sexta-feira, 27 de novembro de 2015

Marilama

Acredite se quiser, mas, bem provavelmente, em alguns escritórios pelo mundo os atentados de Paris estão sendo comemorados até hoje. Afinal, não fosse o foco desviado à tragédia de Paris, a catástrofe de Mariana teria uma repercussão muito maior no mundo inteiro, inclusive no Brasil. Sorte da Samarco e seus executivos mundo afora, pois, com o rebuliço mundial em torno do Estado Islâmico, demorou quase um mês e a lama chegar ao oceano para a ONU se pronunciar e classificar a tragédia mineira como um dos 5 maiores desastres ambientais da história.

O mundo não via, nós também não. Aliás ainda não vemos. O poder econômico das mineradoras sobre os políticos através do financiamento de campanhas (de todos os partidos) e sobre a mídia através dos gastos astronômicos com a publicidade impedem que tenhamos uma informação verdadeiramente acurada sobre o tamanho da desgraça. Quem assiste televisão não tem noção da realidade, sobretudo em Governador Valadares. 

Quem mora em Valadares e teve a possibilidade de se refugiar em BH o fez prontamente. E a palavra é essa mesmo: refugiar. Conversando com alguns dos "refugiados", além de alguns depoimentos que alguns davam às rádios, ao vivo, é que a a realidade fica minimamente perceptível. Uma cidade de 260 mil habitantes, sede de um campus de Universidade Federal, simplesmente parou. E não foi simplesmente parar, foi parar em estado de guerra, literalmente.

As cenas reais são muito similares às cenas de pós-guerra na África. Algumas situações relatadas e que ninguém mostrou são surpreendentes. Houve, por exemplo, tiroteio por conta de água. Aliás, toda a água que chegava à cidade precisou ser escoltada pelo exército. Uma moradora relatou que, em um bairro de classe média, em um estacionamento de supermercado, ela foi assaltada a mão armada. Não levaram dinheiro, nem celular, nem joias. Simplesmente roubaram as garrafas de água que ela havia comprado para estocar. Não bastasse esses absurdos, empresários locais estão vendendo 500 ml de água à pelo menos R$7,00.

E aqui estamos falando tão somente de uma cidade e somente da questão do abastecimento de água. Não sei se as pessoas têm a dimensão do que é matar – a palavra é essa mesmo – um rio inteiro. Não são apenas peixes, plantas e solo. Imagina quantas pessoas vivem, ou viviam desse rio? Quantas pessoas bebiam água desse rio? Sem comentar nas comunidades inteiras destruídas e nos danos ao oceano. Óbvio que o rio já sofria com homem, mas, dessa vez o golpe foi fatal. Não pensem também que é chegar no mar e a natureza simplesmente se recupera. Não é tão simples assim. Essa recuperação não tem nem previsão, neste caso é começar do zero o que demorou anos e mais anos para ser construído. O Rio Doce morreu e seu renascimento é algo para as próximas gerações, talvez meus bisnetos. 

Nem a capacidade de regeneração do mar é grande o suficiente para reparar esses estragos assim de cara. O pior de tudo é que essa lama foi para uma área de mangue, o berçário do mar. Ao menos a população e os ambientalistas tiveram um certo tempo para retirar o maior número possível de espécies do local. Para se ter uma ideia, pelo menos 300 km do litoral do Espírito Santo foi comprometido, impróprio para o turismo e para a vida marinha. 

Cálculos apontaram que se o vazamento fosse para o lado oposto, o mar de lama teria destruído Mariana, Ouro Preto e grande parte de Belo Horizonte. Não se esqueçam que não é apenas lama. É uma lama extremamente tóxica, contaminada com metal pesado. Por onde ela passa, deixa um rastro de morte e desoxigenação.

Ambiental, social e economicamente os prejuízos são inestimáveis e não chega perto dos 1 bilhão 250 milhões ventilados na imprensa. Isso, aliás, para uma mineradora, não é troco de supermercado. Deve ser, mais ou menos, o gasto deles com apoio às eleições e publicidade. Hoje, passado o frisson maior dos atentados à Paris, a tragédia de Mariana repercute mais no exterior do que aqui. A 5ª maior catástrofe ambiental não é pouca coisa e não deixam que tenhamos a noção disso.

quarta-feira, 18 de novembro de 2015

Agora é Guerra?

Alá é a palavra árabe para Deus. Assim como em inglês se diz God. Assim um cristão árabe, eles existem e são numerosos, também louvam a Alá. Aliás, a maioria dos muçulmanos nem árabes são. De toda forma, há tempos estamos assistindo de camarote às atrocidades do Estado Islâmico em nome de Deus. Verdadeiros absurdos, sem fundamentação, sem lógica. Uma lavagem cerebral insana, que distorce os valores muçulmanos e atuam muito na disseminação do preconceito contra o islã e contra os árabes, e vi isso de perto, de dentro de um país árabe de maioria de muçulmana.

O mundo assistiu o Estado Islâmico crescer e, querendo ou não, pouco se fez efetivamente contra ele. Esse grupo terrorista atua contra todo o mundo, não só contra as religiões, não só contra inocentes. Ele atenta contra o islã, contra o cristianismo, contra o judaísmo, contra o ateísmo, contra a história do mundo, contra a cultura. Todos vimos, embasbacados, quando os imbecis destruíram sem a menor razão artefatos e monumentos históricos milenares no Iraque. 

Mas uma coisa é fato: contra o dinheiro e o capitalismo eles não têm nada. Aliás, não há como falar no Estado Islâmico e pensar só em religião quando falamos neste assunto. Os fatores religiosos, somados aos problemas socioeconômicos europeus, atingindo sobretudo os jovens de origem não caucasiana servem somente de estímulo para recrutamento.

O Estado Islâmico se instalou em uma região estratégica econômica e geograficamente. No norte da Síria, próximo à fronteira com a Turquia, porta de entrada para a Europa. Além do mais, uma região riquíssima em petróleo. Esse petróleo é vendido e financia toda a milionária estrutura do grupo. Neste aspecto, já temos dois pontos interessantes. Existe alguém que compra esse petróleo e alguém que vende armas e suprimentos.

Aliás, o aspecto econômico sempre sobrepuja “os verdadeiros ideais” do grupo. Voltando aos monumentos destruídos no Iraque, vale ressaltar que uma parte das estátuas foram conservadas e vendidas ao museu de Londres, que admitiu a compra, afinal, as obras foram tratadas como reféns de um sequestro. 

Vamos ao ocidente. Nada no planeta é tão eficaz para livrar o mundo de uma crise econômica do que uma guerra. A guerra faz a economia girar em todos os sentidos. A indústria bélica gera empregos diretos e indiretos, além da criação de infraestrutura, construção civil... 

Teorias da conspiração à parte, as últimas guerras e atuações dos Estados Unidos sempre foram em períodos de crises econômicas globais. Agora, vamos à alguns fatos. Qual a real efetividade ao combate do Estado Islâmico até então? Ora, uma repórter chegou ao coração do Estado Islâmico. Mostrou ao mundo como funciona. Não bastasse, todas as vezes em que se mostram os perfis públicos, repito, públicos, em redes sociais dos terroristas, suas fotos de capa e perfil são verdadeiras confissões. Não é possível que não há como monitorar essas pessoas. Aliás, a França admitiu que o Iraque havia avisado sobre o atentado. Não acho que tenham deixado de propósito, mas porque não dar o mínimo de crédito? 

Enfim, voltando aos combates pouco efetivos, ano passado esses retardados decapitaram 20 cidadãos egípcios participantes de uma seita católica local. Em retaliação, o Egito, enfatizo, Egito, que não tem nada de superpotência, em um ataque noturno surpresa, que durou cerca de 4 horas, destruiu cerca de 20% de todo o poderio bélico do Estado Islâmico. Se o Egito foi capaz de destruir 20% do poderio do Estado Islâmico em um único ataque de 4 horas, o que seriam capazes de fazer as superpotências?

No primeiro ataque francês, a capital do Estado Islâmico foi arrasada a ponto de os principais líderes estarem em fuga para o Iraque. Isso tudo apenas com ataques aéreos. Imagina o resultado de um front conjunto tendo como base terrestre Israel, Egito e Turquia? Não precisa ser estrategista militar para chegar a essa conclusão.

Faltava um motivo. Um motivo suficientemente grande para comover ao mundo todo e começar a guerra e destruir o Estado Islâmico de uma vez por todas, ou o suficiente para que ele não se reestruture até a próxima crise econômica. O motivo está aí, a publicidade pronta. Agora é só começar a Guerra. Aliás, para que fique claro, sou totalmente a favor dela, a questão é: precisava esperar tanto? Precisávamos assistir o crescimento deles assim? Bom, mas assim foi em todo o século XX. O mundo assistia a ascensão de seus vilões para depois derrota-los... Ou seriam todos vilões? 

Enfim, o que aconteceu em Paris foi inadmissível. Sangue inocente derramado e a instauração geral e irrestrita do preconceito. A hora é agora, e que seja questão de tempo até o tal Estado Islâmico ser varrido do mapa. 

#JeSuisParis



sexta-feira, 13 de novembro de 2015

Uma cerveja com o Papa

Já cansei de elogiar o Papa Francisco. E, seja lá qual for sua religião, se você for minimamente racional, também terá uma certa admiração por ele. Ele me faz lembrar aqueles caras da Teologia da Libertação. Um cara tão moderno, tão atual, que incomoda a Igreja e seus valores conservadores milenares e hipócritas. Aliás, valores não só católicos como Cristãos. 

Imagino eu que a razão pela qual o papa resiste à frente da Igrjea mesmo com tanta gente dos bastidores do Vaticano querendo o seu pescoço é o fato dessa sua personalidade, atual e progressista, ter sido a redenção dos católicos. Afinal, enfim perceberam que a religião só se propaga pelo medo ou pela adaptação à contemporaneidade. O papa escolheu a segunda, até porque, graças à Deus (com o perdão da ironia) o catolicismo perdeu esse poder do medo e da escravidão mental usada por tantas outras igrejas cristãs.

E se eu já era fã do Chico Argentino, de uns tempos para cá, analisando seu histórico no papado cheguei à conclusão que gostaria muito de sentar com ele em um boteco para tomar uma e conversar. Assuntos variados, passando da política, pela religião ao futebol 

Só para recapitular, estamos falando do papa que teve a coragem de dizer que “o Papa é argentino, mas Deus é brasileiro”. Esse mesmo papa disse que não é ninguém para jugar a sexualidade alheia, tampouco para impedir que essas pessoas se aproximem de Deus. Ainda, com ousadia ímpar, interpelou o entrevistador que perguntou sobre a homossexualidade com uma colocação simples: “se seguirmos ao pé da letra, mesmo o ato sexual de um casal heterossexual que ainda não celebrou matrimônio é pecado e nem por isso se proíbem namorados de irem à igreja.

Não para por aí. Como não respeitar um cara que, mesmo representando a instituição que representa, disse que os jovens precisam contestar, e que uma juventude que não contesta não é contraproducente à sociedade. Sem contar nas inúmeras críticas à própria igreja e algumas de suas atitudes. Inclusive ele disse até que sonhava em termos em breve uma papisa a frente do Vaticano.

Mas foram as interpretações lúcidas e racionais sobre os dogmas cristãos que me fizeram ter muita vontade de sentar em um boteco na mesa dele para trocar uma ideia. Ele simplesmente disse o óbvio. Que a teoria da evolução não é contraditória com a bíblia, até porque a passagem de Adão e Eva é uma metáfora. Aliás os judeus já sabem disso desde antes de Cristo. Bem como o inferno, que, segundo o Papa, não existe. Para ele é uma mera representação metafórica com caráter moralizante. 

Em verdade ele disse o que todos os estudiosos da bíblia dizem: ela é um livro cheio de metáforas e interpretações, escritos há mais de mil anos em hebraico antigo, que sofreu mudanças ao longo do tempo, conforme interesses e mesmo traduções. Em suma, não é para ser levado ao pé da letra e tem, sim, que ser adequado à sociedade de hoje.

Ouvir isso de um Papa é realmente um fio de esperança no caos. Sério, Chico, a primeira garrafa é por minha conta. 



quarta-feira, 23 de setembro de 2015

O mundo caranguejo


O mundo ocidental está regredindo velozmente. Não fossemos nós, brasileiros, uns incompetentes acomodados, estaríamos diante da melhor oportunidade dos últimos cem anos para se tornar uma potência. Afinal, na crise, uns choram, outros vendem lenço. Mas somos incompetentes, burros e incoerentes demais para isso. Destarte, deixaremos o mundo aos orientais. 

Aqui no lado ocidental da coisa, poucos são os que, a sua maneira e condição, aproveitam a loucura do globo. O Uruguai, com seu tamanho diminuto, mas mente progressista; a Costa Rica que aprendeu a sustentar a sua saúde vendendo saúde para os americanos; os canadenses com suas políticas sustentáveis, ou os suíços que, sempre neutros, continuam à parte do mundo, são raros exemplos. 

Além destes e de algumas outras honrosas exceções, são os orientais quem estão atentos à esta oportunidade ímpar de ter para si o controle do globo, ou ao menos a independência financeira. Não é por acaso que dizem ser a China - cuja política econômica me enoja - a maior potência do mundo no futuro.


Mesmo os países orientais de cultura ocidental, casos da Austrália e Nova Zelândia, até pela posição geográfica, são os de postura mais independente ao caos do mundo centro-ocidental. Não é para menos. em poucas gerações a população de origem chinesa ultrapassará os ascendentes de europeus naqueles países. 


Voltando ao assunto, digo centro-ocidental, porque, neste caso específico, o oriente é bem extremo. Já que o chamado Oriente-médio, com suas fortunas em óleo, há muito são parte importante da engrenagem e loucuras ocidentais. 

Poderíamos estar tomando às rédeas da situação junto com os chineses, sul-coreanos e japoneses. A crise mundial está deixando o mundo ocidental perplexo e os orientais ricos. Crise, inclusive, que já ultrapassou às barreiras econômicas há tempos. Mas enquanto o mundo gira ao contrário, abrindo as portas aos espertos, nós brasileiros estamos resolvendo problemas internos que nem deveriam ter sido começados, resolvendo 500 anos em 5 meses.

Começando pelas Américas, enquanto Argentina e Brasil lutam contra sua própria incompetência, as tensões nas fronteiras  venezuelanas e colombianas e venezuelas e guianenses se acirram drasticamente sem sequer serem amplamente noticiadas. Alguns países de fora da América já exigem a intervenção Brasileira e Argentina para que a situação se controle. Segundo analistas, o desejo venezuelano por parte dos territórios desses países está tornando uma guerra iminente. Aqui não temos nem a noção da gravidade disso e o quanto isso iria nos ferrar. 

Os Estados Unidos, que em poucas gerações se tornará um país de maioria latina, além de todos os problemas sociais que sofre (acabo de ler que Los Angeles está em calamidade pública por conta dos sem casa), vive a expectativa das eleições no ano que vem. As tensões internas aumentam, sobretudo sobre questões étnicas na briga eterna entre republicanos e democratas. Sem contar no eterno risco de uma "eurização" da economia, uma vez que o Tio Sam não tem lastro para toda sua moeda. Não é a toa que a nota de dólar tem prazo de validade. 

Não bastasse isso tudo, a Casa Branca e o Pentagono estão preocupados (olha que retrocesso atroz) com a Rússia de Putin. Não faz muito tempo, o ministro do exterior dos Estados Unidos acusou a Rússia de subsidiar o governo sírio em suas atrocidades. Exigiram explicações. Parecem até os anos 1980. 

O Oriente Médio já é aquele caldeirão natural, que efervesce todos os dias desde a criação do estado israelense. Mas um golpe na economia local deve piorar as coisas: a queda vertiginosa do preço do barril de petróleo. Não bastasse isso, agora tem o famigerado (embora alguém esteja lucrando com isso) Estado Islâmico que, além de aterrorizar o norte da África e o Oriente Médio, dominou uma região importante de produção de petróleo, o que tem desequilibrado ainda mais o mercado.

A Europa está em crise. Econômica e política. Aliás, quando não esteve? Parece absurdo, mas o período de maior estabilidade na Europa deve ter sido na Guerra Fria, pelo medo talvez. Agora ela paga o preço pelos seus atos passados. O caos da África e o número de refugiados e imigrantes é consequência direta da interferência europeia no século XX. Hoje, ela não se move para resolver o problema, e agora tem que se virar com os refugiados que ela mesmo criou. 

O velho continente também é um caldeirão. Em épocas assim, historicamente, as questões xenofóbicas são postas à mesa, o povo se divide. Assim foi no período entre-guerras e assim sempre será em um território marcado por rivalidades milenares. 

Atualmente, sobretudo os países do leste, vivem essa maré xenofóbica. Afinal, a extrema direita, extremos em geral, invariavelemte reverberam em países mais pobres. E eles, os primos pobres da Europa queriam o dinheiro que pode ser destinado aos refugiados para arrumar o colapso em suas economias destruidas e mal estruturadas. Ora, basta ver o colapso grego e a imbecil cinegrafista hungára. 

Por essas e outras, a imigração na Europa já está em patamares insustentáveis. As razões são óbvias. O Velho Continente é Velho! A estrutura social está montada. A posição geográfica é perfeita, perto de tudo, o verdadeiro centro do mundo. Por fim, os europeus dominaram todo o mundo ocidental. Ou seja, lá vai ter algum lugar lá em que falam a sua língua. Mais que isso, vai ter um lugar em que nós colonos entedemos com uma relação especial, uma relação patrícia quase paternal. Basta perceber que não ouvimos tantos casos de imigrantes na escandinávia, que é, economica e socialmente quase que o paraíso. Ou notar para onde vão os imigrantes: Angolanos, Brasileiros, Cabo Verdianos, Moçambicanos e tantos outros em Portugal, os imigrantes da África branca na França, ou mesmo os egípcios na Itália. 

E como não é toda a Europa que está bem financeiramente, o fluxo de imigrantes se torna ainda mais complexo. Portugueses e Espanhóis, por exemplo, estão espalhados por todo o continente. Os ibéricos estão longe de estarem austeros como os alemães, por isso se espalham. O que acontece então? Pessoas de terceiro mundo, sobretudo das colônias, ocupam o espaço deixado por esses imigrantes. Os imigrantes do leste europeu também escolhem seus portos seguros, gregos, turcos e poloneses na Alemanha, ou os Albaneses na itália. É gente demais! Agora os refugiados. O sistema não aguenta, mas quem procura acha. Ação e reação.


Enquanto a Europa e os Estados Unidos quebram a cabeça para consertar o mundo ocidental (que eles mesmos estragaram), a China, o Japão e a Coreia do Sul aproveitam. Tornam-se potências cada vez maiores, cada vez mais incontroláveis e independentes. Afinal, se mantém à parte dessa loucura. Deixam aos ocidentais os problemas do Ocidente. 

E o Brasil? Com potencial, território, recurso e população que temos? Nós estamos parados no século XVIII. Nós disputamos e discutimos poder, debatemos entre os corruptos e os ladrões com passionalidade de uma torcida de futebol, ficamos entre os ruins e os piores ainda, nesse círculo vicioso de mais de 500 anos em que só ganham os políticos. 

quinta-feira, 13 de agosto de 2015

Estado sem emoção

Há mais ou menos um mês, estava sentado em uma mesa de bar, na calçada de uma avenida movimentada e boêmia. Os meus pertences estavam todos sobre a mesa, enquanto conversava distraidamente. Distraído demais, como se estivesse na Disneylândia.

Aconteceu o óbvio: dois trombadinhas, uns moleques de uns 13 ou 14 anos no máximo, passaram e levaram uma das minhas coisas, o documento do carro. A única que não tinha valor. Não foi a primeira vez que fui roubado. Por duas vezes, fui assaltado à mão armada, inclusive, e a sensação é a mesma do dia do trombadinha: vontade de matar o filho da puta que me roubou. Não deu 10 minutos e encontrei o documento intacto, óbvio não tinha nada de valor nele. Mas a raiva não passou.

A sensação é de impotência, ódio, raiva. Decerto, tivesse eu uma arma e os moleques estivessem na minha frente, matava. Sem dó nem piedade. Como faria em todas as vezes em que fui roubado. 

A raiva não diminuiu, nem vai diminuir. Entretanto, pensemos: qual o tamanho do dano para mim e para a sociedade causado pelo delito? Insignificante. A raiva continuou sem passar. Do mesmo jeito da raiva que tive quando fui assaltado à mão armada. 

É compreensível a raiva. Quando acontece com a gente o sentimento de ira, de ódio afloram. Sentimentos humanos e normais que podemos e devemos sentir nesses momentos. Por isso temos empatia quando escutamos em punições aos marginais, de qualquer forma e a qualquer custo.

O Estado não pode pensar assim. A lei não pode ser desta forma. A justiça tem de ser neutra e racional, ter escala de valores. Portanto, é necessário que ela reflita sobre os dois lados, pese os danos e ameaças à sociedade, as causas, e por aí vai.

A minha raiva não passou, mas o Estado tem de descolá-la do julgamento. E não pensem vocês que é fácil. Da época em que fiz Direito, além da a convicção de que algumas das matérias deveriam ser obrigatórias no Ensino Médio, trouxe também algumas lições e exemplos (bons e ruins) de grande valia aos debates públicos. 

Em uma delas um professor, que também era Procurador da República, por acaso pai de filhos pequenos disse que não pegava casos de pedofilia. Ele se dizia incapaz de manter a imparcialidade diante do tema, imaginando se fosse com os filhos dele e era tomado pela raiva. 

Em outro caso, por exemplo, uma professora contou que conheceu um juiz extremamente conservador em sua vida pessoal, desses incapazes de aceitar a homossexualidade. Entretanto sentenciou o Estado a reconhecer oficialmente o nome feminino de uma Travesti, bem como o seu Direito à se declarar do sexo feminino mediante a qualquer circunstância. 

Esse é o papel do Estado. Não é emocional. Então, os argumentos “e se fosse com você”, “queria ver se fosse sua filha”, “então leva para casa” não podem ser nem cogitados em esfera pública. Aliás, em questões públicas de qualquer espécie o passional não serve para pensar soluções. Pelo contrário, tomados pela emoção, seja revolta, seja ira, ou qualquer outra coisa, só fazemos arrumar paliativos temporários aos problemas.

quarta-feira, 15 de julho de 2015

Um futuro nem tão distante

Era uma noite qualquer, em uma maternidade aparentemente comum. Os passos da enfermeira só não ecoavam pelos corredores porque a criança em seu colo não parava de chorar e se debater por entre o pano que separava o seu corpo do da mulher que o levava. O recém-nascido saudável, de olhos grandes e inocentes, chorava, provavelmente por ter acabado de ser retirado dos aconchegantes braços de sua mãe. Joãozinho não parava, acho que era Joãozinho, afinal nem nome tinha ainda e sua identificação não passava de uma letra e um número qualquer, com uns 4 dígitos.

A enfermeira passou por um primeiro vidro. Lá dentro, uma infinidade de crianças atônitas, quietas, assistiam àquela cena meio aterrorizadas, sem entender aquilo. A maioria, diga-se, mal acabara de ser retirada dos braços da mãe e, por motivos diversos, esperavam com urgência voltar aos braços da progenitora. Mas a enfermeira não entrou com Joãozinho naquela sala, cujas janelas davam para o próprio corredor, ermo e meio sombrio. Lá dentro, o escuro era quebrado por duas ou três lâmpadas que jogavam feixes de luzes dentro da sala, onde outras enfermeiras rondavam incessantemente. Na porta, trancada a sete chaves, uma outra enfermeira estava de prontidão.

Mas eles passaram direto por aquela porta. Joãozinho, que é como eu gosto de chamar o bebê DT-1983, não parava de chorar e se debater, querendo se desgarrar dos braços daquela maldita enfermeira. Mas era em vão. A mulher era bem mais forte que ele, e, ali, não importava o quanto chorasse, sua mãe, seu pai, ninguém lhe ouviria. A não ser as enfermeiras e, claro, as outras crianças, tão impotentes quanto ele. 

A enfermeira continuou seu caminhar pesado, cujos sons das pegadas ecoavam no silêncio da madrugada. Seus passos eram mais tenebrosos, quanto mais adentravam a madrugada. O corredor ermo, apesar de ter paredes, piso e luzes brancas, era muito sombrio; parecia infinito. Para Joãozinho cada centímetro parecia quilômetros, e, cada segundo, uma eternidade. 

Conforme seus próprios cálculos, já havia passado mais tempo no colo da enfermeira do que no da própria mãe. Aliás, esses mesmos cálculos lhe diziam que a maior parte de sua vida até então, pouco mais de 30 minutos, ele havia passado no colo da enfermeira. Mal conhecia a vida, e o pouco que conhecia era sob os olhos grandes e julgadores daquela mulher de branco. Pior, nem sabia o porquê estava ali em vez de estar no seio da mãe, tão quentinho... Mas, fato era, que durante seu período na Terra havia estado mais com aquela mulher horrível do que com sua própria mãe...

O final do corredor já estava próximo. Lá uma porta pesada, ao lado, uma enfermeira carrancuda sentada em uma mesa diante do computador. Assim que chegaram àquela mesa, a outra enfermeira, que parecia esperá-los, levantou-se para recebê-los. Ela fitava Joãozinho com olhos ameaçadores, até mais do que a enfermeira que o carregava. Após o diálogo entre as duas aconteceu:

- Boa noite.
- Boa noite.
- Identificação?
- DT1983
- Posso ver a identificação?

A outra enfermeira checou a etiqueta, envolta no tornozelo de Joãozinho. Voltou ao computador, conferiu e deu baixa no sistema:

- Tudo certo. Estávamos esperando. 

Ela pegou o rádio e comunicou com alguém que estava dentro do cômodo que ela meio que vigiava:

- Câmbio. O DT1983 está aqui. Câmbio desligo.

A porta então se abriu. Uma terceira enfermeira sai de dentro do recinto. 

Ela então se levantou, destrancou a porta, e orientou:

- Leito 933

- Eu é quem vou ter que levar?

- Claro. 

A enfermeira, resignada, suspirou. Dentro daquele berçário imenso, outras quatro ou cinco enfermeiras rondavam de um lado para outro incessantemente. Até então Joãozinho já estava quieto, contudo, naquele momento, voltou a chorar. Não sabia o porquê. Aliás, àquela altura, só tinha dúvidas. Não sabia o porquê estava ali, o que tinha feito, se merecia estar ali.... Só queria voltar ao colo quentinho da mãe...

Uma das enfermeiras lá dentro, indagou:

- Esse menino não cala? Vai acordar os outros?
- Começou de novo essa peste.
- Peste mesmo... 
- Para estar aqui... Coloca o DT1983 ali. É aquele o “leito”.

Mais um ao lado de tantas outras crianças, mas aquilo não era um leito comum. Colocaram (um eufemismo para jogaram), o Joãozinho na incubadora. Fecharam-no. As enfermeiras se sentiam aliviadas. Dali de dentro era impossível ouvir seus choros. Aliás, de maneira sádica até, as enfermeiras ficaram olhando Joãozinho se debater enquanto ninguém o ouvia. 

Do lado de dentro daquela incubadora, ou seja lá como que se chamava aquilo, Joãozinho se esgoelava, se debatia. Não sabia falar, se soubesse, decerto, chamaria por sua mãe. Embora não conhecesse a palavra mãe, aliás, não conhecia nenhuma palavra. E ali, naquela escuridão, naquela estufa, na qual o ar só chegava por tubos e a luz apenas por uma espécie de janela de vidro, sua única maneira de comunicação não serviria. Nada poderia lhe salvar. 

As sádicas senhoras de branco ainda observavam, conversavam sobre a situação de Joãozinho:

- Alta periculosidade?
- Altíssima. Um risco para sociedade.
- Marginais!
- E a mãe?
- Uma senhora simples...
- E como ela se sente?
- Amor de mãe, é amor de mãe... mesmo quando o filho são esses pestes.
- Mas aqui eles aprendem...

Voltemos horas antes, poucos minutos antes do nascimento de Joãozinho, em um hospital público. A mãe dele, em trabalho de parto, entrou no hospital em uma mistura de desespero e alegria. Levada na maca, sentia seu abdome contrair de maneira insuportavelmente dolorida, a ponto de ela chorar, embora, em meio às lágrimas, risos incontidos, afinal, estava para vir seu primeiro filho.

As dores estavam cada vez menos toleráveis. Ela implorava aos médicos veementemente para que lhe tirassem o menino do ventre; já, há muito, castigado pelos chutes do moleque. Por outro lado, apesar da dor que parecia não ter fim, como toda mãe, sonhava em ter o filho em seus braços. Amor de mãe é amor de mãe.

O parto era difícil e doído. Joãozinho era retirado do ventre da mãe de forma dolorosa para ambos. A mãe só queria vê-lo fora de si. Joãozinho, por sua vez, tinha um sentimento ambíguo entre a vontade de não se separar da mãe e a curiosidade em ver o mundo que o aguardava. Então, no exato momento que a cabeça de Joãozinho conhecia o mundo, seu pai, ao ver o primeiro rebento, desmaiou na sala de parto, desfalecido e inerte. Joãozinho ainda sem entender nada do que estava ocorrendo, assustado com tudo aquilo, urinou e regurgitou na cara do médico.

Estava formado o rebuliço. O pai caído, o médico, desesperado com a urina, como quem encosta em ácido, trombou em vários equipamentos, até cair no chão, ao lado da mesa de cirurgia. A criança, no colo de uma enfermeira, batia suas perninhas, agitadas, assustadas e desesperadas. Em uma dessas pernadas, acidentalmente o garoto chutou um bisturi, repousado por sobre a mesa. O bisturi, para azar do Joãozinho e do médico, caiu no abdome do obstetra, ainda caído ao chão depois de se atrapalhar com o xixi do bebê. 

Um corte profundo, quase letal, foi feito na barriga do homem, salvo por um colega. Joãozinho não sabia o que estava acontecendo, não entendia nada, nem tinha noção de que era um bisturi, muito menos tinha ideia de que tinha batido uma perna no bisturi, mal sabia o que era viver, muito menos o que era morrer. Ninguém havia lhe ensinado nada a respeito. Ele estava perdido e, por isso, se comunicava da única maneira que sabia: chorando. Cada vez mais alto, irritando as enfermeiras que, desesperadas, não sabiam mais o que fazer. Uma delas gritava:

- Urgência! Chamem os chefes da enfermaria. 

Logo uma equipe de enfermeiras, liderada por aquela mesma que carregou Joãozinho até o berçário, chegou à sala de parto. A calma estava restabelecida, exceto por Joãozinho, que não parava de chorar, apesar dos gritos incessantes da enfermeira para que ele se calasse.

A criança foi colocada nos braços da mãe por alguns segundos, para ser acalmada. Foram os primeiros segundos confortáveis da estadia de Joãozinho na Terra. Aquele colo gostoso, quentinho e cheiroso, lhe inspirava segurança, confiança, carinho e cuidado. Mas ele só ficou o tempo suficiente para se acalmar, dormir e para terminarem de cortar seu cordão umbilical, parcialmente rompido naquela confusão. 

As enfermeiras, olhando aquilo, diziam:

- Como pode, em tão poucos segundos de vida alguém causar tanto estrago?
- Maldito seja. 
- Mas ele vai ter o que merece. 

A sala de cirurgia estava uma zona. A mãe nem havia se recobrado da dor do parto e lhe retiraram o filho:

- O que vão fazer com meu filho?
- Dar-lhe o que ele merece. 

Tão logo saiu dos braços da mãe, ele voltou a chorar desesperadamente. Em seu tornozelo, a enfermeira prendeu uma fita com seu número, aquele fatídico DT1983. Joãozinho era um criminoso. Sem saber o que estava fazendo, sem ter tido suporte ou instrução, Joãozinho era acusado por dupla tentativa de homicídio (do médico e do pai), danos materiais, desacato, lesão corporal grave, dentre outras coisas que, como essas, ele não sabia nem o que significavam. Afinal, ele não sabia o que era ato, como saberia o que é consequência?

Voltando, ao berçário, Joãozinho, não entendia direito aquilo, estava com cara de assustado. A enfermeira que levou Joãozinho àquela unidade, por curiosidade, perguntou à outra:

- E esta? – perguntou apontando a menina ao lado de Joãozinho, chorando igualmente desesperada e, devido à incubadora, também sem incomodar a ninguém – O que ela fez?
- Se recusava a sair pelas vias normais e o médico foi coagido a abrir a pobre coitada. 

Eles estavam em uma maternidade de segurança máxima, em um berçário-solitária. Foram condenadas a ficarem ali, sem direito nem a ver os pais, pelos menos até acabar o período do resguardo das mães. Ali Joãozinho ficou trinta e seis dias, quase que no escuro. Não sabia o porquê estava ali, ninguém havia sequer lhe explicado. Nunca tiveram nenhum cuidado com ele, nunca haviam lhe ensinado nada, não haviam lhe instruído a nada. Ninguém se deu a este trabalho. Mas não hesitaram em puni-lo como se ele tivesse tido todos esses privilégios. 

Um mês e pouco depois, findado o resguardo da mãe de Joãozinho, que, aliás, foi batizado Marquinhos, sua pena acabou. Durante este tempo isolado, pouca coisa mudou. Continuava sem entender nada, mais ou menos na mesma situação em que entrou. A mãe de Marquinhos foi buscá-lo. À porta do berçário, se identificou e a enfermeira que guardava a entrada chamou alguém lá de dentro:

- DT1983, por favor.

A enfermeira chegou e abriu a incubadora:

- Está livre. 

Tão logo a enfermeira colocou o garoto no colo, Marquinhos regurgitou e urinou na enfermeira, exatamente como havia feito com o médico. A enfermeira também caiu e, embora não tivesse bisturi, ele, sem querer, batendo as perninhas com medo, derrubou uma fralda suja (as fraldas sempre eram trocadas para a liberação das crianças) na cara da mulher, que gritava:

- Reincidente! Reincidente! Reincidente!

Continuou sem saber o que havia feito de errado. Só sabe que sem nem saber nada do mundo, sem nem saber o que acontecia ao seu redor, voltou à incubadora. E DT1983 perdeu mais 30 dias dentro daquela maternidade de segurança máxima. Àquela altura, inclusive, nem se lembrava do momento de segurança que teve nos braços da mãe. Estava conhecendo cada vez mais intimamente o lado ruim das pessoas, cada vez com mais medo e cada vez mais ameaçador. 







Para bom entendedor...

terça-feira, 23 de junho de 2015

A volta dos que não foram

Estou longe de ser comunista, aliás, já cansei de falar que este sistema é utópico e impraticável. Tampouco sou capitalista, uma vez que, da forma em que ele se realiza, além de ser contraditório em seu âmago, é tão fracassado quanto o comunismo, embora, ao contrário de seu, por assim dizer, rival, o capitalismo fracassou empiricamente. Até porque, novamente distintamente do proposto por Karl Marx, o capitalismo é, ao menos, praticável no mundo real. 

Da mesma forma que não sou maniqueísta com relação às formas de pensar a economia mundial, nem acredito que existam apenas duas fórmulas, não sou maniqueísta com relação às lideranças políticas do globo, de ambos os lados (até porque lados, para mim, são conceitos única e exclusivamente geométricos). Não existe (nem existiu) nenhum país no mundo que seja comunista. Os líderes de esquerda que ascenderam na América Latina, também já não são de esquerda faz muito tempo. E os da direita insistem em uma fórmula excludente, e ganha cada vez mais força, quanto mais esses líderes de pseudo-esquerda emergem fazendo cagadas monumentais nessa ascensão. No frigir dos ovos, oposição e situação são a mesma coisa, no Brasil, mais ainda. Devo lembrar, e provavelmente farei isso um milhão de vezes durante o texto, o PSDB também surgiu como um partido de esquerda, de centro esquerda, mas de esquerda. E na era PSDB o Brasil também era governado pelo PMDB... Ou seja, elas por elas. Mas isso tudo já falei e escrevi milhões e milhões de vezes. 

O que quero abordar agora é outro ponto. Não ser maniqueísta, ou mesmo sê-lo não confere às pessoas o Direito de deturpar e transformar conceitos, concorde você ou não com eles, nem criar teorias da conspiração que chegam a ser absurdas. Discutir pontos de vista com argumentos factíveis é uma coisa. Inventar farsas para propaganda é outra. Mesmo alguém, por mais irracional e passional que seja acerca de algum conceito qualquer, é mais aceitável e honesto do que quem deliberadamente transformam as coisas aproveitando da ignorância alheia. A velha história do comunista comedor de criancinhas.

Primeiramente no comunismo verdadeiro, pensado por Marx, as pessoas são relativamente livres, possuem liberdade de expressão, de ir e vir. Elas não têm propriedade e, como na República de Platão, servem ao Estado como melhor convir ao Estado, o que, de fato é um dos principais fatores de sua inviabilidade e, possivelmente, sua maior reestrição de liberdade. Mas, mesmo no capitalismo, a liberdade é um conceito muito relativo e restritivo. Não que eu defenda um ou outro, mas no capitalismo a liberdade existe para quem? Enfim, ambos pregam que o outro é responsável privar a liberdade, embora os dois sejam em certas medidas, e qualquer sistema socio-econômico, mais ou menos, vai o ser. É evidente que, se o parâmetro para comunismo são ditaduras atuais que se autodenominam de esquerda, o capitalismo se torna claramente sinônimo de liberdade. O errado é entender esses regimes como comunistas.

Comunismo, diferentemente do que as pessoas pregam, nunca passou perto de ser uma proliferação da pobreza ou um regime ditatorial. Em um comunismo marxista as pessoas seriam todas de classe média. Embora também não exista extrema riqueza. De toda sorte, Karl Marx criou um teoria que precisa de contar com um homem à Rosseau, que comunga de valores éticos e morais, e que nunca pensa em levar vantagem, isto é, naturalmente bom. Além disso é um sistema em que a igualdade rouba a individualidade, o que é impraticável aos humanos – graças à Deus. O ponto é que, por diversas razões, desde a desconsideração do indivíduo à necessidade da comunhão de muitos valores, o comunismo é inviável. Nunca existiu, nem existirá. Cuba não é comunista, China não é comunista, Coréia do Norte não é comunista, a União Soviética não foi comunista...

O segundo ponto, tão propagado quanto o anterior, é dizer que o Brasil e o PT são partidos atualmente de esquerda. O Brasil nunca foi de esquerda. Duvido que um dia será, sobretudo enquanto houver financiamento privado de campanha. E o PT, assim como o PSDB, só foi de esquerda no período entre sua fundação até a hora em que assumiu o poder. Afinal, antes de chegar ao topo, os partidos são obrigados a assumir diversos compromissos completamente conflitantes com os ideais ditos de esquerda. Caso contrário, não seria eleito ao executivo. 

De toda forma, ainda é aceitável pensar nessas coisas, que acabam nos sendo impostas e ensinadas desde a escola, quase como senso comum. Por outro, é inconcebível cogitar, imaginar, devanear a teoria da conspiração que uns loucos estão disseminando por aí. Segundo o delírio eles, os governos de “esquerda” da América Latina estão se unindo com intuito de criar um partido comunista único e dominar todo o continente, um PCB, talvez, Partido Comunista Bolivariano. Por isso, tanto investimento em Cuba, Venezuela, Bolívia... 

Segundo eles, o dinheiro roubado da Petrobrás, por exemplo, serve justamente para financiar esse projeto louco, de dominação da esquerda. Por isso o governo quer, cada dia mais, acumular dinheiro e se afastar progressivamente dos Estados Unidos e dos países do G8.

Se você tem o mínimo de bom senso, já está se perguntando qual das partes dessa teoria é mais absurda, esdrúxula até. A universalização era o plano teórico e histórico do partido Comunista desde do século XIX. E, se em mais de 100 anos, eles não conseguiram algo nem perto, se não se aproximaram nem quando a União Soviética era uma potência mundial, à época da Guerra Fria, não seria no mundo atual, com o Comunismo morto e enterrado, que conseguiriam. 

Ademais, se é para seguir um projeto comunista bolivariano, supondo que essa teoria absurda tenha uma mínima razão de ser, não faria o menor sentido adotar as práticas capitalistas na condução da economia. E é isso o que é feito. O investimento feito em outros países, sobretudo nos ditos de esquerda, é uma prática absurdamente capitalista. A falta de infraestrutura desses países é uma grande oportunidade para grandes empresas brasileiras, sobretudo as empreiteiras, mestres em lobby, ganharem direito. Ora, não foi isso que foi feito no Iraque? Não é isso que é feito na África? Ou vão dizer que o Iraque e África são comunistas? 

Aliás, quem realiza essas obras? Odebrecht, Andrade Gutierrez, OAS... Vão me dizer que essas empresas que vão para lá ganhar dinheiro são comunistas? Será que a Vale e a Magnesita com suas filiais chinesas, com investimentos altos do governo brasileiro também estão nesse complô? Na hora de falar de investimentos em países ditos de esquerda isso tudo vira uma conspiração. Mas, saibam, que, quando morei na Austrália, o governo Brasileiro investia uma nota para empresas de Mineração como a Vale, e outras de agronomia desenvolverem suas atividades na terra dos cangurus. Um sucesso, sobretudo para a Vale. A não ser que eles também sejam comunistas e eu não saiba, a lógica a mesma. Não ponho em pauta se é uma política certa ou não. Ao meu ver não é, sobretudo pelo fato de ser uma política de cartas marcadas, mas decerto, não é comunista.

Outro argumento ridículo é o fato de a gasolina da Petrobrás ser mais barata no exterior do que no Brasil. Novamente, não é que eu concorde com essa prática, mas isso não me parece ser nada além de prática de mercado. Considerando que o governo brasileiro detém o direito de taxar o combustível no país, o preço da gasolina aqui vai ser mais alto, uma vez que eles têm o controle e, consequentemente, todos os seus concorrentes terão de segui-lo. No exterior, onde o governo brasileiro não pode ditar as regras e tributos, o combustível tem de ser competitivo com as concorrentes locais, caso contrário, encalha. Ridículo, sim. Comunista, não. 

Continuemos, o maior comprador de petróleo da “totalmente comunista Venezuela” são os EUA. Um país comunista vai negociar tanto com os Estados Unidos... A Petrobrás, inclusive, é uma empresa de capital aberto com ações nas bolsas nova-iorquinas. Como a América Latina é comunista! E como a Petrobrás é uma ferramenta de financiamento do comunismo mundial. 

Especificamente com relação ao Brasil, moramos em um país em que os superlucros não são taxados, as fortunas também não. Aliás, para se construir uma grande indústria em algum rincão qualquer são dados inúmeros incentivos fiscais. E, diga-se, a maioria dos lucros dessas indústrias vão para seus países sedes, e ficamos apenas com o lucro das empresas satélites. Ou seja, se tem uma coisa que o governo e o Brasil estão longe de ser é comunista. Aliás, nosso ministro da economia fazia parte da equipe que comandaria a economia do país, caso o outro candidato ganhasse. Será, então, que o Aécio também é comunista? 

Discorde, discorde muito do governo. Eu discordo. Ou se quiser concorde passionalmente. Não seja capitalista, ou, se preferir, seja. Não seja maniqueísta, não veja o mundo e o Brasil por apenas dois ângulos, ou se quiser veja. Não torça por um partido como por um time futebol. Ou seu quiser torça. Não seja petralha ou tucano, ou seja, você é quem sabe. Tenha suas próprias ideias, ou mesmo que não sejam suas, que sejam embasadas e verossímeis. Seja oposição, seja situação, seja o que quiser, mas, pelo amor de Deus, não invente. Não tente manipular as pessoas por meio de teorias da conspiração que não fazem sentido e não têm nem indícios de existir. 

Se você tem medo do Comunismo, fique tranquilo. Ele não existiu e nem vai existir. Se você tem medo dessas ditaduras que se dizem de esquerda, é realmente algo a se temer. Mas não aqui. Aqui quem manda é quem tem, e, se por algum acaso essa ameaça bolchevique pairar no ar, esteja certo que não vai ser pelas mãos do PT, nem do PSDB. Mas, graças a Deus estamos livres disso... Agora falta nos livrar dos contos de fadas em que Comunistas comem criancinhas...