terça-feira, 10 de março de 2015

Nostalgia

Me peguei sonhando com o passado. Pensando no passado. Quão curta é nossa vida? Quão fugidios são nossos dias? Não sei. Racionalmente, me culpo. Não deveria ser nostálgico, a vida é muito curta para isso, no presente estão muitos dos melhores acontecimentos da minha vida. Mas ninguém dorme racional e sonhei, com uma mistura de nostalgia e medo, com o passado misturado ao presente. Medo, porque o passado, tão longínquo e tão próximo, nos faz refletir que a morte também é assim: longínqua e próxima.

Só envelhece que não morre jovem. É verdade, mas não há como negar que só percebemos a real possibilidade de envelhecer quando começamos realmente a deixar de ser jovens. Os dias áureos passam brusca e rapidamente e, quando caímos na realidade, somos gente grande. De repente chegamos à época em que sonhávamos, mas sem ter sem ser nada  do que havíamos sonhado.

Aliás descobrimos que o que verdadeiramente sonhamos é ter sonhos. Sonhamos em reviver aquelas épocas idas, cheias de esperanças, sem preocupações, em que o futuro era só o futuro. Mas o futuro vira presente e não temos tempo para o passado, para nostalgia... Mas não somos donos de nós.

Não estou desvalorizando o presente, até porque hoje tenho algumas pessoas e coisas sem as quais não saberia viver. A nostalgia não é saudosismo. Muito longe disso. Antes é a vontade de voltar para refazê-lo, vive-lo de maneira diferente e melhor. Aproveitá-lo mais, ser mais inconsequente ter mais confiança, enfim. Corrigir os erros e acabar com os fantasmas que ainda assombram nossas mentes, para, quem sabe, tornar o presente ainda melhor.

O problema é que, nessa brincadeira maldita imposta pela nostalgia, acabamos esquecendo de viver o presente e, no futuro, ele será como o passado. Estamos repetindo os erros. Mal sabemos nós que muitos dos fantasmas vividos são essenciais. Talvez, voltando no tempo, mudando algo, ganhando alguma coisa que outrora desperdiçara, você pode perder algumas das melhores coisas de sua vida, que vieram posteriormente. Não há como fugir de nossa história.

Infelizmente também não  há como fugir da nossa mente. E eu me peguei nostálgico. Pensando no passado, lembrando o passado e, paradoxal que seja, lembrando o futuro. São pessoas e coisas que passam em nossas vidas, às vezes sem a menor importância. Se bem que nada é sem importância...


sexta-feira, 6 de março de 2015

Sobre heróis e vilões

Então eu leio um adesivo em um carro “a culpa não é minha, votei no Aécio” e imediatamente concluo mental e internamente “realmente a imbecilidade é um problema muito sério neste país”. Lembrei-me da frase do professor Vladimir Safatle, que eu li em um texto do jornalista Paulo Moreira Leite: “o maior inimigo da moralidade não é imoralidade, mas a parcialidade”. E isso nunca fez tanto sentido em minha mente. Não importam os nomes ou partidos, enquanto formos maniqueístas políticos o fim da história será sempre o mesmo.

Enquanto isso, em Brasília, o senador que lidera o movimento pelo impeachment da presidenta Dilma Roussef é eleito o líder do PSDB no senado. Este mesmo senador, ficha suja – já cassado do cargo de governador-, no fim do ano passado estava na mídia por gastar R$7,5 mil do senado, isto é, do contribuinte, em um jantar em homenagem ao seu pai.

Ora, qual a moral tem esse cidadão e o partido que o determinou como seu líder no senado para encher a boca e falar de corrupção na Petrobrás? E, no movimento inverso, qual a moral do PT para falar de Aeroporto em Cláudio, ou da corrupção no governo FHC? A resposta é a mesma para os dois lados: nenhuma. O passado e presente de ambos são moralmente discutíveis, portanto, não há sentido em sermos parciais. Ora, esses mesmos rivais, em 2008, se aliaram em torno de um mesmo candidato em BH. 


Como disse o jornalista Paulo Moreira Leite, a discussão sobre corrupção no Brasil se tornou arma política. Tanto quanto a Bolsa Família e o Plano Real. É tudo conveniente em um sistema beneficia e interessa quem está ao seu lado. No fim, o importante é estar com o sistema, com a máquina em seu favor. Por isso tanta briga, tantas acusações, por isso tanta gente que torce mesmo para dar errado, por isso tantos partidos e pessoas sempre estão do lado vencedor, não importando qual seja. E, enquanto não percebermos isso, nada vai mudar. 

Não hei de entrar no questionamento sobre a política econômica e trabalhista que o governo importou da oposição. Tampouco aventar a possibilidade de o candidato derrotado estar realmente satisfeito de ter perdido, afinal, seria ele hoje no olho do furacão. O problema da corrupção no Brasil não foi panteado pelo PT. Nem pelo PSDB. Ela permeou os dois. Da mesma forma que vem permeando todos os governos e partidos desde os tempos de Império. O sistema corrupto é um câncer centenário cuja continuidade é possível e patrocinada por aqueles poucos e poderosos beneficiados por eles.

Não há como resolver um problema centenário em quatro anos, sobretudo quando não se quer fazê-lo. E ninguém quis, ninguém quer, nem vencedores nem vencidos; embora usem isso como arma. Usam primeiro porque o brasileiro é de laia parecida, os gatos e jeitinhos que o digam. Mas o principal motivo é porque sabem da parcialidade e passionalidade com que tratamos tudo. O maniqueísmo burro e cego, como todo há de ser, com o qual reagimos à política é a maior forma de perpetuar a corrupção. Temos a necessidade histórica de criar heróis e vilões e personifica-los. E ainda não aprendemos que essa estratégia é ineficaz e ridícula. Não existe um vilão que corrompeu um país em tão pouco tempo, nem um herói que vai salvá-lo.

Hoje o vilão é a Dilma e o Príncipe Encantado o Aécio. Mas o vilão já foi o Collor e elegemos FHC como o herói, uma potência intelectual. Oito anos depois, quando “a esperança venceu o medo”, esse maniqueísmo nunca foi tão evidente. Naquela feita, então, o governo FHC era o mal e o Lula foi o exemplo da personificação de um herói vindo do povo e que salvaria a nação. Deu no que deu. Em todos os dois casos o herói se tornou vilão. 

Até porque não existem heróis ou vilões, nem vão existir. Depositamos todas nossas esperanças na oposição e toda a culpa na situação. É como ser reserva em time ruim: ninguém lembra que você está no banco porque ruim, e como quem está exposto em campo também é ruim, a torcida grita seu nome. Claro, assim, nós, com nosso comportamento exemplar, nos eximimos de responsabilidade.

E o filme se repete, por isso, como cansei de ouvir cientistas políticos no rádio em 2014, o povo mineiro estava "desgastado" com o PSDB em âmbito estadual e com o PT em âmbito nacional. Porque, no fim, os heróis viram vilões e vice versa. Porque realmente o verdadeiro inimigo da moralidade é parcialidade, porque ela cria o maniqueísmo extremo, em que todos são cem por cento bons ou cem por cento ruins, nos tira a isenção, nos faz esquecer que esses heróis e vilões já estiveram com os lugares trocados, e transforma o que deveria ser reflexão por um país em raiva e decepção por alguém.

terça-feira, 24 de fevereiro de 2015

15 minutos eternos

Todos os dias aumento a crença de que, no Brasil, o ostracismo é opcional. As sub-celebridades se proliferam e, a não ser que queiram, mantém sua fama por muito mais do que os 15 minutos. Bem da verdade, se quiserem mantém-se nos holofotes o quanto quiserem. Basta, vez por outra, através de um assessor de imprensa, ou mesmo das redes sociais, fazer uma ou outra bobagem, entrar em alguma polêmica. Até porque, mais do que uma imprensa específica, existe aqui uma emissora de televisão que vive disso.

Além disso, a falta de pauta, ou a falta de interesse nas verdadeiras pautas, fazem essas pessoas eternas na mídia. Basta abrir qualquer página de qualquer grande portal de comunicação brasileiro. Sempre terão notícias da vida particular de gente que, alguma vez na vida, apareceu por 15 minutos na televisão. O pior é que, por conta dessa exposição excessiva, a opinião dessas pessoas passam a ganhar uma relevância absurda, ainda que tais opiniões, sejam, como a minha e a sua, discutidas no boteco, baseadas apenas nas próprias impressões.

Não é difícil ser famoso no Brasil. O complicado é perder a fama. Se estiver prestes à isso, basta um email release com uma opinião forte ou ridículo sobre um assunto importante, ou se oferecendo para participar de algum programa de televisão de certos canais, ou mesmo entrevistas para um ou outro e blog e pronto. Você está de volta à mídia.

Uma das maiores provas de que a fama no Brasil não exige esforço é o caso da Geisy Arruda. Alguém se lembra como ela se tornou famosa? Bom, para as os esquecidos, ela brotou na mídia por ter sido hostilizada por outros alunos na faculdade onde estudava, a UNIBAN, por estar com um vestido extremamente curto. Estava criada mais uma celebridade, que hoje é notícia e que vive dessa fama.

Todos os Janeiros tem o BBB, produtor de celebridades instantâneas. E ganhar o programa não é nem fundamental para isso. Basta lembrar que Sabrina Sato e Grazi Massafera, as duas mas bem sucedidas ex-Big Brothers, não ganharam. Ainda assim, os ex-participantes, quando querem, surgem na mídia, sobretudo em canais menos expressivos, para falar de um assunto qualquer.

Cair no Ostracismo após seus 15 minutos de fama é incompetência ou opção. Aliás, os 15 minutos de fama estão cada vez mais fáceis de se conseguir. Em tempos de reality show, que de realidade só tem o nome, de carência de verdadeiros talentos,já que corpos e rostos bonitos facilmente o sobrepujam, as pessoas, mesmo que inconscientemente querem ver gente comum e alimentar suas próprias esperanças de ascender a fama.

No entanto, uma vez famoso a pessoa transcende o nível dos reles mortais, com seus ônus e bônus. Qualquer um tem o poder de aparecer. O difícil é sumir. Depois de galgar o mínimo sucesso – mesmo pela repulsa – é preciso trabalhar para voltar ao ostracismo. Aí, meus caros, qualquer merda que você fala é relevante à humanidade.

E é isso o que incomoda. Pouco importa a criação de celebridades ou programas que fomentam esse processo. Isso é televisão, show business, e, como tal, se rentável, tem de ser feito. Aos que não gostam, opções de outras coisas para se fazer ou assistir não faltam. O verdadeiro problema da falta de ostracismo é perceber como a opinião dessas pessoas, sobre o assunto que for, passa a ser relevante à humanidade, como se fossem verdadeiros especialistas. Verdadeiros formadores de opinião sobre tudo, sem saber nada, sem a menor qualificação para isso.


sexta-feira, 13 de fevereiro de 2015

Estou aqui e não me arrependo



Meu recado é aos democratas politizados de última hora, para os quais eleições e política são tratadas com a passionalidade devotada a um time de futebol. Aqueles a procura de um eleitor da Dilma, que, com deboche, alegam terem sumido. Pois então, me apresento aqui como um dos eleitores dela e, em momento nenhum, me arrependi deste voto. Sou, conforme alguns recém apaixonados por política e pesquisa, um dos 80% que manteria e repetiria o voto se as eleições fossem hoje.

Não me escondo, não omito, e, à despeito dos apaixonados irracionais de plantão, não tenho nenhum motivo para isso. Me desculpem. Pela enésima vez, insisto, insatisfação não é sinônimo de arrependimento. Os que teimam em não entender isso deviam, em vez de  eleitores da Dilma, procurar um dicionário. Eleição e política não são como futebol, ao menos não deveriam ser. Não se deve entregar-se à passionalidade, defesas e ataques sem razão. Ora, seu time de futebol pode ser o melhor ou o pior, continuará sendo o seu. Você não mudará e uma discussão de bar ou piadas em redes sociais, além da diversão e gozação não vai levar a lugar nenhum. Política é diferente. A discussão acerca dela, por sua vez, deveria chegar em algum lugar, analisar argumentos, ainda que as conclusões e opiniões seja diferentes no fim.

Farei, contudo, o movimento inverso. Esqueçam por um minuto a insatisfação e o arrependimento. Não há razões para sermos situação ou oposição se nem os partidos o são. Afinal, sempre há uma inexplicável conciliação partidária quando o tema favorece aos parlamentares. Ou algum partido faz algum discurso veemente com relação a algum aumento de salarial e verbas indenizatórias dos parlamentares? Não. E gente de todos os partidos votam pela mesma coisa. Incrível. Outro exemplo é a recente discussão sobre as dívidas dos clubes de futebol. A situação, de onde surgiu a proposta, foi boicotada por um de seus congressistas, que propôs uma readequação do projeto em benefício aos clubes. Ele aderiu à oposição? Não. Mas ele é da bancada da bola. E essa bancada não tem partido. Como também não tem a bancada evangélica, católica, ruralista...

Até aqui, são apenas constatações. Sem o menor juízo de valor. Voltemos ao arrependimento e insatisfação. Como a grande maioria das pessoas, estou, sim, insatisfeito com o governo e com seus representantes. Muito insatisfeito. E não é de hoje. Aliás, nunca estive satisfeito com nenhum dos governos desde que me entendo por gente. Nunca fui petista, não sou nem pretendo. O último turno da última eleição foi a primeira vez em que votei 13. Nos outros segundos turnos, votei nulo em e nos primeiros votei em um candidato diferente em cada uma delas.  

Estou sim insatisfeito com governo e com o PT, mas não me culpo nem me arrependo. Os recém apaixonados pela democracia têm que aprender que os eleitores da Dilma, ou de qualquer outro candidato vencedor, têm o mesmo direito de se indignar e o mesmo dever de criticar e protestar. Aliás, sob nenhuma hipótese estar insatisfeito com a Dilma me fará arrepender de não ter votado no Aécio. E esse foi meu verdadeiro voto. Não votaria nele sob nenhuma circunstância. Na sinuca de bico em que estávamos, entre dois governantes cujos governos foram péssimos, horríveis, fui obrigado a colocar tudo na balança. E o resultado foi: por pior que tenha sido o governo da Dilma para o Brasil, certamente não foi pior do que o governo do Aécio para Minas.

Além do mais, se o resultado das eleições fosse outro, o que aconteceria de tão diferente? Não acredito que as empreiteiras e seus favorecimentos desapareceriam. Afinal, eles têm muito dinheiro e muito interesse político e econômico em obras públicas. E a política econômica idem. Afinal, para os leigos, o ministro da economia estava na equipe do candidato da oposição, ajudou a formular seu plano e estaria no governo.

Não justifica os erros do governo, tampouco reduz a minha indignação. Mas é fato. E realmente não dá para esperar coesão e lisura de ninguém nesse meio. A própria campanha se mostrou assim. Ora a Marina foi tachada por muito tempo como “a Dilma com outra roupa”, pois tanto ela quanto seu partido já haviam feito parte do governo. Entretanto, no primeiro dia do segundo turno, os mesmos acusadores foram à televisão agradecerem e dizerem-se honrados com o apoio da candidata.

Sinceramente, diante disso tudo, concordei, pela primeira ou segunda vez com o Boechat e a Band, cujas linhas de pensamento e editoriais diferem muito das minhas, quando, acerca a discussão no senado entre Aécio e Renan Calheiros, disse: “quando vejo isso tenho duas sensações. A primeira é de que eu gostaria que os dois morressem. A segunda é de que os dois estão certos.”

 Isto posto, à parte minha opinião de que o problema é apartidário e impessoal, é, antes, um problema institucional, muito maior do que imaginamos; chega a ser ridículo o movimento por impeachment de um mandato de um mês após uma eleição que, quer queiram quer não, foi legítima. E olha que, no geral, além da insatisfação, tenho sido muito contra as medidas do atual governo, inclusive àquelas que sempre fizeram parte da agenda de oposição.

Mas é assim mesmo. Gente que trata política como futebol, independentemente do lado em que esteja, não sabe perder, não sabe diferenciar insatisfação de arrependimento, defende seu candidato às últimas consequências, ataca ao outro com a mesma voracidade, chega a torcer para tudo errado só para atacar os outros, afinal os outros são menos esclarecidos, portanto culpados e inferiores.

A vocês meus parabéns. E saibam que continuo aqui, insatisfeito com o governo, sem o menor pingo de arrependimento do meu voto, de peito aberto e achando cada vez mais graça da busca incessante por eleitores da Dilma, que só mostra o quão valioso é o conceito de democracia para vocês. 

Qualquer coisa, reclamem com o Papa.

sexta-feira, 30 de janeiro de 2015

Porquoi je suis Charlie?

Parce que “Je ne suis pas d’accord avec ce que vous dites, mais je me battrai jusqu’à la mort pour que vous puissiez le dire”.

Passado o grande estardalhaço dos acontecimentos, esta famosa frase atribuída à Voltaire (“Posso não concordar com o que dizes, mas defenderei até a morte seu direito de dizê-las”) resume bem o meu sentimento com relação aos atentados ocorridos na França. Essa frase e o princípio básico de “não faça com os outros o que você não gostaria de fazer com você”.

Ora, não há nada no mundo que escape às sátiras dos humoristas, chargistas e produtores ao redor do mundo. Não nem como argumentar que o Cristianismo está isento disso. Basta assistir à televisão. Várias e várias sátiras ao cristianismo já foram feitas pelos Simpsons, Family Guy ou, para não sair do Brasil, o Portal dos Fundos. Nem mesmo os judeus escapam das afiadas sátiras do mundo ocidental. Em um episódio de “The Cleveland Show”, por exemplo, um garoto ao conhecer um judeu diz: “isso é uma religião? Pensei que fosse só o jeito de xingar alguém.”

O tratamento dado ao islã, concorde ou não com ele, é o mesmo às religiões infiéis à Alá.... Não conhecia o Charlie Hebdo até o dia do atentado, desconheço suas caricaturas e nem tenho interesse em conhecê-las, em concordar ou em discordar delas. Mas, com todo o respeito, se alguém faz caricatura do islã são esses terroristas. Tanto que se preocupam em atentar contra um lápis...

Conheci um país de maioria islâmica, como já relatei aqui. Óbvio tive o choque que o diferente proporciona, mas fiquei muito bem surpreendido. Conheci as mesquitas, com o respeito e as regras que elas pressupõem (não se pode entrar calçado, por exemplo). Ouvi os chamados para as rezas diárias, que não eram obrigatórias, embora mesmo as pessoas de outras religiões, obviamente sem parar o que estavam fazendo, faziam menos barulho. Vi mulheres muçulmanas vestidas como ocidentais. Outras completamente cobertas. Questão de opção. Aliás, apesar da maioria brutal islâmica, convivem sinagogas, igrejas católicas e mesquitas em harmonia.

Um povo feliz e com uma cultura vasta. Muito além da cultura do Islã. Cultura de cada uma de suas etnias, afinal, não são só os árabes os povos muçulmanos, não são só árabes os povos do Oriente Médio, tampouco os árabes são exclusivamente muçulmanos. Existem, por exemplo, muitos judeus árabes nascidos em Israel.

O que está em jogo no terrorismo não é a religião. É simplesmente uma questão de poder. No fim sempre é. Deus, Alá, Jesus, Moisés são apenas desculpas. Diga-se de passagem, desculpas que não são aceitas pela grande maioria dos muçulmanos.

Aliás, quem me disse que os terroristas são os verdadeiros caricaturistas do islã, foi uma jovem muçulmana, com curso superior, que se vestia como uma ocidental, mas que frequenta a mesquita e ora por Alá. Durante uma conversa sobre ocidente e oriente, da qual nunca esquecerei, ela disse, em inglês, as seguintes palavras

"You know we are who most suffer from those terrorists. A little group of people makes you create a horrible stereotype of us. It is incredible how you let this little group be our image to the world...”

“Sabe, nós somos quem mais sofre com esses terroristas. Um pequeno grupo de pessoas fazem vocês criarem um estereótipo da gente. É incrível como vocês deixam esse pequeno grupo ser nossa imagem para o mundo”.

Daquele dia em diante nunca mais deixei.


Lembrei dessa conversa quando vi uma notícia de uma muçulmana apedrejada em São Paulo e pensei: realmente não é o Charlie Hebdo ou qualquer outro jornal o caricaturista de Alá.



PS: Se um simples texto tem espaço para tanta coisa diferente, não é no mundo que o espaço vai faltar.

segunda-feira, 26 de janeiro de 2015

As Chibatas

Aqui, agoniado, estou preso.
Um lugar fechado, cuja luz do sol quase não entra e meu único consolo é o ar condicionado.
Com o mundo me comunico pelo computador.
Aqui está cheio de gente, mas é como se não houvesse ninguém.
Olho para todos e todos continuam olhando para a tela, tão agoniados quanto eu.

Não existem aqui objetivos ou metas. Só as horas.
Antes de 9, nada posso fazer. Depois de que ele marca às 19, tenho de interromper.
Não posso fazer nada fora desse tempo, fora desse lugar. Mesmo que, durante todo esse tempo, só consiga, efetivamente, aproveitar um quarto.
Mas não vendo trabalho, não vendo concentração. Vendo o tempo. Vendo porque me obrigam a vender.

Enquanto isso, nessa senzala moderna, ele me vigia.
Fico olhando para eles
Eles olhando para mim.
São vários deles. Carrego-o comigo em meu pulso, enquanto olho para outro na parede e um em minha tela.
Estão todos sincronizados, mas sigo conferindo-os todo o tempo.
O tempo custa a passar, o tempo que vendi, quase de graça, o tempo que não recupero, o tempo que eu desperdicei.

Continuo aqui, olhando para o nada. Sou um escravo.
Mas o senhores agora não são senhores de terra. São senhores do tempo.
E o controle não é mais a chibata.
É o relógio.
Não posso fazer fora de sua determinação.  
Não posso sair do lugar fora de suas ordens e limites.

Maldito relógio.
Malditas horas desperdiçadas.
Em pensar que, em metade deste tempo, poderia fazer tudo muito melhor.
Mas o senhor não senhor do meu trabalho, é senhor do meu tempo.

Os ponteiros do relógio giram, em um tic-tac assombroso e perturbador.
Um som misturando aos de vários e vários dedos digitando, centrados em suas telas, concentrados em seus fones.
Quão barato é o tempo... O bem mais precioso, o bem mais barato...

Não é mais a força, produtividade ou capacidade que determina o valor do escravo.
Seu valor é determinado por quanto tempo ele tem disponível.
Enquanto isso, a vida passa lá fora.

E seu tempo passa com ela. 

segunda-feira, 12 de janeiro de 2015

O Sol e a Peneira

O mês de Janeiro é especial para todos nós. Todos os “Is” cobrados pelo governo aparecem de uma vez, logo no primeiro mês do ano, para acabar com o nosso orçamento. Sinto, ainda, como todo microempresário, ter um sócio a mais, chamado Governo Federal. Todos nós temos este sócio em nossas vidas, por conta da carga tributária brasileira. Dizem, e não duvido, trabalhamos três meses apenas para pagar imposto. Algo inimaginável em um país como o Brasil. Por conta disso, e há anos escutamos a mesma proposta de todos os políticos, todos clamam pela reforma tributária. Entra ano e sai ano e é a mesma história, que, obviamente, nunca sai do lugar.

Na maioria dos países do mundo a lógica é simples. Países com muito tributos em geral proporciona qualidade de vida alta aos seus habitantes através de serviços públicos. Países com carga tributária mais baixa, por sua vez, exige das pessoas que elas gastem seu próprio dinheiro para isso. Óbvio. Se o governo arrecada muito, por conseguinte, tem condições de oferecer serviços públicos de qualidade e gratuitos à população. Os que arrecadam pouco, por sua vez, aliviam o bolso das pessoas, tirando-as o imposto e deixa o povo com mais dinheiro na mão, assim, embora não possa prover serviços tão bons, proporciona à população condição de sobra para pagar por seus serviços e ainda ter dinheiro.

O grande vilão, então, analisando friamente, não são, necessariamente, os impostos. Em países como o Canadá e os escandinavos, a carga tributária é alta, mas todos vivem bem. Afinal, embora paguem muito ao governo, não precisam pagar plano de saúde, escola, pedágio, nem gastar fortunas com segurança domiciliar. O dinheiro pago ao governo é retornado em benefícios. Assim, todo o dinheiro que sobra é gasto ao bel prazer do contribuinte.

Não menos razoável é a política de países com carga tributária bem menor, mas com serviços públicos muito menos eficientes. Assim, o dinheiro não gasto com imposto se transforma em gasto com alguns dos serviços que poderiam ser providos pelo Estado, entretanto, com uma quantidade de dinheiro bem maior, ainda sobra para os gastos pessoais. Há uma equivalência simples entre os sistemas

Mas no Brasil, para variar, o caso é um tanto quanto diferenciado. Pagamos fortunas para não ter o retorno. Não ligaria de pagar os impostos se não precisasse gastar com plano de saúde, seguro de carro, pedágio e todos os outros serviços idealizados por nossa Constituição. Mas não é isso o que acontece. O dinheiro que “investimos” compulsoriamente no Estado se transforma em aumento e reajustes salariais dos parlamentares, em propinas e corrupção.

Acabar com os tributos e transformá-los nos grandes vilões é tapar o sol com a peneira. Com menos tributos, e menos serviços, pouca coisa mudaria. Afinal, aqui temos os "poréns" dos dois sistemas supracitados, sem os benefícios. Pagamos imposto e os serviços particulares. O verdadeiro ponto é transformar os tributos em prestação de serviços de qualidade ao povo ou acabar de vez com tudo. J

Justamente, por isso não teremos reforma tributária. Os politícios, vão, óbvio, sempre justificar os impostos com os custos do Estado e mais um monte de questões da economia mundial,   entretanto, o que é verdadeiramente custeado pelos nossos impostos é a boa vida dos políticos, partidos e aspones, não importa o partido.


Óbvio, e não como discutir, a Reforma Tributária é fundamental e necessária; entretanto, a principal reivindicação não é clamar pelo fim dos impostos. Esta é só a peneira para o nosso sol. Sol chamado corrupção. Por isso, antes de clamar fervorosamente pela reforma, é essencial  exigir que esse dinheiro que investimos através de impostos nos seja retornado em serviços.