terça-feira, 11 de novembro de 2014

A Guerra Civil

Eu perdi o episódio em que a democracia virou guerra civil. Mas em algum momento o processo eleitoral se tornou uma verdadeira disputa, sobretudo nas redes sociais. O ódio e a passionalidade chegaram ao nível de parecer estar instaurada uma Guerra Civil Tupiniquim. Fato é que a democracia não foi feita para agradar à todos, e esta, em essência é sua beleza.

Jean Fraçois Marie Arouet, vulgo Voltaire, em inspiração ímpar, disse que “posso não concordar com as bobagens que diz, mas defendo até a morte seu direito de dizê-las”. Mas isso é racional demais para uma eleição, racional demais para o Brasil. Outro dia ouvi um pertinente comentário em uma rádio no qual me senti inteiramente representando. Compreendo os motivos de todos para ser contra um dos candidatos. Muito mais até do que para ser a favor de qualquer um dos dois. Entretanto, nenhum deles merece essas defesas e ataques passionais como se fossem salvadores do Brasil, ou como se fossem dois times de futebol.

As paixões chegaram ao ponto de suprimir a razão. Parecia que as pessoas não estavam pensando no bem do país, mas no prazer de suprimir à opinião alheia, o puro prazer da vitória. Nessas horas, assim como no futebol, o melhor é desligar do mundo e ocupar a mente. Afinal chega ser ridículo os derrotados nas urnas dizerem temer pela democracia. Ora, temerem à democracia por perderem o processo democrático? Qual o sentido?

Pior é ver alguns dos expoentes dessas pessoas, gente, por mais incrível que possa parecer, formadora de opinião, dizerem “agora é lutar pelo impeachment”. A democracia só vale para essas pessoas quando elas vencem. Assim, meus caros, tudo fica mais fácil. Os que vibram alucinados pela vitória e os que remoem excessivamente a derrota, não pensam ser o fim o bem comum, levam tudo para o pessoal.

Pior, se eximem de responsabilidade cívica quando derrotados, e protegem a qualquer custo seu candidato se vencedores. Quem vota não precisa ser cabo eleitoral. Quem vota em um ou em outro tem seus motivos para tal, o que não quer dizer, sob nenhuma hipótese, concordar na totalidade com as atitudes do candidato, tampouco reprovar tudo feito pelo preterido.

Não é futebol. Não é guerra civil. É eleição. Além de não ser sinônimo de aprovação incondicional e absoluta, votar em alguém não é dizer que você não irá o fiscalizar, tampouco é assumir a culpa pelo ato dele, ou abster de protestar. Quanto aos eleitores derrotados, isso não quer dizer que ele tem, por obrigação, discordar de tudo, protestar por protestar, ou se abster de fiscalizar e transferir a culpa para os outros eleitores.

Se as pessoas não carregam a culpa pelos atos do candidato que não votou, tampouco deve recair sobre os ombros do eleitor o peso das atitudes de seu escolhido. E os motivos são vários. O primeiro, aos que se eximem de culpa, antes de fazê-lo, deviam se perguntar em que votou para os cargos legislativos e saber seus projetos e ações durante o mandato. Focar somente nos escândalos da grande mídia é fácil. Aos outros, estes devem ter a consciência que, independentemente da escolha na urna, ela traria boas e más consequências, afinal, nenhum candidato tem só propostas boas e ruins. No cenário político, ou mesmo no histórico dos candidatos da última eleição, tampouco temos pessoas cem por cento honestas, e administrações marcadas pela lisura, para ser eufêmico. Além disso, os motivos para escolher um candidato são muitos, até mesmo, o que pensa ser menos pior.

A Guerra Civil online vivida não faz um mês, mediante isso tudo, fica cada vez mais patética e sem sentido. É muito fácil culpar os outros e se abster de sua parte. Tudo dá errado é culpa do governo, mas o que as pessoas, cidadãos comuns fazem? Gritar por gritar é fácil. Não digo, necessariamente, protestos. Mas a parte como cidadão, no simples ato de fazer o que é certo.

Mas não. Nós nos achamos espertos demais para isso. Somos acomodados demais para isso. Seremos sempre, não importa quem esteja o poder, reféns de nossas próprias acomodações, e, por isso mesmo, não há a menor perspectiva de algo diferente surgir. Estamos falando de pessoas cujos votos são definidos via pesquisa, e o melhor, não necessariamente é votado pelo simples fato de ele parecer "não ter chance de ganhar".

E a “Guerrinha” gerou fatos ridículos, de quem, antes de falar, além de não pensar, não procura nem saber o que diz. Fique claro, os nordestinos, e pessoas de quase todas as partes do país, migram para o Sudeste, sobretudo São Paulo, desde que o centro da economia brasileira está lá, há muito tempo. Não é votar em X e migrar. Aliás, São Paulo foi construída pelos nordestinos a quem, em verdade, os paulistas devem gratidão.

Não é e nem foi uma batalha dos ricos contra os pobres. Não é e nem foi uma batalha. Efetivamente, os únicos adversários eram os dois candidatos e seus projetos de poder. Para nós foi uma escolha, sem derrotados e vencedores. Não se tratava de um jogo.  Não é para separar o Brasil, ou maldizer o nordeste, sabendo, inclusive, que, para muitos dos que o fizeram, lá será o destino das próximas férias. 

Vamos ser coerentes e inteligentes. A democracia pode ter seus ônus. Mas é o nosso maior bem político. Não estamos em guerra, não somos fiéis seguidores de nada. O voto não é uma mordaça, apenas uma opinião. Não carregue culpa pelo que deu errado, e nem a certeza de que teria sido melhor. Não concorde com tudo que é dito só para discordar de outra pessoa. Não assuma um lado como um time de futebol, ou como uma religião, pois esteja certo, ambos os lados cometeriam e cometem erros. Ambos os lados vão estar amordaçados pelo sistema político brasileiro. Não existem salvadores da pátria.

O Brasil é feito, acima de tudo, por nós brasileiros. Por isso, antes de qualquer coisa, antes de pensar em culpas, ofensas, partidos, dogmas e imbecilidades sem propósito; independentemente de qualquer coisa, pense em fazer sua parte. Este sim é o primeiro passo para a mudança. 

                                            

terça-feira, 21 de outubro de 2014

Pior que tá, fica

Em 2002 o meu voto era facultativo e, sem o menor remorso, optei por não votar. A razão era simples: não confiava que o Lula pudesse fazer uma gestão competente e, obviamente, não suportava mais as barbáries tucanas no poder. Acertei minhas previsões, embora o país tenha melhorado, não era difícil em vista da situação anterior. Nas eleições seguintes não tinha escapatória. Precisava ir às urnas.


E em 2006 foi a única vez em que votei com convicção. Mas, infelizmente, o Brasil atrasou pelo menos uns cem anos em não eleger Cristovam Buarque à presidência. No segundo turno anulei meu voto. Continuava achando o governo de Lula incompetente, mas o PSDB seria um retrocesso ainda maior. Sabia que as memórias recentes de apagão, de salário mínimo de R$ 200,00, de altos índices de desemprego e pobreza ainda estavam muito vivas.


Anulei, pois não confiava na continuidade mas estava certo a ameaça de revivermos anos entre 1994 e 2002 estava descartada. Lavava minhas mãos. Novamente não me arrependi da decisão. Vi um governo decepcionante, que, orgulhosamente, não elegi. Um governo cujas políticas lembravam muito às implantadas pelo antecessores.

É realmente triste perceber que todos os partidos são absurdamente iguais, e que os presidentes não passam de meros fantoches de empresários e interesses políticos. Para muitos além de triste era decepcionante, não para mim que nunca alimentei nenhuma expectativa por Lula e pelo PT.


Nas eleições de 2010, sem Cristovam, fiquei órfão de candidato. Votei em uma terceira via, na vã esperança de que ao menos alguém de fora do eixo chegasse ao segundo turno. Era necessário um segundo turno para que houvesse debates em condições isonômicas. Mas, com muita pesar, conclui: entramos em um caminho sem volta para um bipartidarismo esquizofrênico, de duas partes essencialmente iguais e reféns de um terceiro partido e de interesses de várias origens.


Afinal, não há, por parte desses dois grandes partidos, nenhum projeto de governo, mas projetos claros de poder, nos quais a troca de interesses é essencial. Outro segundo turno em que o meu voto não foi válido. De novo lavei as mãos. Afinal, se não compactuava com o governo à época, também não queria a “volta dos que não foram”, que eram inofensivos.

Desta vez, porém, eles passaram a ser ameaça. E através dos piores nomes possíveis. No primeiro turno, com a mesma falta de convicção de 2010, embora em candidatos diferentes, votei em uma outra via.  Mas no segundo turno, infelizmente, terei de votar na manutenção do atual governo.


Governo que eu não compactuo, embora tenho de ser justo ao dizer que grande parte de seus problemas têm origem anterior ao atual mandato. Um governo com falhas graves, mas que, enquanto seu concorrente costuma “atuar” em prol de grandes empresários e latifundiários, preocupa-se um pouco mais com educação, por mais insuficiente que esta preocupação seja.

Diferentemente do que dizia slogan do Tiririca nas eleições de 2010, “pior que tá, fica sim”. E nó sabemos disso. Sabemos porque em todos os 8 anos entre 1994 e 2002, os professores das Universidades Federais entraram em greve. Porque vivemos regionalmente nos últimos anos uma imprensa censurada e controlada por um governo cujo maior investimento sempre foi publicidade. Aliás, revivendo aqueles anos, dentro do Estado a greve dos professores, não repercutida pela imprensa, durou meses; afinal nem mesmo as prefeituras pagavam tão mal seus mestres.

O Brasil merecia um segundo turno melhor, mas, pode ser muito pior. Por isso, com muito pesar de não poder lavar as mãos, vou votar pela reeleição e esperar que, nos próximos 4 anos, alguma alternativa, mais capaz apareça para terminar com este maldito bipartidarismo brasileiro.           

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sexta-feira, 19 de setembro de 2014

A hipocrisia não é tão hipócrita assim

Desde os tempos do ocorrido com o Daniel Alves tenho tentado falar do assunto, mas a gravidade e delicadeza do tema me impediram. O motivo principal era o receio de ser mal interpretado. Até que, após o caso Aranha, ouvi um jornalista tirar as palavras da minha boca e conseguir, em termos compreensíveis e claros explicar exatamente o meu ponto de vista.

O primeiro ponto é diferenciar racismo de injúria racial, que é um agravante. O caso ali é o segundo, apesar das pessoas confundirem muito. Racismo é quando por questões de cor você limita os direitos de outrem ou o diferencia dos demais. É como, por exemplo, não permitir o acesso de alguém a um elevador, festa, ou qualquer outro espaço que ela tenha direito por ser negro, ou se você deixa de contratar um serviço porque o prestador é negro, enfim, uma restrição clara. A injúria é o que vimos. Não faço juízo de valor se mais ou menos grave, mas são diferentes.

Nem acredito, diga-se, que a maior parte dos gremistas que cometeram tais ofensas nem o torcedor do Villareal da banana tenham condutas racistas diariamente. Ainda assim, eu estando enganado ou não, uma coisa não justifica a outra, pois a atitude é simplesmente injustificável. Como também não há justificativa para que não houvesse relato disso na súmula ou para que o próprio Grêmio não acionasse o tribunal especial, presente em todos os estádios, naquele exato momento. A crucificação e a personificação do ocorrido de Porto Alegre em apenas uma pessoa, também é igualmente cruel e sem justificativa, embora, é verdade, as sanções penais não só são justificáveis, como essenciais. E têm, inclusive, de serem aplicadas também aos outros envolvidos. A punição social, no caso dela, já veio. E está sendo cara.

Voltemos à Espanha. Diferentemente do Aranha, Daniel Alves usou do deboche. O lateral, ao ser alvejado com uma banana por um torcedor espanhol, no El Madrigal, estádio do Villareal, comeu a fruta, em um ato que, embora não tenha sido inédito, embora tenha sido uma atitude planejada para uma ação de marketing, gerando aquele insuportável “#SomosMacacos”. Aquilo nasceu para ser moda, em uma jogada de marketing que virou até estampa de camisa.

A primeira vez, contudo, que uma opinião sobre o tema me chamou a atenção, foi quando um negro teve uma carta lida em uma rádio, dizendo que “não, não somos todos macacos”.  O cunho da carta era bem diferente do que o senso comum podia imaginar. Ele estava indignado, e com razão, com a apologia ao #SomosTodosMacacos. Lembrou ele, com palavras muito diferentes, que, no Brasil, existe um preconceito ainda muito maior do que o da cor da pele. É o preconceito econômico. E como dizia a carta, comer a banana tendo uma Ferrari na garagem é fácil. É mesmo. Poucos dias depois do incidente, o camaronês Eto’o, que há muito sofre com isso, postou exatamente isso. Ele em frente ao seu carro milionário com a legenda: “Eu é que sou macaco?”. Voltando à carta, o ouvinte disse que, naquele momento, o jogador, que, geralmente tem origem humilde, tem a noção que o dinheiro não muda a cor de pele de ninguém. 

Essa frase leva à tona um tipo de preconceito que é extremamente voraz: o preconceito social.  Esse tema quase não foi abordado após o ocorrido, embora, sobretudo depois da foto do Eto’o, alguns comentários do tipo “olha lá, o macaco com um carrão que custa cem vezes o salário do trouxa racista”. Isso passa desapercebido, mas estamos na verdade corroborando com o preconceito social. O que me pergunto é e se ele fosse pobre? Realmente é muito fácil comer a banana com milhões na conta e uma Ferrari na garagem.

Voltando ao Aranha, o goleiro do Santos, mesmo sem uma Ferrari, tem uma condição econômica bem superior à média da população. Contudo, neste caso, o goleiro se sentiu realmente incomodado e indignado. Lembrou ainda, em entrevista posterior, que em muitos lugares, por conta justamente de sua condição econômica, ele é tolerado, e não aceito. Por isso, embora a visibilidade tenha sido infinitamente menor devido aos personagens, a repercussão foi mais intensa e a discussão mais produtiva, até porque a credibilidade do #SomosMacacos caiu por terra na primeira camisa vendida.

Entretanto, através das redes sociais, em ambos os casos algumas pessoas começaram um outro debate sobre outros tipos de preconceito, sobretudo a homofobia no futebol, polemizando a disparidade no tamanho do debate em um caso e outro. Alguns, é verdade, chegam à estupidez de justificar esta diferença dizendo que a diferença é que “não se escolhe ser negro”. Isso é uma estupidez sem fim. Primeiro pelo fato de a sexualidade não ser opção ou escolha, e isso, aos imbecis de plantão, é inclusive comprovado pela ciência. O segundo porque considerar a diferença por esse prisma É dizer que o negro é inferior, apesar de não ter escolhido e o homossexual escolheu ser inferior, ou seja é racista e homofóbica por natureza, um verdadeiro absurdo.

Há uma razão de ser nesta diferença que é vai muito além do preconceito. Quando alguém xinga no estádio, e não estou fazendo juízo se é certo ou errado, ele nem se atenta se o xingado é ou não aquilo. O cara não sabe, nem quer saber, a orientação sexual, ou a profissão da mãe do cara. O intuito, neste caso, é muito menos ofensivo. É xingar por xingar, como na pelada, como na partida de truco, e por aí vai. É desabafar sobre alguma coisa feita pelo ofendido cujo ofensor não pode fazer nada. Xingado e xingador sabem disso, tanto que o ofendido, dificilmente se preocupa com isso.

Quando se chama alguém de macaco da maneira que foi feita, o objetivo é muito além de xingar uma pessoa. O objetivo é, deliberadamente, a julgar inferior por causa, neste caso, da pele. É se considerar um ser superior à ponto do outro passar de gente à animal. Algo muito pior que um xingamento.

Transportando essa questão à sexualidade, na maioria dos casos é, sim diferente. Certa vez, quando o Richarlysson reclamou de homofobia, um colunista, do qual divirjo em quase 100% das coisas, disse algo interessante. “Como um cara que se diz heterossexual pode sofrer de homofobia?” Quem vai ao estádio, independentemente da orientação sexual, xinga alguém de “viado”, sem maiores problemas, tanto na intenção quanto na recepção.

Mas maioria não quer dizer todos. Certa vez, em um jogo de vôlei, um atleta assumidamente homossexual, sofreu algo muito parecido ao que passou o Aranha em Porto Alegre. Quando ele ia sacar, o coro da arquibancada era muito diferente do quando um outro atleta era xingado. Era avassalador. Naquele caso, e talvez possa ter ocorrido com o Richarlysson em alguns casos, sobretudo com torcidas adversárias, as pessoas julgavam àquele atleta como um ser inferior pela sexualidade. Ele, como o Aranha, foi discriminado. Não eram xingamentos aleatórios. Eram direcionados, discriminatórios e ultrapassavam à esfera esportiva.

Neste sentido, portanto, não comparar o caso Aranha aos outros xingamentos nos estádios, do tipo “viado”, não tem nada de hipócrita. A comparação, na verdade, nem cabe. O caso do atleta do vôlei, porém, foi exatamente o mesmo sofrido pelo Aranha. A hipocrisia, neste caso, é o fato de ninguém ter falado em responsabilidade penal a nenhum dos envolvidos na questão do voleibol, e mesmo de não se dar a mesma repercussão.

Voltando ao Aranha, ontem ele esteve de volta ao mesmo estádio. Lá, desta feita, provou cabalmente a hipocrisia, não com relação aos outros xingamentos, mas com relação aos valores e ao próprio racismo. Primeiramente, a menina crucificada, que não tem nada de coitada, mas também está longe de ser a mentora intelectual ou a única culpada, já havia demonstrado o arrependimento. Não pelo que ela fez, mas pela consequência de sua ação.

A partir disso, o treinador do Grêmio, algumas pessoas da imprensa o próprio presidente do clube, foram à imprensa falar bobagens, culpando o Aranha pelo ocorrido, como se ele fosse culpado pelo racismo sofrido e pela eliminação do Grêmio. Ele foi a vítima. Mas a vítima no Brasil é quase tão culpada quanto o infrator. Por isso, em uma demonstração ridícula de aprovação ao ato racista de alguns torcedores, a torcida ontem vaiava o goleiro do Santos com veemência. Muito mais do que o normal e quem acompanha futebol sabe disso.

Depois do jogo, o goleiro ainda teve de se sujeitar a uma repórter que, além de demonstrar o não entendimento da gravidade da questão, confessou ao jogador ser neutra com relação à atitude da torcida. Isso sim é hipocrisia. Mas o jogo é muito mais importante à integridade humana. Estou certo que não é a maioria dos gremistas, cujo belo hino foi escrito por um negro, mas uma parcela bastante imbecil não só dos tricolores gaúchos, mas como da sociedade em geral.

De toda forma, por essas é que me pergunto se a retaliação e punição da sociedade à grande pivô de toda esta confusão também não é hipócrita. Será que ela está mesmo sendo retaliada – de maneira absurda, diga-se - por sua atitude racista?

Cada vez mais tendo a crer que não; e, apesar de ninguém se atentar, a real motivação das agressões à moça é a mesma de seu arrependimento: a eliminação do Grêmio da Copa do Brasil.



quarta-feira, 27 de agosto de 2014

A solução pro nosso povo eu vou dar...

...E não vou dizer que está nas urnas. Até porque as eleições brasileiras se resumem à legitimação de um sistema corrompido. Não importa quem você coloque lá, no fim, pouca coisa muda. Afinal, os interesses são os mesmos. Com efeito, os eleitos governam para quem os puseram lá, e não foram os eleitores. São os patrocinadores de campanha. Obviamente, os maiores financiadores, não são imbecis. Qualquer campanha minimamente competitiva vai ser patrocinada por eles. Não têm lado, o objetivo é ficar no poder. Ainda que, nos bastidores, ajudem um pouco mais uma ou outra parte, certamente quem ganhar vai dever algum favor.

Até porque, no Brasil, o sistema, cuja função primordial é evitar a corrupção, funciona como muleta para tudo. Os três poderes, por exemplo, que deveriam servir como freios um dos outros, acabam, antes, sendo comparsas ou instrumento de politicagem. O partido e o poder estão sempre à frente do Estado. Mesmo o poder judiciário, único no qual os membros não são eleitos e entram através de concurso público, conforme consta as más línguas, anda corrompido.

Nem mesmo o excesso de burocracia para todo e qualquer ato público no país impede a palhaçada que assistimos todos os dias. No fim, ela – a burocracia- que deveria ter como função principal diminuir as chances de um processo qualquer se corromper, assim como tudo por aqui, vira muleta para os públicos e acaba permitindo, por exemplo, “o caráter de urgência”, elimina licitações e acaba abrindo espaço para o que ela devia combater, como, por exemplo, o superfaturamento.

Vivemos em uma verdadeira bagunça institucional, institucionalizada e burocrática. Não são poucos os estrangeiros que tentam investir no país, entendendo ser o país do futuro, mas desistem pela desorganização, que serve de muleta para corrupção e de cabo eleitoral. Dizem os forasteiros, “eles tem tudo, tudo, bem na frente, mas não sabem como usar. Será possível?”

Outros propõem secar a máquina pública, embora seja claro que o desperdício do dinheiro não está na máquina e sim nos desvios, roubos e, sobretudo, no poder. Os países escandinavos, por exemplo, os maiores IDH do mundo, são os Estados com as maiores máquinas públicas. A grande maioria das pessoas lá são empregadas pelo Estado. Até porque os aspones são uma verdadeira minoria de privilegiados. E me pergunto, acabando com os cargos públicos CONCURSADOS, supondo sua inutilidade – que realmente é só suposição - como seriam realocadas tantas essas pessoas no mercado de trabalho? Então.    

A solução, portanto, não está em referendar um sistema corrompido. Tampouco fundi-lo por completo. Afinal, em teoria, temos uma das constituições mais bem elaboradas do mundo. Basta fazer funcionar. Também não é inventando uma revolução sem causa e sem o menor respaldo popular, quase que uma aberração, como tentaram durante as Copas das Confederações e do Mundo.

Chego à conclusão, portanto, que a salvação está em fazer uma auditoria. Uma auditoria detalhada, com livre acesso à todos os documentos e com a possiblidade de destrinchar todos os órgãos e instituições brasileiras. Por razões óbvias de isenção, teria de ser uma auditoria estrangeira, confiável e transmitida pelo you tube por 24 horas. Afinal, ninguém teria paciência para ver tudo o tempo todo, mas é garantido que o tempo todo alguém estará vendo.


Auditores com carta branca, isolados do mundo em um hotel, escoltados pela polícia federal dia e noite, sem nenhum contato com o mundo exterior. Terminados os trabalhos é limpar as instituições, enxugá-las, assim como em uma empresa privada. Então reestrutura-se tudo e recomeça. Quem deve algo, paga. Acaba-se a impunidade e publica-se todos os resultados. Os auditores voltam aos seus países de origem e tudo bem. Entretanto, creio eu, se alguém na política ousar fazer uma proposição dessas, não dura mais de 48 horas vivo. 

quarta-feira, 13 de agosto de 2014

Futebol é questão de Estado

O Brasil sempre foi reconhecido internacionalmente como um país de ponta no futebol mundial. Acostumamos com os melhores jogadores, o melhor jogo, os melhores times e, por isso, temos mais títulos. Essa visão, historicamente consolidada, há muito é mera visão e, não demora, deixaremos o posto de maior vencedor aos alemães. Certamente, isso acarretará na redução do status do jogador e do futebol brasileiro no mercado mundial. Há muito, não temos, como outrora, os melhores jogadores, as melhores equipes, os melhores públicos ou a melhor seleção. Entretanto, mesmo que somente aos nossos olhos, ainda somos e provavelmente sempre seremos o país do futebol.

Nas terras tupiniquins o esporte bretão tem uma função social extremamente importante. E não é apenas aquela função clichê de inclusão social pelo esporte. Até porque, no Brasil, essa inclusão atinge uma minoria de pessoas que conseguem vencer como atletas profissionais. Ainda menor, diga-se, são aqueles que, através dessa inclusão, conseguem ser bem remunerados. Não sou contrário, ressalte-se, ao uso do futebol para isso. Pelo contrário, considero a ideia brilhante. Mas não é essa função, ou melhor, inclusão social que o futebol já representa no Brasil. Pelo menos não neste sentido.

Não é a primeira faz que faço essa ressalva, mas o futebol brasileiro é um instrumento de justiça social na medida em que é a única identidade comum entre ricos e pobres, onde todos somos iguais. No estádio somos todos iguais. Em um gol, não interessa se ao seu lado está o seu chefe o seu subordinado. A alegria e a tristeza são compartilhadas indistintamente, e um mero desconhecido vira seu melhor amigo por um segundo.

Portanto, a construção de estádios, a promoção e organização de campeonatos, a formação de atletas, são, sim, responsabilidade do Estado. Óbvio que feito de maneira transparente e minimamente razoável, bem distinto da maneira atual. Construir um estádio para uma agremiação é um absurdo, sobretudo da maneira que foi feita para o Corinthians. O patrocínio de empresas públicas à equipes que devem o fisco é igualmente questionável.

Por razões óbvias, jamais exigiria um tratamento igual ao governo alemão deu ao futebol no país, investindo mais de 1 bilhão de euros em futebol nos últimos 10 anos. Entretanto, não há como concordar com aqueles que insistem “o Estado tem mais coisas para se preocupar”, “futebol não é questão de estado”. Claro que é. Na medida em que a promoção da cultura, esporte (por mais que sejam negócios) e a integração social são obrigações do Estado.

Ainda que negócio, ainda que organizado por instituições privadas, o futebol exerce uma função social que exige sim intervenção e investimento estatal.  Se o Estado já regulou o futebol através da Lei Pelé, se o Estado tem de atuar em questões judiciais e até de segurança pública referentes ao futebol, se existe até uma “bancada da bola,” não faz o menor sentido se abster em outras questões cruciais.

Atualmente, no estágio em que nosso futebol se encontra, a intervenção estatal se faz cada vez mais necessária. Não digo, como muitos pretendem, perdão de dívidas, isenção fiscal nem nada disso. Entretanto, não podemos eximir os dirigentes de futebol das leis fiscais, das improbidades administrativas, dos problemas trabalhistas que envolve jogadores e funcionários; os contratos duvidosos...

Embora muitos possam achar que não seja questão governamental, é necessário uma regulamentação para o padrão de segurança e conforto nos estádios, os preços dos ingressos, e até mesmo subsídios. Estamos falando e entretenimento, cultura e integração que estão diretamente ligado ao povo. Uma questão que, querendo ou não, gostem ou não, no Brasil é social. Já sabemos que mesmo os outros eventos culturais têm preços impossíveis de serem desfrutados à maior parte da população. O futebol, outrora do povo, uma alternativa, tem, no Brasil, os ingressos mais caros do mundo. E não é segredo que a elevação desses preços está diretamente relacionado à uma limpeza étnica e social nos estádios, ao meu ver, discriminatória e ineficaz, para reduzir a violência.


Ora, se isso não for questão de Estado, não sei o que é.  

segunda-feira, 4 de agosto de 2014

Receita do Dia

O Tupiniquim cozinha de hoje oferece duas opções de pratos para você fazer. Aliás, temos até uma terceira opção, mas não é muito popular. Quase não saí; alguns nem sabem que existem. Os dois prato principais do dia, bom, esses são praticamente iguais. Sabor, textura, cheiro... Tudo muito parecido para você escolher e fazer o que mais lhe apetece.

E os ingredientes dos nossos pratos de hoje são quase todos nacionais e vem sendo elaborados nos últimos 20 anos. A lista de ingredientes, embora não esteja completa, segue abaixo:

Plano real, contenção da inflação, greves de professores, greves de servidores federais, crise internacional, valorização e desvalorização do real, incentivo ao agronegócio, desemprego, moratória, intervenção em Minas Gerais, reeleição, privatização, apagão, Mercosul, provão, fome zero, vale gás, bolsa família, bolsa escola, ascensão da classe C, PROUNI, REUNI, Ciência sem Fronteiras, ENEM, mensalão, crise na Petrobrás, Copa do Mundo, painel eletrônico, doleiros, Cachoeira, Gorete, Rombo da Previdência, ranário, Olimpíada, Estádios milionários e sem sentido, caos aéreo, poder de compra, FMI, devedor, credor, cuecas, PAC, importação, exportação... e mais o que você quiser à gosto.

O modo de preparo também é bem simples: pegue esses ingredientes, e todos os outros que você lembrar ou encontrar, e divida-os em duas partes: os produzidos antes do ano de 2002 e os posteriores. E não se importe se alguns dos ingredientes passem pelos dois potes. Neste caso, avalie se os restos eram bons e ruins, como foram aproveitados e descartados e, enfim, escolha em qual das vasilhas colocar.

Separação feita é a hora de avaliar. Mediante à mistura de todos os ingredientes, e de algum tempero qualquer que você deseje colocar, é a hora de provar. O que foi mais saboroso para você?

Se você gostou mais da mistura da tigela que vai até 2002, digite 45 em seu micro-ondas. Agora, se sua preferência é pelo que ficou na vasilha após 2002, digite 13 em seu micro-ondas. Se os dois parecem amargos demais para você, e sua preferência é pelo prato que quase não saí, aperte o 40 no seu micro-ondas. 


Depois, se ainda tiver estômago, é só esperar e desfrutar. 

quarta-feira, 23 de julho de 2014

As picas da Dilma

Antes de mais nada, já antecipo que não defenderei nenhum governo ou partido político. Tampouco revelarei o meu voto e sua lógica. Até porque atualmente o Brasil vive a “crise do mais do mesmo”, na qual temos somente dois partidos fortes para o executivo (PT e PSDB) que são rigorosamente iguais, sobretudo nos defeitos. Além deles, temos uma grande incógnita (que é o PMDB, cujo M deveria significar “Murista”. O pior é que com o número absurda de filiados e eleitos, os “Muristas”, maior partido do país, é quem acaba por nos governar, gerando, evidentemente, a equivalência entre os dois rivais pelo executivo, que tem de se sujeitar ao verdadeiro mandatário.

No fim, nem mais “o menos pior” será o fator decisivo na hora de votar, já que ambos os partidos se equivalem em ruindade. A decisão final, portanto, será influenciada por algum aspecto pontual que seja relevante pessoalmente a cada eleitor e que talvez tenha sido tratado de maneira melhor ou pior por um governo ou um por partido. A minha decisão, que não vou revelar, até porque não me orgulho dela, foi feita assim. Ademais, já estou convicto que o voto que muda o país não é aqueles para os cargos executivos, que é o que você lembra e está sempre em evidência. Se você quer realmente mudar o Brasil, pense e se recorde no seu voto para o poder legislativo, esse sim é relevante ao futuro da nação.

Por essas e outras, repito, não farei papel de advogado de ninguém. O que quero, antes, é tentar decupar a realidade. Isto posto, é incrível o poder que é dado à presidenta da República pelas pessoas e por muita gente que forma opinião. Para ela ser responsável por tudo que lhe atribuem – coisas boas e coisas ruins -, ela teria que ser uma ditadora onipotente e onipresente. Não é bem assim. Repito, não quero ser um advogado de defesa, tampouco defender o indefensável, mas no fim o cargo de presidente nada mais é – seja lá quem for seu ocupante – um mero escudo, principalmente no caso atual.

O fim da ditadura militar, nos bastidores, aconteceu por vontade da alta cúpula militar que ouviu Golbery. Era fato, como ele disse, que a bomba das merdas que eles tinham feito iria estourar, então melhor sair antes da explosão e deixar a culpa para os outros. Bombas e coisas boas perpetuam-se dessa forma na presidência da República desde então. O fato de os candidatos serem meros instrumentos de partido e, portanto, não terem projeto de país e sim um projeto de poder é determinante para isso. Não interessa ao congresso se é bom ou ruim. Interessa quem propôs.

Não obstante, todos os nossos presidentes pegaram e deixaram uma herança maldita. Talvez, diga-se, nenhuma tão pesada com a recebida pela atual presidenta, que é muito mais técnica do que política. Exatamente o oposto de seu antecessor, que se valia muito mais do carisma. De toda sorte, fato é que grande parte das culpas do atual governo são, de fato, responsabilidades assumidas pelo anterior. E vêm sendo assim desde 1986.

Além do mais, ainda não compreendemos o funcionamento entre os três poderes que nos rege. Cada um impõe limites ao outro, o que, se por um lado evita autoritarismo, por outro incentiva negociações. Como executivo está em evidência tendemos a percebê-lo como absoluto. Muito pelo contrário. A possibilidade de atuação do executivo é tão pequena sem o apoio do legislativo que, desde sempre, há negociações e trocas de favores entre os poderes. Se não pelos mensalões, que eram práticas comuns até o escândalo denunciado por Roberto Jefferson, por negociações de cargos, que, em vez de técnicos, passam a ser meramente políticos.


A solução para tais dilemas, sinceramente, desconheço. O que não podemos admitir é que as culpas sejam concentradas em apenas uma pessoa, automaticamente isentando outras tantas com culpas iguais ou maiores às que condenamos. Temos que atribuir às pessoas certas às responsabilidades cabíveis. Não há presidente onipotente tampouco independente. Assim como não há mandatos isolados na história, que comece ou recomece um país do zero. Estamos em uma infeliz sinuca de bico em que não há mocinhos e que os resultados, seja lá quem for o vencedor, serão tão ruins quanto foram os resultados dos governos de ambos os partidos quando o tiveram.