quinta-feira, 7 de março de 2013

E o Show Continuou…


Há cerca de um mês, o espetáculo da mídia, findado o relevante da notícia, era a tragédia de Santa Maria, Rio Grande do Sul. E o show acerca de tal tragédia durou um tempo considerável, durou até que não tinham mais pseudo personagens para entrevistar, histórias para contar e que a audiência, enfim, se cansou. Ao completar um mês da tragédia, algumas homenagens voltaram à mídia. Normal e digno, sem nenhum  estardalhaço. Enfim, os mortos descansaram em paz, e os parentes puderam ter o merecido e consternado luto igualmente em paz.

Mas o show tem que continuar e um mês depois da tragédia de Santa Maria, um novo evento, que a mídia agradece eternamente, surge: o julgamento do goleiro Bruno. É claro e evidente, até indiscutível, que não é um julgamento comum e que merece a cobertura da imprensa. A cobertura. O que vemos, porém, é um BBB 13, o Big Bruno Brasil. É um reality show dos mais rentáveis e com uma das maiores audiências do país. Parentes, conhecidos, médicos, advogados, consultores jurídicos, especialistas, peritos criminais, qualquer um que já teve qualquer relação com algum dos envolvidos, viram pseudo celebridades e ganham seus 15 segundos de fama. Advogados, promotores e juízes dão entrevistas de 5 em 5 minutos. Particularmente, eu entendo que quando advogado, promotor e juiz começam a aparecer demais é sinônimo de merda. É um começo errado. A visibilidade é tanta que advogados ofereceram dinheiro ao réu principal (condição apenas simbólica) para defendê-lo, ora é a chance da carreira deles. O delegado responsável pela investigação, usando a popularidade conseguida com o isso, se elegeu vereador em Belo Horizonte. Como disse, sinal de merda à vista.

E pobre coitado do Bruninho, filho do goleiro com a vítima e, supostamente, pivô desse caso cinematográfico. Filho de uma modelo, nome técnico dado à atriz pornô (eu mesmo já vi um filme com ela) que ganhou esse status para garantir o show, que exige um maniqueísmo idiota e moralista em que o lado considerado bom não pode ter defeitos, logo sua profissão original não seria bem vista. Enfim, filho de uma “modelo” tido como morta supostamente por querer ascender na vida facilmente, o que, ainda que moralmente duvidoso, não justifica seu destino trágico. As “vítimas” dessas mulheres que se previnam. Seu avô, por quem sua mãe foi criada, era um foragido da justiça, que não se conteve ao ver os acontecimentos no noticiário, e, quando foi atrás do direito sobre o neto, foi, enfim, justamente preso. A avó, uma mulher muito estranha, que abandonou o avô e a mãe do garoto quando esta ainda era muito nova. Uma mulher que não se preocupava com filha, tampouco, ou muito menos, com o neto. O garotinho não era bem quisto pela avó,  até que ela descobriu que a criança poderia ser uma interessante fonte de renda, já que a pensão dele seria bem generosa. Hoje o pobrezinho está com ela.

O pai do Bruninho, este merece um parágrafo especial. O seu pai, o goleiro ex Atlético, Corinthians e Flamengo, está na condição simbólica de réu no caso da morte de sua mãe. Condição simbólica porque todos sabemos o desfecho: Bruno será condenado. Sabemos disso desde o dia em que seu nome foi envolvido à morte de Eliza Samudio, a mídia divulgou e o público comprou a ideia. A partir do momento em que o caso ganhou a comoção nacional, a opinião pública definiu o Bruno como culpado. E assim o será. Desde as investigações sabemos disso. Quando crimes ganham tamanha repercussão é sempre assim, os Nardoni que o digam. E os donos daquela escola infantil, acusados injustamente de pedofilia, cuja opinião pública destruiu e só depois conseguiram provar que nada mais era do que um boato inventado por uma mãe irritada, também. Meus caros, quando a opinião pública entra, as investigações são acompanhadas pela imprensa, quando isso acontece, raramente ela feita com correção e isenção. Voltando ao caso dos Nardoni, uma série de falhas na perícia foram apontadas. Aliás, perícia desnecessária, já que o casal já estava condenado.

Não digo nem que os Nardoni nem que o Bruno sejam inocentes. Não entendam a questão dessa maneira, nem me julguem por isso. Aliás, se alguém entender assim só vai me ajudar a provar meu ponto. De toda maneira, desde a primeira entrevista do Goleiro, ainda no Atlético, desde o primeiro caso quando o goleiro foi preso em um pega, abafado como manobra perigosa, era perceptível que Bruno não tem o melhor dos caráteres. Perceptível também é que era um sujeito frio, calculista e ardil e, como tal, não duvido nada que se lhe fosse conveniente, ele mataria. Entretanto, sem querer bancar o advogado do diabo, um homem frio, calculista e ardil, apesar da morte da Eliza ter todas essas características, se estivesse na posição do Bruno, dificilmente correria o risco de terminar no tribunal, ainda mais ganhando mais de 200 mil e com pré contrato assinado para ir à Itália. Um homem frio, calculista e ardil, pagaria uma bolada para a Eliza sumir no mundo, ou dava um generosa mesada para ela ficar longe, ou mesmo assumia o Bruninho e pagava o que o juiz determinasse. Eu ficaria muito mais convencido caso a morte de Eliza fosse algo mais escancarado, como em um rompante de raiva e passionalidade o goleiro a matasse. A não ser, sem querer criar nenhuma teoria da conspiração, que os motivos de uma possível chantagem da vítima fossem muito maiores do que um filho bastardo.  

De qualquer maneira não é isso que interessa. Até porque, repito, não vai me surpreender se o Bruno for culpado. Da mesma forma que não ia me espantar se ficasse provada sua inocência. A questão é muito maior do que a culpa ou não do goleiro. Essa culpa é trabalho para a polícia e a justiça, com isenção. E a falta dessa isenção é o que me preocupa. Qualquer cidadão anônimo, cujo delito, seja ele qual for, não cause comoção da opinião pública, é inocente até que se prove o contrário. O caso que comove a sociedade, como é o caso do goleiro, é o inverso. O réu é culpado até que se prove o contrário. E não adianta tentar falar em isenção dos envolvidos, afinal o juiz está submetido a uma forte pressão e aos holofotes da imprensa e do público. O tribunal idem. O processo jurídico, as audiências, são meras formalidades. Bruno já é um condenado.

E a mídia se delicia com isso. A culpa do Bruno dá audiência. Entrevistas com gente direta e indiretamente envolvida, tudo para que a opinião pública se mantenha firme, garantindo o Ibope. Uma dessas entrevistas, inclusive, ganhou minha atenção. O entrevistado era o primo de Bruno, menor de idade à época e cuja maioridade não pareceu diminuir sua confusão mental. De toda sorte, uma entrevista pertinente jornalisticamente, não fosse a guerra psicológica em que ela se tornou. A repórter, através de uma narração posterior a entrevista, legendava, conforme sua interpretação, os gestos e as palavras do entrevistado. Mostrava ao público suas impressões. Algumas com as quais eu até concordo com a repórter, outras em que penso que a jornalista transformou simples figuras de linguagem em contradição. Posso até não estar correto em minha interpretação, a discussão não é essa. A discussão é porque não deixar que o público fizesse sua interpretação. Não parecia difícil perceber os pontos que ela chamou a atenção. A entrevista, portanto, se transformou em uma guerra. O primo do goleiro, nervoso e sem norte, se contradizendo e em meio a um estado de confusão mental, parecia estar disposto a qualquer coisa para defender seu primo. Mentiras que pareceram óbvias devido até à inconsistência de suas inverdades. Do outro lado, sobretudo nas passagens gravadas à posteriori, a repórter queria condenar o goleiro a qualquer custo, usando sua interpretação das expressões e trechos do entrevistado para fazê-lo. Ela, com a vantagem da edição e da clareza, coisa que ele não tinha, evidentemente, se saiu melhor.

A questão, insisto, não é se Bruno é culpado ou não. Isso não me compete. Não tenho acesso à investigação, aos autos e nem tenho mais paciência para cobertura de cada segundo do julgamento mais esperado da década – superando o dos mensaleiros . A questão é a insegurança que gera uma justiça que funciona como um reality show: milhares de câmeras acompanhando passo-a-passo todos os envolvidos para que o público possa julgar.  É, o show tem que continuar…