quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013

Um dia sem polêmica: A minha Terra do Nunca


Os seres humanos são saudosistas por natureza. Talvez porque, exceto em grandes traumas, nossa memória prefira guardar os bons momentos das épocas anteriores, enquanto vivemos um presente em que as felicidades, escassas, convivem com problemas mil. E todos os momentos da vida são assim, porém, os problemas cotidianos ficam esquecidos e temos sempre a impressão que o passado foi melhor. Fantasia retratada, por exemplo, na Terra do Nunca do Peter Pan em que as crianças se mantém eternamente nesta condição. Quem não gostaria de viver a infância para sempre.

Saudosismos à parte a época da minha vida que gostaria que fosse congelada na Terra Nunca, embora a infância tenha sido uma época muito legal, seria um pouquinho mais tarde. À época não tinha a menor consciência disso, mas, sinceramente, no ano em que cheguei à maioridade, e isso já tem bastante tempo, eu descobri: o tempo devia parar quando chegamos ao 17 anos. Sim aos 17 anos. Quando tinha essa idade ainda não sabia que a maioridade era tão chata. Muito pelo contrário, tinha grandes expectativas com relação à ela. Poderia ter carteira de motorista, entrar em motel, na zona, não dar satisfação à ninguém… Seria, enfim, adulto. O que resolveria tudo o que eu considerava problema aos 17 anos.

Pouco antes de chegar aos 18 anos, no início do ano em que entraria na simbólica maioridade, vendo-me na obrigação de me alistar às forças armadas, comecei a perceber que ser maior de idade não era tão legal assim. Comecei, então, a sentir saudades dos meus 17 anos. Bons tempos. Alguns podem dizer que aos 17 anos não se pode, por exemplo, dirigir. Justo. Por outro lado, naquela idade, não faltava disposição para esperar até o dia raiar para pegar o primeiro ônibus da manhã. Coisas que viram histórias para se contar depois, mas que nunca mais teremos disposição de fazer. Outros poderão dizer que aos 17 anos você ainda não pode beber ou entrar em todas as festas. Com relação à isso, não sejamos hipócritas. Qualquer um já comprou bebida quando menor de idade. Além do mais, se você não teve um xerox autenticado falso da sua identidade, que servia na entrada dos lugares, mas que sumia se o juizado aparecesse, você não sabe o que é aventura.

Ter 17 anos tem inúmeras vantagens que, facilmente, sobrepõem às possíveis desvantagens. Com 17 anos você faz quase tudo de bom que, em tese, só poderia ser feito com a maioridade. Pelo menos tenho certeza que a maioria faz, inclusive, devido ao ímpeto dos hormônios e da idade, a vontade de desafiar tudo e todos e as ilusões de um mundo perfeito, creio que aproveitamos até mais. Naquele tempo, a expectativa pela maioridade ofuscava seus grandes percalços. Percalços estes que aos 17 anos não precisávamos nos preocupar.  Tinha, é verdade, outras preocupações, que, infelizmente, somente hoje percebo que são banais. Da mesma maneira que quando você está sendo alfabetizado acha a maior de todas as penúrias a tarefa de escrever o abecedário. Pouco tempo depois, no 1° grau, percebe que aquela tarefa era tudo o que você queria.

A primeira das chatices dos 18 foi alistar ao exército e me tornar reservista, que, embora seja apenas uma vez, é insuportável. E o alistamento militar obrigatório, exclusividade dos homens, passa longe de ser a maior das chatices. Desde 2004, quando completei o décimo oitavo ano de vida, comecei a arrepender por esperar tanto os 18 anos. Aos 17 não tinha que ter CPF, título de eleitor era opcional. A maior responsabilidade era o dever de casa. Os dias consistiam em ir à aula, namorar e bater papo com os amigos depois do colégio e ficar por conta do à toa. Como era bom dormir à tarde e assistir Malhação. Fazer nada e depois descansar. 

Infelizmente, o tempo passa e, aos poucos, a ilusão da maioridade passa. Em um primeiro momento, percebemos que ao fazer 18 anos nada do que gostaríamos, absolutamente nada, mudou. Continuamos dependentes, devendo satisfações e tudo o que não gostávamos nos 17 permanece conosco. Entretanto, logo percebemos que as coisas pioram. São os mesmos problemas, mas agora com voto obrigatório, imposto de renda (mesmo que isento), emitir CPF, responsabilidade penal… Ou seja, as chatices da maioridade começam e suas vantagens, não. Afinal, o que você queria, tirando, talvez, dirigir, você conseguia facilmente.

E não fica melhor. A autonomia, certamente, aumenta. Bem como, as responsabilidades. Aos poucos você descobre que a vida é muito diferente do que você tinha projetado. Seus objetivos vão ficando cada vez mais difíceis. Pare para pensar: quando você era adolescente, onde você imaginava que estaria hoje? Quase certamente você está aquém do que você esperava, o que é normal. A adolescência é assim, repleta de expectativas e o mundo, paulatinamente, nos apresenta à realidade e nos derruba do nosso fantástico mundo. E como era fantástico. Sem responsabilidades, sem preocupações, expectativas mil, milhares de coisas novas. Arrependo-me profundamente de não ter percebido isso à época, mas o tempo passa rápido e não há espaço para lamentações. A única coisa que digo é que, se eu pudesse, teria eternamente 17 anos.