sexta-feira, 19 de setembro de 2014

A hipocrisia não é tão hipócrita assim

Desde os tempos do ocorrido com o Daniel Alves tenho tentado falar do assunto, mas a gravidade e delicadeza do tema me impediram. O motivo principal era o receio de ser mal interpretado. Até que, após o caso Aranha, ouvi um jornalista tirar as palavras da minha boca e conseguir, em termos compreensíveis e claros explicar exatamente o meu ponto de vista.

O primeiro ponto é diferenciar racismo de injúria racial, que é um agravante. O caso ali é o segundo, apesar das pessoas confundirem muito. Racismo é quando por questões de cor você limita os direitos de outrem ou o diferencia dos demais. É como, por exemplo, não permitir o acesso de alguém a um elevador, festa, ou qualquer outro espaço que ela tenha direito por ser negro, ou se você deixa de contratar um serviço porque o prestador é negro, enfim, uma restrição clara. A injúria é o que vimos. Não faço juízo de valor se mais ou menos grave, mas são diferentes.

Nem acredito, diga-se, que a maior parte dos gremistas que cometeram tais ofensas nem o torcedor do Villareal da banana tenham condutas racistas diariamente. Ainda assim, eu estando enganado ou não, uma coisa não justifica a outra, pois a atitude é simplesmente injustificável. Como também não há justificativa para que não houvesse relato disso na súmula ou para que o próprio Grêmio não acionasse o tribunal especial, presente em todos os estádios, naquele exato momento. A crucificação e a personificação do ocorrido de Porto Alegre em apenas uma pessoa, também é igualmente cruel e sem justificativa, embora, é verdade, as sanções penais não só são justificáveis, como essenciais. E têm, inclusive, de serem aplicadas também aos outros envolvidos. A punição social, no caso dela, já veio. E está sendo cara.

Voltemos à Espanha. Diferentemente do Aranha, Daniel Alves usou do deboche. O lateral, ao ser alvejado com uma banana por um torcedor espanhol, no El Madrigal, estádio do Villareal, comeu a fruta, em um ato que, embora não tenha sido inédito, embora tenha sido uma atitude planejada para uma ação de marketing, gerando aquele insuportável “#SomosMacacos”. Aquilo nasceu para ser moda, em uma jogada de marketing que virou até estampa de camisa.

A primeira vez, contudo, que uma opinião sobre o tema me chamou a atenção, foi quando um negro teve uma carta lida em uma rádio, dizendo que “não, não somos todos macacos”.  O cunho da carta era bem diferente do que o senso comum podia imaginar. Ele estava indignado, e com razão, com a apologia ao #SomosTodosMacacos. Lembrou ele, com palavras muito diferentes, que, no Brasil, existe um preconceito ainda muito maior do que o da cor da pele. É o preconceito econômico. E como dizia a carta, comer a banana tendo uma Ferrari na garagem é fácil. É mesmo. Poucos dias depois do incidente, o camaronês Eto’o, que há muito sofre com isso, postou exatamente isso. Ele em frente ao seu carro milionário com a legenda: “Eu é que sou macaco?”. Voltando à carta, o ouvinte disse que, naquele momento, o jogador, que, geralmente tem origem humilde, tem a noção que o dinheiro não muda a cor de pele de ninguém. 

Essa frase leva à tona um tipo de preconceito que é extremamente voraz: o preconceito social.  Esse tema quase não foi abordado após o ocorrido, embora, sobretudo depois da foto do Eto’o, alguns comentários do tipo “olha lá, o macaco com um carrão que custa cem vezes o salário do trouxa racista”. Isso passa desapercebido, mas estamos na verdade corroborando com o preconceito social. O que me pergunto é e se ele fosse pobre? Realmente é muito fácil comer a banana com milhões na conta e uma Ferrari na garagem.

Voltando ao Aranha, o goleiro do Santos, mesmo sem uma Ferrari, tem uma condição econômica bem superior à média da população. Contudo, neste caso, o goleiro se sentiu realmente incomodado e indignado. Lembrou ainda, em entrevista posterior, que em muitos lugares, por conta justamente de sua condição econômica, ele é tolerado, e não aceito. Por isso, embora a visibilidade tenha sido infinitamente menor devido aos personagens, a repercussão foi mais intensa e a discussão mais produtiva, até porque a credibilidade do #SomosMacacos caiu por terra na primeira camisa vendida.

Entretanto, através das redes sociais, em ambos os casos algumas pessoas começaram um outro debate sobre outros tipos de preconceito, sobretudo a homofobia no futebol, polemizando a disparidade no tamanho do debate em um caso e outro. Alguns, é verdade, chegam à estupidez de justificar esta diferença dizendo que a diferença é que “não se escolhe ser negro”. Isso é uma estupidez sem fim. Primeiro pelo fato de a sexualidade não ser opção ou escolha, e isso, aos imbecis de plantão, é inclusive comprovado pela ciência. O segundo porque considerar a diferença por esse prisma É dizer que o negro é inferior, apesar de não ter escolhido e o homossexual escolheu ser inferior, ou seja é racista e homofóbica por natureza, um verdadeiro absurdo.

Há uma razão de ser nesta diferença que é vai muito além do preconceito. Quando alguém xinga no estádio, e não estou fazendo juízo se é certo ou errado, ele nem se atenta se o xingado é ou não aquilo. O cara não sabe, nem quer saber, a orientação sexual, ou a profissão da mãe do cara. O intuito, neste caso, é muito menos ofensivo. É xingar por xingar, como na pelada, como na partida de truco, e por aí vai. É desabafar sobre alguma coisa feita pelo ofendido cujo ofensor não pode fazer nada. Xingado e xingador sabem disso, tanto que o ofendido, dificilmente se preocupa com isso.

Quando se chama alguém de macaco da maneira que foi feita, o objetivo é muito além de xingar uma pessoa. O objetivo é, deliberadamente, a julgar inferior por causa, neste caso, da pele. É se considerar um ser superior à ponto do outro passar de gente à animal. Algo muito pior que um xingamento.

Transportando essa questão à sexualidade, na maioria dos casos é, sim diferente. Certa vez, quando o Richarlysson reclamou de homofobia, um colunista, do qual divirjo em quase 100% das coisas, disse algo interessante. “Como um cara que se diz heterossexual pode sofrer de homofobia?” Quem vai ao estádio, independentemente da orientação sexual, xinga alguém de “viado”, sem maiores problemas, tanto na intenção quanto na recepção.

Mas maioria não quer dizer todos. Certa vez, em um jogo de vôlei, um atleta assumidamente homossexual, sofreu algo muito parecido ao que passou o Aranha em Porto Alegre. Quando ele ia sacar, o coro da arquibancada era muito diferente do quando um outro atleta era xingado. Era avassalador. Naquele caso, e talvez possa ter ocorrido com o Richarlysson em alguns casos, sobretudo com torcidas adversárias, as pessoas julgavam àquele atleta como um ser inferior pela sexualidade. Ele, como o Aranha, foi discriminado. Não eram xingamentos aleatórios. Eram direcionados, discriminatórios e ultrapassavam à esfera esportiva.

Neste sentido, portanto, não comparar o caso Aranha aos outros xingamentos nos estádios, do tipo “viado”, não tem nada de hipócrita. A comparação, na verdade, nem cabe. O caso do atleta do vôlei, porém, foi exatamente o mesmo sofrido pelo Aranha. A hipocrisia, neste caso, é o fato de ninguém ter falado em responsabilidade penal a nenhum dos envolvidos na questão do voleibol, e mesmo de não se dar a mesma repercussão.

Voltando ao Aranha, ontem ele esteve de volta ao mesmo estádio. Lá, desta feita, provou cabalmente a hipocrisia, não com relação aos outros xingamentos, mas com relação aos valores e ao próprio racismo. Primeiramente, a menina crucificada, que não tem nada de coitada, mas também está longe de ser a mentora intelectual ou a única culpada, já havia demonstrado o arrependimento. Não pelo que ela fez, mas pela consequência de sua ação.

A partir disso, o treinador do Grêmio, algumas pessoas da imprensa o próprio presidente do clube, foram à imprensa falar bobagens, culpando o Aranha pelo ocorrido, como se ele fosse culpado pelo racismo sofrido e pela eliminação do Grêmio. Ele foi a vítima. Mas a vítima no Brasil é quase tão culpada quanto o infrator. Por isso, em uma demonstração ridícula de aprovação ao ato racista de alguns torcedores, a torcida ontem vaiava o goleiro do Santos com veemência. Muito mais do que o normal e quem acompanha futebol sabe disso.

Depois do jogo, o goleiro ainda teve de se sujeitar a uma repórter que, além de demonstrar o não entendimento da gravidade da questão, confessou ao jogador ser neutra com relação à atitude da torcida. Isso sim é hipocrisia. Mas o jogo é muito mais importante à integridade humana. Estou certo que não é a maioria dos gremistas, cujo belo hino foi escrito por um negro, mas uma parcela bastante imbecil não só dos tricolores gaúchos, mas como da sociedade em geral.

De toda forma, por essas é que me pergunto se a retaliação e punição da sociedade à grande pivô de toda esta confusão também não é hipócrita. Será que ela está mesmo sendo retaliada – de maneira absurda, diga-se - por sua atitude racista?

Cada vez mais tendo a crer que não; e, apesar de ninguém se atentar, a real motivação das agressões à moça é a mesma de seu arrependimento: a eliminação do Grêmio da Copa do Brasil.



quarta-feira, 27 de agosto de 2014

A solução pro nosso povo eu vou dar...

...E não vou dizer que está nas urnas. Até porque as eleições brasileiras se resumem à legitimação de um sistema corrompido. Não importa quem você coloque lá, no fim, pouca coisa muda. Afinal, os interesses são os mesmos. Com efeito, os eleitos governam para quem os puseram lá, e não foram os eleitores. São os patrocinadores de campanha. Obviamente, os maiores financiadores, não são imbecis. Qualquer campanha minimamente competitiva vai ser patrocinada por eles. Não têm lado, o objetivo é ficar no poder. Ainda que, nos bastidores, ajudem um pouco mais uma ou outra parte, certamente quem ganhar vai dever algum favor.

Até porque, no Brasil, o sistema, cuja função primordial é evitar a corrupção, funciona como muleta para tudo. Os três poderes, por exemplo, que deveriam servir como freios um dos outros, acabam, antes, sendo comparsas ou instrumento de politicagem. O partido e o poder estão sempre à frente do Estado. Mesmo o poder judiciário, único no qual os membros não são eleitos e entram através de concurso público, conforme consta as más línguas, anda corrompido.

Nem mesmo o excesso de burocracia para todo e qualquer ato público no país impede a palhaçada que assistimos todos os dias. No fim, ela – a burocracia- que deveria ter como função principal diminuir as chances de um processo qualquer se corromper, assim como tudo por aqui, vira muleta para os públicos e acaba permitindo, por exemplo, “o caráter de urgência”, elimina licitações e acaba abrindo espaço para o que ela devia combater, como, por exemplo, o superfaturamento.

Vivemos em uma verdadeira bagunça institucional, institucionalizada e burocrática. Não são poucos os estrangeiros que tentam investir no país, entendendo ser o país do futuro, mas desistem pela desorganização, que serve de muleta para corrupção e de cabo eleitoral. Dizem os forasteiros, “eles tem tudo, tudo, bem na frente, mas não sabem como usar. Será possível?”

Outros propõem secar a máquina pública, embora seja claro que o desperdício do dinheiro não está na máquina e sim nos desvios, roubos e, sobretudo, no poder. Os países escandinavos, por exemplo, os maiores IDH do mundo, são os Estados com as maiores máquinas públicas. A grande maioria das pessoas lá são empregadas pelo Estado. Até porque os aspones são uma verdadeira minoria de privilegiados. E me pergunto, acabando com os cargos públicos CONCURSADOS, supondo sua inutilidade – que realmente é só suposição - como seriam realocadas tantas essas pessoas no mercado de trabalho? Então.    

A solução, portanto, não está em referendar um sistema corrompido. Tampouco fundi-lo por completo. Afinal, em teoria, temos uma das constituições mais bem elaboradas do mundo. Basta fazer funcionar. Também não é inventando uma revolução sem causa e sem o menor respaldo popular, quase que uma aberração, como tentaram durante as Copas das Confederações e do Mundo.

Chego à conclusão, portanto, que a salvação está em fazer uma auditoria. Uma auditoria detalhada, com livre acesso à todos os documentos e com a possiblidade de destrinchar todos os órgãos e instituições brasileiras. Por razões óbvias de isenção, teria de ser uma auditoria estrangeira, confiável e transmitida pelo you tube por 24 horas. Afinal, ninguém teria paciência para ver tudo o tempo todo, mas é garantido que o tempo todo alguém estará vendo.


Auditores com carta branca, isolados do mundo em um hotel, escoltados pela polícia federal dia e noite, sem nenhum contato com o mundo exterior. Terminados os trabalhos é limpar as instituições, enxugá-las, assim como em uma empresa privada. Então reestrutura-se tudo e recomeça. Quem deve algo, paga. Acaba-se a impunidade e publica-se todos os resultados. Os auditores voltam aos seus países de origem e tudo bem. Entretanto, creio eu, se alguém na política ousar fazer uma proposição dessas, não dura mais de 48 horas vivo. 

quarta-feira, 13 de agosto de 2014

Futebol é questão de Estado

O Brasil sempre foi reconhecido internacionalmente como um país de ponta no futebol mundial. Acostumamos com os melhores jogadores, o melhor jogo, os melhores times e, por isso, temos mais títulos. Essa visão, historicamente consolidada, há muito é mera visão e, não demora, deixaremos o posto de maior vencedor aos alemães. Certamente, isso acarretará na redução do status do jogador e do futebol brasileiro no mercado mundial. Há muito, não temos, como outrora, os melhores jogadores, as melhores equipes, os melhores públicos ou a melhor seleção. Entretanto, mesmo que somente aos nossos olhos, ainda somos e provavelmente sempre seremos o país do futebol.

Nas terras tupiniquins o esporte bretão tem uma função social extremamente importante. E não é apenas aquela função clichê de inclusão social pelo esporte. Até porque, no Brasil, essa inclusão atinge uma minoria de pessoas que conseguem vencer como atletas profissionais. Ainda menor, diga-se, são aqueles que, através dessa inclusão, conseguem ser bem remunerados. Não sou contrário, ressalte-se, ao uso do futebol para isso. Pelo contrário, considero a ideia brilhante. Mas não é essa função, ou melhor, inclusão social que o futebol já representa no Brasil. Pelo menos não neste sentido.

Não é a primeira faz que faço essa ressalva, mas o futebol brasileiro é um instrumento de justiça social na medida em que é a única identidade comum entre ricos e pobres, onde todos somos iguais. No estádio somos todos iguais. Em um gol, não interessa se ao seu lado está o seu chefe o seu subordinado. A alegria e a tristeza são compartilhadas indistintamente, e um mero desconhecido vira seu melhor amigo por um segundo.

Portanto, a construção de estádios, a promoção e organização de campeonatos, a formação de atletas, são, sim, responsabilidade do Estado. Óbvio que feito de maneira transparente e minimamente razoável, bem distinto da maneira atual. Construir um estádio para uma agremiação é um absurdo, sobretudo da maneira que foi feita para o Corinthians. O patrocínio de empresas públicas à equipes que devem o fisco é igualmente questionável.

Por razões óbvias, jamais exigiria um tratamento igual ao governo alemão deu ao futebol no país, investindo mais de 1 bilhão de euros em futebol nos últimos 10 anos. Entretanto, não há como concordar com aqueles que insistem “o Estado tem mais coisas para se preocupar”, “futebol não é questão de estado”. Claro que é. Na medida em que a promoção da cultura, esporte (por mais que sejam negócios) e a integração social são obrigações do Estado.

Ainda que negócio, ainda que organizado por instituições privadas, o futebol exerce uma função social que exige sim intervenção e investimento estatal.  Se o Estado já regulou o futebol através da Lei Pelé, se o Estado tem de atuar em questões judiciais e até de segurança pública referentes ao futebol, se existe até uma “bancada da bola,” não faz o menor sentido se abster em outras questões cruciais.

Atualmente, no estágio em que nosso futebol se encontra, a intervenção estatal se faz cada vez mais necessária. Não digo, como muitos pretendem, perdão de dívidas, isenção fiscal nem nada disso. Entretanto, não podemos eximir os dirigentes de futebol das leis fiscais, das improbidades administrativas, dos problemas trabalhistas que envolve jogadores e funcionários; os contratos duvidosos...

Embora muitos possam achar que não seja questão governamental, é necessário uma regulamentação para o padrão de segurança e conforto nos estádios, os preços dos ingressos, e até mesmo subsídios. Estamos falando e entretenimento, cultura e integração que estão diretamente ligado ao povo. Uma questão que, querendo ou não, gostem ou não, no Brasil é social. Já sabemos que mesmo os outros eventos culturais têm preços impossíveis de serem desfrutados à maior parte da população. O futebol, outrora do povo, uma alternativa, tem, no Brasil, os ingressos mais caros do mundo. E não é segredo que a elevação desses preços está diretamente relacionado à uma limpeza étnica e social nos estádios, ao meu ver, discriminatória e ineficaz, para reduzir a violência.


Ora, se isso não for questão de Estado, não sei o que é.  

segunda-feira, 4 de agosto de 2014

Receita do Dia

O Tupiniquim cozinha de hoje oferece duas opções de pratos para você fazer. Aliás, temos até uma terceira opção, mas não é muito popular. Quase não saí; alguns nem sabem que existem. Os dois prato principais do dia, bom, esses são praticamente iguais. Sabor, textura, cheiro... Tudo muito parecido para você escolher e fazer o que mais lhe apetece.

E os ingredientes dos nossos pratos de hoje são quase todos nacionais e vem sendo elaborados nos últimos 20 anos. A lista de ingredientes, embora não esteja completa, segue abaixo:

Plano real, contenção da inflação, greves de professores, greves de servidores federais, crise internacional, valorização e desvalorização do real, incentivo ao agronegócio, desemprego, moratória, intervenção em Minas Gerais, reeleição, privatização, apagão, Mercosul, provão, fome zero, vale gás, bolsa família, bolsa escola, ascensão da classe C, PROUNI, REUNI, Ciência sem Fronteiras, ENEM, mensalão, crise na Petrobrás, Copa do Mundo, painel eletrônico, doleiros, Cachoeira, Gorete, Rombo da Previdência, ranário, Olimpíada, Estádios milionários e sem sentido, caos aéreo, poder de compra, FMI, devedor, credor, cuecas, PAC, importação, exportação... e mais o que você quiser à gosto.

O modo de preparo também é bem simples: pegue esses ingredientes, e todos os outros que você lembrar ou encontrar, e divida-os em duas partes: os produzidos antes do ano de 2002 e os posteriores. E não se importe se alguns dos ingredientes passem pelos dois potes. Neste caso, avalie se os restos eram bons e ruins, como foram aproveitados e descartados e, enfim, escolha em qual das vasilhas colocar.

Separação feita é a hora de avaliar. Mediante à mistura de todos os ingredientes, e de algum tempero qualquer que você deseje colocar, é a hora de provar. O que foi mais saboroso para você?

Se você gostou mais da mistura da tigela que vai até 2002, digite 45 em seu micro-ondas. Agora, se sua preferência é pelo que ficou na vasilha após 2002, digite 13 em seu micro-ondas. Se os dois parecem amargos demais para você, e sua preferência é pelo prato que quase não saí, aperte o 40 no seu micro-ondas. 


Depois, se ainda tiver estômago, é só esperar e desfrutar. 

quarta-feira, 23 de julho de 2014

As picas da Dilma

Antes de mais nada, já antecipo que não defenderei nenhum governo ou partido político. Tampouco revelarei o meu voto e sua lógica. Até porque atualmente o Brasil vive a “crise do mais do mesmo”, na qual temos somente dois partidos fortes para o executivo (PT e PSDB) que são rigorosamente iguais, sobretudo nos defeitos. Além deles, temos uma grande incógnita (que é o PMDB, cujo M deveria significar “Murista”. O pior é que com o número absurda de filiados e eleitos, os “Muristas”, maior partido do país, é quem acaba por nos governar, gerando, evidentemente, a equivalência entre os dois rivais pelo executivo, que tem de se sujeitar ao verdadeiro mandatário.

No fim, nem mais “o menos pior” será o fator decisivo na hora de votar, já que ambos os partidos se equivalem em ruindade. A decisão final, portanto, será influenciada por algum aspecto pontual que seja relevante pessoalmente a cada eleitor e que talvez tenha sido tratado de maneira melhor ou pior por um governo ou um por partido. A minha decisão, que não vou revelar, até porque não me orgulho dela, foi feita assim. Ademais, já estou convicto que o voto que muda o país não é aqueles para os cargos executivos, que é o que você lembra e está sempre em evidência. Se você quer realmente mudar o Brasil, pense e se recorde no seu voto para o poder legislativo, esse sim é relevante ao futuro da nação.

Por essas e outras, repito, não farei papel de advogado de ninguém. O que quero, antes, é tentar decupar a realidade. Isto posto, é incrível o poder que é dado à presidenta da República pelas pessoas e por muita gente que forma opinião. Para ela ser responsável por tudo que lhe atribuem – coisas boas e coisas ruins -, ela teria que ser uma ditadora onipotente e onipresente. Não é bem assim. Repito, não quero ser um advogado de defesa, tampouco defender o indefensável, mas no fim o cargo de presidente nada mais é – seja lá quem for seu ocupante – um mero escudo, principalmente no caso atual.

O fim da ditadura militar, nos bastidores, aconteceu por vontade da alta cúpula militar que ouviu Golbery. Era fato, como ele disse, que a bomba das merdas que eles tinham feito iria estourar, então melhor sair antes da explosão e deixar a culpa para os outros. Bombas e coisas boas perpetuam-se dessa forma na presidência da República desde então. O fato de os candidatos serem meros instrumentos de partido e, portanto, não terem projeto de país e sim um projeto de poder é determinante para isso. Não interessa ao congresso se é bom ou ruim. Interessa quem propôs.

Não obstante, todos os nossos presidentes pegaram e deixaram uma herança maldita. Talvez, diga-se, nenhuma tão pesada com a recebida pela atual presidenta, que é muito mais técnica do que política. Exatamente o oposto de seu antecessor, que se valia muito mais do carisma. De toda sorte, fato é que grande parte das culpas do atual governo são, de fato, responsabilidades assumidas pelo anterior. E vêm sendo assim desde 1986.

Além do mais, ainda não compreendemos o funcionamento entre os três poderes que nos rege. Cada um impõe limites ao outro, o que, se por um lado evita autoritarismo, por outro incentiva negociações. Como executivo está em evidência tendemos a percebê-lo como absoluto. Muito pelo contrário. A possibilidade de atuação do executivo é tão pequena sem o apoio do legislativo que, desde sempre, há negociações e trocas de favores entre os poderes. Se não pelos mensalões, que eram práticas comuns até o escândalo denunciado por Roberto Jefferson, por negociações de cargos, que, em vez de técnicos, passam a ser meramente políticos.


A solução para tais dilemas, sinceramente, desconheço. O que não podemos admitir é que as culpas sejam concentradas em apenas uma pessoa, automaticamente isentando outras tantas com culpas iguais ou maiores às que condenamos. Temos que atribuir às pessoas certas às responsabilidades cabíveis. Não há presidente onipotente tampouco independente. Assim como não há mandatos isolados na história, que comece ou recomece um país do zero. Estamos em uma infeliz sinuca de bico em que não há mocinhos e que os resultados, seja lá quem for o vencedor, serão tão ruins quanto foram os resultados dos governos de ambos os partidos quando o tiveram. 

segunda-feira, 14 de julho de 2014

Bomba: A final da Copa foi vendida.

O resultado da final ontem já estava decidido há tempos. Em ardilosas negociações, complexas e obscuras chegaram à conclusão que a final deveria ser entre Alemanha e Argentina e que os vencedores deveriam ser os alemães. Enquanto o mundo se preocupava com seus afazeres, enquanto o Brasil se preparava para sediar a Copa do Mundo, trocada, anos antes, pelo título de 98. Em uma grande sala de reuniões homens do mundo inteiro se reuniam para decidir a final da Copa do Mundo.

Os homens grandes da FIFA entendiam que, entre eles, o combinado seria apenas para quem chegaria à final. Dali por diante eles preferiam que fosse decidido na bola, mas que, se houvesse um acordo entre os dois finalistas, estaria tudo bem. Na mesa, apesar da insistência do representante do Brasil, já estava decidido: A final ficaria entre Holanda, Argentina e Alemanha.

A combinação era entre os mais necessitados. Holanda, por ser um título inédito. Alemanha, que não ganhava há 24 anos e a Argentina que não ganha nada, nem Copa América, desde 1993. Chegaram ao consenso que os holandeses poderiam esperar mais uns 8 anos, afinal eles nunca tiveram mesmo. Era a vez de um gigante retornar ao topo do pódio. Então estava certo. A final seria Alemanha e Argentina.

Todos se levantaram, se cumprimentaram e fecharam o negócio. Quem ganharia a final, seria decidido no campo, ou mesmo por um acordo posterior entre os escolhidos. Não era mais problema da FIFA ou de ninguém mais. As confederações foram avisadas, os juízes também.

Todos saíam da sala satisfeitos com o resultado da reunião. Entretanto, o representante da Alemanha bateu no ombro do Argentino e o convidou para uma conversa reservada. Ali ele insistiu ao Argentino que eles, alemães, deveriam ficar com o título. O Argentino, apaixonado por futebol, negou.  Não só uma, mas quatro vezes.

O alemão apelou. Foi ao Hermano, que tinha um cargo inferior ao seu, e propôs:

- Eu renuncio ao meu cargo e convenço aos outros que você deve ocupá-lo. Em troca, você vai à AFA e cede o título à Alemanha.
- Combinado.

Isso tudo aconteceu nos corredores e salas secretas do Vaticano. O representante Alemão se chama Bento. O Argentino Francisco. E a Copa do Mundo foi trocada pelo Papado.

Essa teoria da conspiração é tão absurda quanto todas as outras. O Brasil não trocou a Copa de 98 pela de 2014, nem entregou nenhum jogo dessa copa por coisa alguma. Até porque, mesmo os mais conspiratórios, que acreditam que existem terceiras intenções em tudo, jamais poderiam imaginar que uma equipe patrocinada pela Nike, entregaria um jogo de Copa para Adidas.  

Não sejamos arrogantes. Estamos anos luz de qualquer um de nossos rivais e nosso futebol é uma bagunça, que somos retrógrados, não temos treinadores e nossos jogadores não são mais tão bons assim e que certamente não são os melhores. Se chegamos às semifinais foi porque jogamos em casa e porque pegamos times com muito menos camisa.

Então parabéns à Alemanha, que investiu e que jogou melhor. Enquanto nós estamos parados no tempo e em breve não seremos mais os maiores campeões.


quinta-feira, 10 de julho de 2014

Saudades da Copa

A Copa do Mundo se foi. E parece que começou ontem. O mês voou e, à despeito dos 7 x 1 vergonhoso da seleção brasileira, foi muito legal. Não só pelos feriados, pelos jogos ou pela abstinência nos poucos dias sem partidas. O clima de Copa do Mundo foi o que tornou este mês absolutamente inesquecível. E não me venham com o discurso piegas de quem não sabe separar o que foi a festa popular da questão política. Sério esse papo já encheu.

O estádio foi realmente para poucos, mas as ruas não. E o que estava acontecendo nas ruas era muito legal, embora por um período tão curto. Óbvio que as falhas existiram, não foram mil maravilhas, aconteceram alguns problemas, mas em qualquer evento desta magnitude, independentemente se for realizado aqui ou na Noruega, vão acontecer algumas intempéries. Normal. O saldo, porém, foi extremamente positivo.

Quando em sua história BH teve a chance de receber tanta gente diferente? O mundo enfim descobriu a capital dos bares. Sei que para a maioria dos negócios o período de Copa e a passagem dos estrangeiros foi ruim ou irrelevante, mas para nós, como população, foi excelente. O intercâmbio cultural, a integração e tudo o que a Copa tem de bom, apesar da FIFA, do COL e do Governo.

Infelizmente o Conto de Fadas está prestes a acabar. Nosso conto de fadas de um mês, que na verdade durou apenas uns trinta segundos. A vida voltará ao normal. O fim dos feriados, ainda que tácitos, o fim dessa integração, a volta à pseudo tranquilidade belo-horizontina, a insegurança nas ruas, ao caos urbano, enfim tudo voltará ao normal.


Aliás, não voltará ao normal. Primeiro porque muita cosia ficou protelada para o pós-copa e tem que ser posta em dia, ou seja, o ritmo dobrará. Agora temos eleições e a vida também será extremamente corrida rumo às urnas. Além disso, temos uma conta a pagar, uma conta enorme e cara. Este é o preço que, com o valor agregado da volta à vida normal, que pgamos pelo mês de alegria, um mês atípico para todos os brasileiros e que foi inexplicavelmente bom. A Copa das Copas foi aqui. E agora já sinto saudade do maior evento que presenciei, mesmo sem ter ido in locu a nenhum evento oficial.