve dirigir, não precisa nem ser muito inteligente para entender os riscos dessa combinação que, cada vez mais, mata no Brasil. Então, se você assume o risco, deve, sim, responder, em caso de uma tragédia, com o dolo eventual.

E extingue-se a lei seca como é feita hoje. Empregue a tolerância zero aos que provocam acidentes por estarem bêbados. No dia em que as pessoas perceberem que beber e dirigir deve ter a cadeia como consequência,  elas terão consciência. E dizer que é falta de educação, neste caso, é hipocrisia. As pessoas sabem, mas nunca acreditam que pode acontecer com elas. Além disso, o fim da lei seca, com o início da punição exemplar aos assassinos do volante, é até mais justo com algumas pessoas que bebem, moderadamente, que têm a consciência que não estão 100% e até por isso dirigem com muito mais cautela e que, dificilmente, vão provocar algum acidente. Não os defendo, não acho que seja certo, mas, concordando com um amigo, também não é certo que  a punição para alguém que bebeu pouco e, cautelosamente, chega a sua casa, sem causar o menor incomodo, seja a mesma de um idiota cujo a bebida transformou em um super herói e saiu à 100 km/h, provocando um acidente fatal.

É por isso que sempre serei contra a Lei Seca. Desde que se termine com a impunidade.