terça-feira, 8 de dezembro de 2015

Golpe de marketing

A política brasileira surpreende negativamente todos os dias. E não adianta culpar A ou B, discutindo idoneidade partidária ou qualquer coisa do tipo. Isso é tratar política como torcida de futebol, isso é burrice e é exatamente o que eles querem. Não é futebol e o que está em jogo aqui são nossas vidas. O problema é sistêmico, o defeito é na engrenagem, não importa os nomes, os dentes dessa engrenagem sempre serão os mesmos, os donos do poder não mudam. É idiotice não ver isso.

Seria cômico se não fosse trágico, mas o futuro da nação pode ser decidido por uma questão de marketing e desavença pessoal. Nada mais ridículo do que o Eduardo Cunha pedir o impeachment da Dilma. No dicionário da língua portuguesa isso é golpe. O golpe que o PMDB aplicava velado no início da crise, agora está escancarado. Os próprios partidos de oposição que acataram o pedido não contavam com esta carta, ao menos não neste momento.

Dizer que isso é golpe não é ser favorável ou apreciador do governo Dilma. Uma coisa não tem nenhuma relação com a outra. Este impeachment proposto pelo Eduardo Cunha é imoral, um verdadeiro atentado contra a democracia e a legalidade. A verdadeira razão pela qual ele fez, e isso está escancarado, é ofuscar sua própria cassação. Mergulhado em escândalos absurdos de corrupção, com milhões e milhões aparecendo misteriosamente nem sua conta na Suíça, a tática do Cunha é simples: tentar ser o herói. Ora, sua imagem extremamente manchada, após o PT se manifestar em favor a sua cassação, nada melhor para ele do que aparecer como o AntiDilma. É capaz de ter gente endeusando esse cara.

A única coisa que, não fosse o Brasil, teria um potencial construtivo nessa situação é o fato de ela elucidar o quão sistêmico é o problema. Afinal, os expoentes opostos não parecem ser de uma laia muito diferente, é como uma batalha de vilões, com ambos na berlinda. Talvez seja a prova mais cabal que não há certos e errados, nem que os esquemas de corrupção são criação do atual governo, o que, evidentemente, não lhe retira a responsabilidade de não ter combatido e ter se valido dele.

De toda sorte, é uma briga de demônios e, goste da Dilma ou não, o impeachment a esta altura não seria de nenhuma serventia. Obviamente se ficar provado algo que justifique sua destituição conforme a constituição prevê, ótimo que se faça. Entretanto um balão de ensaio como este simplesmente aumenta a instabilidade política e econômica do país, deixa o ambiente propenso a golpes, chuvas e trovoadas; desafia o Estado Democrático de Direito e, sobretudo, retira o foco de onde ele deveria estar: nas operações anticorrupção, inclusive na cassação do Cunha e na prisão do Delcídio. 

Isto posto, é deveras perturbador a hipótese do Eduardo Cunha, cuja credibilidade é negativa, ser considerado como herói por uns. E é esse o verdadeiro intuito deste processo, uma grande jogada de marketing do Eduardo Cunha. Nem a imprensa acreditou em critérios técnicos para decisão do presidente da câmara. O grande ponto, além da obviedade da motivação pessoal da atitude do Cunha, é justamente esse: qual a credibilidade deste senhor ao fazê-lo?

Nosso sistema é estruturalmente podre, uma guerra de poder e de interesses pessoais. A maior evidência disso é que ninguém parou para pensar em qual a linha sucessória no caso da queda da presidente, só pensam de maneira equivocada que ela é a personificação dos problemas e, portanto, sua queda a solução mágica para o mar de lama brasileiro. Ignoram solenemente que, o próprio Cunha, está nesta linha sucessória, embora não seja o primeiro, de toda forma, seu partido está em todos os níveis desta linha.

Para se ter ideia do tamanho da podridão, basta lembrar que, logo que os escândalos de Cunha começaram a pipocar na imprensa, o principal candidato a salvador da pátria, disse que ser favorável da destituição de Cunha do cargo de presidente da câmara, mas veementemente contra sua cassação. 

A destituição da presidente como solução dos problemas é mera ilusão. Boa ou má, sua saída não é nem o primeiro passo. A mudança tem de ser estrutural e esse espetáculo midiático é simplesmente uma arma, uma distração temporária e, no caso do Eduardo Cunha, uma estratégia de marketing, a esperança de passar de vilão à herói.

sexta-feira, 27 de novembro de 2015

Marilama

Acredite se quiser, mas, bem provavelmente, em alguns escritórios pelo mundo os atentados de Paris estão sendo comemorados até hoje. Afinal, não fosse o foco desviado à tragédia de Paris, a catástrofe de Mariana teria uma repercussão muito maior no mundo inteiro, inclusive no Brasil. Sorte da Samarco e seus executivos mundo afora, pois, com o rebuliço mundial em torno do Estado Islâmico, demorou quase um mês e a lama chegar ao oceano para a ONU se pronunciar e classificar a tragédia mineira como um dos 5 maiores desastres ambientais da história.

O mundo não via, nós também não. Aliás ainda não vemos. O poder econômico das mineradoras sobre os políticos através do financiamento de campanhas (de todos os partidos) e sobre a mídia através dos gastos astronômicos com a publicidade impedem que tenhamos uma informação verdadeiramente acurada sobre o tamanho da desgraça. Quem assiste televisão não tem noção da realidade, sobretudo em Governador Valadares. 

Quem mora em Valadares e teve a possibilidade de se refugiar em BH o fez prontamente. E a palavra é essa mesmo: refugiar. Conversando com alguns dos "refugiados", além de alguns depoimentos que alguns davam às rádios, ao vivo, é que a a realidade fica minimamente perceptível. Uma cidade de 260 mil habitantes, sede de um campus de Universidade Federal, simplesmente parou. E não foi simplesmente parar, foi parar em estado de guerra, literalmente.

As cenas reais são muito similares às cenas de pós-guerra na África. Algumas situações relatadas e que ninguém mostrou são surpreendentes. Houve, por exemplo, tiroteio por conta de água. Aliás, toda a água que chegava à cidade precisou ser escoltada pelo exército. Uma moradora relatou que, em um bairro de classe média, em um estacionamento de supermercado, ela foi assaltada a mão armada. Não levaram dinheiro, nem celular, nem joias. Simplesmente roubaram as garrafas de água que ela havia comprado para estocar. Não bastasse esses absurdos, empresários locais estão vendendo 500 ml de água à pelo menos R$7,00.

E aqui estamos falando tão somente de uma cidade e somente da questão do abastecimento de água. Não sei se as pessoas têm a dimensão do que é matar – a palavra é essa mesmo – um rio inteiro. Não são apenas peixes, plantas e solo. Imagina quantas pessoas vivem, ou viviam desse rio? Quantas pessoas bebiam água desse rio? Sem comentar nas comunidades inteiras destruídas e nos danos ao oceano. Óbvio que o rio já sofria com homem, mas, dessa vez o golpe foi fatal. Não pensem também que é chegar no mar e a natureza simplesmente se recupera. Não é tão simples assim. Essa recuperação não tem nem previsão, neste caso é começar do zero o que demorou anos e mais anos para ser construído. O Rio Doce morreu e seu renascimento é algo para as próximas gerações, talvez meus bisnetos. 

Nem a capacidade de regeneração do mar é grande o suficiente para reparar esses estragos assim de cara. O pior de tudo é que essa lama foi para uma área de mangue, o berçário do mar. Ao menos a população e os ambientalistas tiveram um certo tempo para retirar o maior número possível de espécies do local. Para se ter uma ideia, pelo menos 300 km do litoral do Espírito Santo foi comprometido, impróprio para o turismo e para a vida marinha. 

Cálculos apontaram que se o vazamento fosse para o lado oposto, o mar de lama teria destruído Mariana, Ouro Preto e grande parte de Belo Horizonte. Não se esqueçam que não é apenas lama. É uma lama extremamente tóxica, contaminada com metal pesado. Por onde ela passa, deixa um rastro de morte e desoxigenação.

Ambiental, social e economicamente os prejuízos são inestimáveis e não chega perto dos 1 bilhão 250 milhões ventilados na imprensa. Isso, aliás, para uma mineradora, não é troco de supermercado. Deve ser, mais ou menos, o gasto deles com apoio às eleições e publicidade. Hoje, passado o frisson maior dos atentados à Paris, a tragédia de Mariana repercute mais no exterior do que aqui. A 5ª maior catástrofe ambiental não é pouca coisa e não deixam que tenhamos a noção disso.

quarta-feira, 18 de novembro de 2015

Agora é Guerra?

Alá é a palavra árabe para Deus. Assim como em inglês se diz God. Assim um cristão árabe, eles existem e são numerosos, também louvam a Alá. Aliás, a maioria dos muçulmanos nem árabes são. De toda forma, há tempos estamos assistindo de camarote às atrocidades do Estado Islâmico em nome de Deus. Verdadeiros absurdos, sem fundamentação, sem lógica. Uma lavagem cerebral insana, que distorce os valores muçulmanos e atuam muito na disseminação do preconceito contra o islã e contra os árabes, e vi isso de perto, de dentro de um país árabe de maioria de muçulmana.

O mundo assistiu o Estado Islâmico crescer e, querendo ou não, pouco se fez efetivamente contra ele. Esse grupo terrorista atua contra todo o mundo, não só contra as religiões, não só contra inocentes. Ele atenta contra o islã, contra o cristianismo, contra o judaísmo, contra o ateísmo, contra a história do mundo, contra a cultura. Todos vimos, embasbacados, quando os imbecis destruíram sem a menor razão artefatos e monumentos históricos milenares no Iraque. 

Mas uma coisa é fato: contra o dinheiro e o capitalismo eles não têm nada. Aliás, não há como falar no Estado Islâmico e pensar só em religião quando falamos neste assunto. Os fatores religiosos, somados aos problemas socioeconômicos europeus, atingindo sobretudo os jovens de origem não caucasiana servem somente de estímulo para recrutamento.

O Estado Islâmico se instalou em uma região estratégica econômica e geograficamente. No norte da Síria, próximo à fronteira com a Turquia, porta de entrada para a Europa. Além do mais, uma região riquíssima em petróleo. Esse petróleo é vendido e financia toda a milionária estrutura do grupo. Neste aspecto, já temos dois pontos interessantes. Existe alguém que compra esse petróleo e alguém que vende armas e suprimentos.

Aliás, o aspecto econômico sempre sobrepuja “os verdadeiros ideais” do grupo. Voltando aos monumentos destruídos no Iraque, vale ressaltar que uma parte das estátuas foram conservadas e vendidas ao museu de Londres, que admitiu a compra, afinal, as obras foram tratadas como reféns de um sequestro. 

Vamos ao ocidente. Nada no planeta é tão eficaz para livrar o mundo de uma crise econômica do que uma guerra. A guerra faz a economia girar em todos os sentidos. A indústria bélica gera empregos diretos e indiretos, além da criação de infraestrutura, construção civil... 

Teorias da conspiração à parte, as últimas guerras e atuações dos Estados Unidos sempre foram em períodos de crises econômicas globais. Agora, vamos à alguns fatos. Qual a real efetividade ao combate do Estado Islâmico até então? Ora, uma repórter chegou ao coração do Estado Islâmico. Mostrou ao mundo como funciona. Não bastasse, todas as vezes em que se mostram os perfis públicos, repito, públicos, em redes sociais dos terroristas, suas fotos de capa e perfil são verdadeiras confissões. Não é possível que não há como monitorar essas pessoas. Aliás, a França admitiu que o Iraque havia avisado sobre o atentado. Não acho que tenham deixado de propósito, mas porque não dar o mínimo de crédito? 

Enfim, voltando aos combates pouco efetivos, ano passado esses retardados decapitaram 20 cidadãos egípcios participantes de uma seita católica local. Em retaliação, o Egito, enfatizo, Egito, que não tem nada de superpotência, em um ataque noturno surpresa, que durou cerca de 4 horas, destruiu cerca de 20% de todo o poderio bélico do Estado Islâmico. Se o Egito foi capaz de destruir 20% do poderio do Estado Islâmico em um único ataque de 4 horas, o que seriam capazes de fazer as superpotências?

No primeiro ataque francês, a capital do Estado Islâmico foi arrasada a ponto de os principais líderes estarem em fuga para o Iraque. Isso tudo apenas com ataques aéreos. Imagina o resultado de um front conjunto tendo como base terrestre Israel, Egito e Turquia? Não precisa ser estrategista militar para chegar a essa conclusão.

Faltava um motivo. Um motivo suficientemente grande para comover ao mundo todo e começar a guerra e destruir o Estado Islâmico de uma vez por todas, ou o suficiente para que ele não se reestruture até a próxima crise econômica. O motivo está aí, a publicidade pronta. Agora é só começar a Guerra. Aliás, para que fique claro, sou totalmente a favor dela, a questão é: precisava esperar tanto? Precisávamos assistir o crescimento deles assim? Bom, mas assim foi em todo o século XX. O mundo assistia a ascensão de seus vilões para depois derrota-los... Ou seriam todos vilões? 

Enfim, o que aconteceu em Paris foi inadmissível. Sangue inocente derramado e a instauração geral e irrestrita do preconceito. A hora é agora, e que seja questão de tempo até o tal Estado Islâmico ser varrido do mapa. 

#JeSuisParis



sexta-feira, 13 de novembro de 2015

Uma cerveja com o Papa

Já cansei de elogiar o Papa Francisco. E, seja lá qual for sua religião, se você for minimamente racional, também terá uma certa admiração por ele. Ele me faz lembrar aqueles caras da Teologia da Libertação. Um cara tão moderno, tão atual, que incomoda a Igreja e seus valores conservadores milenares e hipócritas. Aliás, valores não só católicos como Cristãos. 

Imagino eu que a razão pela qual o papa resiste à frente da Igrjea mesmo com tanta gente dos bastidores do Vaticano querendo o seu pescoço é o fato dessa sua personalidade, atual e progressista, ter sido a redenção dos católicos. Afinal, enfim perceberam que a religião só se propaga pelo medo ou pela adaptação à contemporaneidade. O papa escolheu a segunda, até porque, graças à Deus (com o perdão da ironia) o catolicismo perdeu esse poder do medo e da escravidão mental usada por tantas outras igrejas cristãs.

E se eu já era fã do Chico Argentino, de uns tempos para cá, analisando seu histórico no papado cheguei à conclusão que gostaria muito de sentar com ele em um boteco para tomar uma e conversar. Assuntos variados, passando da política, pela religião ao futebol 

Só para recapitular, estamos falando do papa que teve a coragem de dizer que “o Papa é argentino, mas Deus é brasileiro”. Esse mesmo papa disse que não é ninguém para jugar a sexualidade alheia, tampouco para impedir que essas pessoas se aproximem de Deus. Ainda, com ousadia ímpar, interpelou o entrevistador que perguntou sobre a homossexualidade com uma colocação simples: “se seguirmos ao pé da letra, mesmo o ato sexual de um casal heterossexual que ainda não celebrou matrimônio é pecado e nem por isso se proíbem namorados de irem à igreja.

Não para por aí. Como não respeitar um cara que, mesmo representando a instituição que representa, disse que os jovens precisam contestar, e que uma juventude que não contesta não é contraproducente à sociedade. Sem contar nas inúmeras críticas à própria igreja e algumas de suas atitudes. Inclusive ele disse até que sonhava em termos em breve uma papisa a frente do Vaticano.

Mas foram as interpretações lúcidas e racionais sobre os dogmas cristãos que me fizeram ter muita vontade de sentar em um boteco na mesa dele para trocar uma ideia. Ele simplesmente disse o óbvio. Que a teoria da evolução não é contraditória com a bíblia, até porque a passagem de Adão e Eva é uma metáfora. Aliás os judeus já sabem disso desde antes de Cristo. Bem como o inferno, que, segundo o Papa, não existe. Para ele é uma mera representação metafórica com caráter moralizante. 

Em verdade ele disse o que todos os estudiosos da bíblia dizem: ela é um livro cheio de metáforas e interpretações, escritos há mais de mil anos em hebraico antigo, que sofreu mudanças ao longo do tempo, conforme interesses e mesmo traduções. Em suma, não é para ser levado ao pé da letra e tem, sim, que ser adequado à sociedade de hoje.

Ouvir isso de um Papa é realmente um fio de esperança no caos. Sério, Chico, a primeira garrafa é por minha conta. 



quarta-feira, 23 de setembro de 2015

O mundo caranguejo


O mundo ocidental está regredindo velozmente. Não fossemos nós, brasileiros, uns incompetentes acomodados, estaríamos diante da melhor oportunidade dos últimos cem anos para se tornar uma potência. Afinal, na crise, uns choram, outros vendem lenço. Mas somos incompetentes, burros e incoerentes demais para isso. Destarte, deixaremos o mundo aos orientais. 

Aqui no lado ocidental da coisa, poucos são os que, a sua maneira e condição, aproveitam a loucura do globo. O Uruguai, com seu tamanho diminuto, mas mente progressista; a Costa Rica que aprendeu a sustentar a sua saúde vendendo saúde para os americanos; os canadenses com suas políticas sustentáveis, ou os suíços que, sempre neutros, continuam à parte do mundo, são raros exemplos. 

Além destes e de algumas outras honrosas exceções, são os orientais quem estão atentos à esta oportunidade ímpar de ter para si o controle do globo, ou ao menos a independência financeira. Não é por acaso que dizem ser a China - cuja política econômica me enoja - a maior potência do mundo no futuro.


Mesmo os países orientais de cultura ocidental, casos da Austrália e Nova Zelândia, até pela posição geográfica, são os de postura mais independente ao caos do mundo centro-ocidental. Não é para menos. em poucas gerações a população de origem chinesa ultrapassará os ascendentes de europeus naqueles países. 


Voltando ao assunto, digo centro-ocidental, porque, neste caso específico, o oriente é bem extremo. Já que o chamado Oriente-médio, com suas fortunas em óleo, há muito são parte importante da engrenagem e loucuras ocidentais. 

Poderíamos estar tomando às rédeas da situação junto com os chineses, sul-coreanos e japoneses. A crise mundial está deixando o mundo ocidental perplexo e os orientais ricos. Crise, inclusive, que já ultrapassou às barreiras econômicas há tempos. Mas enquanto o mundo gira ao contrário, abrindo as portas aos espertos, nós brasileiros estamos resolvendo problemas internos que nem deveriam ter sido começados, resolvendo 500 anos em 5 meses.

Começando pelas Américas, enquanto Argentina e Brasil lutam contra sua própria incompetência, as tensões nas fronteiras  venezuelanas e colombianas e venezuelas e guianenses se acirram drasticamente sem sequer serem amplamente noticiadas. Alguns países de fora da América já exigem a intervenção Brasileira e Argentina para que a situação se controle. Segundo analistas, o desejo venezuelano por parte dos territórios desses países está tornando uma guerra iminente. Aqui não temos nem a noção da gravidade disso e o quanto isso iria nos ferrar. 

Os Estados Unidos, que em poucas gerações se tornará um país de maioria latina, além de todos os problemas sociais que sofre (acabo de ler que Los Angeles está em calamidade pública por conta dos sem casa), vive a expectativa das eleições no ano que vem. As tensões internas aumentam, sobretudo sobre questões étnicas na briga eterna entre republicanos e democratas. Sem contar no eterno risco de uma "eurização" da economia, uma vez que o Tio Sam não tem lastro para toda sua moeda. Não é a toa que a nota de dólar tem prazo de validade. 

Não bastasse isso tudo, a Casa Branca e o Pentagono estão preocupados (olha que retrocesso atroz) com a Rússia de Putin. Não faz muito tempo, o ministro do exterior dos Estados Unidos acusou a Rússia de subsidiar o governo sírio em suas atrocidades. Exigiram explicações. Parecem até os anos 1980. 

O Oriente Médio já é aquele caldeirão natural, que efervesce todos os dias desde a criação do estado israelense. Mas um golpe na economia local deve piorar as coisas: a queda vertiginosa do preço do barril de petróleo. Não bastasse isso, agora tem o famigerado (embora alguém esteja lucrando com isso) Estado Islâmico que, além de aterrorizar o norte da África e o Oriente Médio, dominou uma região importante de produção de petróleo, o que tem desequilibrado ainda mais o mercado.

A Europa está em crise. Econômica e política. Aliás, quando não esteve? Parece absurdo, mas o período de maior estabilidade na Europa deve ter sido na Guerra Fria, pelo medo talvez. Agora ela paga o preço pelos seus atos passados. O caos da África e o número de refugiados e imigrantes é consequência direta da interferência europeia no século XX. Hoje, ela não se move para resolver o problema, e agora tem que se virar com os refugiados que ela mesmo criou. 

O velho continente também é um caldeirão. Em épocas assim, historicamente, as questões xenofóbicas são postas à mesa, o povo se divide. Assim foi no período entre-guerras e assim sempre será em um território marcado por rivalidades milenares. 

Atualmente, sobretudo os países do leste, vivem essa maré xenofóbica. Afinal, a extrema direita, extremos em geral, invariavelemte reverberam em países mais pobres. E eles, os primos pobres da Europa queriam o dinheiro que pode ser destinado aos refugiados para arrumar o colapso em suas economias destruidas e mal estruturadas. Ora, basta ver o colapso grego e a imbecil cinegrafista hungára. 

Por essas e outras, a imigração na Europa já está em patamares insustentáveis. As razões são óbvias. O Velho Continente é Velho! A estrutura social está montada. A posição geográfica é perfeita, perto de tudo, o verdadeiro centro do mundo. Por fim, os europeus dominaram todo o mundo ocidental. Ou seja, lá vai ter algum lugar lá em que falam a sua língua. Mais que isso, vai ter um lugar em que nós colonos entedemos com uma relação especial, uma relação patrícia quase paternal. Basta perceber que não ouvimos tantos casos de imigrantes na escandinávia, que é, economica e socialmente quase que o paraíso. Ou notar para onde vão os imigrantes: Angolanos, Brasileiros, Cabo Verdianos, Moçambicanos e tantos outros em Portugal, os imigrantes da África branca na França, ou mesmo os egípcios na Itália. 

E como não é toda a Europa que está bem financeiramente, o fluxo de imigrantes se torna ainda mais complexo. Portugueses e Espanhóis, por exemplo, estão espalhados por todo o continente. Os ibéricos estão longe de estarem austeros como os alemães, por isso se espalham. O que acontece então? Pessoas de terceiro mundo, sobretudo das colônias, ocupam o espaço deixado por esses imigrantes. Os imigrantes do leste europeu também escolhem seus portos seguros, gregos, turcos e poloneses na Alemanha, ou os Albaneses na itália. É gente demais! Agora os refugiados. O sistema não aguenta, mas quem procura acha. Ação e reação.


Enquanto a Europa e os Estados Unidos quebram a cabeça para consertar o mundo ocidental (que eles mesmos estragaram), a China, o Japão e a Coreia do Sul aproveitam. Tornam-se potências cada vez maiores, cada vez mais incontroláveis e independentes. Afinal, se mantém à parte dessa loucura. Deixam aos ocidentais os problemas do Ocidente. 

E o Brasil? Com potencial, território, recurso e população que temos? Nós estamos parados no século XVIII. Nós disputamos e discutimos poder, debatemos entre os corruptos e os ladrões com passionalidade de uma torcida de futebol, ficamos entre os ruins e os piores ainda, nesse círculo vicioso de mais de 500 anos em que só ganham os políticos. 

quinta-feira, 13 de agosto de 2015

Estado sem emoção

Há mais ou menos um mês, estava sentado em uma mesa de bar, na calçada de uma avenida movimentada e boêmia. Os meus pertences estavam todos sobre a mesa, enquanto conversava distraidamente. Distraído demais, como se estivesse na Disneylândia.

Aconteceu o óbvio: dois trombadinhas, uns moleques de uns 13 ou 14 anos no máximo, passaram e levaram uma das minhas coisas, o documento do carro. A única que não tinha valor. Não foi a primeira vez que fui roubado. Por duas vezes, fui assaltado à mão armada, inclusive, e a sensação é a mesma do dia do trombadinha: vontade de matar o filho da puta que me roubou. Não deu 10 minutos e encontrei o documento intacto, óbvio não tinha nada de valor nele. Mas a raiva não passou.

A sensação é de impotência, ódio, raiva. Decerto, tivesse eu uma arma e os moleques estivessem na minha frente, matava. Sem dó nem piedade. Como faria em todas as vezes em que fui roubado. 

A raiva não diminuiu, nem vai diminuir. Entretanto, pensemos: qual o tamanho do dano para mim e para a sociedade causado pelo delito? Insignificante. A raiva continuou sem passar. Do mesmo jeito da raiva que tive quando fui assaltado à mão armada. 

É compreensível a raiva. Quando acontece com a gente o sentimento de ira, de ódio afloram. Sentimentos humanos e normais que podemos e devemos sentir nesses momentos. Por isso temos empatia quando escutamos em punições aos marginais, de qualquer forma e a qualquer custo.

O Estado não pode pensar assim. A lei não pode ser desta forma. A justiça tem de ser neutra e racional, ter escala de valores. Portanto, é necessário que ela reflita sobre os dois lados, pese os danos e ameaças à sociedade, as causas, e por aí vai.

A minha raiva não passou, mas o Estado tem de descolá-la do julgamento. E não pensem vocês que é fácil. Da época em que fiz Direito, além da a convicção de que algumas das matérias deveriam ser obrigatórias no Ensino Médio, trouxe também algumas lições e exemplos (bons e ruins) de grande valia aos debates públicos. 

Em uma delas um professor, que também era Procurador da República, por acaso pai de filhos pequenos disse que não pegava casos de pedofilia. Ele se dizia incapaz de manter a imparcialidade diante do tema, imaginando se fosse com os filhos dele e era tomado pela raiva. 

Em outro caso, por exemplo, uma professora contou que conheceu um juiz extremamente conservador em sua vida pessoal, desses incapazes de aceitar a homossexualidade. Entretanto sentenciou o Estado a reconhecer oficialmente o nome feminino de uma Travesti, bem como o seu Direito à se declarar do sexo feminino mediante a qualquer circunstância. 

Esse é o papel do Estado. Não é emocional. Então, os argumentos “e se fosse com você”, “queria ver se fosse sua filha”, “então leva para casa” não podem ser nem cogitados em esfera pública. Aliás, em questões públicas de qualquer espécie o passional não serve para pensar soluções. Pelo contrário, tomados pela emoção, seja revolta, seja ira, ou qualquer outra coisa, só fazemos arrumar paliativos temporários aos problemas.

quarta-feira, 15 de julho de 2015

Um futuro nem tão distante

Era uma noite qualquer, em uma maternidade aparentemente comum. Os passos da enfermeira só não ecoavam pelos corredores porque a criança em seu colo não parava de chorar e se debater por entre o pano que separava o seu corpo do da mulher que o levava. O recém-nascido saudável, de olhos grandes e inocentes, chorava, provavelmente por ter acabado de ser retirado dos aconchegantes braços de sua mãe. Joãozinho não parava, acho que era Joãozinho, afinal nem nome tinha ainda e sua identificação não passava de uma letra e um número qualquer, com uns 4 dígitos.

A enfermeira passou por um primeiro vidro. Lá dentro, uma infinidade de crianças atônitas, quietas, assistiam àquela cena meio aterrorizadas, sem entender aquilo. A maioria, diga-se, mal acabara de ser retirada dos braços da mãe e, por motivos diversos, esperavam com urgência voltar aos braços da progenitora. Mas a enfermeira não entrou com Joãozinho naquela sala, cujas janelas davam para o próprio corredor, ermo e meio sombrio. Lá dentro, o escuro era quebrado por duas ou três lâmpadas que jogavam feixes de luzes dentro da sala, onde outras enfermeiras rondavam incessantemente. Na porta, trancada a sete chaves, uma outra enfermeira estava de prontidão.

Mas eles passaram direto por aquela porta. Joãozinho, que é como eu gosto de chamar o bebê DT-1983, não parava de chorar e se debater, querendo se desgarrar dos braços daquela maldita enfermeira. Mas era em vão. A mulher era bem mais forte que ele, e, ali, não importava o quanto chorasse, sua mãe, seu pai, ninguém lhe ouviria. A não ser as enfermeiras e, claro, as outras crianças, tão impotentes quanto ele. 

A enfermeira continuou seu caminhar pesado, cujos sons das pegadas ecoavam no silêncio da madrugada. Seus passos eram mais tenebrosos, quanto mais adentravam a madrugada. O corredor ermo, apesar de ter paredes, piso e luzes brancas, era muito sombrio; parecia infinito. Para Joãozinho cada centímetro parecia quilômetros, e, cada segundo, uma eternidade. 

Conforme seus próprios cálculos, já havia passado mais tempo no colo da enfermeira do que no da própria mãe. Aliás, esses mesmos cálculos lhe diziam que a maior parte de sua vida até então, pouco mais de 30 minutos, ele havia passado no colo da enfermeira. Mal conhecia a vida, e o pouco que conhecia era sob os olhos grandes e julgadores daquela mulher de branco. Pior, nem sabia o porquê estava ali em vez de estar no seio da mãe, tão quentinho... Mas, fato era, que durante seu período na Terra havia estado mais com aquela mulher horrível do que com sua própria mãe...

O final do corredor já estava próximo. Lá uma porta pesada, ao lado, uma enfermeira carrancuda sentada em uma mesa diante do computador. Assim que chegaram àquela mesa, a outra enfermeira, que parecia esperá-los, levantou-se para recebê-los. Ela fitava Joãozinho com olhos ameaçadores, até mais do que a enfermeira que o carregava. Após o diálogo entre as duas aconteceu:

- Boa noite.
- Boa noite.
- Identificação?
- DT1983
- Posso ver a identificação?

A outra enfermeira checou a etiqueta, envolta no tornozelo de Joãozinho. Voltou ao computador, conferiu e deu baixa no sistema:

- Tudo certo. Estávamos esperando. 

Ela pegou o rádio e comunicou com alguém que estava dentro do cômodo que ela meio que vigiava:

- Câmbio. O DT1983 está aqui. Câmbio desligo.

A porta então se abriu. Uma terceira enfermeira sai de dentro do recinto. 

Ela então se levantou, destrancou a porta, e orientou:

- Leito 933

- Eu é quem vou ter que levar?

- Claro. 

A enfermeira, resignada, suspirou. Dentro daquele berçário imenso, outras quatro ou cinco enfermeiras rondavam de um lado para outro incessantemente. Até então Joãozinho já estava quieto, contudo, naquele momento, voltou a chorar. Não sabia o porquê. Aliás, àquela altura, só tinha dúvidas. Não sabia o porquê estava ali, o que tinha feito, se merecia estar ali.... Só queria voltar ao colo quentinho da mãe...

Uma das enfermeiras lá dentro, indagou:

- Esse menino não cala? Vai acordar os outros?
- Começou de novo essa peste.
- Peste mesmo... 
- Para estar aqui... Coloca o DT1983 ali. É aquele o “leito”.

Mais um ao lado de tantas outras crianças, mas aquilo não era um leito comum. Colocaram (um eufemismo para jogaram), o Joãozinho na incubadora. Fecharam-no. As enfermeiras se sentiam aliviadas. Dali de dentro era impossível ouvir seus choros. Aliás, de maneira sádica até, as enfermeiras ficaram olhando Joãozinho se debater enquanto ninguém o ouvia. 

Do lado de dentro daquela incubadora, ou seja lá como que se chamava aquilo, Joãozinho se esgoelava, se debatia. Não sabia falar, se soubesse, decerto, chamaria por sua mãe. Embora não conhecesse a palavra mãe, aliás, não conhecia nenhuma palavra. E ali, naquela escuridão, naquela estufa, na qual o ar só chegava por tubos e a luz apenas por uma espécie de janela de vidro, sua única maneira de comunicação não serviria. Nada poderia lhe salvar. 

As sádicas senhoras de branco ainda observavam, conversavam sobre a situação de Joãozinho:

- Alta periculosidade?
- Altíssima. Um risco para sociedade.
- Marginais!
- E a mãe?
- Uma senhora simples...
- E como ela se sente?
- Amor de mãe, é amor de mãe... mesmo quando o filho são esses pestes.
- Mas aqui eles aprendem...

Voltemos horas antes, poucos minutos antes do nascimento de Joãozinho, em um hospital público. A mãe dele, em trabalho de parto, entrou no hospital em uma mistura de desespero e alegria. Levada na maca, sentia seu abdome contrair de maneira insuportavelmente dolorida, a ponto de ela chorar, embora, em meio às lágrimas, risos incontidos, afinal, estava para vir seu primeiro filho.

As dores estavam cada vez menos toleráveis. Ela implorava aos médicos veementemente para que lhe tirassem o menino do ventre; já, há muito, castigado pelos chutes do moleque. Por outro lado, apesar da dor que parecia não ter fim, como toda mãe, sonhava em ter o filho em seus braços. Amor de mãe é amor de mãe.

O parto era difícil e doído. Joãozinho era retirado do ventre da mãe de forma dolorosa para ambos. A mãe só queria vê-lo fora de si. Joãozinho, por sua vez, tinha um sentimento ambíguo entre a vontade de não se separar da mãe e a curiosidade em ver o mundo que o aguardava. Então, no exato momento que a cabeça de Joãozinho conhecia o mundo, seu pai, ao ver o primeiro rebento, desmaiou na sala de parto, desfalecido e inerte. Joãozinho ainda sem entender nada do que estava ocorrendo, assustado com tudo aquilo, urinou e regurgitou na cara do médico.

Estava formado o rebuliço. O pai caído, o médico, desesperado com a urina, como quem encosta em ácido, trombou em vários equipamentos, até cair no chão, ao lado da mesa de cirurgia. A criança, no colo de uma enfermeira, batia suas perninhas, agitadas, assustadas e desesperadas. Em uma dessas pernadas, acidentalmente o garoto chutou um bisturi, repousado por sobre a mesa. O bisturi, para azar do Joãozinho e do médico, caiu no abdome do obstetra, ainda caído ao chão depois de se atrapalhar com o xixi do bebê. 

Um corte profundo, quase letal, foi feito na barriga do homem, salvo por um colega. Joãozinho não sabia o que estava acontecendo, não entendia nada, nem tinha noção de que era um bisturi, muito menos tinha ideia de que tinha batido uma perna no bisturi, mal sabia o que era viver, muito menos o que era morrer. Ninguém havia lhe ensinado nada a respeito. Ele estava perdido e, por isso, se comunicava da única maneira que sabia: chorando. Cada vez mais alto, irritando as enfermeiras que, desesperadas, não sabiam mais o que fazer. Uma delas gritava:

- Urgência! Chamem os chefes da enfermaria. 

Logo uma equipe de enfermeiras, liderada por aquela mesma que carregou Joãozinho até o berçário, chegou à sala de parto. A calma estava restabelecida, exceto por Joãozinho, que não parava de chorar, apesar dos gritos incessantes da enfermeira para que ele se calasse.

A criança foi colocada nos braços da mãe por alguns segundos, para ser acalmada. Foram os primeiros segundos confortáveis da estadia de Joãozinho na Terra. Aquele colo gostoso, quentinho e cheiroso, lhe inspirava segurança, confiança, carinho e cuidado. Mas ele só ficou o tempo suficiente para se acalmar, dormir e para terminarem de cortar seu cordão umbilical, parcialmente rompido naquela confusão. 

As enfermeiras, olhando aquilo, diziam:

- Como pode, em tão poucos segundos de vida alguém causar tanto estrago?
- Maldito seja. 
- Mas ele vai ter o que merece. 

A sala de cirurgia estava uma zona. A mãe nem havia se recobrado da dor do parto e lhe retiraram o filho:

- O que vão fazer com meu filho?
- Dar-lhe o que ele merece. 

Tão logo saiu dos braços da mãe, ele voltou a chorar desesperadamente. Em seu tornozelo, a enfermeira prendeu uma fita com seu número, aquele fatídico DT1983. Joãozinho era um criminoso. Sem saber o que estava fazendo, sem ter tido suporte ou instrução, Joãozinho era acusado por dupla tentativa de homicídio (do médico e do pai), danos materiais, desacato, lesão corporal grave, dentre outras coisas que, como essas, ele não sabia nem o que significavam. Afinal, ele não sabia o que era ato, como saberia o que é consequência?

Voltando, ao berçário, Joãozinho, não entendia direito aquilo, estava com cara de assustado. A enfermeira que levou Joãozinho àquela unidade, por curiosidade, perguntou à outra:

- E esta? – perguntou apontando a menina ao lado de Joãozinho, chorando igualmente desesperada e, devido à incubadora, também sem incomodar a ninguém – O que ela fez?
- Se recusava a sair pelas vias normais e o médico foi coagido a abrir a pobre coitada. 

Eles estavam em uma maternidade de segurança máxima, em um berçário-solitária. Foram condenadas a ficarem ali, sem direito nem a ver os pais, pelos menos até acabar o período do resguardo das mães. Ali Joãozinho ficou trinta e seis dias, quase que no escuro. Não sabia o porquê estava ali, ninguém havia sequer lhe explicado. Nunca tiveram nenhum cuidado com ele, nunca haviam lhe ensinado nada, não haviam lhe instruído a nada. Ninguém se deu a este trabalho. Mas não hesitaram em puni-lo como se ele tivesse tido todos esses privilégios. 

Um mês e pouco depois, findado o resguardo da mãe de Joãozinho, que, aliás, foi batizado Marquinhos, sua pena acabou. Durante este tempo isolado, pouca coisa mudou. Continuava sem entender nada, mais ou menos na mesma situação em que entrou. A mãe de Marquinhos foi buscá-lo. À porta do berçário, se identificou e a enfermeira que guardava a entrada chamou alguém lá de dentro:

- DT1983, por favor.

A enfermeira chegou e abriu a incubadora:

- Está livre. 

Tão logo a enfermeira colocou o garoto no colo, Marquinhos regurgitou e urinou na enfermeira, exatamente como havia feito com o médico. A enfermeira também caiu e, embora não tivesse bisturi, ele, sem querer, batendo as perninhas com medo, derrubou uma fralda suja (as fraldas sempre eram trocadas para a liberação das crianças) na cara da mulher, que gritava:

- Reincidente! Reincidente! Reincidente!

Continuou sem saber o que havia feito de errado. Só sabe que sem nem saber nada do mundo, sem nem saber o que acontecia ao seu redor, voltou à incubadora. E DT1983 perdeu mais 30 dias dentro daquela maternidade de segurança máxima. Àquela altura, inclusive, nem se lembrava do momento de segurança que teve nos braços da mãe. Estava conhecendo cada vez mais intimamente o lado ruim das pessoas, cada vez com mais medo e cada vez mais ameaçador. 







Para bom entendedor...

terça-feira, 23 de junho de 2015

A volta dos que não foram

Estou longe de ser comunista, aliás, já cansei de falar que este sistema é utópico e impraticável. Tampouco sou capitalista, uma vez que, da forma em que ele se realiza, além de ser contraditório em seu âmago, é tão fracassado quanto o comunismo, embora, ao contrário de seu, por assim dizer, rival, o capitalismo fracassou empiricamente. Até porque, novamente distintamente do proposto por Karl Marx, o capitalismo é, ao menos, praticável no mundo real. 

Da mesma forma que não sou maniqueísta com relação às formas de pensar a economia mundial, nem acredito que existam apenas duas fórmulas, não sou maniqueísta com relação às lideranças políticas do globo, de ambos os lados (até porque lados, para mim, são conceitos única e exclusivamente geométricos). Não existe (nem existiu) nenhum país no mundo que seja comunista. Os líderes de esquerda que ascenderam na América Latina, também já não são de esquerda faz muito tempo. E os da direita insistem em uma fórmula excludente, e ganha cada vez mais força, quanto mais esses líderes de pseudo-esquerda emergem fazendo cagadas monumentais nessa ascensão. No frigir dos ovos, oposição e situação são a mesma coisa, no Brasil, mais ainda. Devo lembrar, e provavelmente farei isso um milhão de vezes durante o texto, o PSDB também surgiu como um partido de esquerda, de centro esquerda, mas de esquerda. E na era PSDB o Brasil também era governado pelo PMDB... Ou seja, elas por elas. Mas isso tudo já falei e escrevi milhões e milhões de vezes. 

O que quero abordar agora é outro ponto. Não ser maniqueísta, ou mesmo sê-lo não confere às pessoas o Direito de deturpar e transformar conceitos, concorde você ou não com eles, nem criar teorias da conspiração que chegam a ser absurdas. Discutir pontos de vista com argumentos factíveis é uma coisa. Inventar farsas para propaganda é outra. Mesmo alguém, por mais irracional e passional que seja acerca de algum conceito qualquer, é mais aceitável e honesto do que quem deliberadamente transformam as coisas aproveitando da ignorância alheia. A velha história do comunista comedor de criancinhas.

Primeiramente no comunismo verdadeiro, pensado por Marx, as pessoas são relativamente livres, possuem liberdade de expressão, de ir e vir. Elas não têm propriedade e, como na República de Platão, servem ao Estado como melhor convir ao Estado, o que, de fato é um dos principais fatores de sua inviabilidade e, possivelmente, sua maior reestrição de liberdade. Mas, mesmo no capitalismo, a liberdade é um conceito muito relativo e restritivo. Não que eu defenda um ou outro, mas no capitalismo a liberdade existe para quem? Enfim, ambos pregam que o outro é responsável privar a liberdade, embora os dois sejam em certas medidas, e qualquer sistema socio-econômico, mais ou menos, vai o ser. É evidente que, se o parâmetro para comunismo são ditaduras atuais que se autodenominam de esquerda, o capitalismo se torna claramente sinônimo de liberdade. O errado é entender esses regimes como comunistas.

Comunismo, diferentemente do que as pessoas pregam, nunca passou perto de ser uma proliferação da pobreza ou um regime ditatorial. Em um comunismo marxista as pessoas seriam todas de classe média. Embora também não exista extrema riqueza. De toda sorte, Karl Marx criou um teoria que precisa de contar com um homem à Rosseau, que comunga de valores éticos e morais, e que nunca pensa em levar vantagem, isto é, naturalmente bom. Além disso é um sistema em que a igualdade rouba a individualidade, o que é impraticável aos humanos – graças à Deus. O ponto é que, por diversas razões, desde a desconsideração do indivíduo à necessidade da comunhão de muitos valores, o comunismo é inviável. Nunca existiu, nem existirá. Cuba não é comunista, China não é comunista, Coréia do Norte não é comunista, a União Soviética não foi comunista...

O segundo ponto, tão propagado quanto o anterior, é dizer que o Brasil e o PT são partidos atualmente de esquerda. O Brasil nunca foi de esquerda. Duvido que um dia será, sobretudo enquanto houver financiamento privado de campanha. E o PT, assim como o PSDB, só foi de esquerda no período entre sua fundação até a hora em que assumiu o poder. Afinal, antes de chegar ao topo, os partidos são obrigados a assumir diversos compromissos completamente conflitantes com os ideais ditos de esquerda. Caso contrário, não seria eleito ao executivo. 

De toda forma, ainda é aceitável pensar nessas coisas, que acabam nos sendo impostas e ensinadas desde a escola, quase como senso comum. Por outro, é inconcebível cogitar, imaginar, devanear a teoria da conspiração que uns loucos estão disseminando por aí. Segundo o delírio eles, os governos de “esquerda” da América Latina estão se unindo com intuito de criar um partido comunista único e dominar todo o continente, um PCB, talvez, Partido Comunista Bolivariano. Por isso, tanto investimento em Cuba, Venezuela, Bolívia... 

Segundo eles, o dinheiro roubado da Petrobrás, por exemplo, serve justamente para financiar esse projeto louco, de dominação da esquerda. Por isso o governo quer, cada dia mais, acumular dinheiro e se afastar progressivamente dos Estados Unidos e dos países do G8.

Se você tem o mínimo de bom senso, já está se perguntando qual das partes dessa teoria é mais absurda, esdrúxula até. A universalização era o plano teórico e histórico do partido Comunista desde do século XIX. E, se em mais de 100 anos, eles não conseguiram algo nem perto, se não se aproximaram nem quando a União Soviética era uma potência mundial, à época da Guerra Fria, não seria no mundo atual, com o Comunismo morto e enterrado, que conseguiriam. 

Ademais, se é para seguir um projeto comunista bolivariano, supondo que essa teoria absurda tenha uma mínima razão de ser, não faria o menor sentido adotar as práticas capitalistas na condução da economia. E é isso o que é feito. O investimento feito em outros países, sobretudo nos ditos de esquerda, é uma prática absurdamente capitalista. A falta de infraestrutura desses países é uma grande oportunidade para grandes empresas brasileiras, sobretudo as empreiteiras, mestres em lobby, ganharem direito. Ora, não foi isso que foi feito no Iraque? Não é isso que é feito na África? Ou vão dizer que o Iraque e África são comunistas? 

Aliás, quem realiza essas obras? Odebrecht, Andrade Gutierrez, OAS... Vão me dizer que essas empresas que vão para lá ganhar dinheiro são comunistas? Será que a Vale e a Magnesita com suas filiais chinesas, com investimentos altos do governo brasileiro também estão nesse complô? Na hora de falar de investimentos em países ditos de esquerda isso tudo vira uma conspiração. Mas, saibam, que, quando morei na Austrália, o governo Brasileiro investia uma nota para empresas de Mineração como a Vale, e outras de agronomia desenvolverem suas atividades na terra dos cangurus. Um sucesso, sobretudo para a Vale. A não ser que eles também sejam comunistas e eu não saiba, a lógica a mesma. Não ponho em pauta se é uma política certa ou não. Ao meu ver não é, sobretudo pelo fato de ser uma política de cartas marcadas, mas decerto, não é comunista.

Outro argumento ridículo é o fato de a gasolina da Petrobrás ser mais barata no exterior do que no Brasil. Novamente, não é que eu concorde com essa prática, mas isso não me parece ser nada além de prática de mercado. Considerando que o governo brasileiro detém o direito de taxar o combustível no país, o preço da gasolina aqui vai ser mais alto, uma vez que eles têm o controle e, consequentemente, todos os seus concorrentes terão de segui-lo. No exterior, onde o governo brasileiro não pode ditar as regras e tributos, o combustível tem de ser competitivo com as concorrentes locais, caso contrário, encalha. Ridículo, sim. Comunista, não. 

Continuemos, o maior comprador de petróleo da “totalmente comunista Venezuela” são os EUA. Um país comunista vai negociar tanto com os Estados Unidos... A Petrobrás, inclusive, é uma empresa de capital aberto com ações nas bolsas nova-iorquinas. Como a América Latina é comunista! E como a Petrobrás é uma ferramenta de financiamento do comunismo mundial. 

Especificamente com relação ao Brasil, moramos em um país em que os superlucros não são taxados, as fortunas também não. Aliás, para se construir uma grande indústria em algum rincão qualquer são dados inúmeros incentivos fiscais. E, diga-se, a maioria dos lucros dessas indústrias vão para seus países sedes, e ficamos apenas com o lucro das empresas satélites. Ou seja, se tem uma coisa que o governo e o Brasil estão longe de ser é comunista. Aliás, nosso ministro da economia fazia parte da equipe que comandaria a economia do país, caso o outro candidato ganhasse. Será, então, que o Aécio também é comunista? 

Discorde, discorde muito do governo. Eu discordo. Ou se quiser concorde passionalmente. Não seja capitalista, ou, se preferir, seja. Não seja maniqueísta, não veja o mundo e o Brasil por apenas dois ângulos, ou se quiser veja. Não torça por um partido como por um time futebol. Ou seu quiser torça. Não seja petralha ou tucano, ou seja, você é quem sabe. Tenha suas próprias ideias, ou mesmo que não sejam suas, que sejam embasadas e verossímeis. Seja oposição, seja situação, seja o que quiser, mas, pelo amor de Deus, não invente. Não tente manipular as pessoas por meio de teorias da conspiração que não fazem sentido e não têm nem indícios de existir. 

Se você tem medo do Comunismo, fique tranquilo. Ele não existiu e nem vai existir. Se você tem medo dessas ditaduras que se dizem de esquerda, é realmente algo a se temer. Mas não aqui. Aqui quem manda é quem tem, e, se por algum acaso essa ameaça bolchevique pairar no ar, esteja certo que não vai ser pelas mãos do PT, nem do PSDB. Mas, graças a Deus estamos livres disso... Agora falta nos livrar dos contos de fadas em que Comunistas comem criancinhas...

quarta-feira, 27 de maio de 2015

Voltamos da Disney

Alguns já diziam: “O Brasil vai ter que pagar a conta da Copa e da Olimpíada, e vai sair caro”. Poucos davam ouvidos, mas era muito óbvio. Aconteceu com a Grécia, aconteceu com a África do Sul e acontecerá com qualquer país subdesenvolvido ou em desenvolvimento. E é uma conta simples, nos anos anteriores aos eventos a economia se aquece de sobremaneira, muito além da normalidade, aumentando enormemente a expectativa da população. Quando a normalidade volta, o povo não sabe mais lidar com ela. Mais ou menos como o Milagre econômico de 1970 ou a reconstrução da Alemanha Oriental, embora, por razões mais do que óbvias, os germânicos souberam lidar com isso bem melhor.

No caso da Alemanha ainda existe o atenuante de serem mudanças e investimentos para posteridade, era uma reconstrução literal, feita sob medida às necessidades de todos. No nosso caso, como no dos gregos e dos sul-africanos, dispendemos dinheiro, esforço e investimentos estruturais milionários para serem usados em sua plenitude por um mês. Investimentos completamente fora de nossa realidade e que, evidentemente, não são sustentáveis apenas pelo mercado ordinário. Ou seja, construímos para uma demanda absurda, que nunca será tão grande, mas que durou uns dois meses - visto que, ao menos o mês imediatamente anterior à Copa, a vida das cidades já mudava consideravelmente. 

Por conta desses 30 dias, vivemos alguns anos com se estivéssemos na Disney, sem crise e em um grande canteiros de obras. O mercado da construção, o imobiliário, o de infraestrutura, turismo cresceu de maneira incrível. Absurda, até. A demanda por mão de obra era gigantesca, e não eram incomuns as vezes em que ouvíamos por aí: "difícil achar um pedreiro bom". E a diária de um operário da construção civil, ou mesmo o serviço de pintor cresceram muito o preço. Por isso, não podemos simplesmente tomar 2013 e 2014 como parâmetro econômico e trabalhista para comparar com 2015, o que dirá com 2017. É crueldade, por exemplo, querer fazer isso com relação à quantidade empregos na construção civil ou mesmo em seus orçamentos e lucros. Foram anos atípicos, portanto, para se traçar parâmetros honestos é necessário voltar no mínimo à 2012. 

E, repito, a coisa é meio óbvia e fica ainda mais evidente se transpormos à realidade próxima. Conversava com um amigo e ele deu um exemplo muito claro. O aluguel de uma kitnet próxima ao porto do Rio de Janeiro, região em que se concentrará os eventos olímpicos, girava, até este ano, em R$ 1.500,00 mensais. A dona do imóvel, contudo, já avisou previamente à atual inquilina que não vai renovar o contrato, pois já tem, de antemão, uma proposta de R$ 6.000,00 mensais pelo mesmo imóvel. Nós, como a dona da kitnet, não entendemos esse movimento é temporário. Isto é, passada às Olimpíadas 2016, ninguém no mundo com o mínimo de juízo vai alugar uma kitnet perto do porto do Rio e Janeiro por R$ 6.000,00 mensais. Agora, como convencer ao proprietário, que passou a ter uma renda 4 vezes maior, e manteve essa renda por um tempo, a voltar aos R$1.500,00? Simples. Não convence. Resultado: uma placa de aluga-se se perpetuando no tempo, ou até o proprietário se dar conta que o valor de um aluguel de uma kitnet no Rio de Janeiro, próxima ao porto, não vale R$6.000,00. 

No macro, vimos um país sendo completamente remodelado e estruturado para sediar um grande evento. Isso gera obras, emprego, acelera a economia. Mas a realidade voltou. As coisas não têm, evidentemente o mesmo valor nem, sequer a mesma importância. O Aeroporto de Confins, por exemplo, privatizado antes da Copa, estava em obras até o mundial. As obras não foram concluídas em tempo hábil e, findado o evento, elas continuam exatamente na mesma etapa em que estavam antes. Ou seja, pós-copa o interesse naquilo acabou, o investimento reduziu muito, o ritmo da obra, a quantidade de empregos gerados por ela. 

Até o dia 12 de Junho do ano passado, Belo Horizonte era um verdadeiro canteiro de obras. Hotéis, prédios, apartamentos. O valor do aluguel um absurdo. Mas acabou a Copa, e com ela, a ilusão de que estávamos fora da crise mundial. Pior. Muita gente, muita gente mesmo, sem menor preocupação em estudar os dados dos países anteriores, investiram muito na Copa do Mundo. Muito e errado. Os alemães já avisavam: turista de copa não fica em hotel – se muito em albergue -, não come em restaurante, não fazem compras. Pelo contrário, muitos acabam entrando para o mercado informal para se custear aqui, dormem nas praias, em carros, comem no McDonalds...

Ganhou dinheiro quem apostou nisso. Quem apostou em bebidas, bares, lanches baratos, prostituição, enfim o mercado informal em geral. E os que gastaram rios de dinheiro pensando em hotéis suntuosos, restaurantes de três estrelas Michelin, perderam muita grana. 

A ilusão acabou, voltamos à normalidade. O canteiro de obras se fechou, os empregos reduziram, o mercado imobiliário se estagnou, os imóveis reduziram o preço e isso começou lá atrás, no dia em que o primeiro real foi investido na Copa do Mundo. A ideia de estar fora da crise, com Dólar estável, gastando fortunas no exterior - o brasileiro bateu recordes atrás de recordes de gastos -, não era normal. Éramos nós à margem da crise, mas voltamos ao mundo real e à crise. Nossos anos na Disney se acabaram.

quarta-feira, 6 de maio de 2015

Golpe velado

Me acusam de petista, coisa que nunca fui; também nunca fui tucano. Tenho um milhão de motivos para não votar no PT e um milhão e um para não votar no PSDB. Aliás, saibam, que, para mim, os dois são farinha do mesmo saco e escravos dos mesmos senhores. Em suma e direto, sem rodeios: são duas merdas. Além de criticar ambos sem restrições, sempre achei um absurdo, que se expande diariamente, esse maniqueísmo entre os dois. Não acredito que as pessoas não consigam ver além dos rótulos. Não ser PT não quer dizer ser PSDB. Não ser PSDB não significa ser PT. Propostas de ambos não são necessariamente boas ou ruins por sua origem.

Vemos todos os dias nas operação lava-jato, e na história do Brasil que a corrupção e os problemas do país são sistêmicos, aliás apenas quatro partidos não foram citados nesta operação. O PSDB não foi um deles. Isso quer dizer que a corrupção e os problemas brasileiros não têm personalidade, é estrutural e institucional, por mais que as pessoas queiram personificá-lo. Ora, é extremamente interessante para quem manda criar essa polarização entre partidos e tal personificação maniqueísta. É bom para quem manda porque esta visão, bem como toda a visão maniqueísta sob qualquer coisa limita nossos horizontes, nos impede de relativizar e pensar as coisas como elas são.

E isso é histórico. A igreja não existiria sem o Diabo, nem o bem sem o mal. Capitalismo e comunismo são sistemas absolutamente falidos cujos ápices foram justamente quando conviveram sob a ameaça um do outro. Pergunte aos europeus do bloco capitalista, o quanto a vida deles,os benefícios e serviços sociais, eram melhores quando a URSS estava lá... O fracasso e a inoperância de um, não quer dizer o sucesso do outro. Existem vários outros sistemas alternativos, o mundo não pode ser visto por apenas dois ângulos. Mas isso não favorece a ninguém. Bom, ninguém com poder. 

Voltemos ao Brasil. A partir do momento em que acreditamos na oposição cega maniqueísta e mentirosa entre PT e PSDB, quando nos envolvemos na guerra entre eles, estamos na verdade, seguindo suas regras e perdendo, como pessoas e nação. Quando tomamos partido de maneira emocional, passional, como futebol, atitude bem própria do brasileiro, não analisamos os fatos, nem a história. Nos atemos às pessoas ou em determinado grupo delas. Isto é, se eu não gosto do PT, vou apoiar qualquer coisa vinda do PSDB e refutar tudo vindo do PT, independentemente do conteúdo. E isso é cíclico, já que em 2002 a relação era exatamente a inversa.

Eu não gosto do Collor, óbvio. Mas não é por isso que vou arrotar que as medidas dele com relação à indústria automobilística e às informações nutricionais, sobretudo a respeito do glúten, não foram boas medidas. E podemos concordar apenas em parte com uma medida, apoiar outra com ressalvas e por aí vai.

Entretanto, se não pensarmos assim, se pensarmos em alternativas, novas opções, novos prismas, ficamos fortes demais. Parem para refletir: por que será que o PMDB, partido mais numeroso e poderoso do Brasil, não tem o costume de lançar candidatos próprios à Presidência da República? Simples, porque fora da briga e dos holofotes, ele transita entre todos, ou seja, sempre vão estar no poder. Não se esqueçam que esteve ao lado do governo FHC, ao lado de Lula e de Dilma. Foi um dos partidos mais atolados, se não tiver sido o mais, na operação lava-jato. Agora voltam aos poucos para o lado tucano... E agora? as críticas e ressalvas somem? Sim. Afinal, personificamos o problema. Da mesma forma como na campanha presidencial o marketing do Aécio, no primeiro turno, chamou a Marina de Dilma com outra roupa. No segundo, se sentiu orgulhoso de seu apoio... O que mudou? A relação é essa. 

As empreiteiras, grandes empresas, grandes financiadores de campanha, esses caras fortes, tenham certeza, patrocinam ambas as campanhas. Um dos próprios fundadores do PSDB, grande empresário, afirmou em sua coluna na Folha de São Paulo que rompeu o relacionamento de sua empresa com a Petrobrás nos anos 70 por causa da corrupção. Disse ainda que esse está longe de ser o maior, primeiro ou último escândalo. O que isso quer dizer? Quer dizer que enquanto a disputa for polarizada está perfeito. O sistema se mantem e eles ganham qualquer que seja o resultado.

De toda sorte, personificar é mais fácil do que criticar sistematicamente, do que entender o todo e as consequências disso, estamos vendo agora. E não são as melhores. Até porque, quem acompanha e quer ver o todo, já percebeu que não há inocentes, em nenhum dos dois lados, lados esses artificialmente criados e visceralmente aceitos por nós, quase como times de futebol. A terceirização, por exemplo, que já é praxe no meu meio há anos, e, acreditem não é nada bom para o trabalhador, é defendida pelo partido que mais apoia as investigações na Petrobrás. Eles também são os que estão tirando as informações sobre os transgênicos dos alimentos, querendo a redução da maioridade penal e que, no sul, espanca professores.

O outro, contra essas atrocidades supracitadas, está atolado até o talo em escândalos de corrupção, os quais não preciso nem começar a citar, de mensalão à Petrobrás, ainda é que quer aumentar a verba de campanha e o financiamento privado delas. E olha que estão aumentando impostos, cortando gastos, reduzindo até o FIES. Estão até dando medalha para líder do MST! Enquanto isso, o PMDB, está no pior lado de todas as medidas. Atrás das cortinas.

E nos jornais de São Paulo – e ser de São Paulo é muito significativo – publicam que a alternativa à presidenta na eleição, após deixar seu cargo em Minas, viajou diversas vezes ás custas e usando o avião oficial do estado. Vale lembrar ainda que este mesmo cidadão, que construiu e usou o aeroporto de Cláudio indevidamente, declarou em sua campanha um patrimônio de menos de um milhão. Também é aliado do senador cujo helicóptero caiu com quilos e mais quilos de cocaína... E por aí vai, podemos transitar de lado a lado que vamos ver merda.

E governadores dos dois partidos, para me ater nos polos que nos impuseram, caem em contradição e escândalos o tempo todo, estão todos insatisfeitos. 

Basta olhar o seu Facebook. Se você tem como amigo gente que acredita nessa polarização e a toma como futebol, verá memes, notícias e o cacete mostrando cagadas de lado a lado. E todas elas provavelmente estão certas, são verdadeiras e fazem sentido. Não adianta tapar o sol com a peneira. Não há inocentes nessa briga de foice, que vai continuar pautando o país enquanto a gente não aprender a não personificar as coisas entender o problema como sistêmico e institucional.

As consequências dessa maneira estúpida de ver o mundo estão ficando evidentes. De gente pedindo a volta do militarismo à político influente propondo ao Brasil o mesmo sistema aplicado ao Afeganistão. E isso é nossa culpa, e não é de quem votou em A ou B. Aliás, nada mais desonesto intelectualmente do que dizer: “eu não tenho culpa, votei no Aécio.” 

A nossa culpa reside no fato de que, nos auges das investigações da corrupção na Petrobrás, em vez de nos preocuparmos com a real situação da empresa, da economia do país, com os verdadeiros fatos e com o problema sistêmico e repetitivo – já que é tão antigo quanto à própria Petrobrás -, as pessoas batiam panela, iam às ruas e pediam impeachment, sem nem saber direito o que é isso, nem quem assumiria o país. Além do mais, faziam tudo isso sem saber muito bem o que reivindicar e quais as consequências das suas reivindicações.

Do outro lado, a culpa está no fato das pessoas simplesmente retrucarem, refutarem, brigarem e defenderem com unhas e dentes o indefensável, tentando criar movimentos contrários, mobilizando sindicatos e tudo o que tinha direito. 

A consequência imediata desse movimento foi simples. Acabou a moral do governo. E agora, independente do lado que escolheu, quem é trabalhador, quem conhece a terceirização a fundo, por exemplo, está de mãos atadas. Ora, a presidente se disse contra, mas com que moral ela veta um projeto do congresso? Parabéns, só fortalecemos o sistema. O PMDB, que invariavelmente, sendo PT ou PSDB sempre esteve ao lado do poder, já começou um golpe velado, ou seja, não importa o que aconteça, eles vão continuar governando e com a imagem quase que intacta. Aliás, depois de um golpe velado, já estamos sendo presididos pelo PMDB. Genial. 

O sistema não mudou. Nem vai. Afinal, não nos preocupamos com isso, mas sim com a personificação, com a criação de heróis e vilões os quais saídas e entradas seriam como soluções milagrosas. Não conseguimos ver o todo, estamos sempre rotulando, criando opostos extremos, uma polaridade maniqueísta na qual se crê cegamente na impossibilidade de novas vias, um terreno propício a golpes e até à guerra civil. Não acredito na segunda pelo próprio desinteresse do brasileiro. A primeira já está acontecendo. Um golpe velado com consequências que por enquanto só podem ser especuladas, mas não são nada boas.

Fato é que os políticos que arrotaram a exigência de moralidade no país, na verdade fazem de tudo para essa merda continuar, sendo o expoente e exemplo maior disso os professores paranaenses. Graças a esse maniqueísmo o Brasil e todos nós morremos um pouco, junto com a esperança e a vontade de mudar. Os gritos por mudança por parte da classe política não passam de oportunismo em meio a justa insatisfação popular.

Reflitam agora por que e por quem e você vai à rua; que mudança você realmente quer e quem você pensa que é capaz de fazê-la. Pensem, sobretudo, se vale mesmo a pena defender com tanto afinco e paixão algum dos dois lados dessa briga de foice oportunista que se instaurou, se existe mesmo tanta diferença entre um lado e outro; ou se no fim é uma mera disputa pelo poder capaz de dar sentido a célebre frase da presidenta: "Não acho que quem ganhar ou quem perder, nem quem ganhar nem perder vai ganhar ou perder. Vai todo mundo perder".

Mudar os personagens, trocar as marionetes? Ou mudar o sistema e as instituições? Pois é.

quinta-feira, 26 de março de 2015

Hipocrisia, seu nome é Brasil

Nos horrorizamos todos os dias, sobretudo aos Domingos, quando nos telejornais, ou no Fantástico, assistimos e ouvimos falar sobre o Estado Islâmico. Aquele fundamentalismo nos assusta, a ponto de nos perguntarmos como uma sociedade deixa isso acontecer. Contudo, com nossa cegueira sistemática, mal percebemos que nossa sociedade está se tornando tão fundamentalista quanto.

O auge recente dessa hipocrisia foi a polêmica absurda e retumbante sobre a novela Babilônia, que não assisto, até porque a história não me atrai nenhum pouco. O ápice dos comentários sobre a novela o foi beijo homossexual entre dois dos maiores patrimônios da cultura Brasileira, as geniais atrizes Fernanda Montenegro e Nathalia Timberg. O pior, usando argumentos bíblicos para isso. Usar a bíblia, ou melhor a interpretação religiosa dela, como argumento já é algo extremamente questionável, ainda mais para interpelar a arte.


E o paiol de bobagens, sobretudo nas redes sociais, foi fora do comum, absurdo mesmo. Chegaram ao ponto de falar sobre o nome da novela. Clamam que esse nome é demoníaco por natureza, e que jamais assistiriam algo com esse nome, pois remete a coisas ruins, satânicas e, com o perdão do trocadilho, o Diabo à quatro, por isso tal nome foi escolhido para remeter a um festival de atrocidades, que seria a novela.


Aos desinformados Babilônia, cujo significado em hebraico antigo, conforme algumas interpretações é confusão, e que aparece diversas vezes na bíblia; foi a capital da Suméria, região onde atualmente fica o Iraque. Lá, na “endiabrada” e “amaldiçoada” Babilônia, de tão desgraçada aos olhos de Deus, teve, simplesmente, uma das Sete Maravilhas do Mundo Antigo, o Jardins Suspensos da Babilônia, mas uma maravilha do mundo antigo, construída pelo homem, certamente é uma obra proveniente do Capeta.

Mas em uma coisa os mensageiros do apocalipse têm razão: o nome não foi escolhido a toa. Escolheram o nome pelo simples fato de no Rio de Janeiro, cidade onde passa a novela, existir um lugar, uma favela, conhecida como Morro da Babilônia, local de suma importância ao enredo da trama. Como disse, retumbaram um paiol de bobagens sem tamanho.

Nessas horas a gente realiza que a existência de personagens como Marco Feliciano só tem importância porque tem gente que repercute e apoia e dá ibope às imbecilidades ditas por ele. Esse camarada, inclusive, faz parte de uma corrente religiosa com a audácia de dizer que os negros são descendentes amaldiçoados de Noé. Sem contar nas milhões das declarações homofóbicas e conservadoras diariamente ecoadas por ele.

E estamos mais perto do fim do que imaginávamos. Descobri, não faz muito, existe uma coisa chamada FPE, Frente Parlamentar Evangélica. Movimento apartidário e retrógrado que, inclusive, voltando à Babilônia, publicou uma nota oficial de repúdio. Parabéns ao Brasil, um estado laico, no qual as igrejas são dispensadas dos tributos, no qual a fé alheia virou meio de vida. Laico até a segunda página e até não sei quando, pois vislumbro, infelizmente uma República Evangélica.

Me pergunto se esses mensageiros apocalípticos seguem a vida como pregam. Aliás, me pergunto, não é nessa mesma bíblia, usadas por eles como um Alcorão Cristão, que está escrito “Não julgueis, para não ser julgado”? Então qual o Direito deles de julgar? Sinceramente, antes de usar a bíblia como argumento, esses camaradas deveriam, ao menos, ser exemplo. E que Deus esse, capaz de perdoar ou ignorar a bebida e suas consequências, o cigarro, a “pegação”, mas é homofóbico? Certamente não é o Meu. Pelo menos, pelo que entendi, ele é justo e não tem dois pesos e duas medidas. Então, se alguém condena algumas práticas, tem de condenar as outras, em vez de tacitamente aprova-las e até ser reproduzi-las... Coerente, não?

Como questionador, meu lugar é o inferno, de certo. Mas, honestamente, se ir para o paraíso significa passar a eternidade com Marco Feliciano, Jair Bolsonaro, Edir Macedo, Bento XVI, e gente dessa estirpe, me desculpem, eu passo. Esse lugar soa muito mais como o inferno. Aliás, se para chegar lá no Paraíso eu tenho de compartilhar valores homofóbicos, racistas, discriminatórios, alienantes e burros, prefiro não ir mesmo. Prefiro pegar o 9403 e ir só até o bairro homônimo.

Essas posições ecoando na sociedade são tão fundamentalistas quanto à dos idiotas que deturpam o islã. Então, antes de nos surpreender e julgar, coloquemos a mão na consciência e pensemos se não estamos substituindo nossos livros de história e nossa Constituição pela bíblia. Ou melhor, por uma interpretação deturpada e vomitada dela.

segunda-feira, 16 de março de 2015

15 de Março: o dia em que o brasileiro pediu aspirina para tratar de câncer

De cara, para ser justo, vou excluir os inegavelmente imbecis: os que levaram suásticas, os que pediram os militares no poder, os que chamaram o PT de comunista e os que desfilavam com camisas “Mais Privatizações”.

Ressalvas feitas, acompanhando as atuais manifestações do neopolitizado povo brasileiro, desses que vão lutar contra a corrupção com a camisa da CBF, concluo que pensar deve doer. Doer muito.

Não tenho compromissos partidários, não pretendo defender nada aqui além da democracia e da legalidade. Já votei no PSDB e no PT consciente do que estava fazendo, esperando sempre o menos pior. Em ambos os casos, continuo achando ter escolhido o menos pior, o que não me isenta de criticar e ter criticado arduamente os governos que ajudei a eleger. Por isso me sinto extremamente confortável para dizer que as manifestações de ontem, tal como foram feitas, não tinham a menor razão de ser.

Sou contrário à maioria das medidas do governo Dilma, acho suas medidas ineficazes, tanto quanto achava – e ainda acho – péssimo o governo de Aécio aqui em Minas Gerais. Óbvio que, como qualquer cidadão de bem, mesmo reconhecendo a natureza corrupta do nosso dia-a-dia, do brasileiro que rouba wi-fi, tem gato, compra coisas piratas e adora um jeitinho; sou contra a corrupção. E certamente me manifestaria caso fosse uma ação propositiva.

O que vimos ontem, porém, foram pessoas querendo curar câncer cerebral com aspirina. E dou o crédito dessa conclusão a uma conversa que eu – crítico mas eleitor da Dilma no segundo turno - e um amigo eleitor do Aécio  tivemos no caminho entre o carro e o Estádio Independência ontem. Não sejamos hipócritas, é provável que eleitores dos dois lados tenham estado na rua ontem, mas é certo, e isso confirmei, que eleitores dos dois lados também acham ridículo o modo com que isso vem sendo conduzido. Portanto, de antemão, já aviso que, em momento nenhum, generalizo como “eleitores do Aécio e da Dilma”, até porque isso vai contra o princípio básico que estou defendendo.

Voltando ao que interessa, uma das primeiras palavras que aprendi o significado foi corrupção. Assistindo ao telejornal com minha mãe, ouvi isso e lhe perguntei do que se tratava. Provavelmente, eu e todos os brasileiros, aprendemos o significado do vocábulo corrupção antes mesmo do da palavra política. E, gente como eu, nascida na metade dos anos 1980, ainda teve o privilégio de aprender cedo, bem no início da alfabetização o significado e a grafia do termo impeachment.

Onde quero chegar? Simples. Diferentemente do que querem nos passar, a corrupção no Brasil é um problema crônico com muito mais de 12 anos, que não foi panteado nem aperfeiçoado pelo PT. Foi, antes, mantido. E, por isso, como disse Juca Kfouri, o PT paga o preço de quem, antes de estar no poder, sempre foi considerado a “esperança” anticorrupção. Paga, pois, pela decepção de ser igual aos outros.

Igual. Nem melhor, nem pior. É de uma ignorância ímpar acreditar que a corrupção é uma invenção petista que assola o Brasil nos últimos 12 anos. E não sou eu quem digo. Ricardo Semler, membro fundador do PSDB, eleitoe do Aécio Neves, escreveu na Folha de São Paulo um artigo intitulado “Nunca se roubou tão pouco”. Ele, CEO de uma empresa que não fecha contratos com a Petrobrás desde 1970 por não ceder às propinas, tem muita propriedade para falar. E diz, com razão, que hoje tudo fica mais evidente devido ao fácil acesso à comunicação e às redes sociais.

Portanto, querer criar heróis e vilões é patético. Achar que o Aécio Neves seria o salvador da pátria idem. Ora, os governos Aécio e Anastasia deixaram um rombo de R$6 bilhões nos cofres de Minas. São também responsáveis por um escândalo de corrupção na hidroelétrica de Furnas que, sob investigação, não pode nem realizar concursos públicos para contratação de novos funcionários. Sem falar no famigerado aeroporto de Cláudio. Ora, o PSB, hoje oposição, atacante veemente da corrupção, era aliada ao governo quando dos fatos investigados pela operação “Lava-Jato”. O senador tucano Cássio Cunha Lima foi condenado por crime eleitoral, cassado do cargo de governador da Paraíba e, ano passado, pagou um jantar de R$7.500,00 para seu pai com o dinheiro do Senado, ou seja, nosso dinheiro.

Isso, evidentemente não justifica a corrupção petista. Mas serve para mostrar aos “cavaleiros da moralidade”, que ontem foram às ruas clamando pelo herói nacional, que todos falam de corrupção com propriedade, afinal, são todos corruptos. Corrupção não tem partido. É corrupto falando de corrupto, deslavadamente, diga-se.

Ainda por cima clamam pelo impeachment da Dilma, mal sabendo que, caso ela saia, quem assume é o “acima de qualquer suspeita” Michel Temer. Mas faz parte da nossa natureza simplista eleger vilões, escolher caminhos fáceis. A troca de pura e simples de quem está no poder não muda NADA. Como não mudou do Collor pro FHC, do FHC pro Lula, nem do Lula pra Dilma. Aliás, apesar de toda a sua incompetência, estourada nas mãos de sua sucessora, de todos esses o único que não saiu com popularidade baixa, quase nula, foi o próprio Lula.

Mudar partidos e nomes não vão mudar o país. Acreditar nisso é um ledo engano. Pode, no máximo, garantir um sossego momentâneo que dá carta branca para novos esquemas, para a recuperação do sistema. No fim, sempre vamos querer a saída de quem está no poder. Prova disso é que ninguém manifestou pela volta do PSDB e a saída do PT em Minas. E, a faixa mais coerente – apesar de absurda – que vi em São Paulo dizia: Fora Dilma, Alckmin e Valdivia”. Não precisa ser genial, portanto, para entender que o problema não é QUEM está no poder, mas sim a ESTRTURA do próprio poder.

O sistema político está falido e é corrupto. Não é mudar nomes, partidos. É, antes, reformar o sistema, fazer uma verdadeira reforma política.

Imagina você com uma dor de cabeça inexplicável. Você vai ao SUS e o médico, sem nenhum exame, te dá uma aspirina. A causa da dor, no entanto, é um tumor cerebral. A aspirina alivia por alguns minutos, mas volta, cada vez pior.

Ontem quem foi às ruas pediu uma aspirina para um câncer no cérebro. O PT não é o câncer, é só o sintoma. E a oposição é só uma aspirina. E os papeis invertem-se todas as vezes quantas houverem inversão no poder.

Todos os partidos permeiam a corrupção, porque nosso sistema político quase que obriga a isso. Ele induz e favorece que todos sejam corruptos. E, depois, é só trocarem farpas e acusações de lado-a-lado.

Que o povo, sim, vá às ruas, mas que vá pelos motivos certos, sabendo o que está falando e tendo proposições reais e factíveis. Não para pedir aspirina para tratar de câncer.