terça-feira, 5 de março de 2013

E se fosse no Brasil?


A violência no Brasil já é banal. Nos estádios, infelizmente, os torcedores, em grupo, acabam tendo uma licença do código penal para cometer atrocidades. Afinal, se compararmos a mesma conduta de uma pessoa no bar e no estádio de futebol, se elas resultam na mesma consequência, as punições são distintas.  E não interessa se a Bolívia é um país atrasado, pobre e com mil problemas sociais. Sim é. As pessoas que moram na fronteira com este país, definitivamente não têm as melhores referências sobre a população local, mas isso é normal em qualquer fronteira. O país que muito irritou o brasileiro em 2006 quando Evo Morales desafiou, com sucesso, o poderio brasileiro e nacionalizou a Petrobrás, que investiu fortunas na extração de gás natural boliviano. É verdade.

Vendo pelo nosso lado, claro. Mas, se pararmos para pensar, acabamos por fazer na América do Sul o papel de Estados Unidos. Somos o país mais rico, mais promissor, que dita as regras econômicas e políticas do continente. Nossas empresas estão atuando nos países da América Latina, mandando remessas de lucro para o Brasil. Somos a referência, o problema e, até, o Porto Seguro. Muitos latino-americanos, sobretudo bolivianos, vivem no Brasil clandestinamente em regime, inclusive, escravo, principalmente nos porões de confecções e tecelagens em São Paulo. Outros latino americanos, buscam o Brasil e a Argentina como países de oportunidade, a chance de ganhar algum dinheiro.

O real vale muito mais do que qualquer uma dessas moedas. Um boliviano, moeda local, compra cerca de 28 centavos de real.  Nossa moeda é motivo de sobra para que qualquer turista brasileiro seja tratado como rei. Entretanto, nossa imposição e força econômica é motivo para qualquer país sul-americano ter inveja e raiva do Brasil. Ainda mais na Bolívia, país cujo governo demonizou o Brasil a fim de nacionalizar a Petrobrás e cujas relações entre os moradores da fronteira não são das mais salutares. Para piorar, devida à facilidade de se ingressar em uma faculdade boliviana, principalmente de medicina, estudantes brasileiros, muito melhor preparados que os locais, ocupam grande parte das vagas no ensino superior boliviano, principalmente em Santa Cruz de La Sierra, reduto tupiniquim. Enfim, qualquer disputa entre brasileiros e bolivianos será um Davi contra Golias.

E em um dia de Davi contra Golias, tendo em vista o poder de investimento, mas em um dia de Festa na cidade de Oruro, uma partida de futebol entre um time boliviano e um brasileiro. Nesta, um bandido, destes que a banalização da violência, especialmente quando o futebol é o plano de fundo, atira um sinalizador, um morteiro, caracterizando um claro dolo eventual, contra a torcida adversária. O artefato atingiu um garoto de apenas 14 anos, que saiu de casa para ver seu time e não voltou. Assassinado covardemente sem nem ter chance de ver como morreu. É evidente que, em termos oficiais, os bolivianos deram exemplo de como não se fazer. Uma aula de insegurança no estádio. Contudo, com todas as falhas no sistema de segurança e organização de eventos bolivianas, a primeira morte registrada em um estádio boliviano aconteceu naquela quarta feira e foi provocada por um brasileiro. 

A polícia local fez o que só ela tinha competência e o que restava a fazer, depois das inúmeras falhas de segurança que propiciaram o ocorrido: prenderam os suspeitos. A comoção nacional que tomou conta da Bolívia, que é plenamente justificada, se tornou ainda maior pelos protagonistas dos fatos serem brasileiros. Apesar de não darem exemplo em nada, há de se convir que, por aqui, a justiça tende a ser conivente com os crimes no futebol, o que faz, até, que alguns defendam uma legislação específica. Para mim essa legislação existe e se chama Código Penal, enfim. A punição esportiva, esta não me interessa, o importante é punir quem tem de ser punido, e como tem que ser punido. Em qualquer lugar do mundo, inclusive no Brasil. Se eu pegar um sinalizador e mirar em grupo de pessoas e alguém falecer eu vou ser preso. Simples assim.

Parte da imprensa brasileira, porém, tem comprado a ideia e as desculpas ridículas da diretoria de uma das torcidas organizadas do Corinthians.  Sério, falta pouco para essas pessoas culparem o jovem Kevin pelo seu próprio assassinato. Primeiro vamos ao vídeo. É claro e evidente na imagem que o torcedor que disparou o artefato não agiu sozinho. No momento em que o morteiro foi disparado em direção à torcida boliviana, e não para cima para comemorar, como alega a principal organizada do Corinthians, da qual a maioria dos presos na Bolívia pertence, um bandeirão é estendido para que o meliante fugisse por baixo e, segundos depois, aparecesse no acesso às arquibancadas, o que evidencia ainda mais a intenção do imbecil. Após a prisão dos 12 brasileiros na Bolívia, começou uma disputa diplomática noticiada na imprensa, em que, em vez da busca pela imparcialidade,  e pela notícia, optou-se por uma defesa imbecil. Não quero condenar de antemão os 12 brasileiros que lá estão. Entretanto, tem que ser no mínimo mongoloide para comprar a versão da Organizada do Corinthians, quase aplaudida por parte da imprensa, de que o autor seria um menino de 17 anos, que já estava no Brasil e que todos os 12 presidiários brasileiros na Bolívia são inocentes.

Por partes. É muito conveniente jogar a culpa em um associado de 17 anos. Primeiro porque ele não pode ser deportado, segundo que só cumprirá medidas socioeducativas,  terceiro porque seu rosto e nome serão preservados e, por último, porque, assim que completar os 18 anos, sua ficha estará limpa. Por isso, pela primeira vez na minha vida, vejo um advogado de defesa tão empenhado em culpar seu cliente e uma promotoria tão focada em inocentá-lo. Não duvido que, apesar da conveniência, um garoto de 17 anos poderia sim ter cometido a burrada. Ora, mas voltemos aos fatos e às declarações. Primeiramente, a Torcida Organizada, chamando a todos de burros, disse que proibia o uso de sinalizadores. Então porque 2 dos brasileiros detidos na Bolívia tinham sinalizadores? Tomaram do moleque? Pior. Os dois detidos que portavam sinalizadores, portavam artefatos do mesmo lote do que matou o jovem Kevin. Isso já seria motivo suficiente para suspeitar desses dois, embora, apenas o resultado do exame que busca pólvora na mão dos brasileiros poderá afirmar que eles usaram um sinalizador. 

O caso não parece tão complicado. Feito o exame, analisada as imagens, julgue-se os culpados e os cúmplices. Repito, a cumplicidade fica evidente na hora em que um grupo de torcedores levanta a bandeira para o autor do disparo fugir. Por outro lado, a Bolívia mostra ao Brasil um reflexo da justiça daqui: em casos de comoção nacional, todos são culpados “a priori”. Entendo a prisão preventiva, uma vez que é necessária a permanência daqueles cidadãos no país vizinho. E, sem residência fixa na Bolívia, a justiça local não poderia correr o risco dos suspeitos regressarem ao Brasil. Entretanto, os 12, dos quais apenas 2 podem ser provados como culpados da tragédia, estão previamente condenados pela comoção que gerou no vizinho pobre. A revolta, diga-se de passagem, aumentou após a divulgação que alguns torcedores do Corinthians, filiados à mesma organizada, se hospedaram em um hotel de luxo em Oruro e deram o calote. Não é espantoso que os bolivianos estejam revoltados.

Espantoso são os apelos para a interferência do presidente Lula, ou a apelação pela soltura imediata dos suspeitos. Mais espantoso é como estão tornando todos vítimas de uma injustiça e colocando um garoto de 17 anos como bode expiatório. A punição esportiva não vem ao caso. Sobre ela, posso dizer apenas que a Instituição não tem controle sob sua torcida e que a maioria desta torcida reprova a boçalidade na Bolívia. Mas alguma coisa teria que ser feita esportivamente, tanto com o Corinthians quanto com o San José e Comenbol, dono do estádio e organizadora do evento. Não sei quais as punições, mas elas são necessárias às três instituições envolvidas.

O que quero ponderar, contudo, é uma hipótese aloprada. Imagine se fosse o contrário. Os torcedores de um time de país sul-americano qualquer – sobretudo se fossem da Argentina – viessem a um estádio brasileiro, não importa qual. Dentre os torcedores, em sua maioria pacíficos, um débil mental, acobertado por mais meia dúzia de retardados,  atira contra a torcida brasileira um sinalizador. Este sinalizador infelizmente atinge uma criança brasileira que estava pacificamente na arquibancada.

Façam o esforço desse exercício da imaginação. Imagina como estaria a imprensa daqui. Imagina como o povo brasileiro se sentiria. Tenho a mais absoluta certeza, que comportaríamos como os bolivianos. Certamente não aceitaríamos a libertação dos suspeitos e nem compraríamos a versão que a defesa tentou forçar goela à baixo da Justiça do país de Evo. Versão esta que, mesmo com o apoio de um programa de televisão de bastante audiência, não conseguiu convencer a nós brasileiros. O fato é que a Bolívia não está dando exemplo ao Brasil, como muitos afirmam, e nem está sendo excessivamente desumana, como outros clamam. O que espero é somente que a justiça seja feita, sem nenhuma intervenção diplomática do Brasil que ultrapasse o auxílio jurídico e, principalmente, que não tentem fazer parecer um acidente, uma fatalidade e que a consequência é um martírio de inocentes. Uma garoto morreu por nada. E isso não é pouco. Por isso, doa a quem doer, a única coisa que esperamos neste caso é a justiça.