Há cerca de um mês, o espetáculo
da mídia, findado o relevante da notícia, era a tragédia de Santa Maria, Rio
Grande do Sul. E o show acerca de tal tragédia durou um tempo considerável,
durou até que não tinham mais pseudo personagens para entrevistar, histórias
para contar e que a audiência, enfim, se cansou. Ao completar um mês da
tragédia, algumas homenagens voltaram à mídia. Normal e digno, sem nenhum estardalhaço. Enfim, os mortos descansaram em
paz, e os parentes puderam ter o merecido e consternado luto igualmente em paz.
Mas o show tem que continuar e um
mês depois da tragédia de Santa Maria, um novo evento, que a mídia agradece
eternamente, surge: o julgamento do goleiro Bruno. É claro e evidente, até
indiscutível, que não é um julgamento comum e que merece a cobertura da
imprensa. A cobertura. O que vemos, porém, é um BBB 13, o Big Bruno Brasil. É um reality
show dos mais rentáveis e com uma das maiores audiências do país. Parentes,
conhecidos, médicos, advogados, consultores jurídicos, especialistas, peritos
criminais, qualquer um que já teve qualquer relação com algum dos envolvidos,
viram pseudo celebridades e ganham seus 15 segundos de fama. Advogados,
promotores e juízes dão entrevistas de 5 em 5 minutos. Particularmente, eu
entendo que quando advogado, promotor e juiz começam a aparecer demais é sinônimo de merda. É
um começo errado. A visibilidade é tanta que advogados ofereceram dinheiro ao
réu principal (condição apenas simbólica) para defendê-lo, ora é a chance da
carreira deles. O delegado responsável pela investigação, usando a popularidade
conseguida com o isso, se elegeu vereador em Belo Horizonte. Como disse, sinal
de merda à vista.
E pobre coitado do Bruninho,
filho do goleiro com a vítima e, supostamente, pivô desse caso cinematográfico.
Filho de uma modelo, nome técnico dado à atriz pornô (eu mesmo já vi um filme
com ela) que ganhou esse status para garantir o show, que exige um maniqueísmo
idiota e moralista em que o lado considerado bom não pode ter defeitos, logo
sua profissão original não seria bem vista. Enfim, filho de uma “modelo” tido
como morta supostamente por querer ascender na vida facilmente, o que, ainda
que moralmente duvidoso, não justifica seu destino trágico. As “vítimas” dessas
mulheres que se previnam. Seu avô, por quem sua mãe foi criada, era um foragido da
justiça, que não se conteve ao ver os acontecimentos no noticiário, e, quando
foi atrás do direito sobre o neto, foi, enfim, justamente preso. A avó, uma
mulher muito estranha, que abandonou o avô e a mãe do garoto quando esta ainda
era muito nova. Uma mulher que não se preocupava com filha, tampouco, ou muito
menos, com o neto. O garotinho não era bem quisto pela avó, até que ela descobriu que a criança poderia ser uma
interessante fonte de renda, já que a pensão dele seria bem generosa. Hoje o pobrezinho está com ela.
O pai do Bruninho, este merece um
parágrafo especial. O seu pai, o goleiro ex Atlético, Corinthians e Flamengo, está
na condição simbólica de réu no caso da morte de sua mãe. Condição simbólica
porque todos sabemos o desfecho: Bruno será condenado. Sabemos disso desde o
dia em que seu nome foi envolvido à morte de Eliza Samudio, a mídia divulgou e
o público comprou a ideia. A partir do momento em que o caso ganhou a comoção
nacional, a opinião pública definiu o Bruno como culpado. E assim o será. Desde
as investigações sabemos disso. Quando crimes ganham tamanha repercussão é
sempre assim, os Nardoni que o digam. E os donos daquela escola infantil,
acusados injustamente de pedofilia, cuja opinião pública destruiu e só depois
conseguiram provar que nada mais era do que um boato inventado por uma mãe
irritada, também. Meus caros, quando a opinião pública entra, as investigações são
acompanhadas pela imprensa, quando isso acontece, raramente ela feita com
correção e isenção. Voltando ao caso dos Nardoni, uma série de falhas na
perícia foram apontadas. Aliás, perícia desnecessária, já que o casal já estava
condenado.
Não digo nem que os Nardoni nem
que o Bruno sejam inocentes. Não entendam a questão dessa maneira, nem me julguem por isso. Aliás, se alguém entender assim só vai me ajudar a provar meu ponto. De toda maneira, desde a primeira entrevista do Goleiro, ainda no Atlético, desde o
primeiro caso quando o goleiro foi preso em um pega, abafado como manobra
perigosa, era perceptível que Bruno não tem o melhor dos caráteres. Perceptível
também é que era um sujeito frio, calculista e ardil e, como tal, não duvido
nada que se lhe fosse conveniente, ele mataria. Entretanto, sem querer bancar o
advogado do diabo, um homem frio, calculista e ardil, apesar da morte da Eliza
ter todas essas características, se estivesse na posição do Bruno, dificilmente
correria o risco de terminar no tribunal, ainda mais ganhando mais de 200 mil e com
pré contrato assinado para ir à Itália. Um homem frio, calculista e ardil,
pagaria uma bolada para a Eliza sumir no mundo, ou dava um generosa mesada para
ela ficar longe, ou mesmo assumia o Bruninho e pagava o que o juiz determinasse.
Eu ficaria muito mais convencido caso a morte de Eliza fosse algo mais
escancarado, como em um rompante de raiva e passionalidade o goleiro a matasse.
A não ser, sem querer criar nenhuma teoria da conspiração, que os motivos de
uma possível chantagem da vítima fossem muito maiores do que um filho bastardo.
De qualquer maneira não é isso
que interessa. Até porque, repito, não vai me surpreender se o Bruno for
culpado. Da mesma forma que não ia me espantar se ficasse provada sua
inocência. A questão é muito maior do que a culpa ou não do goleiro. Essa culpa
é trabalho para a polícia e a justiça, com isenção. E a falta dessa isenção é o que me
preocupa. Qualquer cidadão anônimo, cujo delito, seja ele qual for, não cause
comoção da opinião pública, é inocente até que se prove o contrário. O caso que
comove a sociedade, como é o caso do goleiro, é o inverso. O réu é culpado até que se prove
o contrário. E não adianta tentar falar em isenção dos envolvidos, afinal o
juiz está submetido a uma forte pressão e aos holofotes da imprensa e do público.
O tribunal idem. O processo jurídico, as audiências, são meras formalidades.
Bruno já é um condenado.
E a mídia se delicia com isso. A
culpa do Bruno dá audiência. Entrevistas com gente direta e indiretamente
envolvida, tudo para que a opinião pública se mantenha firme, garantindo o Ibope. Uma dessas entrevistas, inclusive, ganhou minha atenção. O
entrevistado era o primo de Bruno, menor de idade à época e cuja maioridade não
pareceu diminuir sua confusão mental. De toda sorte, uma entrevista pertinente
jornalisticamente, não fosse a guerra psicológica em que ela se tornou. A
repórter, através de uma narração posterior a entrevista, legendava, conforme
sua interpretação, os gestos e as palavras do entrevistado. Mostrava ao público
suas impressões. Algumas com as quais eu até concordo com a repórter, outras em que
penso que a jornalista transformou simples figuras de linguagem em contradição. Posso até não estar correto em minha interpretação, a discussão
não é essa. A discussão é porque não deixar que o público fizesse sua interpretação. Não parecia difícil perceber os pontos que ela chamou a atenção. A
entrevista, portanto, se transformou em uma guerra. O primo do goleiro, nervoso
e sem norte, se contradizendo e em meio a um estado de confusão mental, parecia
estar disposto a qualquer coisa para defender seu primo. Mentiras que pareceram óbvias devido até à inconsistência de suas inverdades. Do outro lado,
sobretudo nas passagens gravadas à posteriori, a repórter queria condenar o
goleiro a qualquer custo, usando sua interpretação das expressões e trechos do entrevistado para fazê-lo. Ela, com a vantagem da edição e da clareza, coisa que ele não tinha, evidentemente, se saiu melhor.
A questão, insisto, não é se
Bruno é culpado ou não. Isso não me compete. Não tenho acesso à investigação,
aos autos e nem tenho mais paciência para cobertura de cada segundo do
julgamento mais esperado da década – superando o dos mensaleiros . A questão é
a insegurança que gera uma justiça que funciona como um reality show: milhares de câmeras acompanhando passo-a-passo todos
os envolvidos para que o público possa julgar.
É, o show tem que continuar…