Qualquer fanatismo é perigoso,
mas nenhum deles é tão perigoso quanto o religioso. E nada mais nocivo à
sociedade quanto à combinação fanatismo religioso e política. A religião levada
ao pé da letra e os conflitos entre crenças diferentes já levaram a muito
derramamento de sangue na história. Hoje usam da política e da mídia para
conseguir seus interesses. Não sou contra a religião ou a religiosidade. Nem
contra as pessoas pagarem uma fortuna para deixar líderes religiosos vivendo multimilionários,
isso é problema de cada um. O problema é quando esses doutrinadores querem,
através da política e do poder de convencimento sobre as pessoas, impor seus valores aos outros. Respeito todas às crenças,
mas, por favor, não me encham por não ter uma.
Não que eu seja ateu, não sou tão pretensioso. Mas, do alto da minha agnose, tenho certeza absoluta que se Deus
existir e for justo, muitos ateus serão salvos e muitos crentes não. Em seu
excelente The Believing Brain, que, apesar não ter versão em português, devia
ter seus primeiros capítulos como leitura obrigatória, Michael Shermer diz que
não gostaria de ir para um céu em que as pessoas estão pelo que creem e não pelo que são. Sinceramente, nem eu.
Religiosos intolerantes que condenam às opções das outras pessoas, às
discriminam, chegam, como vi, a dizer que vítimas de tragédias são, em verdade,
pessoas que punidas por Deus, não são companhias que me apetecem . Eu jamais queria passar a eternidade ao lado
dessas pessoas.
E quando a intolerância chega à
política, e com poder de veto, é que percebemos o quanto à coisa é ridícula. Não há razão para privar os homossexuais de seus direitos fundamentais. Não há razão racional para que não se eduque contra a homofobia desde do ensino
fundamental. Não há razão para que o casamento entre pessoas do mesmo sexo
ainda cause tanto frisson. E, se houver alguma razão para o impedimento de
casais homossexuais adotarem crianças, esta será psicológica ou psiquiátrica
definidas por pessoas competentes, não pela religião. Não há razão para impedir o aborto em certas circunstâncias. Ora, o próprio
cristianismo prega que os julgamentos cabem à Ele, logo, se Ele existe, deixem que ele julgue as pessoas. Deus não legisla, ou pelo menos não devia.
E nestes tempos de mudanças
sociais, às quais religiões insistem em recusar, no Brasil os homossexuais são
os que mais têm sofrido. Para se ter ideia, para reprovar o projeto de combate
à homofobia nas escolas, havia um quorum muito superior à média, inclusive para
debater projetos de extrema importância para a nação. Em síntese, para esses
deputados é mais importante impedir a educação contra a homofobia, que é contra
os preceitos religiosos desses parlamentares, do que combater a fome, a
corrupção, ou melhorar a saúde. Vai entender.
Essas pessoas, por incrível que
pareça, conseguem enxergar a homossexualidade como doença. Não entendo esse
Deus que não respeita as diferenças. Diga-se de passagem, a orientação sexual
não é opção, doença, ou nada do que esses radicais idiotas dizem. É
simplesmente a orientação sexual, que não torna ninguém pior ou melhor. E, se
Deus não entende assim, com todo o respeito, não quero conhecê-lo, muito menos
irei adorá-lo. Os gregos antigos, dos quais herdamos grande parte da cultura, por
exemplo, que existiram muito antes das religiões que cremos hoje, entendiam que
o amor não tinha sexo, o próprio amor de Platão, que deu origem à expressão
amor platônico, era por um homem. Sem querer falar da origem das religiões,
tampouco em como ela foi usada durante toda história para satisfazer certos
interesses, insisto que se elas pregam a paz e o respeito, devem respeitar às
pessoas.
O aborto é outro tema que é
politicamente travado por conta da hipocrisia religiosa. Não que eu defenda o
aborto à torto e a direita, mas já ouvi dizer de algumas pessoas, cegas pelos
padres, bispos, pastores; que Deus pode curar um feto anencéfalo Além disso,
que Deus é esse que quer colocar uma criança indesejada no mundo para ela ser
abandonada, ou maltratada? Pior. Ainda que Ele queira, temos, tanto na religião
quanto na democracia, o livre arbítrio de escolher se vamos ou não viver
conforme os preceitos d’Ele. Como disse, não sou defensor do aborto em todas
ocasiões e fases da gestação, evidente que não. Entretanto, a partir de
definições consensuais entre direito e medicina, e não conforme preceitos
religiosos, é que se deve definir até quando, os modos e quais as
circunstâncias que se deve permitir o aborto.
E essa aberração política
religiosa, é paradoxal. Tanto nos fiéis quanto nos políticos. Afinal, os mesmos
que defendem a bíblia como constituição já aceitaram a camisinha (ainda bem),
e fecham os olhos para muitas outras coisas que, em tese, a interpretação da
bíblia feita por tais religiões é contra. A corrupção que alguns desses
parlamentares religiosos se envolve, ou até a riqueza que alguns dos líderes de
Igreja vivem, bom isso é aceitável. Eu não sou obrigado a ter a mesma filosofia
de vida ou a mesma religião de ninguém, mas sou obrigado a respeitar e isso
significa não discriminar e não impor, sobretudo na lei, a minha crença aos
outros. Cada um tem direito a sua individualidade.
Isso, é claro, não vale para
todas as pessoas que são religiosas. Conheço muita gente que, frequentadoras de
igrejas diversas, que são extremamente tolerantes. Inclusive, essa intolerância e essa política religiosa que alguns legisladores
pretendem impor, e que algumas Igrejas tentam pregar, são absolutamente contra
a filosofia pregada pela própria igreja, em que todos são iguais perante um
Deus de Amor.
E com esse tema, sobre o qual
poderia falar por páginas e mais páginas, é que vou para o carnaval, por isso
na próxima semana, não vou atualizar o blog.