O Brasil caminha a passos largos
para se tornar medieval. Apesar de termos, em situação análoga, evidentemente,
“senhores feudais” em alguns rincões brasileiros, essa regressão estúpida está
cada vez mais perto do âmbito nacional. Digo isso, porque após centenas de anos
de batalhas para se conseguir um estado laico, marcado pela tolerância, sem influência da Igreja, hoje temos
uma bancada que legisla segundo à bíblia. Os parlamentares religiosos estão
cada vez em maior número e mais influentes no Brasil. Os fundamentos e
princípios básicos de direito e da democracia estão, aos poucos, submergindo aos preceitos religiosos. Estamos virando uma teocracia, quase um Irã
cristão.
Não que a política deva ser exclusividade dos ateus. Afinal, em um país como Brasil, igreja é igual à clube de
futebol. Quase todo mundo tem, e com todo direito, sua predileção. O não podemos permitir é que política e religião se confundam. O poder legislativo, embora não pareça à
maioria das pessoas, influencia muito nossas vidas. Quase todos nossos anseios
diários e reclamações cotidianas com a política dizem respeito a este poder.
Muitos morreram defendendo um país livre, democrático, com liberdades individuais,
sacramentadas na nossa respeitabilíssima Constituição de 1988. E qualquer país
de respeito, que pretende ser livre e respeitar à liberdade individual das
pessoas, devem ser governados conforme à Constituição e não segundo à bíblia. Afinal, graças à Deus, não sou obrigado a crer na bíblia como livro sagrado, não sou
obrigado à interpretá-la conforme padres e pastores e, acima de tudo, nada me obriga a
ser cristão. Tampouco ser religioso.
Voltaire já dizia, em outras
palavras, que poderia não concordar com que o outro diz, mas que, até a morte,
defenderia o direito do outro em
dizê-lo. O mesmo deveria valer para esses parlamentares. Não concorde com as
coisas que as pessoas fazem com sua liberdade, mas não as prive de tal
liberdade. No presente momento, por mais paradoxal que seja, defendo que líderes
religiosos não deveriam assumir cargos públicos, uma vez que eles não conseguem
distinguir religião de estado nem bíblia de Constituição. Especificamente no
Brasil, a bancada cristã é que tem se tornado a maior ameaça às liberdades
individuais, logo os cristãos, que tanto defendem o fim das teocracias muçulmanas e a instauração da democracia…
O cúmulo desse teatro dos
horrores foi a eleição (e por incrível que pareça sou obrigado a concordar com a Xuxa), na última semana, para presidir nada mais do que a
comissão de Direitos Humanos, um deputado, pastor, cujo o nome faço questão de
não lembrar, que é racista, homofóbico. À frente da comissão de Direitos
Humanos do congresso temos uma pessoa que não respeita os seres humanos. Não se
espante se o Brasil, cedo ou tarde, trocar a Declaração Universal dos Direitos
Humanos pelos 10 mandamentos. Amém.