terça-feira, 26 de março de 2013

Qual será o problema?


Não moro em uma zona nobre de BH. Tampouco, moro em uma favela ou uma periferia violenta. Moro em um bairro de classe média, distante exatos 5 km da Praça Sete, o marco zero da cidade e 4,5 km da Lagoa da Pampulha. Meu bairro sempre foi tranquilo, conveniente, em que podemos fazer tudo a pé, tranquilamente.

Fiquei sabendo segunda que no sábado, mais ou menos na hora do almoço, há quatro quarteirões daqui, em uma rua movimentada, cheia de comércio, com sorveteria, lanchonetes, lojas de roupa, pet shops, em frente a uma padaria, um homem, não sei idade foi sumariamente executado por três bandidos. Não tenho a menor ideia do motivo, não foi um assalto, foi uma execução, talvez um playboy que devesse a um traficante, vai saber. De toda sorte, a violência está cada vez mais debaixo de nossos narizes.

E eu já tive muitas teorias sobre o tema, mas, cada dia mais estou deixando minhas teorias de lado para rever todos os meus conceitos. E estive pensando sobre essa invasora cada vez mais presente em nossas vidas. Continuo achando que a impunidade e o excesso dos Direitos Humanos em alguns casos são problemas sérios, acho que tem que acabar o quanto antes, isso seria um paliativo, sim. Mas o paliativo é necessário, já que as soluções em longo prazo tem um prazo muito longo pra quem vive hoje.

Me peguei perguntando a mim mesmo o que leva à maioria dos criminosos à bandidagem. Será que simplesmente a falta de oportundiade? Bom, é muito claro que existem pessoas com distúrbios sociais graves, que independentemente da condição social vão cometer crimes, claro. Mas e a maioria. Que o Brasil tem sérios problemas de educação é inegável, óbvio, até clichê. Será que é só isso? Tenho convivido com muita gente que diz como está difícil arrumar mão de obra qualificada. Outros, e uma vez que estive em um escritório do ministério do trabalho comprovei isso, procuram empregados independentemente da qualificação.

Pode ser, então, que embora a qualificação seja um problema sério, exista algo a mais. Algo está faltando. Existe emprego, mas não existe salário. Já vi acontecer com muita gente, abandonar o emprego porque o salário é baixo e sem pérspectiva de crescimento. Profissionais com nível superior não estão ganhando suficiente nem para se sustentar, imagina para sustentar a família.

Eis que surge uma oportunidade, no crime, arriscada, mas real de ganhar bem. Muito melhor do que em qualquer emprego. A sociedade em que vivemos exige isso da gente, ela desperta isso na gente, afinal, tudo pelo o que vivemos é dinheiro. A solução? Não faço a menor ideia, mas estou certo que alguma coisa tem que acontecer.


quinta-feira, 21 de março de 2013

Os limites do politicamente correto


Sinceramente eu acho essa história de politicamente correto um verdadeiro saco. Mas os limites entre o que é piada e o que é ofensivo tem que ficar bem claro para as pessoas. E algumas, pelo que vemos, até justificam essa imposição do "politicamente correto". É um saco, para nós, e para eles, tratar um cego como deficiente visual. É idiotice querer que eu não chame um amigo de mais de 20 anos de negão, como eu sempre chamei, para chamá-lo de afrodescendente. É hipócrita achar que eu não vou, numa conversa de bar ou em meio de amigos não chamar um ou outro de viado, independentemente de sua orientação sexual. Regular isso é politicamente chato.

O que os alunos da UFMG fizeram, porém, ultrapassa qualquer limite. Eu, que estudei na UFMG, pela primeira vez tive vergonha de ter estudado lá. E por mais que tentem justificar a barbárie noticiada no início desta semana como o “império do politicamente correto”, e ainda que forçando muito a barra ela possa ser válida no caso da Xica da Silva (não é, mas vamos por meio segundo fingir que seja), os gestos nazistas não se justificam. O pior é ver que tamanha estupidez, racista, machista e desrespeitosa vem logo da Faculdade de Direito.

E eu tive muta vergonha de ser cria de lá. Do primeiro grau à universidade, estudei na UFMG, tá certo que bem longe da Faculdade de Direito, que não fica no Campus Pampulha, mas, ainda assim. Os futuros juristas do nosso país, pessoas que em tese deviam garantir nossos direitos,  propagando valores tão abomináveis e se divertindo com isso. Lastimável. E espero, sinceramente, até porque nós, ex alunos, os atuais alunos, funcionários e professores não nos sentimos bem em ver essa palhaçada associada a uma instituição pela qual passamos e tivemos orgulho em fazê-lo.

E que a punição seja clara e pelos motivos certos, que são basicamente as atitudes preconceituosas  racistas, nazistas, que aqueles belos idiotas sorriam em fazer. Não sejamos hipócritas, o trote com sujeira e zoação sempre existiu e sempre existirá e a Instituição pode até fingir que não via e que não sabia. Mas a gente sabe que não era bem assim. Eu mesmo sofri e dei trote. Fui sujo e sujei, mas sem nenhuma ofensa pessoal ou atitude preconceituosa.

E que a punição exemplar se estenda ao professor que ofendeu de maneira racista um aluno. E lembrar que eu fui aluno daquela escola de primeiro grau, em pensar que eu sempre quis e sempre tive orgulho de estar na UFMG. Só espero que a Instituição mantenha esse sentimento na gente, que ela puna todos os envolvidos e que mostre seu posicionamento com relação a atitudes deploráveis como esta. Mais. Que este posicionamento, se assim for tomado, seja de exemplo para sociedade, pois não podemos aceitar esse tipo de coisa seja lá onde for.  E que para isso não seja preciso esse exagero do politicamente correto, que seja simplesmente fácil de entender que respeito é essencial.

terça-feira, 19 de março de 2013

Bastonete do capeta


Hoje não vou ser nem polêmico nem mal humorado. O assunto hoje é triste. Qualquer ser humano, por pior que seja, por mais inimigos que tenha, por mais ojeriza que tenha à algumas pessoas, se ainda tiver algum resquício de humanidade, considera que algumas coisas são indesejáveis até para o pior inimigo. E do hall das coisas que não consigo desejar para o meu pior inimigo, talvez a principal delas seja um bastonete de menos de 10 centímetros, com uma brasa na ponta e um idiota na outra. Sim, não desejaria nem ao meu pior inimigo que ele fosse fumante. O que dizer dos amigos.

Enfim, enquanto essa porcaria não for proibida, a gente tem que aturar. Graças aos lampejos de bom senso, e até por demanda social, não temos que aturar isso mais em ambientes fechados. Mas, invariavelmente, quando vejo ou fico sabendo que alguém que eu considero coloca essa porcaria na boca… Eu sei, é o livre arbítrio, cada um faz da vida o que bem entender, não dá para fazer nada que não seja se chatear, torcer para que parem mas, admito, é foda.

Esse bastonete infeliz, não torna ninguém melhor, nem mais legal, tampouco mais aceito no grupo. Nada disso. Serve para viciar, algo que se você não tem não interfere em nada na sua vida, mas quando se se deixar levar, você se torna escravo. É um crack. E se ao pior inimigo eu não desejo, o que eu sinto quando vejo alguém que realmente gosto fazendo isso consigo mesmo, é incrivelmente ruim a sensação de impotência quando a gente vê alguém com quem nos importamos fazer isso com elas mesmas.

A indústria tabagista, que tem um dos maiores lobbies do mundo, e, por isso, ainda segue atuando, embora, aos poucos, com a pressão social, cada vez menos, não interfere só na vida dos fumantes. Até porque a vida de cada um de nós não é só nossa. No entorno de cada fumante, tem um filho, um pai, uma mãe, um amigo, um marido, uma esposa, sempre tem alguém sofrendo com a auto depreciação que as pessoas mal se dão conta que fazem, em troco de um nada.

Mas, o que podemos fazer? É o livre arbítrio. Eu, particularmente, acho que a maconha é menos problemática do que tabaco, enfim… Espero que um dia esse bastonete maldito esteja extinto. Mas enquanto isso, só posso torcer, desejar e pedir para que as pessoas parem. Quem sabe algum dia eu consiga que ao menos uma pessoa goste mais de si mesma e largue o vício?

quinta-feira, 14 de março de 2013

Eu sou idiota


E não é pouco idiota. Eu diria um completo imbecil. Minha única dúvida é se eu nasci assim ou se eu fiquei assim. Acho que um pouco de cada. Talvez seja até obrigação dos nosso pais nos criar um pouco como idiotas. Seria muito cruel com as crianças não tratá-las como tal. Já pensou que triste seria desiludir uma pobre criança, inocente e pura? Talvez nem seja pela crueldade que implicaria acabar com nossa idiotice quando novos, talvez seja pela igual idiotice dos pais em ter esperança em um futuro melhor, futuro que poderia ser construído por seus filhos.

Ledo engano. Nascemos e logo somos criados acreditando que o bem sempre vence, os desenhos animados que o diga. Aliás, tal ilusão não é tão dissipada quando crescemos, vide novelas e filmes. Claro que entendemos que a vida real não é bem daquele jeito, entretanto, naquela hora, o final tão esperado é tido como, no mínimo, nosso ideal, o nosso anseio pelo final feliz. Sem contar no mundo ideal vendido por nós publicitários. É um mundo que queríamos viver, o mundo das propagandas de margarinas, dos bancos perfeitos, das festas regadas à Coca Cola, da beldade atrás de um copo de cerveja. É, acho que sou mais idiota que a média das pessoas.

Cresci sonhando, cresci acreditando que todos esses sonhos poderiam ser realidade. Coisa de criança. Aos poucos vemos o tempo passar e, quando nos damos conta, trombamos com a realidade. Nossos sonhos  pueris não serão realizados. Pessimismo? Não. Pergunto quantos nós, hoje, realiza o que sonhava de garoto? Pior. Mesmo na adolescência e no início da vida adulta, época em que já notamos que nossos verdadeiros sonhos infantis já se tornaram inviáveis, criamos expectativas para as nossas vidas que raramente são cumpridas. Pergunto outra vez, quantos de nós estamos, hoje, onde planejávamos e vislumbrávamos estar há  5 ou 6 anos?

E a idiotice se manisfesta em vários outros aspectos. Afinal, cresci acreditando que as pessoas pudessem ser boas, que o mundo podia mudar e que eu podia fazer parte dessa mudança. Sempre pensei que havia uma alternativa ao sistema, que a vida era feita por objetivos e que o caminho era mera trajetória. Pensava que ser feliz não demandava esforço, tampouco que isso seria embaraçoso e que a felicidade fosse alcançável. Pensava que o tempo no mundo não era desperdiçável, que era hábil para as nossas realizações. Os interesses eram sempre os comuns e as Instituições acima de qualquer suspeita.

Um dia, porém, você descobre que, por mais que a gente queira acreditar em Rosseau, Hobbes estava certo: “o homem é o lobo do homem”, que em geral as pessoas querem te eliminar, que a sociedade é uma mera concorrência entre animais pseudo-domesticados. Mudar o mundo é impossível, e por mais que você se comporte como desejaria que o mundo fosse, por mais que você escute a velha parábola do beija-flor e do leão no incêndio da floresta, no final das contas o beija-flor termina em uma luta solitária. O sistema não te deixa opção, ou você se enquadra nele ou será engolido por ele. Percebe-se também que a vida não é feito de objetivos, e que a vida na realidade acontece no caminho. É duro percebe o quanto é difícil não ter vergonha de ser feliz em uma sociedade que a imagem é tudo, aliás a felicidade, como diz aquela música brega, não existe. O que existe são momentos felizes.

E o tempo é algo extremamente fugidio  As 24 horas que existem no dia são insuficientes, aliás a vida inteira é insuficiente, e sabe-se lá o que vem depois dela. O mundo em que vivemos, infelizmente, é feito única e exclusivamente de interesses, e garanto, não são do bem comum. Mas precisamos ser iludidos para conseguir viver. E as instituições, cada vez mais mandando no mundo e cada vez menos pensando nele. E, apesar de existirem as boas ações de muitas pessoas, por mais que possam ser maioria, são impotentes em face aos poucos poderosos que determinam nossos rumos.

Mas, eu, bom, eu sou idiota. E ter a consciência da minha idiotice não a diminui em nada. Pelo contrário. Sigo acreditando que um dia esse tal mundo possa mudar, que as pessoas possam ser felizes e honestas, que o bem comum será pensado, os objetivos partes da vida e os caminhos meras trajetórias. E do alto da minha idiotice, sigo com meu mal humor incontrolável e incorrigível, meu descontentamento e meu incomodo com a humanidade. Mas, insisto, eu sou um grandíssimo idiota.



terça-feira, 12 de março de 2013

Câmara Universal Carismática Apostólica Batista do Reino de Deus


O Brasil caminha a passos largos para se tornar medieval. Apesar de termos, em situação análoga, evidentemente, “senhores feudais” em alguns rincões brasileiros, essa regressão estúpida está cada vez mais perto do âmbito nacional. Digo isso, porque após centenas de anos de batalhas para se conseguir um estado laico, marcado pela tolerância, sem influência da Igreja, hoje temos uma bancada que legisla segundo à bíblia. Os parlamentares religiosos estão cada vez em maior número e mais influentes no Brasil. Os fundamentos e princípios básicos de direito e da democracia estão, aos poucos, submergindo aos preceitos religiosos. Estamos virando uma teocracia, quase um Irã cristão.

Não que a política deva ser exclusividade dos ateus. Afinal, em um país como Brasil, igreja é igual à clube de futebol. Quase todo mundo tem, e com todo direito, sua predileção. O não podemos permitir é que política e religião se confundam. O poder legislativo, embora não pareça à maioria das pessoas, influencia muito nossas vidas. Quase todos nossos anseios diários e reclamações cotidianas com a política dizem respeito a este poder. Muitos morreram defendendo um país livre, democrático, com liberdades individuais, sacramentadas na nossa respeitabilíssima Constituição de 1988. E qualquer país de respeito, que pretende ser livre e respeitar à liberdade individual das pessoas, devem ser governados conforme à Constituição e não segundo à bíblia. Afinal, graças à Deus, não sou obrigado a crer na bíblia como livro sagrado, não sou obrigado à interpretá-la conforme padres e pastores e, acima de tudo, nada me obriga a ser cristão. Tampouco ser religioso.

Voltaire já dizia, em outras palavras, que poderia não concordar com que o outro diz, mas que, até a morte, defenderia  o direito do outro em dizê-lo. O mesmo deveria valer para esses parlamentares. Não concorde com as coisas que as pessoas fazem com sua liberdade, mas não as prive de tal liberdade. No presente momento, por mais paradoxal que seja, defendo que líderes religiosos não deveriam assumir cargos públicos, uma vez que eles não conseguem distinguir religião de estado nem bíblia de Constituição. Especificamente no Brasil, a bancada cristã é que tem se tornado a maior ameaça às liberdades individuais, logo os cristãos, que tanto defendem o fim das teocracias muçulmanas e a instauração da democracia…

O cúmulo desse teatro dos horrores foi a eleição (e por incrível que pareça sou obrigado a concordar com a Xuxa), na última semana, para presidir nada mais do que a comissão de Direitos Humanos, um deputado, pastor, cujo o nome faço questão de não lembrar, que é racista, homofóbico. À frente da comissão de Direitos Humanos do congresso temos uma pessoa que não respeita os seres humanos. Não se espante se o Brasil, cedo ou tarde, trocar a Declaração Universal dos Direitos Humanos pelos 10 mandamentos. Amém.

quinta-feira, 7 de março de 2013

E o Show Continuou…


Há cerca de um mês, o espetáculo da mídia, findado o relevante da notícia, era a tragédia de Santa Maria, Rio Grande do Sul. E o show acerca de tal tragédia durou um tempo considerável, durou até que não tinham mais pseudo personagens para entrevistar, histórias para contar e que a audiência, enfim, se cansou. Ao completar um mês da tragédia, algumas homenagens voltaram à mídia. Normal e digno, sem nenhum  estardalhaço. Enfim, os mortos descansaram em paz, e os parentes puderam ter o merecido e consternado luto igualmente em paz.

Mas o show tem que continuar e um mês depois da tragédia de Santa Maria, um novo evento, que a mídia agradece eternamente, surge: o julgamento do goleiro Bruno. É claro e evidente, até indiscutível, que não é um julgamento comum e que merece a cobertura da imprensa. A cobertura. O que vemos, porém, é um BBB 13, o Big Bruno Brasil. É um reality show dos mais rentáveis e com uma das maiores audiências do país. Parentes, conhecidos, médicos, advogados, consultores jurídicos, especialistas, peritos criminais, qualquer um que já teve qualquer relação com algum dos envolvidos, viram pseudo celebridades e ganham seus 15 segundos de fama. Advogados, promotores e juízes dão entrevistas de 5 em 5 minutos. Particularmente, eu entendo que quando advogado, promotor e juiz começam a aparecer demais é sinônimo de merda. É um começo errado. A visibilidade é tanta que advogados ofereceram dinheiro ao réu principal (condição apenas simbólica) para defendê-lo, ora é a chance da carreira deles. O delegado responsável pela investigação, usando a popularidade conseguida com o isso, se elegeu vereador em Belo Horizonte. Como disse, sinal de merda à vista.

E pobre coitado do Bruninho, filho do goleiro com a vítima e, supostamente, pivô desse caso cinematográfico. Filho de uma modelo, nome técnico dado à atriz pornô (eu mesmo já vi um filme com ela) que ganhou esse status para garantir o show, que exige um maniqueísmo idiota e moralista em que o lado considerado bom não pode ter defeitos, logo sua profissão original não seria bem vista. Enfim, filho de uma “modelo” tido como morta supostamente por querer ascender na vida facilmente, o que, ainda que moralmente duvidoso, não justifica seu destino trágico. As “vítimas” dessas mulheres que se previnam. Seu avô, por quem sua mãe foi criada, era um foragido da justiça, que não se conteve ao ver os acontecimentos no noticiário, e, quando foi atrás do direito sobre o neto, foi, enfim, justamente preso. A avó, uma mulher muito estranha, que abandonou o avô e a mãe do garoto quando esta ainda era muito nova. Uma mulher que não se preocupava com filha, tampouco, ou muito menos, com o neto. O garotinho não era bem quisto pela avó,  até que ela descobriu que a criança poderia ser uma interessante fonte de renda, já que a pensão dele seria bem generosa. Hoje o pobrezinho está com ela.

O pai do Bruninho, este merece um parágrafo especial. O seu pai, o goleiro ex Atlético, Corinthians e Flamengo, está na condição simbólica de réu no caso da morte de sua mãe. Condição simbólica porque todos sabemos o desfecho: Bruno será condenado. Sabemos disso desde o dia em que seu nome foi envolvido à morte de Eliza Samudio, a mídia divulgou e o público comprou a ideia. A partir do momento em que o caso ganhou a comoção nacional, a opinião pública definiu o Bruno como culpado. E assim o será. Desde as investigações sabemos disso. Quando crimes ganham tamanha repercussão é sempre assim, os Nardoni que o digam. E os donos daquela escola infantil, acusados injustamente de pedofilia, cuja opinião pública destruiu e só depois conseguiram provar que nada mais era do que um boato inventado por uma mãe irritada, também. Meus caros, quando a opinião pública entra, as investigações são acompanhadas pela imprensa, quando isso acontece, raramente ela feita com correção e isenção. Voltando ao caso dos Nardoni, uma série de falhas na perícia foram apontadas. Aliás, perícia desnecessária, já que o casal já estava condenado.

Não digo nem que os Nardoni nem que o Bruno sejam inocentes. Não entendam a questão dessa maneira, nem me julguem por isso. Aliás, se alguém entender assim só vai me ajudar a provar meu ponto. De toda maneira, desde a primeira entrevista do Goleiro, ainda no Atlético, desde o primeiro caso quando o goleiro foi preso em um pega, abafado como manobra perigosa, era perceptível que Bruno não tem o melhor dos caráteres. Perceptível também é que era um sujeito frio, calculista e ardil e, como tal, não duvido nada que se lhe fosse conveniente, ele mataria. Entretanto, sem querer bancar o advogado do diabo, um homem frio, calculista e ardil, apesar da morte da Eliza ter todas essas características, se estivesse na posição do Bruno, dificilmente correria o risco de terminar no tribunal, ainda mais ganhando mais de 200 mil e com pré contrato assinado para ir à Itália. Um homem frio, calculista e ardil, pagaria uma bolada para a Eliza sumir no mundo, ou dava um generosa mesada para ela ficar longe, ou mesmo assumia o Bruninho e pagava o que o juiz determinasse. Eu ficaria muito mais convencido caso a morte de Eliza fosse algo mais escancarado, como em um rompante de raiva e passionalidade o goleiro a matasse. A não ser, sem querer criar nenhuma teoria da conspiração, que os motivos de uma possível chantagem da vítima fossem muito maiores do que um filho bastardo.  

De qualquer maneira não é isso que interessa. Até porque, repito, não vai me surpreender se o Bruno for culpado. Da mesma forma que não ia me espantar se ficasse provada sua inocência. A questão é muito maior do que a culpa ou não do goleiro. Essa culpa é trabalho para a polícia e a justiça, com isenção. E a falta dessa isenção é o que me preocupa. Qualquer cidadão anônimo, cujo delito, seja ele qual for, não cause comoção da opinião pública, é inocente até que se prove o contrário. O caso que comove a sociedade, como é o caso do goleiro, é o inverso. O réu é culpado até que se prove o contrário. E não adianta tentar falar em isenção dos envolvidos, afinal o juiz está submetido a uma forte pressão e aos holofotes da imprensa e do público. O tribunal idem. O processo jurídico, as audiências, são meras formalidades. Bruno já é um condenado.

E a mídia se delicia com isso. A culpa do Bruno dá audiência. Entrevistas com gente direta e indiretamente envolvida, tudo para que a opinião pública se mantenha firme, garantindo o Ibope. Uma dessas entrevistas, inclusive, ganhou minha atenção. O entrevistado era o primo de Bruno, menor de idade à época e cuja maioridade não pareceu diminuir sua confusão mental. De toda sorte, uma entrevista pertinente jornalisticamente, não fosse a guerra psicológica em que ela se tornou. A repórter, através de uma narração posterior a entrevista, legendava, conforme sua interpretação, os gestos e as palavras do entrevistado. Mostrava ao público suas impressões. Algumas com as quais eu até concordo com a repórter, outras em que penso que a jornalista transformou simples figuras de linguagem em contradição. Posso até não estar correto em minha interpretação, a discussão não é essa. A discussão é porque não deixar que o público fizesse sua interpretação. Não parecia difícil perceber os pontos que ela chamou a atenção. A entrevista, portanto, se transformou em uma guerra. O primo do goleiro, nervoso e sem norte, se contradizendo e em meio a um estado de confusão mental, parecia estar disposto a qualquer coisa para defender seu primo. Mentiras que pareceram óbvias devido até à inconsistência de suas inverdades. Do outro lado, sobretudo nas passagens gravadas à posteriori, a repórter queria condenar o goleiro a qualquer custo, usando sua interpretação das expressões e trechos do entrevistado para fazê-lo. Ela, com a vantagem da edição e da clareza, coisa que ele não tinha, evidentemente, se saiu melhor.

A questão, insisto, não é se Bruno é culpado ou não. Isso não me compete. Não tenho acesso à investigação, aos autos e nem tenho mais paciência para cobertura de cada segundo do julgamento mais esperado da década – superando o dos mensaleiros . A questão é a insegurança que gera uma justiça que funciona como um reality show: milhares de câmeras acompanhando passo-a-passo todos os envolvidos para que o público possa julgar.  É, o show tem que continuar…

terça-feira, 5 de março de 2013

E se fosse no Brasil?


A violência no Brasil já é banal. Nos estádios, infelizmente, os torcedores, em grupo, acabam tendo uma licença do código penal para cometer atrocidades. Afinal, se compararmos a mesma conduta de uma pessoa no bar e no estádio de futebol, se elas resultam na mesma consequência, as punições são distintas.  E não interessa se a Bolívia é um país atrasado, pobre e com mil problemas sociais. Sim é. As pessoas que moram na fronteira com este país, definitivamente não têm as melhores referências sobre a população local, mas isso é normal em qualquer fronteira. O país que muito irritou o brasileiro em 2006 quando Evo Morales desafiou, com sucesso, o poderio brasileiro e nacionalizou a Petrobrás, que investiu fortunas na extração de gás natural boliviano. É verdade.

Vendo pelo nosso lado, claro. Mas, se pararmos para pensar, acabamos por fazer na América do Sul o papel de Estados Unidos. Somos o país mais rico, mais promissor, que dita as regras econômicas e políticas do continente. Nossas empresas estão atuando nos países da América Latina, mandando remessas de lucro para o Brasil. Somos a referência, o problema e, até, o Porto Seguro. Muitos latino-americanos, sobretudo bolivianos, vivem no Brasil clandestinamente em regime, inclusive, escravo, principalmente nos porões de confecções e tecelagens em São Paulo. Outros latino americanos, buscam o Brasil e a Argentina como países de oportunidade, a chance de ganhar algum dinheiro.

O real vale muito mais do que qualquer uma dessas moedas. Um boliviano, moeda local, compra cerca de 28 centavos de real.  Nossa moeda é motivo de sobra para que qualquer turista brasileiro seja tratado como rei. Entretanto, nossa imposição e força econômica é motivo para qualquer país sul-americano ter inveja e raiva do Brasil. Ainda mais na Bolívia, país cujo governo demonizou o Brasil a fim de nacionalizar a Petrobrás e cujas relações entre os moradores da fronteira não são das mais salutares. Para piorar, devida à facilidade de se ingressar em uma faculdade boliviana, principalmente de medicina, estudantes brasileiros, muito melhor preparados que os locais, ocupam grande parte das vagas no ensino superior boliviano, principalmente em Santa Cruz de La Sierra, reduto tupiniquim. Enfim, qualquer disputa entre brasileiros e bolivianos será um Davi contra Golias.

E em um dia de Davi contra Golias, tendo em vista o poder de investimento, mas em um dia de Festa na cidade de Oruro, uma partida de futebol entre um time boliviano e um brasileiro. Nesta, um bandido, destes que a banalização da violência, especialmente quando o futebol é o plano de fundo, atira um sinalizador, um morteiro, caracterizando um claro dolo eventual, contra a torcida adversária. O artefato atingiu um garoto de apenas 14 anos, que saiu de casa para ver seu time e não voltou. Assassinado covardemente sem nem ter chance de ver como morreu. É evidente que, em termos oficiais, os bolivianos deram exemplo de como não se fazer. Uma aula de insegurança no estádio. Contudo, com todas as falhas no sistema de segurança e organização de eventos bolivianas, a primeira morte registrada em um estádio boliviano aconteceu naquela quarta feira e foi provocada por um brasileiro. 

A polícia local fez o que só ela tinha competência e o que restava a fazer, depois das inúmeras falhas de segurança que propiciaram o ocorrido: prenderam os suspeitos. A comoção nacional que tomou conta da Bolívia, que é plenamente justificada, se tornou ainda maior pelos protagonistas dos fatos serem brasileiros. Apesar de não darem exemplo em nada, há de se convir que, por aqui, a justiça tende a ser conivente com os crimes no futebol, o que faz, até, que alguns defendam uma legislação específica. Para mim essa legislação existe e se chama Código Penal, enfim. A punição esportiva, esta não me interessa, o importante é punir quem tem de ser punido, e como tem que ser punido. Em qualquer lugar do mundo, inclusive no Brasil. Se eu pegar um sinalizador e mirar em grupo de pessoas e alguém falecer eu vou ser preso. Simples assim.

Parte da imprensa brasileira, porém, tem comprado a ideia e as desculpas ridículas da diretoria de uma das torcidas organizadas do Corinthians.  Sério, falta pouco para essas pessoas culparem o jovem Kevin pelo seu próprio assassinato. Primeiro vamos ao vídeo. É claro e evidente na imagem que o torcedor que disparou o artefato não agiu sozinho. No momento em que o morteiro foi disparado em direção à torcida boliviana, e não para cima para comemorar, como alega a principal organizada do Corinthians, da qual a maioria dos presos na Bolívia pertence, um bandeirão é estendido para que o meliante fugisse por baixo e, segundos depois, aparecesse no acesso às arquibancadas, o que evidencia ainda mais a intenção do imbecil. Após a prisão dos 12 brasileiros na Bolívia, começou uma disputa diplomática noticiada na imprensa, em que, em vez da busca pela imparcialidade,  e pela notícia, optou-se por uma defesa imbecil. Não quero condenar de antemão os 12 brasileiros que lá estão. Entretanto, tem que ser no mínimo mongoloide para comprar a versão da Organizada do Corinthians, quase aplaudida por parte da imprensa, de que o autor seria um menino de 17 anos, que já estava no Brasil e que todos os 12 presidiários brasileiros na Bolívia são inocentes.

Por partes. É muito conveniente jogar a culpa em um associado de 17 anos. Primeiro porque ele não pode ser deportado, segundo que só cumprirá medidas socioeducativas,  terceiro porque seu rosto e nome serão preservados e, por último, porque, assim que completar os 18 anos, sua ficha estará limpa. Por isso, pela primeira vez na minha vida, vejo um advogado de defesa tão empenhado em culpar seu cliente e uma promotoria tão focada em inocentá-lo. Não duvido que, apesar da conveniência, um garoto de 17 anos poderia sim ter cometido a burrada. Ora, mas voltemos aos fatos e às declarações. Primeiramente, a Torcida Organizada, chamando a todos de burros, disse que proibia o uso de sinalizadores. Então porque 2 dos brasileiros detidos na Bolívia tinham sinalizadores? Tomaram do moleque? Pior. Os dois detidos que portavam sinalizadores, portavam artefatos do mesmo lote do que matou o jovem Kevin. Isso já seria motivo suficiente para suspeitar desses dois, embora, apenas o resultado do exame que busca pólvora na mão dos brasileiros poderá afirmar que eles usaram um sinalizador. 

O caso não parece tão complicado. Feito o exame, analisada as imagens, julgue-se os culpados e os cúmplices. Repito, a cumplicidade fica evidente na hora em que um grupo de torcedores levanta a bandeira para o autor do disparo fugir. Por outro lado, a Bolívia mostra ao Brasil um reflexo da justiça daqui: em casos de comoção nacional, todos são culpados “a priori”. Entendo a prisão preventiva, uma vez que é necessária a permanência daqueles cidadãos no país vizinho. E, sem residência fixa na Bolívia, a justiça local não poderia correr o risco dos suspeitos regressarem ao Brasil. Entretanto, os 12, dos quais apenas 2 podem ser provados como culpados da tragédia, estão previamente condenados pela comoção que gerou no vizinho pobre. A revolta, diga-se de passagem, aumentou após a divulgação que alguns torcedores do Corinthians, filiados à mesma organizada, se hospedaram em um hotel de luxo em Oruro e deram o calote. Não é espantoso que os bolivianos estejam revoltados.

Espantoso são os apelos para a interferência do presidente Lula, ou a apelação pela soltura imediata dos suspeitos. Mais espantoso é como estão tornando todos vítimas de uma injustiça e colocando um garoto de 17 anos como bode expiatório. A punição esportiva não vem ao caso. Sobre ela, posso dizer apenas que a Instituição não tem controle sob sua torcida e que a maioria desta torcida reprova a boçalidade na Bolívia. Mas alguma coisa teria que ser feita esportivamente, tanto com o Corinthians quanto com o San José e Comenbol, dono do estádio e organizadora do evento. Não sei quais as punições, mas elas são necessárias às três instituições envolvidas.

O que quero ponderar, contudo, é uma hipótese aloprada. Imagine se fosse o contrário. Os torcedores de um time de país sul-americano qualquer – sobretudo se fossem da Argentina – viessem a um estádio brasileiro, não importa qual. Dentre os torcedores, em sua maioria pacíficos, um débil mental, acobertado por mais meia dúzia de retardados,  atira contra a torcida brasileira um sinalizador. Este sinalizador infelizmente atinge uma criança brasileira que estava pacificamente na arquibancada.

Façam o esforço desse exercício da imaginação. Imagina como estaria a imprensa daqui. Imagina como o povo brasileiro se sentiria. Tenho a mais absoluta certeza, que comportaríamos como os bolivianos. Certamente não aceitaríamos a libertação dos suspeitos e nem compraríamos a versão que a defesa tentou forçar goela à baixo da Justiça do país de Evo. Versão esta que, mesmo com o apoio de um programa de televisão de bastante audiência, não conseguiu convencer a nós brasileiros. O fato é que a Bolívia não está dando exemplo ao Brasil, como muitos afirmam, e nem está sendo excessivamente desumana, como outros clamam. O que espero é somente que a justiça seja feita, sem nenhuma intervenção diplomática do Brasil que ultrapasse o auxílio jurídico e, principalmente, que não tentem fazer parecer um acidente, uma fatalidade e que a consequência é um martírio de inocentes. Uma garoto morreu por nada. E isso não é pouco. Por isso, doa a quem doer, a única coisa que esperamos neste caso é a justiça.