terça-feira, 1 de julho de 2014

O Padrão FIFA

Como amante do futebol a Copa do Mundo está me agradando muito, em todos os sentidos. Os jogos estão bons, a ponto de eu refazer quase todos os meus horários para me adaptar ao mundial. Não consigo ver todas as partidas, óbvio, mas assisto todas que posso, ainda que desatento via streaming – apesar da lentidão. Além disso, acho extremamente legal o convívio com os estrangeiros pelas ruas. E, hei de confessar, hoje me arrependo de não ter comprado nenhum ingresso para os jogos da Copa por aqui.

Alegria e Copa do Mundo à parte, todos nós sabemos que a vida continua, mesmo durante o maior evento esportivo do mundo.  Pelo menos deveria continuar. Como disse, gosto de todo o clima da Copa, sei que ela é notícia, mas a mídia convencional viver em função disso é um exagero, um tanto quanto chato, diga-se. Aliás, antes de chegar  ao cerne da questão, vamos permear pelo “Pachequismo” insuportável das mídias convencionais e esportivas. O conteúdo das publicidades ufanistas – que eu já acho um saco, embora legítimo – parecem se transportar para o telejornal, que quase se torna uma CBF TV, mesmo sem ser um programas esportivos.

Às vezes até torço contra a seleção brasileira única e exclusivamente pela forma ufanista com a qual a imprensa trata o time da CBF. Mas esse talvez seja o menor dos males. A maior das loucuras é fazer da Copa do Mundo a única pauta de um país, mesmo nos jornais regionais. E é gritante, porque apresentar o jornal de maior audiência do país do centro de treinamento da seleção é, sem dúvida, um exagero absurdo. Se estiver acontecendo alguma coisa de importante no país ele está oculta, porque nada que seja Copa ganha espaço de mais de 30 segundos na televisão. Parece que o país, mesmo os bandidos, realmente parou para ver a Copa do Mundo. Ou então simplesmente não há o que se noticiar, ou todos os problemas foram resolvidos.

Existem vários prismas para se ver essa situação. O primeiro deles é que, ainda que exista uma displicência da imprensa, podemos dizer que o país da Copa realmente não é o país em que vivemos. O país padrão FIFA, o país para os turistas verem, é o país que eu gostaria de ver progressivamente todos os dias. E isso não é motivo para revolta, muito pelo contrário, é motivo de cobrança. A Copa é o exemplo de que com vontade, o caos aéreo, o transporte público e a segurança são possíveis é só querer. Outro ponto de vista, é que temos um bombardeio de notícias da Copa fora dos canais e programas esportivos. Por fim, se existe um país diferente do que vivemos na Copa, talvez exista uma imprensa diferente. Será que a falta de notícias no cotidiano faz com que a imprensa seja rotineiramente exagerada e sensacionalista?


Sinceramente, na minha modesta opinião todas as opções são verdadeiras. O país da Copa não existe, sendo que o Brasil padrão FIFA é bem mais organizado e seguro. A imprensa é omissa com relação ao que acontece no país, focando quase exclusivamente a Copa do Mundo. E fazem isso para cobrir uma lacuna que diariamente é coberta por sensacionalismos e notícias desnecessárias. 

quarta-feira, 18 de junho de 2014

Como a Copa mudou sua vida?

A Copa está aí. Ninguém verdadeiramente acreditou que ela não aconteceria, ou que seria transferida para outro lugar. Ninguém, representativamente, tinha esse desejo. Enfim. Desde 2007 temos a certeza da Copa e uma série de promessas de legados e melhorias fora feitas. Obras, superfaturadas ou não, úteis ou não, foram feitas. Consequentemente, óbvio, a vida de muitas pessoas foi mudada pela Copa, por isso, a pergunta: como a Copa mudou sua vida?

Primeiramente vamos às obras, que acontecem há muito. A primeira delas foi a reforma, ou reconstrução dos estádios de Belo Horizonte, Mineirão e Independência. Ficamos bastante tempo tendo que ir ver os jogos em Sete Lagoas,  o que, para mim, não era muito inconveniente, uma vez que meus pais tem um sítio próximo ao estádio. Tecnicamente, para os clubes mineiros, não foi tão bom, o que, apesar de parecer pouco, é um impacto considerável para mim, que sou torcedor fanático e assíduo de campo.

O Independência foi o primeiro estádio a ficar pronto e, com ele, a primeira mudança positiva. O estádio ficou muito bom, muito melhor que o anterior, mais agradável de ir do que era antes. Muito depois, a Arena Mineirão ficou pronta. A arena Mineirão ficou bonita, mas deixou de ser estádio de futebol. Gostava mais do estádio antigo, com cimento, divisão de torcidas, enfim, do velho futebol.

Junto às mudanças no estádio vieram as mudanças na cidade. Enquanto as obras aconteciam o trânsito ficou mais caótico do que o normal. O BRT, ou Move, no primeiro momento implantado na Antônio Carlos e Cristiano Machado mudou minha vida muito pouco. Moro longe dessas avenidas e, no primeiro momento, o único impacto que senti foi o aumento do fluxo da Avenida Catalão, que serviu de alternativa para os motoristas da Antônio Carlos. Passeando pela cidade vi que o fluxo da cidade piorou muito.

Inclusive gostaria muito de consegui compreender como pensam os engenheiros de trânsito da cidade. As pistas exclusivas para o Move, que retiraram os ônibus e táxis da pista central, aumentou exponencialmente o fluxo nas pistas laterais, aumentando, evidentemente, o trânsito. Não faz muito tempo, os tais Move chegaram próximo à mihna casa, nas duas avenidas que circundam o meu bairro. Ali, as avenidas que tinham três pístas livres, passaram a ter uma pista exclusiva para os ônibus. O trânsito, óbvio, triplicou e piorou muito, absurdamente.

Vamos à Copa. Moro próximo ao Mineirão, 4 km de distância. Nos dias dos jogos a avenida que dá acesso ao Mineirão fica fechada, mas, incrivelmente, e teste isso ontem, em dia de semana, o trânsito não ficou ruim. No jogo que aconteceu em um fim de semana, no entanto, tudo ficou insuportável. Mas não é só o trânsito que impactou a vida das pessoas na Copa. Como disse, moro perto do estádio, por isso, os lugares que frequento próximo de casa, como bares, shopping, a lagoa, está repleta de estrangeiros. O que é muito legal. Assisti à estreia do Brasil ao lado de uns colombianos na casa de uma amiga e o povo é bastante simpático. Para quem gosta de outras culturas, tem interesse em outros idiomas e em confratenizar, é muito bom.

O impacto negativo dos jogos no Mineirão é o fato de que o clube que frequento é em frente ao estádio e em três sábados seguidos não poderemos jogar o nosso futebolzinho sagrado, pois o perímetro estará fechado. Assisto todos os jogos que posso, como faço e faria em qualquer Copa do Mundo, mas, não vou ao Campo. Confesso que agora, vendo o estádio, me bate um arrependimento de não ter ido. Entretanto, lembro que na Copa das Confederações, para pessoas como eu, que não moram suficientemente perto para ir a pé e nem longe para ter disposição para ir ao centro pegar os ônibus da Fifa, foi péssimo. O ônibus, apesar de passar ao lado da minha casa, não faz nenhuma parada, de modo que ir ao estádio seria bastante penoso.


No frigir dos ovos, a Copa fez diferença na vida do Brasil, politica e economicamente. A cidade está cheia de hotéis, que antes eram raros, o comércio, principalmente ao redor do estádio, inclusive o shopping, estão comemorando. Entretanto, em âmbito particular, tenho que admitir a Copa não mudou absolutamente nada, pelo menos na minha. Seja sincero, no fim, em que a Copa mudou sua vida?

quarta-feira, 11 de junho de 2014

A marcha dos indiferentes

Em nenhum momento pensei diferente. Qualquer país, independentemente de sua condição econômica, pode sediar uma Copa do Mundo, dentro de suas limitações, óbvio. O Brasil não pode, evidentemente, querer fazer a Copa da Alemanha. Por isso, nunca fui contra a Copa do Mundo. Contudo, sempre fui contra a maneira que essa copa foi feita. Por isso, até creio não ser contraditório que quem vibrou em 2007 (não foi meu caso) reclamar em 2014, embora, conhecendo o país, fosse previsível que o evento virasse um terreno fértil à corrupção. Insisto, a maneira que essa Copa foi concebida é inadmissível. Os desmandos da FIFA, as exigências absurdas, os milhões e milhões desperdiçados, e a destruição do nosso futebol são inaceitáveis.

Ainda assim eu protestei e fui para as ruas, uma vez. Sabendo que isso não tiraria a Copa do Brasil e nem com desejo que isso acontecesse. A própria Copa foi quem deu a visibilidade às manifestações. Escrevi e continuo afirmando, que aqueles que foram às ruas espontaneamente no dia 17 de Junho de 2013 são meus heróis. Eles, sim, fizeram um movimento espontâneo, legítimo e bonito. Desde o dia que fui à rua, uma semana depois, contudo, vi que o dia 17 de Junho abriu as portas para oportunistas de todas as espécies. Oportunistas que hoje são a maioria do movimento. Não sei se com cunho partidário, mas certamente político, um grupo de pessoas que diz representar o povo, de maneira bem perspicaz aproveitou a oportunidade aberta pela insatisfação popular e levou o movimento, outrora popular, para algo, que ao meu ver, beira o fascismo. Um movimento de extrema direita.

Essas pessoas, que criaram um movimento dizendo que não haveria copa, mesmo sabendo que ela vai acontecer e sem nenhum respaldo popular, tiraram da rua muita gente que gostaria de protestar de maneira mais efusiva. Não por medo da violência, pois realmente creio que não se tem vitória política sem causar problemas, e que, às vezes, fatalmente, episódios violentos vão acontecer. Eles nos tiraram da rua porque não se identificam com o povo. Como disse um coronel da Polícia Militar, esse movimento é esquizofrênico. É brigar por brigar, sem nenhuma causa definida. A causa  é impedir a Copa do Mundo de acontecer. Tudo bem, mas a troco de quê? É um movimento de extrema direita, ilegítimo e sem nenhuma causa ou reivindicação aparente.

Por outro lado, fazer greves  durante a Copa, como a dos metroviários em São Paulo, é uma forma legítima de protesto, que tem fim e que, em última instância,  afeta a Copa do Mundo. Sou favorável a qualquer categoria que decidir parar, nem que isso pare literalmente o Brasil. Além disso, e só os cegos não vêem, apesar de todos assistirem aos jogos, por gostar de futebol, ou mesmo por torcer pela seleção, é visível que o maior protesto que o Brasileiro, ao menos em Belo Horizonte, está fazendo é a indiferença. Apesar da tentativa de alguns de mudar isso, o clima de Copa que se tem quando elas se realizam em outros países, não acontecerá. Muito menos na intensidade que, em condições normais, aconteceria em uma Copa realizada no Brasil.

O principal motivo é a nítida convicção de estamos sendo roubados, passados para trás. A cara de pau nunca foi tão grande, nem mesmo a indiscrição na corrupção.  O pior é que não podemos fazer absolutamente nada. Joana Havelange disse uma grande verdade quando publicou “o que tinha que ser roubado já foi”. Todos sabíamos disso. Todos nos sentimos passados para trás, e nossa impotência é o que dói. A cagada ou não da Copa, está feita. Não podemos impedir. Tampouco podemos nos deixar levar pelo radicalismo desses oportunistas.

Não sou hipócrita, contudo, de dizer que nosso protesto tem que ser no dia 5 de Outubro. Não. Nosso protesto tem que ser diário, até porque, infelizmente, não temos opções nas urnas. Sobretudo no poder legislativo. Votaremos no que a gente considerar menos pior, porque, infelizmente, vivemos em um bipartidarismo ridículo. Até proporia que todos nós anulássemos nossos votos, mas não vai acontecer. Fato é que teremos Copa. Fato é que estamos impotentes diante de tudo que aconteceu. Fato é que oportunistas tomaram o movimento legítimo da população. Fato é que temos que protestar de alguma forma e, atualmente, o protesto mais evidente aos meus olhos, além das greves, claro, é a indiferença.

terça-feira, 18 de março de 2014

Um certo qualquer coisa

Até a última quinta feira à noite, ou melhor, sexta pela manhã, eu, definitivamente, era uma pessoa mais feliz. Não sabia disso, refutava tal felicidade até aquela manhã de sexta, quando, através da carta aberta à Letícia Spiller, tive o desprazer de conhecer o tal “Qualquer Coisa”, cujos nome e sobrenome não me lembro e nem faço questão de lembrar. A carta direcionada à atriz global é uma das piores coisas que li em toda minha vida, de tornar poetas caras como Mainardi e o Reinaldo Azevedo. Não que a carta seja mal escrita, pelo contrário, o texto é fluente, coerente e expressa de maneira clara o que autor quer dizer. Entretanto, a ode à estupidez no conteúdo me fez crer um pouco menos na humanidade.

Primeiramente, e que isso fique claro, não sou socialista. Em verdade, creio que o socialismo e o comunismo marxista, que nunca, repito, nunca foi posto em prática por nenhuma nação, são utópicos. Socialismo, comunismo e anarquismo, todos eles desconsideram algo inerente ao ser humano que é sua individualidade. E nenhum regime sobrevive a isso. Entretanto, dizer que o socialismo significa “tirar de pessoas como Letícia Spiller para dar aos mais pobres” é, no mínimo um sinal de ignorância com relação à teoria socialista. O mundo utópico sonhado por Marx têm oportunidades iguais, portanto não existiriam nem “Bill Gates”,  nem os miseráveis. Seríamos, pois, todos “Letícias Spillers”, o que, o insisto, não invalida o fato de o socialismo ser impraticável.

Seguindo a carta, que, infelizmente repercute muito mais do que deveria, alguns regimes pseudo-socialistas são citados. E são realmente pseudo. Estranho não ter lido em nenhum momento, e se foi por desatenção, me perdoem, sobre o regime chinês, enfim. O regime venezuelano foi citado e comentar sobre as mazelas daquele povo é uma falácia sem tamanho, é um ouvir apenas um dos lados da moeda. Nem eu nem ele temos propriedade para falar a respeito disso. Um exemplo do outro lado foi mostrado por um documentário da BBC londrina que mostra a frustrada tentativa de um golpe de Estado em Chávez. O que se vê é completamente diferente do que vemos nos noticiários brasileiros. Não seja a favor do radicalismo, de nenhum dos lados, aliás, não acredito, de forma alguma, no maniqueísmo entre as tradicionais “direita” e ”esquerda”, embora, por razões óbvias, se fosse obrigatório a opção, ficaria ao lado das viúvas de Lênin. O que queria dizer, ou melhor, ecoar, é uma fala de um cientista político americano, que disse quem sabe o que é melhor para a Venezuela é o povo venezuelano.

Isso, porém, pouco interessa. O que mais impressiona e, creio, ninguém com Q.I pouco maior ao de uma ameba acredita, é dizer que os ativistas de esquerda consideram vítimas os bandidos. Talvez aqueles que, do lado oposto da balança, sejam tão radicais e cegos quanto o autor da carta possam. Mesmo assim duvido. A pobreza, que, sim, está muito relacionada ao capitalismo, não  é sinônimo de de criminalidade. Tampouco são os criminosos meras vítimas da sociedade. No socialismo, ou em qualquer outro regime social humano a criminalidade existirá, porque somos indivíduos únicos e egoístas (como devemos ser – favor não confundir com egocêntricos). Somos animais  dotados de instintos e, por vezes os seguimos. Não existe nenhuma organização social que contemple todos, isto é, sempre existirá os que estão à margem da sociedade. Mas, como diz o ditado, só os piores cegos não vêem que os índices absurdos de criminalidade e a maneira como ela se apresenta hoje não são praticados por vítimas ou pobres coitados. Mas, igualmente cegos, são os que não entendem que isso é produto do sistema, inerente e necessário a ele.

Os piores instintos do homem são aguçados pelo sistema e se afloram das mais variadas formas. Das criativas, como a arte, às tradicionais como a religião. Das positivas, como o esporte, às negativas como a violência. Portanto, por mais que nenhum radicalismo seja bom, por mais que o socialismo dependa da bondade alheia e, por isso, seja uma mera utopia, sofrer um assalto deste tipo, por gente que está completamente à margem da sociedade, aumentam muito mais as chances de uma pessoa esquerdista desacreditar ainda mais no capitalismo. Ao menos que ela seja burra o suficiente para acreditar em argumentos vazios e tautológicos que, VEJA só, alguns publicam.


terça-feira, 28 de janeiro de 2014

De cipó e tanga

Há muito tempo, ainda nos tempos de Orkut e  ICQ conheci uma moça da Bósnia através da internet. Não me lembro exatamente como a conheci, mas fato é que conheci e começamos a conversar. A moça era fanática com o Brasil, segundo ela própria. Seu sonho era conhecer o nosso país e começou a me fazer uma série de perguntas sobre o Brasil. Pode parecer bobagem, mas ela cria que nas ruas do Rio de Janeiro, se viam cipós e macacos e que a Amazônia era pertinho da capital fluminense. Vez por outra, quando vemos essas impressões errôneas do nosso país, ficamos irritados, mas o esterótipo é esse: O Brasil é uma grande selva em que se fala espanhol, em que o principal meio de transporte é o cipó e que poderia ser representado somente pelo futebol, carnaval e muitas bundas.

Mas não ficamos atrás. Fui ao Marrocos no último Dezembro e as expectativas eram as mais temerosas de um país pobre, muçulmano e radical. Não use calças se você for mulher. Se for homem não olhe  para nenhuma mulher. Cuidado com a alimentação e com a água. Se você bebe, pode se começar a habituar a não beber, pois não é permitido. Ouvi tudo isso, os maiores clichês que podemos criar sobre muçulmanos. Impressões desfeitas logo que pousei no aeroporto de Casablanca. Mulheres usando calças, sem véus, transitavam em perfeita sintonia com outras que usavam burcas, lenços e os mais diversos tipo de vestimentas. Os homens, não necessariamente barbudos e de turbante. Na rua, carros luxuosos contrastavam com outros nem tanto. O trânsito caótico, tudo muito urbanizado.

Nas ruas, mesquitas em grandes quantidades o que fazia que em todos os momentos de reza ouvíssemos as preces em árabe emitidas aos quatro cantos. Momentos breves em que alguns paravam, outros não. Mesquitas, inclusive, são vistas em todo estabelecimento, inclusive no aeroporto. Embora em número muito menor, sinagogas e igrejas católicas também faziam parte da paisagem. O shopping da cidade era simplesmente o mais impressionante que já vi. Lojas de todas as grifes possíveis e imagináveis, compradas com gosto por donos de Porshes e Mercedes. Nos bairros mais ricos, se via, nas construções das mansões, quais eram de árabes e quais eram de descendentes de franceses, que, por muito tempo mandaram por ali. É fato que na rua não se pode beber – na Austrália também não pode – mas no supermercado você encontra todos os tipos de cerveja e vinhos, inclusive, alguns locais. Não era como estava pensando, mas, já ouvira dizer, que Casablanca era mais ocidental.

Minha próxima parada foi Marrakesh. Uma cidade milenar e misteriosa, lotada de hotéis, turistas, cassinos, boates e, pasmem, prostíbulos. O suco de laranja é espetacular e a comida, se você gosta de experimentar coisas novas, é muito boa. Não fazem mal como insistiram por aqui. A receptividade foi impressionante. Em um passeio que fiz conheci uma guia marroquina, uma moça jovem que havia feito todo seu segundo grau nos Estados Unidos. A moça usava calça justa, bota, jaquetas jeans. Se andasse pelas ruas de Belo Horizonte dificilmente chamaria a atenção de alguém. Politizada e crítica, questiona os fundamentalistas de todas as regiões que, segundo ela, são responsáveis por essa distorção que fazemos com relação ao oriente. Depois de muita conversa, fui saber que a moça era islâmica, não era radical, tampouco “praticante”, era como a maioria dos cristãos. Foi um bate papo extremamente interessante em que eu tirei todas as minhas dúvidas e ainda me despi de um monte de preconceitos idiotas sobre a cultura árabe. E não fiquei somente nessas cidades. Visitei algumas pequenas cidades marroquinas entre Marrakesh e Zagorá, uma cidade criada no Oasis no meio do Saara, e descobri que, na história marroquina, os árabes não são os mais antigos e que um outro povo muçulmano, os bere-beres ainda marcam muita presença no deserto. Povo, muçulmano, que, inclusive, protegeu os judeus em diversas situações e respeitam sua crença. Enfim, depois de ver de perto, cheguei a conclusão que não somos tão diferentes das pessoas que acreditam que a gente vai trabalhar de cipó e tanga.


terça-feira, 22 de outubro de 2013

O Chico Argentino


Não sou religioso. Vivo em uma eterna agnose, tendendo a crer, talvez pelo simples conforto que a crença em Deus e em vida pós mortem trazem. Ainda assim, nesta perspectiva de crer em algo, não seguiria nenhuma religião. Não concordo com nenhuma delas, seus passados, suas índoles ou suas interpretações do que dizem ser Escrituras Sagradas. Preferiria ter uma espécie de religião própria, pautada muito mais em atos do que em fé. No entanto, devo admitir, provavelmente por tradição e cultura familiar, quando faço uma promessa, ou busco uma liturgia qualquer, por um motivo qualquer, acabo no catolicismo, no qual fui batizado e catequizado. Mas, reforço, não sou católico. Muitas das coisas que a Igreja Católica fez, faz ou prega me desagradam profundamente. Não obstante, creio ter sido inadmissível o financiamento público da presença do Papa no Brasil.

Isso é uma coisa. É inegável, porém, e qualquer ser humano independentemente de religião pode perceber, a importância do Papa como figura pública para o mundo. Suas opiniões importam e fazem diferença no planeta, de modo que ser Papa, quer você queira ou não, exige muita responsabilidade e consciência. Não tenho nenhum problema em criticar ou elogiar papas. O João Paulo II, por exemplo, foi, apesar de seus erros, um bom pontífice, que, inclusive, com muita felicidade, pediu desculpa por vários atos da Igreja durante sua história, como o apoio à escravidão ou ao nazismo. Não meço, no entanto, palavras para criticar o sucessor do papa polonês, o alemão Bento XVI. O papa alemão, que havia feito parte da SS de Hitler, é um homem extremamente conservador e atrasado no tempo, afinal havia cresceu em na Alemanha nazista e, querendo ou não, a cultura autoritária faz parte de sua história. Na PUC, me lembro, alguns alunos costumavam referi-lo como “Papa Nazi”. O alemão, com seu conservadorismo arcaico, estava ganhando antipatia das pessoas e, consequentemente, a Igreja Católica perdendo fiéis.

Parecia óbvio que o Papa Bento XVI não duraria muito em sua posição. A história mostra que as religiões e igrejas só se perpetuam no tempo, mediante às mudanças nas  sociedades, de duas formas: através do medo e força, ou se adaptando às mudanças sociais de cada época. A Igreja Católica, historicamente, desde os movimentos reformistas que a contestou, optou pela adaptação. Bento XVI era atemporal, um tiro no pé. Não que sua capacidade intelectual e cultural seja menor que às de seus sucessores e antecessores, óbvio que não. Diga-se, um seminário é um bombardeio de conhecimento, filosofia e leitura, em que a fé dos seminaristas é testada à toda prova, o que é facilmente perceptível em qualquer conversa ou mesmo declaração dos sacerdotes com relação à economia, política, filosofia. Não é surpreendente, pois, quando um pontífice como Francisco concede uma entrevista esclarecida, demonstrando conhecimento sobre economia e política.

Não esperem, porém, por mais progressista que um homem religioso possa ser, uma postura totalmente aberta. Afinal, ele se baseia em uma instituição milenar e conservadora que é a Igreja. Por outro lado, um Papa, um pontífice ou religioso qualquer, não precisa, nem deve, ser reacionário. E a história recente mostra isso. Em tempos de ditaduras sulamericanas, embora grande parte da Igreja fosse reacionária e de direita, uma parte da Igreja, progressista, era contra o regime, ajudando, e muito, a militância de esquerda – dita ateia - , com a bendita teologia da Libertação.  A Igreja é feita por homens e estes, não importa o grau da fé e de instrução têm suas predileções e ideologias, ainda que, muitas vezes, sua ética pessoal e institucional possam entrar em conflito. Com efeito, a Igreja Católica é uma prova evidente disso ao longo da história que as instituições efetivamente se perpetuam na história pelo medo ou a adaptação ao mundo, não sendo, necessariamente, pontos excludentes. Ser temente à Deus e à morte sempre foi um argumento extraordinário à favor das Igrejas, e continua sendo, não importando qual a religião.

Por outro lado, existe uma outra forma de se manter uma religião e uma Igreja, forma esta que a Igreja Católica tem, ao longo dos anos, mostrado, mesmo que timidamente, às vezes casado com o medo, outras apenas se adaptando, que é, na medida do possível, acompanhar a sociedade em que se insere. Da Contra Reforma aos dias de hoje esse é o expediente predileto da Igreja Católica. Não é um expediente fácil, sobretudo quando se trata de uma Instituição milenar que, por mais atual que seja, tem que manter algumas liturgias arcaicas para não perder a razão de ser, não adianta querer que seja diferente, aliás nem tem que ser assim, você segue se quiser. O contrário que é o problema. Certa vez, em uma aula de Direito, um professor fez a feliz comparação: “se a sociedade fosse um trem, a publicidade seria a locomotiva e o Direito seria o último vagão”. Isso porque a,  publicidade tem que estar atenta às expectativas da sociedade e fazer de tudo para acompanhá-las, enquanto o Direito, por conta da segurança jurídica, tem que esperar que tais mudanças sejam consolidadas. Entretanto, creio eu, há um vagão atrás do Direito e este é o da Religião. Em suma, devagar a Igreja Católica tenta adaptar-se à sociedade em que vive sem, por outro lado, perder os conservadores fiéis de outrora. Habilmente a Igreja faz isso, sobretudo, nas figuras papais.

João Paulo II, por exemplo, enfim, desculpou-se, em nome da Igreja, pelas atrocidades cometidas aos judeus, aos ameríndios e aos negros. Foi um bom Papa. E não importa qual a religião, a figura papal é importante e suas opiniões e atitudes têm relevância em âmbito global, entre católicos ou não. A igreja sabe disso. Mas, após o falecimento de João Paulo, a cúpula do Vaticano pareceu retroceder alguns séculos na história. Elegendo para o papado o alemão  extremamente conservador Bento XVI. Bento, que havia sido parte da famigerada SS nazista – o que, no tempo dele, faça-se justiça, era obrigatório aos jovens germânicos.  De toda sorte, o papa não se mostrava e certamente não era antisemita. O que não exclui o fato de ter sido criado em uma cultura extremamente conservadora, de ter seus conceitos formados em uma Alemanha dominada pela intolerância. Ele é um homem ultra conservador. A crise era questão de tempo. 

Questões financeiras, problemas de pedofilia, escandâlos e mais escândalos começaram a aparecer na Igreja Católica todos os dias. Como conservador que era, dificlmente se abririam os conceitos da Igreja, bem como a própria Instituição. Portanto, não era de se esperar algo diferente de um homem inteligente como o ex-papa alemão que não a renúncia. Ali, querendo ou não, salvou a igreja de perder alguns milhões de fiéis. Afinal, O conservadorismo extremo e a vanguarda são as únicas maneiras de uma Igreja ou religião se perpetuar durante a história, muito mais do que a própria fé. As igrejas conservadoras obrigam seus fiéis  professarem a fé, através do medo e do autoritarismo, sentimento que, de tão intrínseco, chega a gerar um ódio venal aos que não a professam. A alternativa é, sem negar suas raízes, se adaptar à atualidade. Essa a adaptação não é negar sua tradição, mas sim saber interpretar e analisar o mundo tal qual sua realidade.  Assim como foi com João Paulo II, o Vaticano deu um passo à frente neste sentido, com o papa Argentino, Francisco, que, em pouco tempo, se mostrou muito inteligente e perspicaz.

Francisco, o argentino, se mostrou um papa do povo. Apaixonado por futebol, simples, pregou a simplicidade e uma reformulação da Igreja. De maneira brilhante, pregou a simplicidade dos sacerdortes, ressaltando que eles têm de estar perto das pessoas. E falar somente foi pouco. Ele demonstrou com ações e escolhas. No Brasil,  por exemplo, não quis luxos, ou isolamento. Além disso, diferentemente da maioria dos sacerdotes, não fugiu aos temas polêmicos, nem mesmo os que envolve a Igreja. Papa Francisco admitiu as falhas da Igreja, não se esquivou ou escondeu os problemas de corrupção e escandâlos do Vaticano. Afinal, como ele mesmo enfatizou, a Igreja é uma Instituição composta por seres humanos, que, como tal, são corrompíveis. Embora isso pareça óbvio, era essencial para a sustentação da popularidade da Igreja. O que me chamou a atenção mesmo é como o argentino se mostrou desinibido com assuntos espinhosos e, sobretudo, como ele, o líder da Igreja, não é tão fanático como seus fiéis. Este Papa foi o primeiro que, sem menor restrição e com muito bom humor, “brincou” com Deus. Ora, até pouco tempo era inimaginável um Papa dizer que entrou em acordo com o Brasil, que “se o Papa é argentino, Deus é Brasileiro”.

Papa Francisco, em sua visita ao Brasil, bem como em suas entrevistas, sobretudo as concedidas dentro do avião, provou que a religião não precisa ser intolerante ou retrógrada. Os religiosos não precisam ser preconceituosos, até porque a religião não é preconceituosa, as pessoas são. A interpretação dos livros sagrados, sejam eles cristãos, judaicos, islãs, ou mesmo das religiões africanas, indígenas, bruxarias, satânicos, não são livres. A interpretação, infelizmente, está subordinada aos sacerdotes e Igrejas, que as faz da maneira que os convém. Diferentemente do comum, mesmo dentro do próprio Vaticano, o Papa não pregou a fé pelo medo, mas pelas ações. De fato é algo respeitável, independentemente do que você queira acreditar. Capsciosamente, um repórter perguntou ao Papa sobre a homosexualidade e a fé cristã entre eles. O Papa, sabiamente, respondeu que ter fé e frequentar a igreja é um direito deles, e que ele, Papa, não tem o direito de julgar a orientação sexual das pessoas. Não é papel da religião salvar ou abraçar o mundo, julgar as pessoas ou curá-las. Até porque, ao pé da letra do que se prega nas Igrejas, sexo que não seja com intuito reprodutivo é pecado, independentemente da orientação sexual. Parabéns ao Papa que entendeu, para o bem de sua Igreja, que seu papel é se aproximar das pessoas e confortá-las quando elas buscam. A Igreja não é tribunal para julgar as pessoas, nem hospital para curá-las. O problema delas é querer assumir a condição de representantes legítimas de Deus com poder de julgar o certo e o errado, o bem e o mal. Que o Papa seja exemplo, para o Vaticano e para as outras Igrejas. As pessoas escolhem seguir ou não uma religião. As religiões jamais podem escolher ser ou não a fé das pessoas. 

quinta-feira, 10 de outubro de 2013

A estátua da Liberdade


Liberdade é tão quista pelos homens que talvez seja o maior motivo de revoluções e revoltas na história da humanidade. Esta palavra, meio que sem significado quando desacompanhada, é tão importante que é a primeira – e talvez a mais cruel -  privação imposta à sociedade para quem está à margem dela. Liberdade de expressão, de ir e vir, de pensamento são todas compreensíveis e tangíveis. Mas a liberdade, em si, como conceito abstrato, esvaziada desses adjetivos, embora alguns afirmam existir e conhecer, é algo incompreensível e impensável.

A noção de liberdade, desadjetivada, ou acompanhadas de adjetivos tão abstratos quanto a própria liberdade, não existem, ou, se existem, são inatingíveis. Liberdade de espírito, alma, energia,  são apenas subterfúgios à realidade dura e cruel em que vivemos, ou melhor, a cruel e insignificante realidade da condição humana. Não somos livres, jamais seremos. Não existe Liberdade absoluta, não existe liberdade abstrata, a liberdade em sua totalidade é uma doce ilusão inventada para nos conformar com nossa condição, com nossa sociedade, enfim.

Até mesmo as liberdades concretas são limitadas, afinal vivemos em sociedade. Ainda que não vivêssemos  existem limites físicos e biológicos que nos restringem à liberdade. O universo é regido por regras e leis e o ser humano, do topo de sua arrogância, quer estar acima delas, para sentir essa tal liberdade, com a qual não estou familiarizado. Nascemos mais livres do que deveríamos, afinal, um dos pilares de nossa educação é a imposição de limites. Bem educados, domados, recrutados, temos as liberdades que precisamos, ou, ainda que não tenhamos, temos a capacidade de obtê-las. Somos livres para ir, embora encontremos limites no dinheiro, na insegurança, em outros fatores. Somos livres para nos expressar, ainda que esbarremos no limite da moral de outro. Somos livres para escolher, embora nos limitemos às opções, embora o próprio ato de escolher nos indica que não somos livres para ter tudo. Somos livres para pensar, ainda que estejamos preso no limite do imaginário.

Liberdade nada mais é do que uma estátua.