terça-feira, 22 de outubro de 2013

O Chico Argentino


Não sou religioso. Vivo em uma eterna agnose, tendendo a crer, talvez pelo simples conforto que a crença em Deus e em vida pós mortem trazem. Ainda assim, nesta perspectiva de crer em algo, não seguiria nenhuma religião. Não concordo com nenhuma delas, seus passados, suas índoles ou suas interpretações do que dizem ser Escrituras Sagradas. Preferiria ter uma espécie de religião própria, pautada muito mais em atos do que em fé. No entanto, devo admitir, provavelmente por tradição e cultura familiar, quando faço uma promessa, ou busco uma liturgia qualquer, por um motivo qualquer, acabo no catolicismo, no qual fui batizado e catequizado. Mas, reforço, não sou católico. Muitas das coisas que a Igreja Católica fez, faz ou prega me desagradam profundamente. Não obstante, creio ter sido inadmissível o financiamento público da presença do Papa no Brasil.

Isso é uma coisa. É inegável, porém, e qualquer ser humano independentemente de religião pode perceber, a importância do Papa como figura pública para o mundo. Suas opiniões importam e fazem diferença no planeta, de modo que ser Papa, quer você queira ou não, exige muita responsabilidade e consciência. Não tenho nenhum problema em criticar ou elogiar papas. O João Paulo II, por exemplo, foi, apesar de seus erros, um bom pontífice, que, inclusive, com muita felicidade, pediu desculpa por vários atos da Igreja durante sua história, como o apoio à escravidão ou ao nazismo. Não meço, no entanto, palavras para criticar o sucessor do papa polonês, o alemão Bento XVI. O papa alemão, que havia feito parte da SS de Hitler, é um homem extremamente conservador e atrasado no tempo, afinal havia cresceu em na Alemanha nazista e, querendo ou não, a cultura autoritária faz parte de sua história. Na PUC, me lembro, alguns alunos costumavam referi-lo como “Papa Nazi”. O alemão, com seu conservadorismo arcaico, estava ganhando antipatia das pessoas e, consequentemente, a Igreja Católica perdendo fiéis.

Parecia óbvio que o Papa Bento XVI não duraria muito em sua posição. A história mostra que as religiões e igrejas só se perpetuam no tempo, mediante às mudanças nas  sociedades, de duas formas: através do medo e força, ou se adaptando às mudanças sociais de cada época. A Igreja Católica, historicamente, desde os movimentos reformistas que a contestou, optou pela adaptação. Bento XVI era atemporal, um tiro no pé. Não que sua capacidade intelectual e cultural seja menor que às de seus sucessores e antecessores, óbvio que não. Diga-se, um seminário é um bombardeio de conhecimento, filosofia e leitura, em que a fé dos seminaristas é testada à toda prova, o que é facilmente perceptível em qualquer conversa ou mesmo declaração dos sacerdotes com relação à economia, política, filosofia. Não é surpreendente, pois, quando um pontífice como Francisco concede uma entrevista esclarecida, demonstrando conhecimento sobre economia e política.

Não esperem, porém, por mais progressista que um homem religioso possa ser, uma postura totalmente aberta. Afinal, ele se baseia em uma instituição milenar e conservadora que é a Igreja. Por outro lado, um Papa, um pontífice ou religioso qualquer, não precisa, nem deve, ser reacionário. E a história recente mostra isso. Em tempos de ditaduras sulamericanas, embora grande parte da Igreja fosse reacionária e de direita, uma parte da Igreja, progressista, era contra o regime, ajudando, e muito, a militância de esquerda – dita ateia - , com a bendita teologia da Libertação.  A Igreja é feita por homens e estes, não importa o grau da fé e de instrução têm suas predileções e ideologias, ainda que, muitas vezes, sua ética pessoal e institucional possam entrar em conflito. Com efeito, a Igreja Católica é uma prova evidente disso ao longo da história que as instituições efetivamente se perpetuam na história pelo medo ou a adaptação ao mundo, não sendo, necessariamente, pontos excludentes. Ser temente à Deus e à morte sempre foi um argumento extraordinário à favor das Igrejas, e continua sendo, não importando qual a religião.

Por outro lado, existe uma outra forma de se manter uma religião e uma Igreja, forma esta que a Igreja Católica tem, ao longo dos anos, mostrado, mesmo que timidamente, às vezes casado com o medo, outras apenas se adaptando, que é, na medida do possível, acompanhar a sociedade em que se insere. Da Contra Reforma aos dias de hoje esse é o expediente predileto da Igreja Católica. Não é um expediente fácil, sobretudo quando se trata de uma Instituição milenar que, por mais atual que seja, tem que manter algumas liturgias arcaicas para não perder a razão de ser, não adianta querer que seja diferente, aliás nem tem que ser assim, você segue se quiser. O contrário que é o problema. Certa vez, em uma aula de Direito, um professor fez a feliz comparação: “se a sociedade fosse um trem, a publicidade seria a locomotiva e o Direito seria o último vagão”. Isso porque a,  publicidade tem que estar atenta às expectativas da sociedade e fazer de tudo para acompanhá-las, enquanto o Direito, por conta da segurança jurídica, tem que esperar que tais mudanças sejam consolidadas. Entretanto, creio eu, há um vagão atrás do Direito e este é o da Religião. Em suma, devagar a Igreja Católica tenta adaptar-se à sociedade em que vive sem, por outro lado, perder os conservadores fiéis de outrora. Habilmente a Igreja faz isso, sobretudo, nas figuras papais.

João Paulo II, por exemplo, enfim, desculpou-se, em nome da Igreja, pelas atrocidades cometidas aos judeus, aos ameríndios e aos negros. Foi um bom Papa. E não importa qual a religião, a figura papal é importante e suas opiniões e atitudes têm relevância em âmbito global, entre católicos ou não. A igreja sabe disso. Mas, após o falecimento de João Paulo, a cúpula do Vaticano pareceu retroceder alguns séculos na história. Elegendo para o papado o alemão  extremamente conservador Bento XVI. Bento, que havia sido parte da famigerada SS nazista – o que, no tempo dele, faça-se justiça, era obrigatório aos jovens germânicos.  De toda sorte, o papa não se mostrava e certamente não era antisemita. O que não exclui o fato de ter sido criado em uma cultura extremamente conservadora, de ter seus conceitos formados em uma Alemanha dominada pela intolerância. Ele é um homem ultra conservador. A crise era questão de tempo. 

Questões financeiras, problemas de pedofilia, escandâlos e mais escândalos começaram a aparecer na Igreja Católica todos os dias. Como conservador que era, dificlmente se abririam os conceitos da Igreja, bem como a própria Instituição. Portanto, não era de se esperar algo diferente de um homem inteligente como o ex-papa alemão que não a renúncia. Ali, querendo ou não, salvou a igreja de perder alguns milhões de fiéis. Afinal, O conservadorismo extremo e a vanguarda são as únicas maneiras de uma Igreja ou religião se perpetuar durante a história, muito mais do que a própria fé. As igrejas conservadoras obrigam seus fiéis  professarem a fé, através do medo e do autoritarismo, sentimento que, de tão intrínseco, chega a gerar um ódio venal aos que não a professam. A alternativa é, sem negar suas raízes, se adaptar à atualidade. Essa a adaptação não é negar sua tradição, mas sim saber interpretar e analisar o mundo tal qual sua realidade.  Assim como foi com João Paulo II, o Vaticano deu um passo à frente neste sentido, com o papa Argentino, Francisco, que, em pouco tempo, se mostrou muito inteligente e perspicaz.

Francisco, o argentino, se mostrou um papa do povo. Apaixonado por futebol, simples, pregou a simplicidade e uma reformulação da Igreja. De maneira brilhante, pregou a simplicidade dos sacerdortes, ressaltando que eles têm de estar perto das pessoas. E falar somente foi pouco. Ele demonstrou com ações e escolhas. No Brasil,  por exemplo, não quis luxos, ou isolamento. Além disso, diferentemente da maioria dos sacerdotes, não fugiu aos temas polêmicos, nem mesmo os que envolve a Igreja. Papa Francisco admitiu as falhas da Igreja, não se esquivou ou escondeu os problemas de corrupção e escandâlos do Vaticano. Afinal, como ele mesmo enfatizou, a Igreja é uma Instituição composta por seres humanos, que, como tal, são corrompíveis. Embora isso pareça óbvio, era essencial para a sustentação da popularidade da Igreja. O que me chamou a atenção mesmo é como o argentino se mostrou desinibido com assuntos espinhosos e, sobretudo, como ele, o líder da Igreja, não é tão fanático como seus fiéis. Este Papa foi o primeiro que, sem menor restrição e com muito bom humor, “brincou” com Deus. Ora, até pouco tempo era inimaginável um Papa dizer que entrou em acordo com o Brasil, que “se o Papa é argentino, Deus é Brasileiro”.

Papa Francisco, em sua visita ao Brasil, bem como em suas entrevistas, sobretudo as concedidas dentro do avião, provou que a religião não precisa ser intolerante ou retrógrada. Os religiosos não precisam ser preconceituosos, até porque a religião não é preconceituosa, as pessoas são. A interpretação dos livros sagrados, sejam eles cristãos, judaicos, islãs, ou mesmo das religiões africanas, indígenas, bruxarias, satânicos, não são livres. A interpretação, infelizmente, está subordinada aos sacerdotes e Igrejas, que as faz da maneira que os convém. Diferentemente do comum, mesmo dentro do próprio Vaticano, o Papa não pregou a fé pelo medo, mas pelas ações. De fato é algo respeitável, independentemente do que você queira acreditar. Capsciosamente, um repórter perguntou ao Papa sobre a homosexualidade e a fé cristã entre eles. O Papa, sabiamente, respondeu que ter fé e frequentar a igreja é um direito deles, e que ele, Papa, não tem o direito de julgar a orientação sexual das pessoas. Não é papel da religião salvar ou abraçar o mundo, julgar as pessoas ou curá-las. Até porque, ao pé da letra do que se prega nas Igrejas, sexo que não seja com intuito reprodutivo é pecado, independentemente da orientação sexual. Parabéns ao Papa que entendeu, para o bem de sua Igreja, que seu papel é se aproximar das pessoas e confortá-las quando elas buscam. A Igreja não é tribunal para julgar as pessoas, nem hospital para curá-las. O problema delas é querer assumir a condição de representantes legítimas de Deus com poder de julgar o certo e o errado, o bem e o mal. Que o Papa seja exemplo, para o Vaticano e para as outras Igrejas. As pessoas escolhem seguir ou não uma religião. As religiões jamais podem escolher ser ou não a fé das pessoas. 

quinta-feira, 10 de outubro de 2013

A estátua da Liberdade


Liberdade é tão quista pelos homens que talvez seja o maior motivo de revoluções e revoltas na história da humanidade. Esta palavra, meio que sem significado quando desacompanhada, é tão importante que é a primeira – e talvez a mais cruel -  privação imposta à sociedade para quem está à margem dela. Liberdade de expressão, de ir e vir, de pensamento são todas compreensíveis e tangíveis. Mas a liberdade, em si, como conceito abstrato, esvaziada desses adjetivos, embora alguns afirmam existir e conhecer, é algo incompreensível e impensável.

A noção de liberdade, desadjetivada, ou acompanhadas de adjetivos tão abstratos quanto a própria liberdade, não existem, ou, se existem, são inatingíveis. Liberdade de espírito, alma, energia,  são apenas subterfúgios à realidade dura e cruel em que vivemos, ou melhor, a cruel e insignificante realidade da condição humana. Não somos livres, jamais seremos. Não existe Liberdade absoluta, não existe liberdade abstrata, a liberdade em sua totalidade é uma doce ilusão inventada para nos conformar com nossa condição, com nossa sociedade, enfim.

Até mesmo as liberdades concretas são limitadas, afinal vivemos em sociedade. Ainda que não vivêssemos  existem limites físicos e biológicos que nos restringem à liberdade. O universo é regido por regras e leis e o ser humano, do topo de sua arrogância, quer estar acima delas, para sentir essa tal liberdade, com a qual não estou familiarizado. Nascemos mais livres do que deveríamos, afinal, um dos pilares de nossa educação é a imposição de limites. Bem educados, domados, recrutados, temos as liberdades que precisamos, ou, ainda que não tenhamos, temos a capacidade de obtê-las. Somos livres para ir, embora encontremos limites no dinheiro, na insegurança, em outros fatores. Somos livres para nos expressar, ainda que esbarremos no limite da moral de outro. Somos livres para escolher, embora nos limitemos às opções, embora o próprio ato de escolher nos indica que não somos livres para ter tudo. Somos livres para pensar, ainda que estejamos preso no limite do imaginário.

Liberdade nada mais é do que uma estátua. 

quinta-feira, 18 de julho de 2013

Quero copa

Protestei. Fui à rua. Quero a melhora do país, dos serviços públicos e de tudo mais. Quero melhores salários aos professores, saúde e educação públicas de qualidade. Segurança. Quero ter retorno do dinheiro que pago ao governo em impostos. Quero tudo isso. Mas também quero a Copa do Mundo. Não da maneira que ela está sendo feita, é verdade, mas sim quero a Copa do Mundo de 2014 no Brasil. A questão a se refletir é o “como”. Os países “em desenvolvimento”, como Brasil, África do Sul, Rússia, ou qualquer outro que queira, pode e deve sediar eventos importantes, mas a sua maneira, dentro de suas condições, tradições e possibilidade. Não precisamos realizar a “melhor copa de todos os tempo” e ceder aos caprichos da FIFA. Precisaríamos, sim, realizar a “melhor copa possível na realidade brasileira”, como fez a Alemanha, país rico, mas que, diferentemente da África do Sul e do Brasil, não cedeu aos caprichos da FIFA e fez a Copa do Mundo da Alemanha, muito mais do que a Copa do Mundo na Alemanha.  Para isso, os germânicos simplesmente disseram NÃO aos desmandos da FIFA, Franz Backenbauer negou alterações na essência do Estádio Olímpico de Berlim, por exemplo. Por lá, os estádios que foram reformados não foram, como aqui, estuprados. Backenbauer, presidente do comitê local da Copa de 2006, assumiu a responsabilidade de fazer algumas melhorias, mas sem loucuras ou caprichos. Bateu no peito e disse: "ou é assim, ou vá procurar outro lugar". Simples assim. 

A Copa de 2014 não precisava ser uma ode à corrupção, com estádios superfaturados e fora do padrão que o torcedor brasileiro gosta. Era, sim, possível fazer uma excelente copa do mundo sem que essas sandices fossem feitas. Mas isso não quer dizer que sou contra o evento. Aliás, acho um evento muito interessante, em que se cria, caso seja feito da maneira correta, além de várias oportunidades de negócio e chances de investimento em infraestrutura, algo impagável e muito, mas muito, interessante: a chance de, por um mês, vivermos em um lugar cosmopolita, convivendo com pessoas do mundo inteiro pré-dispostas a serem receptivas, a conversar e trocar experiências. Já vivi isso em outras situações, em outros lugares e digo sem a menor sombra de dúvidas que é sensacional. Apesar disso, confesso, não fui entusiasta da candidatura do Brasil, tampouco vibrei com sua vitória, até mesmo porque tinha ideia de como seria, afinal, não caí de para quedas neste país. De toda sorte, cri, e ainda creio, que a Copa não é efetivamente um mal ou o mal, como muitos pintam.

No entanto, não é porque sou favorável à realização da Copa do Mundo, que eu sou favorável a fazê-la a qualquer custo, de qualquer forma,  ameaçando, inclusive, nossa soberania.  Primeiramente, ao contrário de muita gente que respeito, não sou, em absoluto, contra o investimento público em estádios. Em estádios públicos. Nem contra a existência de estádios públicos. Primeiramente porque, não há como negar, o futebol desempenha um papel social quase que essencial no Brasil. Até anteontem, antes da Copa, além do cemitério, o estádio era o único lugar em que existe verdadeiramente a isonomia. Lá, todos são iguais, não há hierarquia, classe social, nada. Além disso, as empresas públicas que administram estádios, se não têm lucro – o que eu, pessoalmente, duvido – pelo menos não têm prejuízo. Mas no Brasil nada funciona do jeito certo. Reconstruímos estádios públicos, com dinheiro público. Mas os entregamos de presente à iniciativa privada. Isso sim é uma afronta.

Afronta ainda maior é o fato de o governo investir em reformas de estádios privados. Não há justificativa plausível e convincente, por mais que tentem.  Não bastasse isso, talvez o maior absurdo, se bem que entre tantas sandices é difícil eleger a maior, foi literalmente construir um estádio para o Corinthians. Literalmente dar ao clube, cujo ex presidente é torcedor, um estádio de presente. Estádio que eu paguei. Estádio construído do zero, em detrimento ao Morumbi, alvo de retaliação da CBF pelo mal relacionamento com seu proprietário. O absurdo Estádio construído no meio do nada, sob a hipócrita desculpa de levar desenvolvimento à região de Itaquera, em São Paulo. Desenvolvimento que, segundo os moradores, não veio e não há sinais que virão. Isso é um disparate, uma ode à corrupção, algo inaceitável.

Ademais, sob a até justa égide de serem democráticos e espalhar a Copa por todo o Brasil os inescrupulosos políticos e as inescrupulosas CBF e FIFA criaram elefantes brancos absurdos, absolutamente desnecessários e, pior, com dinheiro público.Ora, levar à Copa ao norte do país, aproveitar o potencial turístico da Amazônia, perfeito, justo. Que se leve, então, a Copa para Belém do Pará, que tem dois times que lotam estádio e certamente manteriam a praça esportiva. Diga-se de passagem, existe um estádio no Pará que poderia muito bem ser reformado. De certo reformar o Mangueirão – moderno estádio olímpico -, seria muito mais barato do que um erguer um  megalomaníaco e inútil estádio Manaus. Estádio, lembremos, que comporta mais gente do que o público de todos os jogos do único campeonato disputado no Amazonas somados. O mesmo vale para Cuiabá e Brasília. Levar a Copa para o Centro Oeste, para próximo do Pantanal, novamente perfeito e justo. Entretanto, ao lado dessas cidades existe Goiânia, que tem três times médios, nas três primeiras divisões do campeonato, que levam um público razoável para o Serra Dourada, que, poderia muito bem ser reformado. Agora, outra coisa que só pode ser explicada como disparate, distúrbio mental de quem teve a ideia, estão forçando os times grandes a jogarem nessas praças esportivas inúteis, para ver se justifica o investimento. Não há nem como argumentar.

E não é só construir cada estádio a preço de cinco. É construir e reformar estádios de maneira que nem os mais tradicionais se pareçam com o público e o futebol brasileiro. Aliás, pagamos mas não poderemos usar, primeiro pelo preço, segundo pelos hábitos que nos querem forçar. Enquanto na Europa todos seguem o exemplo da Alemanha, fazendo o público do futebol voltar a ser público de futebol, aqui, na contramão da história, estamos transformando estádios em grandes teatros. Torcer sem camisa, pular nas arquibancadas, ficar de pé, bateria, isso é tradição do futebol brasileiro, e se querem a Copa aqui, assim deveria ser. Não queremos grandes óperas, não queremos pagar fortunas para assistir um jogo e, ainda por cima, não poder assistir à nossa maneira. Tirar pessoas de suas casas para cumprir exigências paranoicas da FIFA, torná-la presidente do Brasil, tornar-se escravo desta instituição são absurdos para os quais não existem adjetivos para descrever a repugnância. Isso tudo é verdade, isso tudo tem que ser revisto, mas, ainda assim, não sou contra à Copa do Mundo. 


Sou favorável a Copa do Mundo do Brasil e contra a Copa do Mundo meramente no Brasil. Se me perguntarem, ainda que alguns estragos já estejam feitos e sejam irreparáveis, creio que podemos transformar a Copa de 2014 na Copa do Brasil, basta querer. Primeiro, tem-se que tratar do geral. Retirar a FIFA da presidência da República, auditar todas as contas e obras relativas à Copa, parar todas as obras que tiverem que ser paradas (temos estádios suficientes) e regularizá-las, prender quem tem que ser preso, punir quem tem que ser punido, fechar os ralos de dinheiro, parar o investimento injustificado e sem retorno em obras privadas. Colocar ordem na casa. Isto posto, teremos tempos e recursos suficientes para fazer a Copa a nossa maneira, conforme nossa realidade, nossa cultura e com um preço justo.  Brigar contra a Copa do Mundo é, com todo respeito, eleger o inimigo errado. Ela acontecerá, e vai ser no Brasil, custe o que custar. Muitos dos estádios estão prontos, estuprados, é verdade, mas prontos. Suponhamos ainda que a FIFA go home como muitos querem. E aí? Será que alguém acredita que isso mudará a situação do país? Será que os olhos do mundo para os protestos brasileiros continuarão? Será que a revolta continuará? Será que alguém acredita que a maior vilã  pela situação do Brasil é mesmo a Copa do Mundo? A guerra é contra a corrupção, não contra a Copa. 

terça-feira, 9 de julho de 2013

Na Cara do Gol

Junho de 2013 é um marco. O marco do início de uma primavera de manifestações - ainda que no inverno - cujo ápice, muito sabidamente, foi a Copa das Confederações da FIFA. Uma primavera que esperamos resulte em mudanças significativas na história deste país. À despeito do comentário infeliz do igualmente infeliz presidente da FIFA, dizendo que futebol não era lugar para protesto, apesar de tentarem – e às vezes conseguirem- impedir que a platéia protestasse e até participantes da cerimônia de encerramento o fizessem, de nada adiantou. Os manifestantes do lado de fora, bem como os abusos da FIFA do lado de dentro, foram vistos pelo mundo. Além disso, não havia FIFA para conter as vaias à presidenta da República na abertura, e nem protocolo que a fizesse comparecer posteriormente em alguma outra partida.

As manifestações realmente foram sérias. A proporção chegou ao ponto da Rede Globo de televisão, um dos alvos de parte dos manifestantes, ter que mudar sua cobertura esportiva e até a linha editorial, já que, após o primeiro dia de protestos, nos chamando de trouxa, a “Vênus Platinada” da televisão brasileira tentou propagar todos os manifestantes como baderneiros e os policiais como heróis nos primeiros confrontos. Outros babacas de plantão tentaram entrar nessa onda, como o presidente da CBF, antigo apoiador da ditadura, e seu braço direito Marco Polo Del Nero, mandatário da FPF, que disse que éramos uma minoria de 1 milhão em uma população de 290 milhões e que não íamos atrapalhar. Foram obrigados a recuar e se calarem pouco depois. A Globo, já no dia 18, passou a cobrir os protestos com mais seriedade, chamando os vândalos de uma minoria em meio a manifestantes pacíficos. Os dois idiotas, pior espécime de cartola do futebol brasileiro, sumiram do mapa. Não havia como ser diferente, afinal, desta vez não eram só os grandes centros a protestar. Pessoas em todos estados e em cidades de todos os tamanhos, os lugares em que se ganham eleições e se tenta adestrar as pessoas, foram às ruas. Não era só a mídia (até porque as outras redes de comunicação, televisiva, radiofônica ou impressa não fizeram papel muito diferente da Globo) para nos informar. Tinha a Internet e as redes sociais, depoimentos de quem viu os ocorridos.

Em situações como esta, sobretudo nos primeiros manifestos, quase que inesperados, é meio inevitável que não se tenha algum confronto e que algumas pessoas se exaltem. Mas vimos, e falo porque vi pessoalmente quando fui à rua, vândalos em atuação. Mas vamos por partes. O primeiro ponto é simples, a polícia, em geral, realmente é despreparada e, por mais que muitas vezes eles não inciem o confronto, muitas vezes suas reações excedem e acaba sobrando para as pessoas de bem, que são sim facilmente identificáveis. É fácil ver que parte da reação policial é realmente uma “apelação”, e em vez de conter e se defender, os homens que deveriam manter a ordem, passam a atacar. Mas, como ressaltei, são homens. É possível, por outro lado, fazer a coisa bem feita, como parece que aconteceu em BH no jogo entre Brasil e Uruguai, em que os policiais foram muito mais comedidos do que no jogo anterior, Brasil e México. Isso em BH, porque em Fortaleza, um imbecil fardado chegou a disparar balas reais.  De qualquer forma, o planejamento só pode ser feito quando a manifestação é esperada, o que não era nos primeiros momentos. Além disso, os policiais são humanos e não são saco de pancadas. São mal pagos, em geral mal preparados e tão indignados quanto os manifestantes, o que, por outro lado, não justifica os abusos que aconteceram.

Mas existe uma outra parte da história. Um parte da manifestação que perde o controle e vira vandalismo, com lojas destruídas  patrimônio público destroçado, ataques à polícia, à manifestantes pacíficos e até furtos. Apesar de parecer algo simples e errado, esse fenômeno merece ser visto de maneira mais profunda, já que existem “vândalos”, “vândalos” e vândalos. É fato que tudo o que a imprensa, a classe política e os reacionários em geral querem – embora, vale ressaltar que o movimento brasileiro foi tão amplo que contemplou extrema esquerda e direita – são as cenas de vandalismo. Violência vende jornal, dá audiência e, sobretudo, faz com que o movimento perca apoio popular. Diante disso, e essa é uma tática antiquissíma, do tempo das ditaduras mais anciãs pessoas do poder, ou instituições, contratam, sim contratam, pessoas para se infiltrar nas manifestações e incitarem a confusão, a fim de fazer os movimentos perderem credibilidade. É óbvio que, com a adrenalina em alta, em grupo, diante de uma reação truculenta da polícia, vai ter gente que acaba se levando por essas pessoas e participando da bagunça.

Existem também os que tem algum respeito de minha parte, embora discorde de seus métodos e até de seus argumentos, mas que praticam atos de vandalismo por ideologia. Esses não atacam pessoas físicas, destroem empresas que acham estar contribuindo para estarmos na situação atual e acha que essa é a solução. Essas pessoas, porém, quebram tudo. Não saqueiam. Os que saqueiam, bom esses são vagabundos, ladrões, bandidos, que se aproveitam da situação, aproveitam de saber que ali poderão, desapercebidamente, roubar, saquear e praticar seus crimes. Ora, alguém que é contra uma empresa, certamente poderia se iriar a ponto destruí-la em um protesto. Jamais roubaria seus produtos, uma vez que defendem o boicote à eles. Duvido que os ladrões, que se aproveitaram da situação, saquearam bancos e lojas para distribuir aos pobres. São meros oportunistas. Quem foi às ruas sabe identificar os tipos, tanto os extremistas que vão para o combate, quanto os oportunistas fantasiados de extremistas. Em um sábado à tarde, calor de 30 graus, saímos em passeata do centro de BH ao Mineirão. No caminho, homens de jaquetas pesadas, provavelmente par diminuir o impacto das balas de borracha, moletons, capuzes e máscaras. Ao chegar ao ponto final da passeata, eles vão para cima da polícia, jogam pedras, coquetéis molotov e tudo o que puderem ver.  Quando a polícia reage, alguns desses bandidos, que estão preparados para as bombas de gás lacrimogênio, tentam no corre-corre, bater carteiras. Depois, em um cenário de guerra civil, começa o quebra-quebra e os saques. Não precisa ser gênio para notar que no meio deles são identificados radicais de extremistas, da direita e da esquerda, ultrapassados como poucos, pessoas pagas para estarem ali, seja por políticos seja por instituições e bandidos, que já têm extensa ficha criminal.

Esses são os marginais que tentam agredir à imprensa, de maneira ridícula, diga-se de passagem. Acho justo que se proteste contra os veículos de comunicação, aliás, devo dizer, acho injusto a concentração dos protestos somente contra a Globo, uma vez que a Record, sua principal rival, não é muito diferente. Bom, protestar e criticar Globo, Record, Band, Itatiaia, ou seja lá quem for é justo e legítimo. Ser idiota o suficiente de se recusar a dar entrevista a uma ou outra emissora é igualmente legítimo. Acho idiota porque não há melhor forma de aparecer criticando uma emissora do que no próprio veículo. Imagina você falando mal de A ou B na própria emissora ao vivo? Bom, mas isso é de cada um. Ilegítimo, ilegal e covarde é querer, à força, impedir o trabalho dos profissionais da mídia. Afinal, como os manifestantes eles são trabalhadores, têm famílias para sustentar e, posso garantir, não são responsáveis pelas linhas editoriais de suas emissoras. Vi profissionais sendo ameaçados de agressão e linchamento, coisa, ao meu ver de vândalo, porque se o lema é “Sem violência”  ele tem que valer para os dois lados, e os repórteres são pessoas físicas como qualquer um. Estão trabalhando, simplesmente. 

Quem clama por democracia não pode ser antidemocrático. Em nenhum sentido. Não só no vandalismo, condenável e absurdo, quanto em outra cenas tão esdrúxulas quanto. Uma militante de esquerda, com a camisa de um movimento ao qual não me referirei, para não dar ibope, questionou as pessoas que tiravam fotos com os policiais que, pacificamente acompanharam a passeata, inclusive tirando fotos e filmando, com o mesmo sentimento que todos nós, mas trabalhando, afinal eles têm famílias para sustentar. Ela agia, muito antes do conflito, como se a polícia fosse inimiga da sociedade. Se um dia ela for roubada, assaltada, ou coisa do tipo, gostaria de saber à quem ela vai recorrer. Outros idiotas, bem menos idiotas, mas tão paradoxais quanto, ficam defendendo boicote às marcas estrangeiras, como Coca-Cola e McDonalds. Aliás, quase nos obrigando a não consumir esses produtos. Duvido que nenhum deles foi ao McDonalds do centro, que estava lotado de manifestantes famintos. Duvido que algum deles deixe de tomar Coca, Brahma, Budweiser, patrocinadores da Copa. Pura hipocrisia. Até mesmo porque a maioria dos manifestantes não são radicais, nem de direita nem de esquerda, que se aproveitaram do movimento, embora seja legítimo que eles se manifestem. Até, por isso, acho absurdo alguém impedir a bandeira de algum partido participar. As bandeiras não querem dizer que o movimento é partidário e sim que aquele partido compactua das nossas reivindicações. Já diria Voltaire, “posso não concordar com as besteiras que você diz, mas defendo até a morte o seu direito de dizê-las”.


O movimento, legítimo e bonito, infelizmente abre a oportunidade para bandidos e vândalos. Parece e é óbvio. Até eu se fosse um ladrãozinho iria às manifestações. É fato que ao final das manifestações haveria confronto, até porque teria gente que tentaria transpor o bloqueio da polícia. Todos os manifestos tiveram confronto, era quase certo que uma confusão aconteceria. No meio da confusão é a oportunidade para os bandidos, a maioria já com passagem pela polícia, praticasse vandalismos e saques de maneira anônima, sem que fossem procurados posteriormente ou que, em atos isolados, ficassem em evidência. Até porque, não creio que algum dos estabelecimentos saqueados tenha aberto alguma ocorrência, exceto nos casos em que alguns sujeitos, que, além de bandidos, são burros, estavam com seus rostos à mostra e foram gravados por câmeras de segurança. A identificação de suspeitos no meio da manifestação é fácil, mas ninguém é criminoso por ser suspeito. Assim, as manifestações foram oportunidades para bandidos, políticos, vândalos e radicais. Reacionários e imprensa até tentaram usar isso ao seu favor, mas, ainda bem, o povo não é idiota. Quem esteve presente nas manifestações sabia perfeitamente que no meio dessa minoria tinham bandidos, radicais, bobos de plantão facilmente insufláveis e gente paga. Entretanto, finalmente, por conta da divulgação pelas redes sociais, contrariando a expectativa e o desejo dos políticos, isso não intimidou as pessoas de bem, as crianças, as famílias, os idosos de participarem e continuar participando. Os tempos, ainda bem, são outros.

quarta-feira, 3 de julho de 2013

Aos heróis, obrigado

Dia 17 de Junho de estive no Mineirão assistindo Taiti e Nigéria. Ganhei o ingresso. Jamais pagaria para assistir Taiti e Nigéria. Aliás, não pagaria para assistir nenhum jogo da Copa das Confederações ou da Copa do Mundo. O motivo não é financeiro, político ou ideológico. Não pago pelo simples motivo porque eu não gosto do futebol ópera da FIFA.  Não me canso de repetir que gosto do futebol e de estádios à la América do Sul, assistindo jogos em pé, pulando e gritando, com emoção e passionalidade, gosto do antigo Mineirão. Essa história de ver jogo sentadinho, só aplaudindo com lugar marcado, isso não é para mim. Inclusive sou contra as mudanças impostas ao Brasil pela FIFA, atual presidente da República, que chegou ao disparate de exigir o cancelamento das tradicionalíssimas festas juninas do nordeste. Não sou torcedor de Copa, desses que a Globo adora, que assiste futebol de quatro em quatro anos, cujos maiores ídolos são o Ronaldo e o Galvão Bueno. Eu sou daqueles que não suporta o nome Fuleco ao – até simpático e pertinente – Tatu-Bola mascote do mundial, ou os nomes Cafusa e Brazuka (com Z e K). Sou daqueles que se sentiram representados, como se aquelas mãos baianas também fossem minhas, quando as famigeradas Caixirolas foram arremessadas na grama da Fonte Nova, fazendo com que a FIFA acabassem com esta palhaçada. Se é para ter instrumento na Copa do Mundo do Brasil, que seja a bateria, ou não é a bateria que rege os jogos brasileiros?

Não sabia que não muito distante dali a história estava sendo feita. Uma história que eu cheguei à participar dias depois, mas que teve seu princípio no dia 17 de junho enquanto eu quase dormia dentro do Mineirão. Ninguém que foi às ruas teve a importância histórica sequer comparável aos heróis do dia 17. Aqueles precursores são os verdadeiros heróis. Por mais incertos que sejam os rumos dessa intifada popular, eles acordaram o Brasil, que precisava mesmo ser despertado. O jornalista esportivo Paulo Vinícius Coelho foi muito feliz ao dizer que vamos estudar o dia 17 de Junho de 2013. Eu tenho a mais absoluta certeza que nossos filhos e netos vão estudar esse momento histórico em nosso país. O movimento, que eclodiu após um aumento de vinte centavos na passagem de ônibus em São Paulo e tomou proporções nacionais após a reação exagerada da polícia paulista, é muito mais do que a cobrança por um transporte público barato ou de qualidade. Era simplesmente o protesto pelo descaso acumulado.

A última vez em que o brasileiro foi às ruas, em 1992, há 21 anos, com os Caras-Pintadas, foi para pedir o impeachment de Collor. Anos antes, o pedido era por Diretas,  depois de  uma sangrenta e longa luta contra o regime militar. Entretanto, apesar de serem movimentos legítimos, populares e apartidários, os Caras-Pintadas, As Diretas Já e as lutas contra a ditadura tiveram uma coisa que o movimento de 2013 (que deve ficar pra história como Revolta do Vinagre) não teve: um inimigo personificado. Desta vez o inimigo não tinha cara ou partido definidos. Não era um regime, uma pessoa ou uma proposta de revolução. Nada disso. O inimigo foram os 21 anos de descaso com a população brasileira por parte de todos os governos desde então. Não foram os 20 centavos. Aliás, ninguém reclamaria do aumento de 20 centavos, 1 real que fosse, se tivéssemos tido retorno do dinheiro que pagamos ao governo nas últimas duas décadas. Nesses últimos anos, tomando como marco o movimento dos "Cara-Pintada", nossa carga tributária aumentou absurdamente, entramos entre as 5 maiores economias do mundo, viramos credores internacionais, evoluímos para país emergente. Mas, pergunto, cadê o retorno? Esse dinheiro está indo para onde? Tivessem nos oferecido serviços púbicos de qualidade, não reclamaríamos dos aumentos. Vivemos, porém, em um país cada vez mais caro, mais rico e pior. Protestamos pelo fato de o poder legislativo, e finalmente percebemos que o principal buraco está lá, que eles são os verdadeiros comandantes do país, não ter feito nada desde a votação pelo impeachment do Collor. Ao menos nada em prol do Brasil. Aliás, nos últimos dias, acuado, fez mais do que nos últimos 21 anos. Não protestamos contra Lula, Dilma, FHC, Alckmin, Serra, Cabral, Anastasia, Paes, Aécio. Protestamos contra todos eles juntos, contra os partidos políticos brasileiros, sobretudo os dois maiores, que, além de serem exatamente iguais, em vez de proposta de país, lutam por proposta de poder.  Não há um vilão. Existem vários, os mesmos que, em tese, deveriam defender nossa Constituição, mas agem, há tempos, como se ela não existisse. É pedir demais que os governantes respeitem a nossa Constituição? Protestamos porque política no Brasil virou negócio, virou carreira (das boas) e, enquanto isso, nosso dinheiro vai sabe-se lá para onde. A questão é simples, estamos internamente muito aquém do que produzimos e da imagem que vendemos ao exterior. Não se trata de um país pobre que não tem condição de oferecer o mínimo de dignidade ao seu povo. Se trata de um país rico, mas cheio de ralos de dinheiro.

Assistíamos a isso passivamente até que os heróis do dia 17 de Junho saltaram do “deitado eternamente em berço esplêndido” ao “verás que um filho teu não foge a luta”.  Pobre dos políticos que acharam - como uma jornalista da Record - que a redução da passagem reduziria nossa indignação. Pobre daqueles que acham que vão se aproveitar eleitoreiramente deste momento histórico, personificando a culpa, jogando para seus adversários políticos e se eximindo de responsabilidade. Pobre daqueles que acham que esse é um momento transitório. Pobre dos que acham que o povo não aprendeu a reivindicar quando necessário. Pobre daqueles que acham que o futebol diminuirá nossa indignação. O povo cansou de ser feito de bobo e, após 21 anos sendo testados até o limite, acordamos, melhor fomos acordados. Surpreendentemente, em vários lugares do país, heróis foram às ruas reivindicar nossos direitos, iniciando um movimento popular que há tempos não se via por aqui. Nos testaram até o limite, o limite chegou. A bomba estourou, muito antes do que esperavam os políticos, muito depois do que deveria ter estourado.

Àqueles que estiveram nas ruas naquele 17 de Junho, precursores de um movimento histórico em nosso país, quiçá, uma  guinada histórica no destino Brasil, meu muito obrigado. O vandalismo, os rumos deste movimento, os desdobramentos, são assuntos para outra hora. Por ora, queria, tardiamente, agradecer aos heróis do dia 17 de Junho, que serão lembrados pelo nossos filhos, nossos netos e nossa história.

terça-feira, 26 de março de 2013

Qual será o problema?


Não moro em uma zona nobre de BH. Tampouco, moro em uma favela ou uma periferia violenta. Moro em um bairro de classe média, distante exatos 5 km da Praça Sete, o marco zero da cidade e 4,5 km da Lagoa da Pampulha. Meu bairro sempre foi tranquilo, conveniente, em que podemos fazer tudo a pé, tranquilamente.

Fiquei sabendo segunda que no sábado, mais ou menos na hora do almoço, há quatro quarteirões daqui, em uma rua movimentada, cheia de comércio, com sorveteria, lanchonetes, lojas de roupa, pet shops, em frente a uma padaria, um homem, não sei idade foi sumariamente executado por três bandidos. Não tenho a menor ideia do motivo, não foi um assalto, foi uma execução, talvez um playboy que devesse a um traficante, vai saber. De toda sorte, a violência está cada vez mais debaixo de nossos narizes.

E eu já tive muitas teorias sobre o tema, mas, cada dia mais estou deixando minhas teorias de lado para rever todos os meus conceitos. E estive pensando sobre essa invasora cada vez mais presente em nossas vidas. Continuo achando que a impunidade e o excesso dos Direitos Humanos em alguns casos são problemas sérios, acho que tem que acabar o quanto antes, isso seria um paliativo, sim. Mas o paliativo é necessário, já que as soluções em longo prazo tem um prazo muito longo pra quem vive hoje.

Me peguei perguntando a mim mesmo o que leva à maioria dos criminosos à bandidagem. Será que simplesmente a falta de oportundiade? Bom, é muito claro que existem pessoas com distúrbios sociais graves, que independentemente da condição social vão cometer crimes, claro. Mas e a maioria. Que o Brasil tem sérios problemas de educação é inegável, óbvio, até clichê. Será que é só isso? Tenho convivido com muita gente que diz como está difícil arrumar mão de obra qualificada. Outros, e uma vez que estive em um escritório do ministério do trabalho comprovei isso, procuram empregados independentemente da qualificação.

Pode ser, então, que embora a qualificação seja um problema sério, exista algo a mais. Algo está faltando. Existe emprego, mas não existe salário. Já vi acontecer com muita gente, abandonar o emprego porque o salário é baixo e sem pérspectiva de crescimento. Profissionais com nível superior não estão ganhando suficiente nem para se sustentar, imagina para sustentar a família.

Eis que surge uma oportunidade, no crime, arriscada, mas real de ganhar bem. Muito melhor do que em qualquer emprego. A sociedade em que vivemos exige isso da gente, ela desperta isso na gente, afinal, tudo pelo o que vivemos é dinheiro. A solução? Não faço a menor ideia, mas estou certo que alguma coisa tem que acontecer.


quinta-feira, 21 de março de 2013

Os limites do politicamente correto


Sinceramente eu acho essa história de politicamente correto um verdadeiro saco. Mas os limites entre o que é piada e o que é ofensivo tem que ficar bem claro para as pessoas. E algumas, pelo que vemos, até justificam essa imposição do "politicamente correto". É um saco, para nós, e para eles, tratar um cego como deficiente visual. É idiotice querer que eu não chame um amigo de mais de 20 anos de negão, como eu sempre chamei, para chamá-lo de afrodescendente. É hipócrita achar que eu não vou, numa conversa de bar ou em meio de amigos não chamar um ou outro de viado, independentemente de sua orientação sexual. Regular isso é politicamente chato.

O que os alunos da UFMG fizeram, porém, ultrapassa qualquer limite. Eu, que estudei na UFMG, pela primeira vez tive vergonha de ter estudado lá. E por mais que tentem justificar a barbárie noticiada no início desta semana como o “império do politicamente correto”, e ainda que forçando muito a barra ela possa ser válida no caso da Xica da Silva (não é, mas vamos por meio segundo fingir que seja), os gestos nazistas não se justificam. O pior é ver que tamanha estupidez, racista, machista e desrespeitosa vem logo da Faculdade de Direito.

E eu tive muta vergonha de ser cria de lá. Do primeiro grau à universidade, estudei na UFMG, tá certo que bem longe da Faculdade de Direito, que não fica no Campus Pampulha, mas, ainda assim. Os futuros juristas do nosso país, pessoas que em tese deviam garantir nossos direitos,  propagando valores tão abomináveis e se divertindo com isso. Lastimável. E espero, sinceramente, até porque nós, ex alunos, os atuais alunos, funcionários e professores não nos sentimos bem em ver essa palhaçada associada a uma instituição pela qual passamos e tivemos orgulho em fazê-lo.

E que a punição seja clara e pelos motivos certos, que são basicamente as atitudes preconceituosas  racistas, nazistas, que aqueles belos idiotas sorriam em fazer. Não sejamos hipócritas, o trote com sujeira e zoação sempre existiu e sempre existirá e a Instituição pode até fingir que não via e que não sabia. Mas a gente sabe que não era bem assim. Eu mesmo sofri e dei trote. Fui sujo e sujei, mas sem nenhuma ofensa pessoal ou atitude preconceituosa.

E que a punição exemplar se estenda ao professor que ofendeu de maneira racista um aluno. E lembrar que eu fui aluno daquela escola de primeiro grau, em pensar que eu sempre quis e sempre tive orgulho de estar na UFMG. Só espero que a Instituição mantenha esse sentimento na gente, que ela puna todos os envolvidos e que mostre seu posicionamento com relação a atitudes deploráveis como esta. Mais. Que este posicionamento, se assim for tomado, seja de exemplo para sociedade, pois não podemos aceitar esse tipo de coisa seja lá onde for.  E que para isso não seja preciso esse exagero do politicamente correto, que seja simplesmente fácil de entender que respeito é essencial.