segunda-feira, 15 de fevereiro de 2016

Politicamente chato

O processo já foi mais lento e mais gradual, mas, atualmente, está cada vez mais rápido, escancarado e insuportável: estamos virando um país politicamente chato. Primeiro foi o humor, agora o carnaval. Se antes havia uma linha tênue, difícil de se enxergar, entre o mau gosto e a diversão, hoje essa linha está cada vez mais apagada, uma vez que, a priori, tudo virou mau gosto, tudo sempre levado pelo lado ruim. 

Em pleno carnaval, as redes sociais efervesciam e repercutiam comentários político-partidários - nojentos em via de regra -, fantasia dos outros e falso moralismo. Era carnaval! Carnaval! A linha tênue, antes entre mau gosto e diversão deslocou: a nova divisão está entre ser consciente e ser depressivo, eterno insatisfeito. 

Um dos comentários mais replicados entre os depressivos politicamente chatos dizia respeito à quantidade de pessoas nas ruas para festa, em relação à quantidade de pessoas nas ruas em manifestações pedindo, por exemplo, saúde e educação. 

Por partes: quer dizer, então, que, como não temos saúde e educação de qualidade, já que o país é uma merda, eu não posso me divertir? Seguindo essa lógica, do dia que eu nasci até hoje eu nunca teria me divertido e provavelmente já teria pulado do prédio, porque, desde que me entendo por gente o Brasil é considerado uma merda. Pelo que eu entendi, além de não termos serviços públicos de qualidade, temos também que nos privar de diversão? Da válvula de escape do dia-a-dia macabro? Se formos nos divertir só depois que o consertarmos o Brasil, morreremos sem dar um sorriso, até porque, o ser humano nunca está satisfeito nem estará, é de sua natureza.

Isso para mim já é o suficiente para refutar tamanha bobagem replicada nas redes sociais, mas, o pior de tudo, é que essa afirmativa se trata de uma falácia, provavelmente de quem, com consciência pesada por não fazer nada para mudar o país, acha que vai mobilizar o mundo pelo Facebook. Ora, nos últimos tempos, bem ou mal, o Brasileiro foi às ruas. E, por milhões de motivos óbvios, a mobilização será invariavelmente menor do que a do carnaval. A mais simples das razões é o fato de no carnaval os objetivos de todos serem os mesmos. Quem vai à rua no carnaval, vai tão somente para se divertir. Os protestos, em geral, acabam tomando cunho político, partidário e algo facilmente manipulável como informação. Ora, podemos ter ideais políticos distintos, então por que vamos à mesma manifestação? Se eu sou contra a corrupção, a favor da saúde e da educação, mas contra o impeachment, por que iria em uma dessas manifestações em que toda a mídia vai generalizar as reivindicações? Não faz sentido. Ainda assim, reitero, ter problemas não nos retira o direito à diversão.

Outra manifestação risível foi o coro de algumas pessoas dizendo-se envergonhadas por viver em um país que não se pode amamentar em público, mas pode se mostrar os seios em fantasia de carnaval. Mais do que um falso moralismo, essa ideia é uma inversão de valor. Ora, não é vergonha. Pelo contrário, devíamos usar o exemplo do carnaval para sustentar o direito à amamentação em público. Se a sociedade se porta com naturalidade com relação aos seios ou mesmo aos trajes das mulheres no carnaval, isso quer dizer que esse comportamento deve e pode ser replicado no resto do ano. Não parece muito difícil de entender. 

Por fim, a mais ridícula das situações, o questionamento ao pai de uma criança com relação a fantasia do filho. Às vezes o preconceito está nos olhos de quem vê. A prova disso é simples: se o menino fosse loiro, haveria a mesma reação? Óbvio que não. Não há, em sã consciência, como imaginar naquela situação um pai querendo promover o preconceito contra o próprio filho. O que ficou claro é que as pessoas velam seus próprios preconceitos e os projetam nos outros.

Particularmente custei a entender a situação. Vou ser sincero, não me lembrava do macaquinho na história do Aladim. Quando vi a foto o meu primeiro pensamento foi de que o filho simplesmente replicou a fantasia do pai, um "Aladinzinho". Depois, quando entendi, vi o tanto que a maldade está na cabeça das pessoas. Quer dizer que uma fantasia, por exemplo, de gorila, macaco, ou qualquer coisa do tipo só pode ser usada se a pessoa não for negra? Bom tenho uma prima que adora subir em árvores, construções, tem uma habilidade ímpar para isso. O pai dele brinca que ela é uma “macaquinha”. Sério, a cor dela não interessa, mas pensando como essas pessoas, se ela for loira, nada demais. Se ela for negra, o pai tem que ser preso. Para mim fica claro que só viu preconceito naquela situação quem realmente associa negro ao macaco. 

Não precisamos nos culpar por nos divertir. Não temos que viver a vida cheio de amarras. As pessoas hoje são capazes de julgar à inteligência das outras até pelo programa de televisão que assistem. Não é porque sou graduado que tenho que passar meus momentos de descontração assistindo documentários no Discovery. Não é porque tenho um milhão de problemas que tenho que passar o carnaval chorando no Facebook. Precisamos ser mais leves, menos hipócritas e preocupar mais com as coisas que realmente são preocupantes e em seu momento. Hoje, cada vez mais, estamos vivendo (ou perdendo a vida) sob patrulha do politicamente correto, que, traduzindo para a minha língua, significa politicamente hipócrita. 

terça-feira, 19 de janeiro de 2016

O médico e o monstro

Não é a primeira nem será a última vez que alguém morrerá após uma cirurgia estética. Complicações cirúrgicas, erros médicos e quaisquer coisa do tipo sempre vão existir, elas até podem ser efetivamente minimizadas, mas não pode se garantir cem por cento de acerto sempre. 

Algumas medidas por parte dos pacientes e médicos são fundamentais para a minimização deste percentual. Uma delas, de fato, é saber escolher o seu cirurgião e sua clínica. Cirurgias baratas demais e clínicas clandestinas podem sair muito caro. Em geral, quando ouvimos casos como este da modelo, candidata a miss, tão repercutido, é o que acontece. 

Também de maneira genérica, em busca pela audiência, a mídia tende a colocar o médico e a cirurgias como responsáveis, antes mesmo de um laudo efetivo. Esse posicionamento vende muito mais. O que acontece é que nem sempre é assim. Quando médicos fazem recomendações pré e pós-operatórias eles as fazem por um motivo. Mas tem gente para quem a vida é menos importante do que a aparência, gente que, geralmente, pensa que nunca vai acontecer com ele. Não bastasse não seguir as recomendações médicas, muitas pessoas ainda burlam o pré-operatório, fraudando-o ou omitindo informações ao médico. 

Em qualquer site de clínica ou de cirurgião plástico minimamente sérios, você vai ler entre as recomendações pré-operatórias para evitar uma série de remédios, sobretudo os que afetam ao sistema circulatório. Nem um simples AAS deve ser consumido, e, em caso de gripe ou resfriado em até 48 horas antes da cirurgia, ela deve ser cancelada. 

Para tabagista a recomendação não fumar nos 40 dias anteriores e posteriores à cirurgia e, mesmo assim, fumantes têm uma chance bem maior de complicações. Além de todos os males ao coração, oxigenação do corpo e à circulação, fatores naturalmente prejudicados em uma cirurgia, ele atrapalha absurdamente a cicatrização.

Bom sem isentar ao médico previamente, culpá-lo pela morte da modelo é como um bêbado culpar a azeitona pelo seu vômito após ingerir três litros de cachaça. Se medicamentos normais sofrem uma série de restrições, imagina anabolizantes veterinários? Imagina, então, alguém que faz uso desse tipo de medicamento e ainda fuma 3 maços de cigarro por dia. É uma bomba relógio no dia-a-dia, em uma mesa de cirurgia então... 

De fato, operar alguém com essas características, se você sabe delas, é assumir um grande risco. De toda forma, o médico é a azeitona nesse caso.





terça-feira, 8 de dezembro de 2015

Golpe de marketing

A política brasileira surpreende negativamente todos os dias. E não adianta culpar A ou B, discutindo idoneidade partidária ou qualquer coisa do tipo. Isso é tratar política como torcida de futebol, isso é burrice e é exatamente o que eles querem. Não é futebol e o que está em jogo aqui são nossas vidas. O problema é sistêmico, o defeito é na engrenagem, não importa os nomes, os dentes dessa engrenagem sempre serão os mesmos, os donos do poder não mudam. É idiotice não ver isso.

Seria cômico se não fosse trágico, mas o futuro da nação pode ser decidido por uma questão de marketing e desavença pessoal. Nada mais ridículo do que o Eduardo Cunha pedir o impeachment da Dilma. No dicionário da língua portuguesa isso é golpe. O golpe que o PMDB aplicava velado no início da crise, agora está escancarado. Os próprios partidos de oposição que acataram o pedido não contavam com esta carta, ao menos não neste momento.

Dizer que isso é golpe não é ser favorável ou apreciador do governo Dilma. Uma coisa não tem nenhuma relação com a outra. Este impeachment proposto pelo Eduardo Cunha é imoral, um verdadeiro atentado contra a democracia e a legalidade. A verdadeira razão pela qual ele fez, e isso está escancarado, é ofuscar sua própria cassação. Mergulhado em escândalos absurdos de corrupção, com milhões e milhões aparecendo misteriosamente nem sua conta na Suíça, a tática do Cunha é simples: tentar ser o herói. Ora, sua imagem extremamente manchada, após o PT se manifestar em favor a sua cassação, nada melhor para ele do que aparecer como o AntiDilma. É capaz de ter gente endeusando esse cara.

A única coisa que, não fosse o Brasil, teria um potencial construtivo nessa situação é o fato de ela elucidar o quão sistêmico é o problema. Afinal, os expoentes opostos não parecem ser de uma laia muito diferente, é como uma batalha de vilões, com ambos na berlinda. Talvez seja a prova mais cabal que não há certos e errados, nem que os esquemas de corrupção são criação do atual governo, o que, evidentemente, não lhe retira a responsabilidade de não ter combatido e ter se valido dele.

De toda sorte, é uma briga de demônios e, goste da Dilma ou não, o impeachment a esta altura não seria de nenhuma serventia. Obviamente se ficar provado algo que justifique sua destituição conforme a constituição prevê, ótimo que se faça. Entretanto um balão de ensaio como este simplesmente aumenta a instabilidade política e econômica do país, deixa o ambiente propenso a golpes, chuvas e trovoadas; desafia o Estado Democrático de Direito e, sobretudo, retira o foco de onde ele deveria estar: nas operações anticorrupção, inclusive na cassação do Cunha e na prisão do Delcídio. 

Isto posto, é deveras perturbador a hipótese do Eduardo Cunha, cuja credibilidade é negativa, ser considerado como herói por uns. E é esse o verdadeiro intuito deste processo, uma grande jogada de marketing do Eduardo Cunha. Nem a imprensa acreditou em critérios técnicos para decisão do presidente da câmara. O grande ponto, além da obviedade da motivação pessoal da atitude do Cunha, é justamente esse: qual a credibilidade deste senhor ao fazê-lo?

Nosso sistema é estruturalmente podre, uma guerra de poder e de interesses pessoais. A maior evidência disso é que ninguém parou para pensar em qual a linha sucessória no caso da queda da presidente, só pensam de maneira equivocada que ela é a personificação dos problemas e, portanto, sua queda a solução mágica para o mar de lama brasileiro. Ignoram solenemente que, o próprio Cunha, está nesta linha sucessória, embora não seja o primeiro, de toda forma, seu partido está em todos os níveis desta linha.

Para se ter ideia do tamanho da podridão, basta lembrar que, logo que os escândalos de Cunha começaram a pipocar na imprensa, o principal candidato a salvador da pátria, disse que ser favorável da destituição de Cunha do cargo de presidente da câmara, mas veementemente contra sua cassação. 

A destituição da presidente como solução dos problemas é mera ilusão. Boa ou má, sua saída não é nem o primeiro passo. A mudança tem de ser estrutural e esse espetáculo midiático é simplesmente uma arma, uma distração temporária e, no caso do Eduardo Cunha, uma estratégia de marketing, a esperança de passar de vilão à herói.

sexta-feira, 27 de novembro de 2015

Marilama

Acredite se quiser, mas, bem provavelmente, em alguns escritórios pelo mundo os atentados de Paris estão sendo comemorados até hoje. Afinal, não fosse o foco desviado à tragédia de Paris, a catástrofe de Mariana teria uma repercussão muito maior no mundo inteiro, inclusive no Brasil. Sorte da Samarco e seus executivos mundo afora, pois, com o rebuliço mundial em torno do Estado Islâmico, demorou quase um mês e a lama chegar ao oceano para a ONU se pronunciar e classificar a tragédia mineira como um dos 5 maiores desastres ambientais da história.

O mundo não via, nós também não. Aliás ainda não vemos. O poder econômico das mineradoras sobre os políticos através do financiamento de campanhas (de todos os partidos) e sobre a mídia através dos gastos astronômicos com a publicidade impedem que tenhamos uma informação verdadeiramente acurada sobre o tamanho da desgraça. Quem assiste televisão não tem noção da realidade, sobretudo em Governador Valadares. 

Quem mora em Valadares e teve a possibilidade de se refugiar em BH o fez prontamente. E a palavra é essa mesmo: refugiar. Conversando com alguns dos "refugiados", além de alguns depoimentos que alguns davam às rádios, ao vivo, é que a a realidade fica minimamente perceptível. Uma cidade de 260 mil habitantes, sede de um campus de Universidade Federal, simplesmente parou. E não foi simplesmente parar, foi parar em estado de guerra, literalmente.

As cenas reais são muito similares às cenas de pós-guerra na África. Algumas situações relatadas e que ninguém mostrou são surpreendentes. Houve, por exemplo, tiroteio por conta de água. Aliás, toda a água que chegava à cidade precisou ser escoltada pelo exército. Uma moradora relatou que, em um bairro de classe média, em um estacionamento de supermercado, ela foi assaltada a mão armada. Não levaram dinheiro, nem celular, nem joias. Simplesmente roubaram as garrafas de água que ela havia comprado para estocar. Não bastasse esses absurdos, empresários locais estão vendendo 500 ml de água à pelo menos R$7,00.

E aqui estamos falando tão somente de uma cidade e somente da questão do abastecimento de água. Não sei se as pessoas têm a dimensão do que é matar – a palavra é essa mesmo – um rio inteiro. Não são apenas peixes, plantas e solo. Imagina quantas pessoas vivem, ou viviam desse rio? Quantas pessoas bebiam água desse rio? Sem comentar nas comunidades inteiras destruídas e nos danos ao oceano. Óbvio que o rio já sofria com homem, mas, dessa vez o golpe foi fatal. Não pensem também que é chegar no mar e a natureza simplesmente se recupera. Não é tão simples assim. Essa recuperação não tem nem previsão, neste caso é começar do zero o que demorou anos e mais anos para ser construído. O Rio Doce morreu e seu renascimento é algo para as próximas gerações, talvez meus bisnetos. 

Nem a capacidade de regeneração do mar é grande o suficiente para reparar esses estragos assim de cara. O pior de tudo é que essa lama foi para uma área de mangue, o berçário do mar. Ao menos a população e os ambientalistas tiveram um certo tempo para retirar o maior número possível de espécies do local. Para se ter uma ideia, pelo menos 300 km do litoral do Espírito Santo foi comprometido, impróprio para o turismo e para a vida marinha. 

Cálculos apontaram que se o vazamento fosse para o lado oposto, o mar de lama teria destruído Mariana, Ouro Preto e grande parte de Belo Horizonte. Não se esqueçam que não é apenas lama. É uma lama extremamente tóxica, contaminada com metal pesado. Por onde ela passa, deixa um rastro de morte e desoxigenação.

Ambiental, social e economicamente os prejuízos são inestimáveis e não chega perto dos 1 bilhão 250 milhões ventilados na imprensa. Isso, aliás, para uma mineradora, não é troco de supermercado. Deve ser, mais ou menos, o gasto deles com apoio às eleições e publicidade. Hoje, passado o frisson maior dos atentados à Paris, a tragédia de Mariana repercute mais no exterior do que aqui. A 5ª maior catástrofe ambiental não é pouca coisa e não deixam que tenhamos a noção disso.

quarta-feira, 18 de novembro de 2015

Agora é Guerra?

Alá é a palavra árabe para Deus. Assim como em inglês se diz God. Assim um cristão árabe, eles existem e são numerosos, também louvam a Alá. Aliás, a maioria dos muçulmanos nem árabes são. De toda forma, há tempos estamos assistindo de camarote às atrocidades do Estado Islâmico em nome de Deus. Verdadeiros absurdos, sem fundamentação, sem lógica. Uma lavagem cerebral insana, que distorce os valores muçulmanos e atuam muito na disseminação do preconceito contra o islã e contra os árabes, e vi isso de perto, de dentro de um país árabe de maioria de muçulmana.

O mundo assistiu o Estado Islâmico crescer e, querendo ou não, pouco se fez efetivamente contra ele. Esse grupo terrorista atua contra todo o mundo, não só contra as religiões, não só contra inocentes. Ele atenta contra o islã, contra o cristianismo, contra o judaísmo, contra o ateísmo, contra a história do mundo, contra a cultura. Todos vimos, embasbacados, quando os imbecis destruíram sem a menor razão artefatos e monumentos históricos milenares no Iraque. 

Mas uma coisa é fato: contra o dinheiro e o capitalismo eles não têm nada. Aliás, não há como falar no Estado Islâmico e pensar só em religião quando falamos neste assunto. Os fatores religiosos, somados aos problemas socioeconômicos europeus, atingindo sobretudo os jovens de origem não caucasiana servem somente de estímulo para recrutamento.

O Estado Islâmico se instalou em uma região estratégica econômica e geograficamente. No norte da Síria, próximo à fronteira com a Turquia, porta de entrada para a Europa. Além do mais, uma região riquíssima em petróleo. Esse petróleo é vendido e financia toda a milionária estrutura do grupo. Neste aspecto, já temos dois pontos interessantes. Existe alguém que compra esse petróleo e alguém que vende armas e suprimentos.

Aliás, o aspecto econômico sempre sobrepuja “os verdadeiros ideais” do grupo. Voltando aos monumentos destruídos no Iraque, vale ressaltar que uma parte das estátuas foram conservadas e vendidas ao museu de Londres, que admitiu a compra, afinal, as obras foram tratadas como reféns de um sequestro. 

Vamos ao ocidente. Nada no planeta é tão eficaz para livrar o mundo de uma crise econômica do que uma guerra. A guerra faz a economia girar em todos os sentidos. A indústria bélica gera empregos diretos e indiretos, além da criação de infraestrutura, construção civil... 

Teorias da conspiração à parte, as últimas guerras e atuações dos Estados Unidos sempre foram em períodos de crises econômicas globais. Agora, vamos à alguns fatos. Qual a real efetividade ao combate do Estado Islâmico até então? Ora, uma repórter chegou ao coração do Estado Islâmico. Mostrou ao mundo como funciona. Não bastasse, todas as vezes em que se mostram os perfis públicos, repito, públicos, em redes sociais dos terroristas, suas fotos de capa e perfil são verdadeiras confissões. Não é possível que não há como monitorar essas pessoas. Aliás, a França admitiu que o Iraque havia avisado sobre o atentado. Não acho que tenham deixado de propósito, mas porque não dar o mínimo de crédito? 

Enfim, voltando aos combates pouco efetivos, ano passado esses retardados decapitaram 20 cidadãos egípcios participantes de uma seita católica local. Em retaliação, o Egito, enfatizo, Egito, que não tem nada de superpotência, em um ataque noturno surpresa, que durou cerca de 4 horas, destruiu cerca de 20% de todo o poderio bélico do Estado Islâmico. Se o Egito foi capaz de destruir 20% do poderio do Estado Islâmico em um único ataque de 4 horas, o que seriam capazes de fazer as superpotências?

No primeiro ataque francês, a capital do Estado Islâmico foi arrasada a ponto de os principais líderes estarem em fuga para o Iraque. Isso tudo apenas com ataques aéreos. Imagina o resultado de um front conjunto tendo como base terrestre Israel, Egito e Turquia? Não precisa ser estrategista militar para chegar a essa conclusão.

Faltava um motivo. Um motivo suficientemente grande para comover ao mundo todo e começar a guerra e destruir o Estado Islâmico de uma vez por todas, ou o suficiente para que ele não se reestruture até a próxima crise econômica. O motivo está aí, a publicidade pronta. Agora é só começar a Guerra. Aliás, para que fique claro, sou totalmente a favor dela, a questão é: precisava esperar tanto? Precisávamos assistir o crescimento deles assim? Bom, mas assim foi em todo o século XX. O mundo assistia a ascensão de seus vilões para depois derrota-los... Ou seriam todos vilões? 

Enfim, o que aconteceu em Paris foi inadmissível. Sangue inocente derramado e a instauração geral e irrestrita do preconceito. A hora é agora, e que seja questão de tempo até o tal Estado Islâmico ser varrido do mapa. 

#JeSuisParis



sexta-feira, 13 de novembro de 2015

Uma cerveja com o Papa

Já cansei de elogiar o Papa Francisco. E, seja lá qual for sua religião, se você for minimamente racional, também terá uma certa admiração por ele. Ele me faz lembrar aqueles caras da Teologia da Libertação. Um cara tão moderno, tão atual, que incomoda a Igreja e seus valores conservadores milenares e hipócritas. Aliás, valores não só católicos como Cristãos. 

Imagino eu que a razão pela qual o papa resiste à frente da Igrjea mesmo com tanta gente dos bastidores do Vaticano querendo o seu pescoço é o fato dessa sua personalidade, atual e progressista, ter sido a redenção dos católicos. Afinal, enfim perceberam que a religião só se propaga pelo medo ou pela adaptação à contemporaneidade. O papa escolheu a segunda, até porque, graças à Deus (com o perdão da ironia) o catolicismo perdeu esse poder do medo e da escravidão mental usada por tantas outras igrejas cristãs.

E se eu já era fã do Chico Argentino, de uns tempos para cá, analisando seu histórico no papado cheguei à conclusão que gostaria muito de sentar com ele em um boteco para tomar uma e conversar. Assuntos variados, passando da política, pela religião ao futebol 

Só para recapitular, estamos falando do papa que teve a coragem de dizer que “o Papa é argentino, mas Deus é brasileiro”. Esse mesmo papa disse que não é ninguém para jugar a sexualidade alheia, tampouco para impedir que essas pessoas se aproximem de Deus. Ainda, com ousadia ímpar, interpelou o entrevistador que perguntou sobre a homossexualidade com uma colocação simples: “se seguirmos ao pé da letra, mesmo o ato sexual de um casal heterossexual que ainda não celebrou matrimônio é pecado e nem por isso se proíbem namorados de irem à igreja.

Não para por aí. Como não respeitar um cara que, mesmo representando a instituição que representa, disse que os jovens precisam contestar, e que uma juventude que não contesta não é contraproducente à sociedade. Sem contar nas inúmeras críticas à própria igreja e algumas de suas atitudes. Inclusive ele disse até que sonhava em termos em breve uma papisa a frente do Vaticano.

Mas foram as interpretações lúcidas e racionais sobre os dogmas cristãos que me fizeram ter muita vontade de sentar em um boteco na mesa dele para trocar uma ideia. Ele simplesmente disse o óbvio. Que a teoria da evolução não é contraditória com a bíblia, até porque a passagem de Adão e Eva é uma metáfora. Aliás os judeus já sabem disso desde antes de Cristo. Bem como o inferno, que, segundo o Papa, não existe. Para ele é uma mera representação metafórica com caráter moralizante. 

Em verdade ele disse o que todos os estudiosos da bíblia dizem: ela é um livro cheio de metáforas e interpretações, escritos há mais de mil anos em hebraico antigo, que sofreu mudanças ao longo do tempo, conforme interesses e mesmo traduções. Em suma, não é para ser levado ao pé da letra e tem, sim, que ser adequado à sociedade de hoje.

Ouvir isso de um Papa é realmente um fio de esperança no caos. Sério, Chico, a primeira garrafa é por minha conta. 



quarta-feira, 23 de setembro de 2015

O mundo caranguejo


O mundo ocidental está regredindo velozmente. Não fossemos nós, brasileiros, uns incompetentes acomodados, estaríamos diante da melhor oportunidade dos últimos cem anos para se tornar uma potência. Afinal, na crise, uns choram, outros vendem lenço. Mas somos incompetentes, burros e incoerentes demais para isso. Destarte, deixaremos o mundo aos orientais. 

Aqui no lado ocidental da coisa, poucos são os que, a sua maneira e condição, aproveitam a loucura do globo. O Uruguai, com seu tamanho diminuto, mas mente progressista; a Costa Rica que aprendeu a sustentar a sua saúde vendendo saúde para os americanos; os canadenses com suas políticas sustentáveis, ou os suíços que, sempre neutros, continuam à parte do mundo, são raros exemplos. 

Além destes e de algumas outras honrosas exceções, são os orientais quem estão atentos à esta oportunidade ímpar de ter para si o controle do globo, ou ao menos a independência financeira. Não é por acaso que dizem ser a China - cuja política econômica me enoja - a maior potência do mundo no futuro.


Mesmo os países orientais de cultura ocidental, casos da Austrália e Nova Zelândia, até pela posição geográfica, são os de postura mais independente ao caos do mundo centro-ocidental. Não é para menos. em poucas gerações a população de origem chinesa ultrapassará os ascendentes de europeus naqueles países. 


Voltando ao assunto, digo centro-ocidental, porque, neste caso específico, o oriente é bem extremo. Já que o chamado Oriente-médio, com suas fortunas em óleo, há muito são parte importante da engrenagem e loucuras ocidentais. 

Poderíamos estar tomando às rédeas da situação junto com os chineses, sul-coreanos e japoneses. A crise mundial está deixando o mundo ocidental perplexo e os orientais ricos. Crise, inclusive, que já ultrapassou às barreiras econômicas há tempos. Mas enquanto o mundo gira ao contrário, abrindo as portas aos espertos, nós brasileiros estamos resolvendo problemas internos que nem deveriam ter sido começados, resolvendo 500 anos em 5 meses.

Começando pelas Américas, enquanto Argentina e Brasil lutam contra sua própria incompetência, as tensões nas fronteiras  venezuelanas e colombianas e venezuelas e guianenses se acirram drasticamente sem sequer serem amplamente noticiadas. Alguns países de fora da América já exigem a intervenção Brasileira e Argentina para que a situação se controle. Segundo analistas, o desejo venezuelano por parte dos territórios desses países está tornando uma guerra iminente. Aqui não temos nem a noção da gravidade disso e o quanto isso iria nos ferrar. 

Os Estados Unidos, que em poucas gerações se tornará um país de maioria latina, além de todos os problemas sociais que sofre (acabo de ler que Los Angeles está em calamidade pública por conta dos sem casa), vive a expectativa das eleições no ano que vem. As tensões internas aumentam, sobretudo sobre questões étnicas na briga eterna entre republicanos e democratas. Sem contar no eterno risco de uma "eurização" da economia, uma vez que o Tio Sam não tem lastro para toda sua moeda. Não é a toa que a nota de dólar tem prazo de validade. 

Não bastasse isso tudo, a Casa Branca e o Pentagono estão preocupados (olha que retrocesso atroz) com a Rússia de Putin. Não faz muito tempo, o ministro do exterior dos Estados Unidos acusou a Rússia de subsidiar o governo sírio em suas atrocidades. Exigiram explicações. Parecem até os anos 1980. 

O Oriente Médio já é aquele caldeirão natural, que efervesce todos os dias desde a criação do estado israelense. Mas um golpe na economia local deve piorar as coisas: a queda vertiginosa do preço do barril de petróleo. Não bastasse isso, agora tem o famigerado (embora alguém esteja lucrando com isso) Estado Islâmico que, além de aterrorizar o norte da África e o Oriente Médio, dominou uma região importante de produção de petróleo, o que tem desequilibrado ainda mais o mercado.

A Europa está em crise. Econômica e política. Aliás, quando não esteve? Parece absurdo, mas o período de maior estabilidade na Europa deve ter sido na Guerra Fria, pelo medo talvez. Agora ela paga o preço pelos seus atos passados. O caos da África e o número de refugiados e imigrantes é consequência direta da interferência europeia no século XX. Hoje, ela não se move para resolver o problema, e agora tem que se virar com os refugiados que ela mesmo criou. 

O velho continente também é um caldeirão. Em épocas assim, historicamente, as questões xenofóbicas são postas à mesa, o povo se divide. Assim foi no período entre-guerras e assim sempre será em um território marcado por rivalidades milenares. 

Atualmente, sobretudo os países do leste, vivem essa maré xenofóbica. Afinal, a extrema direita, extremos em geral, invariavelemte reverberam em países mais pobres. E eles, os primos pobres da Europa queriam o dinheiro que pode ser destinado aos refugiados para arrumar o colapso em suas economias destruidas e mal estruturadas. Ora, basta ver o colapso grego e a imbecil cinegrafista hungára. 

Por essas e outras, a imigração na Europa já está em patamares insustentáveis. As razões são óbvias. O Velho Continente é Velho! A estrutura social está montada. A posição geográfica é perfeita, perto de tudo, o verdadeiro centro do mundo. Por fim, os europeus dominaram todo o mundo ocidental. Ou seja, lá vai ter algum lugar lá em que falam a sua língua. Mais que isso, vai ter um lugar em que nós colonos entedemos com uma relação especial, uma relação patrícia quase paternal. Basta perceber que não ouvimos tantos casos de imigrantes na escandinávia, que é, economica e socialmente quase que o paraíso. Ou notar para onde vão os imigrantes: Angolanos, Brasileiros, Cabo Verdianos, Moçambicanos e tantos outros em Portugal, os imigrantes da África branca na França, ou mesmo os egípcios na Itália. 

E como não é toda a Europa que está bem financeiramente, o fluxo de imigrantes se torna ainda mais complexo. Portugueses e Espanhóis, por exemplo, estão espalhados por todo o continente. Os ibéricos estão longe de estarem austeros como os alemães, por isso se espalham. O que acontece então? Pessoas de terceiro mundo, sobretudo das colônias, ocupam o espaço deixado por esses imigrantes. Os imigrantes do leste europeu também escolhem seus portos seguros, gregos, turcos e poloneses na Alemanha, ou os Albaneses na itália. É gente demais! Agora os refugiados. O sistema não aguenta, mas quem procura acha. Ação e reação.


Enquanto a Europa e os Estados Unidos quebram a cabeça para consertar o mundo ocidental (que eles mesmos estragaram), a China, o Japão e a Coreia do Sul aproveitam. Tornam-se potências cada vez maiores, cada vez mais incontroláveis e independentes. Afinal, se mantém à parte dessa loucura. Deixam aos ocidentais os problemas do Ocidente. 

E o Brasil? Com potencial, território, recurso e população que temos? Nós estamos parados no século XVIII. Nós disputamos e discutimos poder, debatemos entre os corruptos e os ladrões com passionalidade de uma torcida de futebol, ficamos entre os ruins e os piores ainda, nesse círculo vicioso de mais de 500 anos em que só ganham os políticos.