quinta-feira, 10 de julho de 2014

Saudades da Copa

A Copa do Mundo se foi. E parece que começou ontem. O mês voou e, à despeito dos 7 x 1 vergonhoso da seleção brasileira, foi muito legal. Não só pelos feriados, pelos jogos ou pela abstinência nos poucos dias sem partidas. O clima de Copa do Mundo foi o que tornou este mês absolutamente inesquecível. E não me venham com o discurso piegas de quem não sabe separar o que foi a festa popular da questão política. Sério esse papo já encheu.

O estádio foi realmente para poucos, mas as ruas não. E o que estava acontecendo nas ruas era muito legal, embora por um período tão curto. Óbvio que as falhas existiram, não foram mil maravilhas, aconteceram alguns problemas, mas em qualquer evento desta magnitude, independentemente se for realizado aqui ou na Noruega, vão acontecer algumas intempéries. Normal. O saldo, porém, foi extremamente positivo.

Quando em sua história BH teve a chance de receber tanta gente diferente? O mundo enfim descobriu a capital dos bares. Sei que para a maioria dos negócios o período de Copa e a passagem dos estrangeiros foi ruim ou irrelevante, mas para nós, como população, foi excelente. O intercâmbio cultural, a integração e tudo o que a Copa tem de bom, apesar da FIFA, do COL e do Governo.

Infelizmente o Conto de Fadas está prestes a acabar. Nosso conto de fadas de um mês, que na verdade durou apenas uns trinta segundos. A vida voltará ao normal. O fim dos feriados, ainda que tácitos, o fim dessa integração, a volta à pseudo tranquilidade belo-horizontina, a insegurança nas ruas, ao caos urbano, enfim tudo voltará ao normal.


Aliás, não voltará ao normal. Primeiro porque muita cosia ficou protelada para o pós-copa e tem que ser posta em dia, ou seja, o ritmo dobrará. Agora temos eleições e a vida também será extremamente corrida rumo às urnas. Além disso, temos uma conta a pagar, uma conta enorme e cara. Este é o preço que, com o valor agregado da volta à vida normal, que pgamos pelo mês de alegria, um mês atípico para todos os brasileiros e que foi inexplicavelmente bom. A Copa das Copas foi aqui. E agora já sinto saudade do maior evento que presenciei, mesmo sem ter ido in locu a nenhum evento oficial.  

segunda-feira, 7 de julho de 2014

A ponte que partiu

Quando recém inaugurada, um acidente na Linha Verde impressionou: um caminhoneiro bateu em um pilar e derrubou uma das novas estruturas da rodovia. Visivelmente o caminhão não estava em uma velocidade que justificasse aquela queda. À época, na boca das pessoas, os questionamentos sobre a qualidade da obra e do projeto surgiam, uma vez que a rodovia estava recém construída.

Em âmbito particular, mas com igual repercussão, há pouco tempo, um conjunto de prédios residenciais no Buritis, relativamente novo, foi condenado por falhas estruturais graves, do projeto à execução que ameaçavam os moradores.

Ainda neste âmbito, da janela da minha aula de francês, no Anchieta, enxergo a obra vizinha e meu professor, um engenheiro parisiense que, casado com uma brasileira, radicou-se no Brasil ensinando sua língua natal, semanalmente me mostra as falhas da obra: “aquilo não pode ser feito daquele jeito, pois pode explodir”, “se fizessem isso na Europa, certamente seriam demitidos na mesma hora”, "vão ter que quebrar e fazer aquilo de novo".

Este mesmo francês me relata casos de prédios inteiros que tiveram que sua estrutura arruinada por uma reforma orientada por um engenheiro e que o procuraram para chegar soluções distintas para regularizar a obra. Insiste, o francês, que em vários ramos, como a agronomia e mineração, os profissionais brasileiros são extremamente valorizados na Europa, mas não era o caso dos engenheiros.

Inúmeros outros erros podem ser reparados mesmo por pessoas que, como eu, não entendem nada do assunto. Alguns erros menos graves cujos resultados são algumas infiltrações ou má diagramação de um apartamento.

E após a tragédia do tamanho de um viaduto na Pedro I, a discussão que apareceu nas redes sociais foi, infelizmente, ao meu ver, política. Óbvio, que outros fatores permeiam uma obra pública, sobretudo de grande porte. Os projetos, quando em caráter de urgência, vão direto para execução. Sabemos ainda dos superfaturamentos que, infelizmente, são comuns. Entretanto, nem o mais estúpido dos corruptos faria uma obra dessa magnitude se soubesse de uma possibilidade de que queda.

Digo o mesmo sobre os responsáveis técnicos. Nenhum ser humano, por maior que fosse o suborno, colocaria sua reputação à risco deste tanto. Mas o viaduto caiu. E em ano de eleição tudo é válido pelo voto. Entretanto ninguém pensa na discussão que deveria ser feita: a competência dos profissionais que formamos.

Em todas as áreas proliferam faculdades de qualidade duvidosa e com poucos critérios de avaliação, muitas no padrão pagou passou. A inclusão às universidades, mesmo que necessária, não pode ser feita à qualquer custo. 

O fato é que a discussão sobre a queda do viaduto tem que deixar de ser eleitoreira e política e tem que ser técnica. A educação superior no Brasil, aliás, a educação no Brasil, é crítica. Estamos, agora, colhendo os frutos da nossa educação ridícula e mercadológica em todos os níveis, que somadas à baixa valorização do profissional, cargas horárias malucas e salários ridículos. Qual esse fruto? A incompetência. Então, antes de pensarmos politicamente, vamos pensar na questão técnica, porque foi isso que derrubou o viaduto.






terça-feira, 1 de julho de 2014

O Padrão FIFA

Como amante do futebol a Copa do Mundo está me agradando muito, em todos os sentidos. Os jogos estão bons, a ponto de eu refazer quase todos os meus horários para me adaptar ao mundial. Não consigo ver todas as partidas, óbvio, mas assisto todas que posso, ainda que desatento via streaming – apesar da lentidão. Além disso, acho extremamente legal o convívio com os estrangeiros pelas ruas. E, hei de confessar, hoje me arrependo de não ter comprado nenhum ingresso para os jogos da Copa por aqui.

Alegria e Copa do Mundo à parte, todos nós sabemos que a vida continua, mesmo durante o maior evento esportivo do mundo.  Pelo menos deveria continuar. Como disse, gosto de todo o clima da Copa, sei que ela é notícia, mas a mídia convencional viver em função disso é um exagero, um tanto quanto chato, diga-se. Aliás, antes de chegar  ao cerne da questão, vamos permear pelo “Pachequismo” insuportável das mídias convencionais e esportivas. O conteúdo das publicidades ufanistas – que eu já acho um saco, embora legítimo – parecem se transportar para o telejornal, que quase se torna uma CBF TV, mesmo sem ser um programas esportivos.

Às vezes até torço contra a seleção brasileira única e exclusivamente pela forma ufanista com a qual a imprensa trata o time da CBF. Mas esse talvez seja o menor dos males. A maior das loucuras é fazer da Copa do Mundo a única pauta de um país, mesmo nos jornais regionais. E é gritante, porque apresentar o jornal de maior audiência do país do centro de treinamento da seleção é, sem dúvida, um exagero absurdo. Se estiver acontecendo alguma coisa de importante no país ele está oculta, porque nada que seja Copa ganha espaço de mais de 30 segundos na televisão. Parece que o país, mesmo os bandidos, realmente parou para ver a Copa do Mundo. Ou então simplesmente não há o que se noticiar, ou todos os problemas foram resolvidos.

Existem vários prismas para se ver essa situação. O primeiro deles é que, ainda que exista uma displicência da imprensa, podemos dizer que o país da Copa realmente não é o país em que vivemos. O país padrão FIFA, o país para os turistas verem, é o país que eu gostaria de ver progressivamente todos os dias. E isso não é motivo para revolta, muito pelo contrário, é motivo de cobrança. A Copa é o exemplo de que com vontade, o caos aéreo, o transporte público e a segurança são possíveis é só querer. Outro ponto de vista, é que temos um bombardeio de notícias da Copa fora dos canais e programas esportivos. Por fim, se existe um país diferente do que vivemos na Copa, talvez exista uma imprensa diferente. Será que a falta de notícias no cotidiano faz com que a imprensa seja rotineiramente exagerada e sensacionalista?


Sinceramente, na minha modesta opinião todas as opções são verdadeiras. O país da Copa não existe, sendo que o Brasil padrão FIFA é bem mais organizado e seguro. A imprensa é omissa com relação ao que acontece no país, focando quase exclusivamente a Copa do Mundo. E fazem isso para cobrir uma lacuna que diariamente é coberta por sensacionalismos e notícias desnecessárias. 

quarta-feira, 18 de junho de 2014

Como a Copa mudou sua vida?

A Copa está aí. Ninguém verdadeiramente acreditou que ela não aconteceria, ou que seria transferida para outro lugar. Ninguém, representativamente, tinha esse desejo. Enfim. Desde 2007 temos a certeza da Copa e uma série de promessas de legados e melhorias fora feitas. Obras, superfaturadas ou não, úteis ou não, foram feitas. Consequentemente, óbvio, a vida de muitas pessoas foi mudada pela Copa, por isso, a pergunta: como a Copa mudou sua vida?

Primeiramente vamos às obras, que acontecem há muito. A primeira delas foi a reforma, ou reconstrução dos estádios de Belo Horizonte, Mineirão e Independência. Ficamos bastante tempo tendo que ir ver os jogos em Sete Lagoas,  o que, para mim, não era muito inconveniente, uma vez que meus pais tem um sítio próximo ao estádio. Tecnicamente, para os clubes mineiros, não foi tão bom, o que, apesar de parecer pouco, é um impacto considerável para mim, que sou torcedor fanático e assíduo de campo.

O Independência foi o primeiro estádio a ficar pronto e, com ele, a primeira mudança positiva. O estádio ficou muito bom, muito melhor que o anterior, mais agradável de ir do que era antes. Muito depois, a Arena Mineirão ficou pronta. A arena Mineirão ficou bonita, mas deixou de ser estádio de futebol. Gostava mais do estádio antigo, com cimento, divisão de torcidas, enfim, do velho futebol.

Junto às mudanças no estádio vieram as mudanças na cidade. Enquanto as obras aconteciam o trânsito ficou mais caótico do que o normal. O BRT, ou Move, no primeiro momento implantado na Antônio Carlos e Cristiano Machado mudou minha vida muito pouco. Moro longe dessas avenidas e, no primeiro momento, o único impacto que senti foi o aumento do fluxo da Avenida Catalão, que serviu de alternativa para os motoristas da Antônio Carlos. Passeando pela cidade vi que o fluxo da cidade piorou muito.

Inclusive gostaria muito de consegui compreender como pensam os engenheiros de trânsito da cidade. As pistas exclusivas para o Move, que retiraram os ônibus e táxis da pista central, aumentou exponencialmente o fluxo nas pistas laterais, aumentando, evidentemente, o trânsito. Não faz muito tempo, os tais Move chegaram próximo à mihna casa, nas duas avenidas que circundam o meu bairro. Ali, as avenidas que tinham três pístas livres, passaram a ter uma pista exclusiva para os ônibus. O trânsito, óbvio, triplicou e piorou muito, absurdamente.

Vamos à Copa. Moro próximo ao Mineirão, 4 km de distância. Nos dias dos jogos a avenida que dá acesso ao Mineirão fica fechada, mas, incrivelmente, e teste isso ontem, em dia de semana, o trânsito não ficou ruim. No jogo que aconteceu em um fim de semana, no entanto, tudo ficou insuportável. Mas não é só o trânsito que impactou a vida das pessoas na Copa. Como disse, moro perto do estádio, por isso, os lugares que frequento próximo de casa, como bares, shopping, a lagoa, está repleta de estrangeiros. O que é muito legal. Assisti à estreia do Brasil ao lado de uns colombianos na casa de uma amiga e o povo é bastante simpático. Para quem gosta de outras culturas, tem interesse em outros idiomas e em confratenizar, é muito bom.

O impacto negativo dos jogos no Mineirão é o fato de que o clube que frequento é em frente ao estádio e em três sábados seguidos não poderemos jogar o nosso futebolzinho sagrado, pois o perímetro estará fechado. Assisto todos os jogos que posso, como faço e faria em qualquer Copa do Mundo, mas, não vou ao Campo. Confesso que agora, vendo o estádio, me bate um arrependimento de não ter ido. Entretanto, lembro que na Copa das Confederações, para pessoas como eu, que não moram suficientemente perto para ir a pé e nem longe para ter disposição para ir ao centro pegar os ônibus da Fifa, foi péssimo. O ônibus, apesar de passar ao lado da minha casa, não faz nenhuma parada, de modo que ir ao estádio seria bastante penoso.


No frigir dos ovos, a Copa fez diferença na vida do Brasil, politica e economicamente. A cidade está cheia de hotéis, que antes eram raros, o comércio, principalmente ao redor do estádio, inclusive o shopping, estão comemorando. Entretanto, em âmbito particular, tenho que admitir a Copa não mudou absolutamente nada, pelo menos na minha. Seja sincero, no fim, em que a Copa mudou sua vida?

quarta-feira, 11 de junho de 2014

A marcha dos indiferentes

Em nenhum momento pensei diferente. Qualquer país, independentemente de sua condição econômica, pode sediar uma Copa do Mundo, dentro de suas limitações, óbvio. O Brasil não pode, evidentemente, querer fazer a Copa da Alemanha. Por isso, nunca fui contra a Copa do Mundo. Contudo, sempre fui contra a maneira que essa copa foi feita. Por isso, até creio não ser contraditório que quem vibrou em 2007 (não foi meu caso) reclamar em 2014, embora, conhecendo o país, fosse previsível que o evento virasse um terreno fértil à corrupção. Insisto, a maneira que essa Copa foi concebida é inadmissível. Os desmandos da FIFA, as exigências absurdas, os milhões e milhões desperdiçados, e a destruição do nosso futebol são inaceitáveis.

Ainda assim eu protestei e fui para as ruas, uma vez. Sabendo que isso não tiraria a Copa do Brasil e nem com desejo que isso acontecesse. A própria Copa foi quem deu a visibilidade às manifestações. Escrevi e continuo afirmando, que aqueles que foram às ruas espontaneamente no dia 17 de Junho de 2013 são meus heróis. Eles, sim, fizeram um movimento espontâneo, legítimo e bonito. Desde o dia que fui à rua, uma semana depois, contudo, vi que o dia 17 de Junho abriu as portas para oportunistas de todas as espécies. Oportunistas que hoje são a maioria do movimento. Não sei se com cunho partidário, mas certamente político, um grupo de pessoas que diz representar o povo, de maneira bem perspicaz aproveitou a oportunidade aberta pela insatisfação popular e levou o movimento, outrora popular, para algo, que ao meu ver, beira o fascismo. Um movimento de extrema direita.

Essas pessoas, que criaram um movimento dizendo que não haveria copa, mesmo sabendo que ela vai acontecer e sem nenhum respaldo popular, tiraram da rua muita gente que gostaria de protestar de maneira mais efusiva. Não por medo da violência, pois realmente creio que não se tem vitória política sem causar problemas, e que, às vezes, fatalmente, episódios violentos vão acontecer. Eles nos tiraram da rua porque não se identificam com o povo. Como disse um coronel da Polícia Militar, esse movimento é esquizofrênico. É brigar por brigar, sem nenhuma causa definida. A causa  é impedir a Copa do Mundo de acontecer. Tudo bem, mas a troco de quê? É um movimento de extrema direita, ilegítimo e sem nenhuma causa ou reivindicação aparente.

Por outro lado, fazer greves  durante a Copa, como a dos metroviários em São Paulo, é uma forma legítima de protesto, que tem fim e que, em última instância,  afeta a Copa do Mundo. Sou favorável a qualquer categoria que decidir parar, nem que isso pare literalmente o Brasil. Além disso, e só os cegos não vêem, apesar de todos assistirem aos jogos, por gostar de futebol, ou mesmo por torcer pela seleção, é visível que o maior protesto que o Brasileiro, ao menos em Belo Horizonte, está fazendo é a indiferença. Apesar da tentativa de alguns de mudar isso, o clima de Copa que se tem quando elas se realizam em outros países, não acontecerá. Muito menos na intensidade que, em condições normais, aconteceria em uma Copa realizada no Brasil.

O principal motivo é a nítida convicção de estamos sendo roubados, passados para trás. A cara de pau nunca foi tão grande, nem mesmo a indiscrição na corrupção.  O pior é que não podemos fazer absolutamente nada. Joana Havelange disse uma grande verdade quando publicou “o que tinha que ser roubado já foi”. Todos sabíamos disso. Todos nos sentimos passados para trás, e nossa impotência é o que dói. A cagada ou não da Copa, está feita. Não podemos impedir. Tampouco podemos nos deixar levar pelo radicalismo desses oportunistas.

Não sou hipócrita, contudo, de dizer que nosso protesto tem que ser no dia 5 de Outubro. Não. Nosso protesto tem que ser diário, até porque, infelizmente, não temos opções nas urnas. Sobretudo no poder legislativo. Votaremos no que a gente considerar menos pior, porque, infelizmente, vivemos em um bipartidarismo ridículo. Até proporia que todos nós anulássemos nossos votos, mas não vai acontecer. Fato é que teremos Copa. Fato é que estamos impotentes diante de tudo que aconteceu. Fato é que oportunistas tomaram o movimento legítimo da população. Fato é que temos que protestar de alguma forma e, atualmente, o protesto mais evidente aos meus olhos, além das greves, claro, é a indiferença.

terça-feira, 18 de março de 2014

Um certo qualquer coisa

Até a última quinta feira à noite, ou melhor, sexta pela manhã, eu, definitivamente, era uma pessoa mais feliz. Não sabia disso, refutava tal felicidade até aquela manhã de sexta, quando, através da carta aberta à Letícia Spiller, tive o desprazer de conhecer o tal “Qualquer Coisa”, cujos nome e sobrenome não me lembro e nem faço questão de lembrar. A carta direcionada à atriz global é uma das piores coisas que li em toda minha vida, de tornar poetas caras como Mainardi e o Reinaldo Azevedo. Não que a carta seja mal escrita, pelo contrário, o texto é fluente, coerente e expressa de maneira clara o que autor quer dizer. Entretanto, a ode à estupidez no conteúdo me fez crer um pouco menos na humanidade.

Primeiramente, e que isso fique claro, não sou socialista. Em verdade, creio que o socialismo e o comunismo marxista, que nunca, repito, nunca foi posto em prática por nenhuma nação, são utópicos. Socialismo, comunismo e anarquismo, todos eles desconsideram algo inerente ao ser humano que é sua individualidade. E nenhum regime sobrevive a isso. Entretanto, dizer que o socialismo significa “tirar de pessoas como Letícia Spiller para dar aos mais pobres” é, no mínimo um sinal de ignorância com relação à teoria socialista. O mundo utópico sonhado por Marx têm oportunidades iguais, portanto não existiriam nem “Bill Gates”,  nem os miseráveis. Seríamos, pois, todos “Letícias Spillers”, o que, o insisto, não invalida o fato de o socialismo ser impraticável.

Seguindo a carta, que, infelizmente repercute muito mais do que deveria, alguns regimes pseudo-socialistas são citados. E são realmente pseudo. Estranho não ter lido em nenhum momento, e se foi por desatenção, me perdoem, sobre o regime chinês, enfim. O regime venezuelano foi citado e comentar sobre as mazelas daquele povo é uma falácia sem tamanho, é um ouvir apenas um dos lados da moeda. Nem eu nem ele temos propriedade para falar a respeito disso. Um exemplo do outro lado foi mostrado por um documentário da BBC londrina que mostra a frustrada tentativa de um golpe de Estado em Chávez. O que se vê é completamente diferente do que vemos nos noticiários brasileiros. Não seja a favor do radicalismo, de nenhum dos lados, aliás, não acredito, de forma alguma, no maniqueísmo entre as tradicionais “direita” e ”esquerda”, embora, por razões óbvias, se fosse obrigatório a opção, ficaria ao lado das viúvas de Lênin. O que queria dizer, ou melhor, ecoar, é uma fala de um cientista político americano, que disse quem sabe o que é melhor para a Venezuela é o povo venezuelano.

Isso, porém, pouco interessa. O que mais impressiona e, creio, ninguém com Q.I pouco maior ao de uma ameba acredita, é dizer que os ativistas de esquerda consideram vítimas os bandidos. Talvez aqueles que, do lado oposto da balança, sejam tão radicais e cegos quanto o autor da carta possam. Mesmo assim duvido. A pobreza, que, sim, está muito relacionada ao capitalismo, não  é sinônimo de de criminalidade. Tampouco são os criminosos meras vítimas da sociedade. No socialismo, ou em qualquer outro regime social humano a criminalidade existirá, porque somos indivíduos únicos e egoístas (como devemos ser – favor não confundir com egocêntricos). Somos animais  dotados de instintos e, por vezes os seguimos. Não existe nenhuma organização social que contemple todos, isto é, sempre existirá os que estão à margem da sociedade. Mas, como diz o ditado, só os piores cegos não vêem que os índices absurdos de criminalidade e a maneira como ela se apresenta hoje não são praticados por vítimas ou pobres coitados. Mas, igualmente cegos, são os que não entendem que isso é produto do sistema, inerente e necessário a ele.

Os piores instintos do homem são aguçados pelo sistema e se afloram das mais variadas formas. Das criativas, como a arte, às tradicionais como a religião. Das positivas, como o esporte, às negativas como a violência. Portanto, por mais que nenhum radicalismo seja bom, por mais que o socialismo dependa da bondade alheia e, por isso, seja uma mera utopia, sofrer um assalto deste tipo, por gente que está completamente à margem da sociedade, aumentam muito mais as chances de uma pessoa esquerdista desacreditar ainda mais no capitalismo. Ao menos que ela seja burra o suficiente para acreditar em argumentos vazios e tautológicos que, VEJA só, alguns publicam.


terça-feira, 28 de janeiro de 2014

De cipó e tanga

Há muito tempo, ainda nos tempos de Orkut e  ICQ conheci uma moça da Bósnia através da internet. Não me lembro exatamente como a conheci, mas fato é que conheci e começamos a conversar. A moça era fanática com o Brasil, segundo ela própria. Seu sonho era conhecer o nosso país e começou a me fazer uma série de perguntas sobre o Brasil. Pode parecer bobagem, mas ela cria que nas ruas do Rio de Janeiro, se viam cipós e macacos e que a Amazônia era pertinho da capital fluminense. Vez por outra, quando vemos essas impressões errôneas do nosso país, ficamos irritados, mas o esterótipo é esse: O Brasil é uma grande selva em que se fala espanhol, em que o principal meio de transporte é o cipó e que poderia ser representado somente pelo futebol, carnaval e muitas bundas.

Mas não ficamos atrás. Fui ao Marrocos no último Dezembro e as expectativas eram as mais temerosas de um país pobre, muçulmano e radical. Não use calças se você for mulher. Se for homem não olhe  para nenhuma mulher. Cuidado com a alimentação e com a água. Se você bebe, pode se começar a habituar a não beber, pois não é permitido. Ouvi tudo isso, os maiores clichês que podemos criar sobre muçulmanos. Impressões desfeitas logo que pousei no aeroporto de Casablanca. Mulheres usando calças, sem véus, transitavam em perfeita sintonia com outras que usavam burcas, lenços e os mais diversos tipo de vestimentas. Os homens, não necessariamente barbudos e de turbante. Na rua, carros luxuosos contrastavam com outros nem tanto. O trânsito caótico, tudo muito urbanizado.

Nas ruas, mesquitas em grandes quantidades o que fazia que em todos os momentos de reza ouvíssemos as preces em árabe emitidas aos quatro cantos. Momentos breves em que alguns paravam, outros não. Mesquitas, inclusive, são vistas em todo estabelecimento, inclusive no aeroporto. Embora em número muito menor, sinagogas e igrejas católicas também faziam parte da paisagem. O shopping da cidade era simplesmente o mais impressionante que já vi. Lojas de todas as grifes possíveis e imagináveis, compradas com gosto por donos de Porshes e Mercedes. Nos bairros mais ricos, se via, nas construções das mansões, quais eram de árabes e quais eram de descendentes de franceses, que, por muito tempo mandaram por ali. É fato que na rua não se pode beber – na Austrália também não pode – mas no supermercado você encontra todos os tipos de cerveja e vinhos, inclusive, alguns locais. Não era como estava pensando, mas, já ouvira dizer, que Casablanca era mais ocidental.

Minha próxima parada foi Marrakesh. Uma cidade milenar e misteriosa, lotada de hotéis, turistas, cassinos, boates e, pasmem, prostíbulos. O suco de laranja é espetacular e a comida, se você gosta de experimentar coisas novas, é muito boa. Não fazem mal como insistiram por aqui. A receptividade foi impressionante. Em um passeio que fiz conheci uma guia marroquina, uma moça jovem que havia feito todo seu segundo grau nos Estados Unidos. A moça usava calça justa, bota, jaquetas jeans. Se andasse pelas ruas de Belo Horizonte dificilmente chamaria a atenção de alguém. Politizada e crítica, questiona os fundamentalistas de todas as regiões que, segundo ela, são responsáveis por essa distorção que fazemos com relação ao oriente. Depois de muita conversa, fui saber que a moça era islâmica, não era radical, tampouco “praticante”, era como a maioria dos cristãos. Foi um bate papo extremamente interessante em que eu tirei todas as minhas dúvidas e ainda me despi de um monte de preconceitos idiotas sobre a cultura árabe. E não fiquei somente nessas cidades. Visitei algumas pequenas cidades marroquinas entre Marrakesh e Zagorá, uma cidade criada no Oasis no meio do Saara, e descobri que, na história marroquina, os árabes não são os mais antigos e que um outro povo muçulmano, os bere-beres ainda marcam muita presença no deserto. Povo, muçulmano, que, inclusive, protegeu os judeus em diversas situações e respeitam sua crença. Enfim, depois de ver de perto, cheguei a conclusão que não somos tão diferentes das pessoas que acreditam que a gente vai trabalhar de cipó e tanga.